Mostrar mensagens com a etiqueta Capodimonte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Capodimonte. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de março de 2011

Pequeno pires marcado com flor de lis


A propósito de um pequeno e discreto pires de porcelana, retomo aqui uma história que comecei a contar no post de 10 de Fevereiro .
A flor de lis, como marca de porcelana, foi usada quer na mítica Fábrica de Capodimonte, junto a Nápoles, em actividade durante um pequeno período de tempo do séc. XVIII (1743 - 1759), quer na  Fábrica de Buen Retiro em Madrid, igualmente de curta duração (1759 - 1810).
Esta marca a azul sob o vidrado usou-se em Buen Retiro, como já se tinha usado em Capodimonte para loiça utilitária, e só esporadicamente nas requintadas figuras ao estilo de Meissen ou noutras peças decorativas com que a fábrica italiana atingiu a excelência e a fama. Nas peças mais requintadas usava-se geralmente a flor de lis a ouro ou gravada na pasta.
Percebe-se que este pires já viu melhores dias, mas guardo-o ciosamente, convencida como estou que é um digno e raro representante da produção de uma destas fábricas.
Inclino-me mais para que seja Buen Retiro dada a maior proximidade a que estamos deste local e considerando que foi comprado numa loja de velharias de Fronteira cujo dono fazia colecção de grandes pratos de Talavera, fazendo portanto muitas compras em Espanha. Estava lá abandonado, no meio de muita tralha (acho que já tinha servido de cinzeiro) e eu, mais uma vez, fui atraída pela marca.
Para além de esta marca poder pertencer a qualquer das fábricas, o pires tem outra característica que também lhes é comum e é distintiva da sua produção: a decoração pintada à mão com uma pincelada miúda,  em leves toques com a ponta do pincel, feita por pintores treinados como miniaturistas. Como o pires é muito pequeno, cerca de 9 cm de diâmetro, cada uma daquelas casinhas tem menos de 1cm de lado e atente-se em todos os pormenores em miniatura que compõem a paisagem. Vêem-se minúsculas figuras humanas de pastor e pescadores, por exemplo, e os ramos e folhas das árvores, assim como as janelas dos edifícios, são sugeridos só por pontos. Vêem-se ainda minúsculos barcos ao longe no mar, para além de um que está em primeiro plano, o que pode lembrar mais as paisagens costeiras de Nápoles do que o interior árido de Madrid, mas não nos podemos esquecer que Carlos de Bourbon, ao transferir a fábrica de Capodimonte para Buen Retiro, em 1759, transferiu também materiais, moldes, caulino e muitos trabalhadores que certamente teriam estas paisagens no seu imaginário.


Chávena Capodimonte de cerca de 1750

                                     Marcas usadas
          em Capodimonte
e algumas
também em
Buen Retiro








O nome Capodimonte acabou por ser banalizado e depreciado pelo facto de ter continuado a ser utilizado, por outras fábricas, para porcelana e faiança italiana de inferior qualidade, se comparada com o nível atingido pela fábrica original de Capodimonte ou mesmo pelas de Nápoles ou  Doccia do séc. XVIII.

É o caso desta bacia e gomil em miniatura, o tipo de peças que se compram ainda hoje como souvenirs de viagens por Itália.
Apresentam baixos relevos com figuras mitológicas em policromia e muitos dourados, também como neste caso, no interior das peças, tentando imitar o que se produziu nas fábricas originais, mas tendo perdido todo o requinte e delicadeza. 
 
                                                   
Este conjunto, por ser de pequenas dimensões, poderá ter alguma graça, até tem uns putti que eu acho figuras muito simpáticas, e durante o séc. XIX ainda se fabricaram peças com este tipo de decoração que eu não me importava nada de ter em casa, mas estas mais recentes estão a anos luz da qualidade artística da primitiva Capodimonte.

eBay Image 1 Huge Signed 18th Century Italian Capodimonte-NO RESERVE
O brilho e finura de uma peça original que as mais recentes pretendem imitar
última imagem encontrada em http://www.worthpoint.com/worthopedia/huge-signed-18th-century-italian-capodimonte-no#

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pires de porcelana Doccia ou Nápoles?

