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sexta-feira, 25 de março de 2011

Prato de faiança Delft com cena bíblica

Este prato grande de parede tem-me intrigado desde que o meu marido o comprou na Feira da Vandoma, há uma meia dúzia de anos. Há pouco tempo, através do catálogo de um leilão da Christie's que consultei online, fez-se finalmente  alguma luz. 


É o tipo de faiança azul e branca a que se convencionou chamar Delft, mesmo que não tenha sido fabricado nesta cidade holandesa. Com efeito, várias cidades não só holandesas, mas também inglesas, alemãs e francesas, se dedicaram à produção destas faianças.
A produção Delft iniciou-se na Holanda na 2ª metade do século XVII, crê-se que por influência da faiança portuguesa azul e branca, e obviamente tentando imitar e substituir a porcelana chinesa que à época tinha deixado de chegar aos portos europeus.
Aqui está representada uma cena bíblica, a Última Ceia, com Cristo e os Doze Apóstolos numa disposição pouco convencional e as imagens dos profetas Moisés e Aarão a ladear a cena. Em último plano vê-se um cenário de rua que não consigo interpretar.
A aba apresenta folhagens e arabescos  intercalados por figuras de anjos ou putti, ao gosto barroco.


Para além do nome dos profetas, este prato tem uma legenda que embora eu não tenha ainda conseguido decifrar, inclui palavras em holandês ou em flamengo, pelo que deduzo que terá sido fabricado numa cidade dos Países Baixos.
A língua holandesa, sendo de origem germânica como o inglês e o alemão, tem muitas palavras que se conseguem reconhecer por serem parecidas e terem o mesmo significado de  vocábulos destas duas línguas.
A primeira palavra parece ser "met" equivalente ao "mit" alemão que significa "com"; a segunda, "dit" é o "this" inglês. A partir daí não consigo identificar as palavras, apenas reconheço em "gedeglen" um particípio do tipo alemão mas talvez esteja numa versão arcaica porque não  encontrei nenhuma palavra assim transcrita.



No verso o prato tem dois orifícios para pendurar na parede e uma data , 1727, que faria do prato uma peça do século XVIII, se fosse credível. A verdade é que encontrei pratos Delft com este tipo de datação em catálogos de leiloeiras como a Christie's ou a Sotheby's que eles dizem ser pseudo-datas a marcar pratos do século XIX.
Enfim, sempre as mesmas tentativas de vender gato por lebre e na Europa do séc. XIX a falsificação de marcas e a imitação de estilos foi algo de muito recorrente, graças ao acentuado  gosto por tudo o que vinha do passado, mais ou menos remoto.

                                A large Delftware blue and white biblical charger
Prato  da Christie's descrito como "A large Delftware blue and white biblical charger 19th century, pseudo-dated 1727".
Muito semelhante e muito coincidente, sem dúvida.

domingo, 3 de outubro de 2010

Azulejos Delft de figura avulsa.


Este é o único exemplar que possuo destes azulejos holandeses que acho encantadores. É do tipo cenas bíblicas, facilmente identificáveis por aparecer Jesus Cristo ou  outras figuras sagradas com auréola à volta da cabeça. Estas cenas tinham todas nome, Fuga para o Egipto, O jardim das oliveiras, A Anunciação e dezenas de outras, mas para identificar algumas menos óbvias, caso da minha, é necessário conhecer códigos que os meus escassos conhecimentos nesta área não me permitem dominar. Para além da cena central, tem um motivo decorativo em cada canto que permitia dar alguma uniformidade à composição de azulejos num revestimento com cenas muito variadas.
Comprei-o por dois ou três euros, aqui perto de casa, num armazém de venda de móveis usados que vinham do estrangeiro, de onde também traziam outros artigos de recheios de habitações. Estava ali, sozinho, sem moldura, em cima de um móvel, e eu nem sabia  se era um verdadeiro azulejo Delft mas quis logo trazê-lo para casa. Só depois de fazer alguma investigação e de ver outros exemplares, soube realmente que era autêntico.
A melhor coleção portuguesa deste tipo de azulejos encontra-se na Figueira da Foz, na Casa do Paço. Trata-se de um edifício mandado construir no final do Séc. XVII pelo bispo de Coimbra D. João de Melo, mas só terminado na primeira década do séc. XVIII.
Apresenta várias salas com silhares de azulejos, destes de figura avulsa chamados de Delft, embora houvesse outros centros de produção de azulejos na Holanda.
 No país de origem, eram usados para revestir por completo fogões de sala, mas também, nalgumas regiões, revestiam sala e cozinha do chão ao teto. Aqui, na Figueira, foram aplicados à portuguesa, isto é, a formar silhares que revestem paredes de salas até mais ou menos um terço da sua altura, com uma borda de azulejos diferentes a terminar. A solução aqui encontrada foi muito engenhosa: como havia azulejos de três tipos - cenas campestres, cenas bíblicas e cavaleiros e mouros -  e em duas cores sobre o branco - azul e vinoso de manganês -  foram alternando os motivos e cores para obter o efeito pretendido.




Curiosamente, nesta coleção de cerca de 7000 exemplares, os azulejos de cenas bíblicas são a manganês e não a azul como o meu. Foram aplicados numa sala mais pequena que se pensa ter servido de capela.
Acredita-se que todos estes azulejos terão chegado à Figueira, não por encomenda, mas graças ao aproveitamento da carga de um navio holandês, naufragado junto à foz do Mondego, à época da construção do Paço.
O local neste momento só é visitável mediante contacto com os serviços de cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz.