Gosto de galheteiros. Quer sejam em vidro, em cristal, em porcelana ou em faiança, são sempre peças airosas com vários componentes de pequenas dimensões e eu, pelo menos em objetos, partilho com os britânicos a opinião de que "small is beautiful".
Não tinha nenhum de faiança mas neste verão comprei quatro, não de uma assentada só, mas de duas assentadas :) .
Foram todos comprados ao mesmo vendedor em duas feiras de velharias. Deve ter sido um lote que ele comprou com defeitos e por isso ficaram a preços razoáveis. Este foi o mais caro apesar de ter dois enxertos em vez das asas originais e restauros nas tampas.
Apresenta aquele tipo de decoração que se identifica como Estremoz e se for essa a origem, será que é anterior a 1808, data do fecho da Fábrica Viúva Antunes, ou terá havido ali outras unidades cerâmicas que continuaram este tipo de produção?
Aqui vemos os típicos rochedos a manganés em primeiro plano, elementos vegetalistas de folhas e flores, e uma casa sugerida por linhas amarelas verticais, horizontais e oblíquas, como também é típico nestas decorações de paisagens.
Uma outra hipótese, atendendo à decoração, é ser da Real Fábrica da Bica do Sapato em Lisboa, encerrada por volta de 1820, cujas peças também apresentam muitas vezes este tipo de paisagens.
Mas ainda para baralhar mais as coisas temos as nossas faianças do Norte, com a proliferação de unidades fabris que já conhecemos, tendo algumas copiado modelos de outras, vizinhas ou distantes...
Assim, sem marca - há apenas umas marcas a verde numa das bases das galhetas, mas penso que serão marcas de pintor ou ensaios de cor para a pintura - fica sempre a dúvida, mas gosto de acreditar que tenho em casa um galheteiro de Estremoz. E bem bonito, diga-se.
Acho encantadoras não só a pega com as suas aletas mas as próprias conchas que servem de saleiro e de pimenteiro com aquela espiral no meio. Já vi outros galheteiros com estes concheados atribuídos a Estremoz.
Elas aqui estão, de uma belíssima peça, muito bem fotografada como já nos habituámos a ver nas fotos desta nossa amiga.
Começo por salientar a semelhança dos dois galheteiros no formato da pega com aquelas curvas e contra-curvas, as chamadas aletas em linguagem técnica. A tampa da galheta também é idêntica, quer na forma, quer na decoração.
Ao contrário das galhetas de outros galheteiros que apresentam a linha do bojo quebrada - como exemplo, há dois mostrados pelo LuísY do Velharias num post de Janeiro deste ano - nestes o bojo das galhetas é arredondado, numa linha curva contínua até ao pé.
As paisagens num e noutro galheteiro têm os mesmos elementos base.
Aqui admiro o belo perfil da galheta com a sua elegante asa original.
À exceção do saleiro e do pimenteiro, com as deliciosas tampas ainda intactas, todas as formas da base são idênticas nos dois galheteiros, mas não a decoração.
Para terminar, mais duas galhetas soltas da nossa colecionadora, das tais com o bojo em linha quebrada, uma com faixa azul e outra com faixa rosa.
São ou não são um encanto? A mim parecem-me miniaturas destinadas a brincadeiras de crianças :).
Espero que tenham gostado de apreciar estas belas peças de faiança portuguesa.