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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Um chá à beira-mar - A seaside tea

Desta vez, para um chá de verão a pedir brisas marinhas, vou participar nos habituais eventos ligados ao chá - Tea Cup Tuesday, Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea - com inspiração em duas cidades do nosso litoral centro: Caldas da Rainha e Figueira da Foz.


 Das Caldas vieram estas loiças SECLA, uma empresa ali constituída nos anos 40 do século passado, pretendendo de início inserir-se na tradição cerâmica caldense, mas cedo começando a inovar nas formas, cores e decorações. 


 Gosto do efeito encanastrado da chávena e pires de chá e sobretudo atrai-me este tom de azul petróleo muito usado pela SECLA nos anos 60, à época uma cor da moda, sobretudo no vestuário.



Só a chávena está marcada com o carimbo onde se lê SECLA PORTUGAL.


 A caneca apresenta a mesma cor, o mesmo vidrado muito brilhante e uma bela decoração com uma sucessão de redemoinhos ou vórtices.


Desta vez, no carimbo mais desvanecido, pode ler-se SECLA MADE IN PORTUGAL.



 O prato, também da SECLA, pintado à mão com um motivo de elementos marinhos, parece da autoria de Hansi Staël (1913-1961) a ceramista húngara que trabalhou na SECLA nos anos 50.



Não está assinado, ao contrário de outros com um motivo semelhante, mas foi certamente pintado por influência dos desenhos desta artista.

Prato à venda na internet com a assinatura de Hansi Staël
E agora vamos até à Figueira da Foz, aliás, já lá estávamos ;), uma vez que estas peças são ali usadas num pequeno apartamento da família.

A Casa das Conchas sob a luminosidade do sol da Figueira

Nesta cidade, onde tenho apreciado muitos revestimentos e painéis azulejares em edifícios, reparei que os frisos de azulejos da bem conhecida "Casa das Conchas", situada numa zona nobre da cidade, na Esplanada Silva Guimarães sobranceira à praia, apresentam motivos marinhos também com algas, peixes e moluscos.


São bastante  anteriores a estes de Staël - pela comparação de postais antigos concluí que a casa terá sido construída em 1916-17 - mas encontro afinidades na composição e no desenho, embora nestes frisos de azulejos estejam em maior evidência as linhas ondulantes ao gosto Arte Nova, a estética ainda dominante à data da construção desta casa.




Trata-se de um dos edifícios que fazem parte da Rota Arte Nova no Bairro Novo, um dos mais belos e melhor conservados, embora não seja o mais caraterístico daquele movimento estético.
Prometo aqui mostrar alguns outros num próximo post.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Jarras de altar em faiança das Caldas

Hoje resolvi mostrar aqui faiança das Caldas por me lembrar que o amigo Fábio Carvalho do Porcelana Brasil  está por estes dias envolvido num projeto artístico na Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro nas Caldas da Rainha... e quero desejar-lhe o maior sucesso!


Mesmo para quem não se deixa perder de amores pela tradicional e secular faiança das Caldas - muitas vezes injustamente associada exclusivamente à brejeirice de uma certa produção - estas cândidas jarras de altar provocam sempre uma adesão imediata pelo seu caráter de genuína arte popular.


Os dois meninos semi-nus  a servir de asas, segurando uma bola na mão, poderiam representar o Menino Jesus a segurar o globo terrestre se não estivessem em duplicado, porque o Menino Jesus que nós conhecemos não teve nenhum irmão gémeo... :)  Mas a imaginação popular opera milagres!


Na parte de trás de cada jarra a decoração simplifica-se mas mantêm-se as cores principais - verde, creme ou camurça e castanho - e vê-se que os meninos se sentam numa base de musgo, a evidenciar o uso da técnica do musgado introduzida na cerâmica caldense por Manuel Cipriano Gomes, o Mafra.
Estas jarras não estão marcadas, mas as jarras de altar com os dois meninos são muito típicas das Caldas, pelo menos já aparecem na produção de Manuel Mafra incluídas no catálogo da exposição "Manuel Mafra 1829-1905: Mestre na Cerâmica das Caldas", IMC, Caldas da Rainha, 2009.



Os três exemplares deste tipo que aparecem neste catálogo têm a marca da coroa gravada na pasta, acompanhada da inscrição  M. MAFRA-CALDAS-PORTUGAL.


Voltando ao meu par de jarras, foram compradas há uns anos na Feira de Algés, a um vendedor que traz um ajudante e está sempre rodeado de muita gente, incluindo outros vendedores. Não foram nenhuma pechincha, nessa altura a faiança estava mais cara, mas quisemos trazer os quatro meninos para casa, embora um já tivesse perdido os pezinhos (antes os pés que a cabeça!)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Folha cerâmica de Manuel Mafra

Manuel Mafra (1829- 1905) foi o ceramista caldense a quem se atribui a introdução em Portugal da cerâmica naturalista ao estilo de Bernard Palissy, o chamado neo-Palissy. Este estilo, caraterizado pela moldagem em cerâmica de formas vegetais e animais, em loiça utilitária ou meramente decorativa,  veio a atingir o nível de excelência que todos conhecemos com Rafael Bordalo Pinheiro.

Manuel Cipriano Gomes Mafra, de seu nome completo, fundou uma fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha em 1853, segundo se crê numa antiga oficina que terá pertencido à quase lendária Maria dos Cacos.
Este ceramista inovou não só nas formas mas também nas técnicas de vidrado e assim veio a ser reconhecido e apoiado pela Casa Real, sobretudo pelo rei artista D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha.
Usou na marca de fabrico uma âncora sob o seu nome, gravada na pasta, mas após ter sido nomeado fornecedor da Casa Real, por volta de 1870, substituiu a âncora por uma coroa. Por qualquer razão que desconheço, em 1897 terá fundado nova fábrica e aí voltou a usar a marca da âncora gravada na pasta.
Penso ser desse período o recipiente em forma de folha que aqui mostro.

Curiosamente, no meu livro de marcas de cerâmica de Gordon Lang, Pottery & Porcelain Marks, Miller's, Great Britain, 1995, esta é uma das poucas marcas portuguesas referenciadas.
Entretanto, o Mercador Veneziano, seguidor deste blogue e de cujos três blogues sobre cerâmica também sou seguidora, enviou-me o link http://issuu.com/museusportugal/docs/manuel_mafra_-_ceramista que dá acesso ao catálogo online de uma exposição que decorreu no Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha intitulada "Manuel Mafra 1829-1905: Mestre na Cerâmica das Caldas".
Também me enviou esta sequência cronológica das marcas usadas por este ceramista caldense, que muito agradeço, baseada nos catálogos que possui:

 1853 - 1860 - MCGM aplicado à mão
1860 - 1870 - MCGM com âncora
1860 - 1870 - M. Mafra com âncora
1870 - 1887 - M. Mafra com coroa
1887 - 1890 - M. Mafra Filho com coroa
1897 - 1900? - variante M. Mafra com âncora

domingo, 26 de dezembro de 2010

Garrafa vassoura em faiança das Caldas

Garrafa vassoura
Vi-a no chão, no meio de outros objectos, na pequena feira de velharias da Curia e chamou-me logo a atenção, pelo formato e pelas dimensões.
Peguei nela e verifiquei q tinha uma marca no fundo, gravada na pasta, mas ilegível a olho nu. Perguntei à vendedora de que é que se tratava, mas ela não me soube dizer. Disse -me que a tinha comprado há poucos dias por também a ter achado uma peça interessante e nem tinha reparado que tinha marca.
Fez-me um preço muito razoável e eu trouxe-a para casa.
O fundo da garrafa sendo visível a marca oval
A peça parecia-me ter qualidade, quer pelo brilho do vidrado, quer pela modelagem naturalista, tão original.
Ao analisar melhor a marca, com a ajuda de uma lupa, e comparando-a com as marcas de fabricantes de faiança das Caldas - a hipótese que coloquei logo à partida - constantes do 2º volume da obra "Faiança Portuguesa" de Arthur de Sandão, verifiquei tratar-se da marca de António Alves Cunha, Caldas da Rainha.
A mesma marca encontrada num jarro à venda num site de leilões
António Alves Cunha (1856-1947) era filho de um outro ceramista caldense, José Alves Cunha, e dirigiu a sua oficina nas Caldas entre 1890 e 1925, tendo produzido uma variedade enorme de peças utilitárias e decorativas.
Investiguei ainda este formato de garrafa e descobri ter tido alguma popularidade nas Caldas da Rainha na viragem do séc. XIX para o XX,  já que encontrei outros exemplares em sites de leilões, em amarelo como esta, mas também  em verde, produzidas por outros fabricantes, nomeadamente Bello e Herculano Elias.
Era a época em que Raphael Bordallo Pinheiro, ao inspirar-se nos trabalhos do ceramista francês Bernard Palissy (1510-1590) criou formas vegetais e animais de uma qualidade surpreendente, reconhecida dentro e fora de portas. Nas colecções de artes decorativas dos museus ingleses, os que conheço melhor no estrangeiro, as formas de arte que nos representam são, para além dos painéis de azulejos do séc. XVIII, os azulejos e peças naturalistas de Raphel Bordallo Pinheiro.
Para os apreciadores da cerâmica das Caldas desta época, recomendo uma visita ao Aliança Underground Museum, nas Caves Aliança em Sangalhos, no coração da Bairrada, onde, entre outras colecções reunidas por Joe Berardo, se pode admirar um extenso e magnífico conjunto de peças Bordallo Pinheiro, estilo Palissy e outras.