Esta pequena maravilha de arte em porcelana foi adquirida há quase quatro anos no Marché aux Puces, em Paris, no mesmo dia em que comprei as Obras de Horácio de que falei no post de 7 de Janeiro último. O pires estava marcado por 35€ mas com uma pequena negociação, comprei-o por 25€.
Foram os meus dois "souvenirs" dessa viagem em família a Paris.


Quando o vi, reconheci a decoração, por já ter visto peças semelhantes nas minhas frequentes visitas virtuais a colecções de cerâmica de museus ingleses. Tenho alguma memória visual para estas coisas, e embora não tivesse a certeza do fabrico, percebi que era boa porcelana antiga italiana.
A decoração de putti e grinaldas em relevo, pintada à mão, é muito característica da porcelana italiana do final de setecentos, até hoje imitada com o nome generalizado de Capodimonte.


Capodimonte, junto a Nápoles, foi de facto um dos primeiros locais onde se fabricou verdadeira porcelana em Itália, a meados do séc. XVIII, mas durou muito pouco tempo a unidade aí instalada (1743-1759) já que foi transferida para Buen Retiro, perto de Madrid, graças a vicissitudes históricas de que falarei a seguir.
Entretanto, a pesquisa que fiz para identificar a fábrica de origem do meu pires, como não lhe detectava qualquer marca, levou-me à produção de Doccia, perto de Florença. Esta fábrica foi a segunda mais antiga fundada em Itália, nos anos 30 de setecentos, por iniciativa do Marquês Carlo Ginori, também ele entusiasmado com a recente descoberta, na Europa, da fórmula da verdadeira porcelana.
Encontrei online peças com decoração semelhante à do meu pires, atribuídas a produção Doccia do final do séc. XVIII, e assim fiquei convencida de ter em casa um exemplar de porcelana Doccia desse período.
No entanto, há dias ao tirar esta peça duma vitrine, já a pensar em mostrá-la num post, vi por uma qualquer incidência de luz que tem uma marca pouco perceptível gravada na pasta. Com muito esforço, lá descobri tratar-se de um N coroado, o N de Nápoles, inciso na pasta.


E lá tenho eu que voltar à história de Capodimonte. A fábrica ali instalada teve o patrocínio de Carlos  de Bourbon, o rei de Nápoles, e usava como marca a flor de lis das armas dos Bourbon. Ao ter que assumir o trono espanhol por morte do pai, Filipe V de Espanha, e instalar-se em Madrid como Carlos III, desmantelou por completo a fábrica de Capodimonte e reinstalou uma unidade equivalente em Buen Retiro, mas de pouca duração, usando a mesma marca, a flor de lis.


Foi o filho de Carlos III, o rei de Nápoles Fernando IV, que em 1771 aí fundou a Fabbrica Reale Ferdinandea, desejando recriar a porcelana de alta qualidade que tinha sido produzida pelo seu pai. Para isso empregou muitos dos artesãos que tinham trabalhado em Capodimonte, mas os motivos decorativos passaram a ser dominados por um novo gosto, clássico, influenciado pelas recentes escavações em Pompeia e Herculano, ali tão próximas. Esta porcelana passou a ser marcada com a sigla do rei, FRF, ou com a letra N de Nápoles sob uma coroa, geralmente pintada em azul sob o vidrado. A mesma marca incisa na pasta foi usada no primeiro período de fabrico, entre 1771 e 1782 e pode ser essa a marca do meu pires.

DOCCIA 19th Century.<BR>
<em>Italian Hard-Paste Porcelain.</EM>
Açucareiro Doccia do séc. XIX

Esta fábrica  real de Nápoles só sobreviveu até 1806 e a confusão com Doccia deve-se ao facto de ter sido  a família Ginori, ainda à frente dos destinos de Doccia, que se mantinha a produzir com sucesso, a adquirir o que restava da fábrica de Nápoles, tendo usado o N coroado a azul sob o vidrado em muita da sua produção, já que se considerava  sua legítima sucessora.