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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pote da Fábrica Constância

Uma seguidora deste blogue enviou-me recentemente fotografias de uma bela peça de faiança portuguesa da sua coleção.


Trata-se de um pote de quatro asas, com uma decoração riquíssima e com marcas  na base, entre elas, Compª de Maria de Portugal  e as iniciais FCCL dispostas em cruz.


Ainda antes de ter conseguido ler a referência a Maria de Portugal, suspeitei logo que era uma peça produzida pela Fábrica Cerâmica Constância, por analogia com outros exemplares de decoração semelhante, quer nos tons utilizados, quer no estilo dos desenhos. Para além disso, as iniciais FCCL levaram-me a pensar nas palavras Fábrica Cerâmica Constância Lisboa.
Existe ainda na base uma marca de artesão, um J com uma flor, a anotação de exemplar único e uma data, 1930.
Sei agora, à posteriori, graças a um comentário a este post do Mercador Veneziano, que o J com a flor, uma rosa, seria a marca do pintor José Rosa Rodrigues que trabalhou nesta fábrica na década de 30.


A Fábrica Constância foi fundada em 1836, na Rua de S. Domingos à Lapa, às Janelas Verdes, mas só em 1842 adotou o nome que, com uma ou outra variante, se mantém até hoje. Ali trabalhou, logo no início, um nome muito importante da cerâmica portuguesa do século XIX, Wenceslau Cifka, artista boémio multifacetado, que veio para Portugal como acompanhante do nosso rei-artista, D. Fernando, marido de D. Maria II.


Maria de Portugal é o pseudónimo de Albertina dos Santos Leitão, uma notável ceramista, mas também escritora e pintora, que foi discípula de Leopoldo Battistini, artista cerâmico de relevo, à época proprietário da Fábrica Constância. Nos anos 30 do século XX ela própria assumiu a direção artística da fábrica e tornou-se sua proprietária, daí a inscrição Compª de Maria de Portugal, datada de 1930.


Até à sua morte em 1971 destacou-se não só na produção de faiança artística, mas também com painéis de azulejo e com as suas peças participou em exposições, em Portugal e em vários países estrangeiros.
 

 Nesta peça a decoração é muito curiosa, com reservas debaixo de cada uma das asas, onde se podem ler pequenos excertos que poderão ser de um poema, já que numa das reservas aparece um título, "Val de Amôres" e por baixo "as quatro chamas"; noutra reserva vê-se uma assinatura, para mim ilegível. Estas peculiaridades, juntamente com a referência a exemplar único, fazem-me pensar numa peça comemorativa ou destinada a homenagear alguém.



Para além das reservas com inscrições e do pontilhado de fundo, a decoração é feita com árvores, de que consegui identificar, com a ajuda da nossa seguidora, uma laranjeira, uma oliveira e uma videira, que teriam certamente algum significado para uma ocasião especial.


Trata-se de um exemplar que se presta a interpretações de vária ordem e por isso uma peça que, para além de ser única, é muito estimulante para qualquer entusiasta da cerâmica portuguesa.