Já aqui falei por mais de uma vez nos beirais da Casa-Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, mas ainda não tinha partilhado as fotografias que lhes tirei na última visita. Hoje a casa e um edifício anexo albergam várias coleções que vão da escultura à cerâmica, podendo-se aqui apreciar um bom acervo de faiança portuguesa, sobretudo gaiense, capaz de deslumbrar qualquer apreciador de faiança antiga.
É bem conhecida a ligação do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942) à Companhia Cerâmica das Devezas, fundada em 1865, de que o seu pai foi co-fundador e sócio.
Tendo esta casa sido construída no final do século XIX para residência e ateliê do escultor, segundo projeto do seu irmão, o arquiteto José Teixeira Lopes, é obrigatório deduzir que os materiais cerâmicos de construção terão vindo da Fábrica das Devezas, com sede em Vila Nova de Gaia, aliás não muito longe deste edifício, e à época já com uma importante sucursal na Pampilhosa do Botão.
E seguindo a mesma lógica, podemos com segurança atribuir o fabrico das telhas ou telhões que formam estes beirais à mesma empresa cerâmica, embora não apresentem a terminação em relevo branco que já vimos noutros com o mesmo padrão, que lhe são atribuídos.
Aqui fica a evidência de que as telhas destes beirais são exatamente iguais às de outros três que mostrei em posts anteriores, dois no Porto - em
S. Roque da Lameira e na
Ribeira - e um em
Ovar.
O que foi para mim uma surpresa constatar foi o formato muito mais estreito das telhas que se sobrepõem às que ficam visíveis no beiral. Foi-me dito por um vendedor de velharias que essas não têm qualquer decoração, serão brancas, o que me parece lógico, mas quanto ao tamanho ou formato pensava eu que seria o mesmo, o que as fotos acima desmentem.
Aqui está uma telha decorada deste tipo que integra a coleção do Museu Nacional do Azulejo (MNA). Tem de medida 63cm de comprimento e 17cm de largura.
E agora passo a apresentar duas telhas de beiral ou telhões que encontrei à venda no Porto há pouco tempo.
Na decoração são totalmente diferentes de todas as que vi até à data, aplicadas em beirais ou não. Lembram azulejos em azul e amarelo, com um remate muito bonito nas mesmas cores.
Pareciam-me mais curtas do que todos os outros exemplares que conheço - 58cm x 15cm e 59cm x 17cm - mas afinal o exemplar acima do MNA tem medidas semelhantes , ao contrário de outros telhões do museu que, com a mesma largura, chegam a ter mais de 1m de comprimento.
Tal facto levou-me a pensar que podiam ser fabrico das Devesas, tal como o exemplar que mostrei acima igual aos telhões da Casa-Museu Teixeira Lopes. Mas há no MNA um outro telhão com as mesmas medidas marcado Santo António de Vale da Piedade. E agora?
E para terminar, só mais uma curiosidade: segundo as descrições destes materiais que encontrei na base de dados do MNA, os beirais a azul e branco foram inspirados na China antiga.
Mais uma vez, a China como fonte longínqua de inspiração...