Como toda a gente, gosto de fotografar as coisas que esteticamente me atraem e as casas antigas, sobretudo se revestidas a azulejos, estão entre as minhas preferências. Só que depois ficam muitas vezes a aguardar no cartão da máquina, até virem para a ribalta aqui no blogue.
Esta casa, na Rua da Liberdade da Figueira da Foz, pode passar despercebida a muitos passantes, sobretudo os belos efeitos decorativos do andar superior, mas é sem dúvida uma das mais bonitas do chamado Bairro Novo, originalmente denominado o Bairro Novo de Santa Catarina.
Já a fotografei várias vezes. Houve alturas em que grande parte da casa ficava escondida por trás da folhagem dos plátanos e não se conseguia ver a totalidade da fachada. Outras, ao fazer a visualização das fotografias reparava que um carro maior ou uma carrinha ficavam inesteticamente a tapar uma parte da casa. Os feíssimos cabos pretos de eletricidade é que, sempre presentes e imutáveis, não há hipótese nenhuma de evitar...
Um outro aspeto que me desgosta é a adulteração do original com a introdução de caixilharia de alumínio, muito crua, em portas e janelas. Sobretudo a porta principal ficou horrível! E fico a imaginar aquelas bandeiras no seu aspeto primitivo, embelezadas por caixilharias em arcos, como as da casa que a Maria Paula fotografou em Braga.
Acho lindo o efeito matizado destes azulejos verdes biselados, um tipo de revestimento que foi muito comum na Figueira da Foz, nesta e noutras cores, mas de vez em quando, como aconteceu no ano passado na marginal de Buarcos, lá tenho o desgosto de ver mais uma casa destas a ir ao chão...
Confio que no perímetro do Bairro Novo estes exemplares estejam mais protegidos, mas quando até o antigo Casino Mondego, depois Hotel Portugal, foi substituído por um edifício todo moderno bem no centro da zona de picadeiro...
A construção desta moradia deve ser contemporânea da edificação do bairro, com início nos finais do século XIX.
Embora haja aqui elementos decorativos que me fazem pensar no estilo Arte Nova - as linhas fluidas e naturais dos motivos florais, as portas e janelas geminadas com cantarias em arco - e a própria assimetria da fachada, penso tratar-se aqui de um exemplar eclético, de um movimento que se abria a vários estilos e influências. De inspiração neoclássica parece-me o painel de azulejos com as grinaldas e também o medalhão com o putto a beber por uma taça, sendo certo que estas figurinhas também se encontram nas composições Arte Nova. Muito interessante a sobreposição dos ornamentos em volutas ao padrão de azulejos, já de si um belo efeito conseguido com a aplicação alternada de azulejos lisos e de padrão floral muito simples.
Já a platibanda do corpo principal, sobre o mimoso friso de azulejos emoldurados com grinaldas, me parece apontar para outras influências...
Mas não vale a pena dar palpites sobre assuntos que não domino. Faltando-me o conhecimento, basta-me a fruição estética de uma construção com arte e bom gosto que, já que escapou ao período recente de bota-abaixo e construção "moderna" desenfreada, estando a precisar de alguma manutenção, espero que consiga sobreviver à "crise" e durar por muitos mais anos...






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