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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Fruteiro ou cesto para castanhas em faiança inglesa Herculaneum



Ainda não estamos no tempo das castanhas, mas a verdade é que o que apresento aqui hoje é o que os ingleses chamam (ou chamavam...) chestnut basket and stand ou, com menos rigor, fruit basket and stand.
Já aqui tenho referido que a produção cerâmica inglesa no tempo da Revolução Industrial foi muito abundante e variada. Para satisfazer o gosto e o requinte da próspera burguesia industrial interna, assim como todo o mercado espalhado pelo Império, os fabricantes não se poupavam a esforços, e conceberam novas formas e novos produtos que hoje nos surpreendem pela especificidade do seu uso à mesa.



Estes cestos e respetiva base, vasados neste caso, mas também muitas vezes encanastrados, como já aqui mostrei, eram efetivamente usados para levar à mesa castanhas, mas também outros frutos, secos ou frescos, em vez dos tradicionais cestos de vime, destinados ao serviço das camadas menos abonadas da população.



Trata-se da pasta chamada pearlware, com os típicos tons azulados nas junções e dobras, aqui numa bonita moldagem que aparenta concheados, embora o objetivo fosse imitar cestaria.
Encontrei estas peças, um par de cestos e de bases, há cerca de um ano,  expostas no chão à mistura com outras loiças e tralhas, na Feira de Velharias de Coimbra. Reconheci logo a forma, mas quando peguei num exemplar e virei para ver a marca, exultei mesmo! Era o nome Herculaneum, já bem meu conhecido, que estava bem legível gravado na pasta.


Isso confirmava-me logo duas coisas - que as peças eram indubitavelmente inglesas e que foram fabricadas em época anterior a 1840, a data de encerramento da Herculaneum Pottery de Liverpool.
Sempre foi uma das minhas marcas míticas, não só por ser da Herculaneum a decoração View at the Fort Madura que esteve na origem da bem conhecida paisagem País de Miragaia, mas também pelo seu fabrico de porcelanas para o chá, hoje peças raras e muito valorizadas.


Estas loiças são muito delicadas, em faiança bastante fina, mas sem qualquer beliscadura, apenas manchadas em algumas zonas, sobretudo no interior dos cestos. Não devem ter tido muito uso, já que resistiram assim intactas quase duzentos anos, no mínimo 175!

O exemplar à venda na Worthpoint, com a mesma decoração featheredge (orla em plumas)
São peças já difíceis de encontrar, mesmo no mercado online, sobretudo em par, e só encontrei um exemplar de um cesto, sem base, desta forma e fabrico, num site de leilões americano, o WorthPoint, atribuindo a peça a um período entre 1795 (pouco depois da fundação da Herculaneum) e 1815, mas a marca é diferente desta, com apenas a inicial maíúscula, o que deve ter determinado essa datação mais recuada.

Um outro formato de cesto e base da Herculaneum
Quase um mês depois, lembrei-me de acrescentar aqui uma foto que tirei na Casa-Museu Egas Moniz em Avanca, que já publiquei num poste sobre a referida casa. Numa mesa com várias peças inglesas creamware, apresentadas como Wedgwood, vê-se à esquerda um cesto e base no formato do meu par Herculaneum e à direita mais um exemplar  num outro formato muito comum no século XIX e de que já falei aqui num outro poste.



segunda-feira, 23 de março de 2015

Um prato inglês e seus sucedâneos em faiança portuguesa

ou seja, sucedâneos de sucedâneos...


Este é um prato de faiança inglesa, com um atraente motivo oriental num flow blue muito ténue, talvez acidental, saído da fábrica de John Meir & Son a meados do séc. XIX. Trata-se de um fabricante sobejamente conhecido por cá, que ainda só John Meir estabeleceu a sua atividade cerâmica em Tunstall, Staffordshire, e aí laborou entre 1812 e 1836.
Eu já conhecia o motivo e já tinha visto pratos destes à venda, mas não a preços que me convidassem a trazer mais um azul e branco para casa. Desta vez, já lá vão uns meses, os deuses foram-me favoráveis...
Na marca consta o nome do motivo, Kirkee, e eu, iludida pela semelhança com os motivos da porcelana chinesa azul e branca, logo pensei ser o nome inglesado de alguma localidade ou região chinesa, como é o caso dos motivos Cantão.

A marca, com o efeito flow blue (ou azul escorrido ou borrão) a notar-se 

Puro engano. Ao pesquisar  o nome no Google, logo descobri tratar-se de uma cidade indiana perto de Pune, no estado de Maharashtra, e até longe do mar, ao contrário do que sugeria a gravura.
Foi uma cidade com relevância para os ingleses, no tempo em que dominaram grande parte do subcontinente indiano, daí ter merecido ser lembrada na sua produção cerâmica do séc. XIX, mesmo sem ter sido representada com qualquer fidelidade ao local. Com efeito, segundo a Wikipédia, foi lá que a Companhia Inglesa das Índias Orientais foi atacada e venceu os Marajás na que ficou conhecida como Batalha de Khadki (em inglês Kirkee), em 1817.


