Nas minhas deambulações pelas ruas antigas do Porto, apetece-me fotografar tudo a eito, tantas e tão bonitas são as fachadas de azulejos bem emoldurados pelas pesadas e belas cantarias de granito, de uma beleza rústica que parece eterna.
Já aqui mostrei, num post de Novembro de 2010, azulejos azuis e brancos da Fábrica do Carvalhinho, com marca FC e com um padrão muito usado no Porto no século XIX, inclusivamente pela Fábrica de Miragaia. Agora trata-se de mostrar uma fachada com magníficos painéis azulejares.
No Largo de S. Domingos, em frente a um prédio com um beiral de faiança que já aqui mostrei, está um edifício com um fantástico revestimento de azulejos da Fábrica do Carvalhinho, assinados pelo pintor Carlos Branco e pelo desenhador Silvestre Silvestri, como se vê nos cantos inferiores do painel central. Também consta do painel a data de execução, 1906, e as iniciais da firma instalada no prédio, Araújo & Sobrinho, Sucrs. Para além das grinaldas e arabescos, inspirados no gosto neoclássico, vêem-se desenhos alusivos a materiais para desenho e pintura, representando o ramo de negócio da firma.
Consta ainda do painel central uma cabeça de mercúrio, certamente simbolizando o comércio.
Esta Fábrica do Carvalhinho iniciou a sua actividade na 1ª metade do século XIX, em data que não reúne o consenso dos especialistas na matéria, mas que a própria empresa considerou ser 1840, já que comemorou o centenário em 1940, como se pode ver, embora mal, pela marca do pequeno prato que se segue.
Comprei-o já não sei onde, quando, ou por que preço, mas foi certamente a marca, muito diferente da habitual em círculo, que comandou a aquisição.
As instalações da fábrica ficavam situadas na Quinta do Carvalhinho, no Porto, mais precisamente na Capela do Senhor do Carvalhinho, junto à Calçada da Corticeira, que sobe da margem do Douro até às Fontainhas. Durante o século XIX e início do século XX foi sujeita a ampliações no mesmo local e foi desenvolvendo a sua produção, sobretudo de azulejos e de peças de cerâmica decorativa.
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| A encosta junto ao Douro onde nasceu a Fábrica do Carvalhinho |
Esta empresa, como todas as outras empresas do ramo, sofreu a forte concorrência de cerâmicas inglesas e francesas, que tinham muita aceitação no nosso mercado. No entanto, conseguiu sobreviver exportando em grande quantidade para o Brasil e para África, após a ampliação e renovação técnica que efectuou em 1906, enquanto desenvolvia a qualidade artística com pintores de renome como o já referido Carlos Branco. Curiosamente este artista cerâmico, segundo Arthur de Sandão, iniciou-se na arte no final do séc. XIX, com 14 anos de idade, na Fábrica da Fonte Nova em Aveiro.
Em 1923 a Fábrica do Carvalhinho foi transferida para novos e espaçosos edifícios em Vila Nova de Gaia e aí permaneceu até aos anos oitenta do século passado. As antigas instalações do Porto foram ocupadas pela Fábrica da Corticeira que usou marcas circulares muito semelhantes à conhecida e prestigiada marca do Carvalhinho.
Também pintado por Carlos Branco, segundo desenhos de Silvester Silvestri, o Porto exibe este monumental painel que embeleza a fachada lateral da Igreja do Carmo, na Praça Carlos Alberto, datado de 1912 e executado na Fábrica da Torrinha. É um painel historiado, com cenas relativas à fundação da Ordem Carmelita e ao Monte Carmelo, que não passa despercebido ao transeunte mais distraído.