O prato Kirkee foi entretanto destronar outro no meu escaparate de faiança inglesa azul e branca e estava mesmo no meu ângulo de visão quando nos dias mais frios deste inverno me sentava junto ao fogão de lenha. Um dia reparei que aquele motivo era déjà vu. Sim, aquela baía do motivo central, com as formas vegetalistas  à beira da água, o edifício oriental mas com uma cruz no topo, o chorão, a vedação, eram-me familiares.


Fez-se luz! Era nada mais nada menos que o motivo central de uma tosca travessa de faiança que já aqui mostrei e cujos pormenores decorativos me intrigaram sempre.


Não percebia o que era aquele amontoado de pedregulhos a fazer curva, nem entendia o que eram aquelas quatro colunas, tipo lampião ou arco e balão das marchas populares... Finalmente foi desfeito o mistério.
Os elementos estão lá todos. Foi certamente desenho à vista feito a partir de um prato ou travessa do serviço de jantar Kirkee que terá chegado a uma casa abastada do Porto ou de Gaia, na época em que a comunidade inglesa do Porto era forte e as trocas comerciais com Inglaterra muitas e frequentes.


Só o desenho da cercadura se afastou do original, se é que podemos chamar original a um motivo claramente influenciado pela porcelana chinesa azul e branca - sim, vai tudo sempre ter à porcelana chinesa e depois encontramos sucedâneos de sucedâneos, numa cadeia que se estende até quase aos nossos dias.
Mais curioso ainda foi ter encontrado entretanto, no blogue "Velharias, tralhas e traquitanas" uma travessa de faiança portuguesa com uma decoração ainda mais fiel ao padrão Kirkee.


Neste caso até a cercadura procura reproduzir a barra, tipicamente chinesa, que delimita o covo do prato inglês, repetida em menor escala no recorte da respetiva aba, não faltando as reservas com os motivos florais nesta versão portuguesa.
É mais um dos muitos motivos da nossa faiança cuja filiação podemos reconhecer na faiança inglesa de pó de pedra, alguns com raizes orientais mais remotas - o motivo País de Miragaia vindo da Herculaneum Pottery, o Cantão Popular com raizes no Willow, os Chalés alpinos (Vilar de Mouros e outros) que reproduzem o Roselle, os nossos motivos Cavalinho ou Estátua com origem na Grecian Statue... E até julgo ter um Templo do Céu em faiança portuguesa que os ingleses também fabricaram! Mas esse fica para outro dia... ;)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A leiteira - The milkmaid


Não, não é desta leiteira que vou falar, embora a pintura de Johannes Vermeer assim intitulada, que habita o Rijksmuseum de Amsterdão, desse pano para mangas para fazer um post (já repararam na barra de azulejos Delft junto ao chão? figura avulsa século XVII?). Apesar de muito conhecida,  merece bem ser divulgada e abordada em todos os seus pormenores, artísticos e outros, mas isso obviamente  deixo aos especialistas...



Trata-se aqui de participar no chá de terça-feira de Tea Cup Tuesday, Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea com as minhas peças de faiança inglesa azul e branca com um motivo que foi bastante popular no século XIX:  the milkmaid, ou seja, a leiteira. Mostra uma serviçal realmente em funções de leiteira, a ordenhar uma vaca no campo, observada por duas tranquilas ovelhas, uma branca e uma preta, enquanto a rapariga de Vermeer talvez seja antes uma criada de cozinha numa das suas tarefas diárias, a preparar algum alimento com pão e com leite.


Fui buscar as peças a um armário aberto onde exponho faiança inglesa azul e branca numa salita a que os americanos chamariam den. aqui mostrei algumas das faianças que se vêem na foto, mas outras ainda não foram tema de qualquer post.


Estas  três taças de chá e respetivos pires não são do mesmo conjunto, mas sendo todas em faiança transferware azul e branca, ficam sempre bem juntas e para mim têm o interesse adicional de poder admirar motivos diferentes.
Efetivamente, do motivo milkmaid só tenho uma taça e dois pires. Depois há mais duas taças de um motivo também de cena rural com lavradores, casa senhorial e vacas, que ainda não consegui identificar, e um pires com motivo oriental.


À exceção desse motivo oriental, com marca Davenport, nenhuma peça está marcada, mas esta milkmaid, é sem dúvida a da fábrica Spode, um padrão introduzido na produção por volta de 1815.
São de uma faiança muito fina, quase porcelana, pelo que julgo tratar-se do tipo de pasta denominado pearlware.


Outros fabricantes usaram este tema nas suas faianças transferware - Rathbone, por exemplo, e até a Villeroy & Boch do séc. XIX - mas há diferenças, não só em pormenores da cena central, mas também na composição floral da cercadura e na guarnição da mesma.
Quanto à outra cena rural presente em duas taças, não havendo pires é difícil mostrá-la na totalidade, mas aqui ficam fotos de dois lados da mesma taça.





Finalmente, porque este é um chá de Outono, quero acrescentar um fruto que tenho aqui em abundância todos os anos nesta altura, bem saboroso comido à colher como sobremesa ou, porque não, a acompanhar o chá. São os nossos belos diospiros  que penso não serem muito familiares às minha parceiras destes eventos que habitam paragens longínquas mais a norte.


Não só o fruto tem esta linda cor de fogo mas também as árvores, os diospireiros, ficam com as folhas em tons avermelhados e eu adoro ver essa coloração na folhagem de outono. Só não as fotografei porque começou a chover hoje à tarde, já não fui a tempo.
É o Outono a avançar, com o mês de outubro a chegar ao fim...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Faiança inglesa Davenport

 

Este motivo ou padrão decorativo da Davenport é conhecido por Rhine Pattern ou Rhenish views, já que apresenta várias paisagens imaginárias da Alemanha ao longo do rio Reno.
Cada tipo de peça de um serviço terá uma cena diferente, mas todas com a presença do Reno - a grande estrada fluvial do centro da Europa, ligando a Suiça ao Mar do Norte - e das suas margens onde se desenvolveram mais de 20 grandes cidades europeias, na maioria alemãs, mas também da Suiça, da França e da Holanda (Basileia, Estrasburgo, Düsseldorf, Colónia, Roterdão, Bona, Mainz...)
Não admira, por isso, que nas paisagens deste padrão se vislumbrem ao longe os contornos de cidades com casario, torres, cúpulas e castelos.  
Comprei estas peças em ocasiões diferentes e comprarei mais se encontrar este padrão com outras paisagens, mesmo com alguma fratura, como acontece com o prato de sobremesa. Tenho sempre a curiosidade de ver se a marca corresponde ao mesmo período de fabrico e que elementos foram introduzidos nas várias paisagens imaginadas.


As marcas que se vêm gravadas na pasta têm inscritos os dois últimos dígitos do ano de fabrico, um de cada lado da âncora, o que permite datar a travessa de 1860 e os dois pratos, de jantar e de sobremesa, de 1836.
De qualquer forma, quando se vê a marca Davenport numa peça de faiança ou de porcelana, pode-se logo ter a certeza de que ela foi fabricada em data anterior a 1887.
Com efeito, a firma Davenport foi fundada por John Davenport (1765-1848) em Longton, Staffordshire, em 1793, iniciando mais uma dinastia de ceramistas ingleses - a par das famílias Spode e Wedgwood - à frente dos destinos de uma marca de prestígio que só terminaria, com esse nome de família, em 1887. 






O gosto romântico pelas paisagens europeias, geralmente da Europa do sul, mas também do centro, como neste caso, desenvolveu-se na Inglaterra graças às experiências dos jovens ingleses durante o Grand Tour, uma espécie de rito de passagem à idade adulta com um banho de cultura a que eram sujeitos os mancebos aristocratas ou da burguesia endinheirada,  para finalizar a sua formação académica com conhecimentos de Arte e Humanidades. Viajavam pela Europa acompanhados de um tutor, visitavam museus, monumentos ou as ruínas das civilizações clássicas e depois regressavam mais cultos e com a bagagem cheia de obras de arte ou de contactos para as encomendarem.
Hoje em dia ainda se cultiva essa tradição no chamado Gap Year ou, nos Estados Unidos, Year Off, só que  os limites temporais e espaciais da experiência alteraram-se significativamente: graças à facilidade e rapidez de transportes esse período vai agora de 6 meses a um ano - no passado podia durar de um a vários anos - e o espaço a conhecer alargou-se da velha Europa a todo o mundo.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prato de Miragaia

Finalmente tenho um prato da Fábrica de Miragaia. E com marca!

Celebrando-se hoje o segundo aniversário do blogue Velharias, do LuísY, é a ele que dedico este post, com votos de que celebre muitos mais aniversários, para deleite de todos nós.


O prato foi oferta de uma querida amiga e minha madrinha (também minha comadre, já que dois filhos são meus afilhados, um deles padrinho da minha filha; é  afilhada da minha mãe que por sua vez é afilhada da mãe dela... estão a ver o intrincado da  relação... lol).
Sempre conheci os pratos Miragaia lá em casa, mas obviamente durante muitos anos não sabia do que se tratava. Este verão estive mais uma vez a apreciar um que está exposto, a ver a marca, Miragaia Porto por extenso, e a apreciar a pasta, lembrando-me das atribuições indevidas que se vêem pelas feiras. Ao falarmos dele a minha madrinha referiu que o par tinha sido partido por um dos meus afilhados em  miúdo, tinha sido colado mas não sabia onde ele parava. Acrescentou que se calhar alguém já o tinha deitado fora...
Imaginem o meu desgosto! Disse-lhe que de qualquer forma, se o encontrasse, eu gostaria muito de ficar com ele mesmo partido e colado (que descaramento!)
Finalmente - alegria!!! - o prato apareceu e foi-me oferecido.


Tinha uma cola amarela e estava muito mal colado, com junções mal ajustadas, abertas mesmo. Tive que meter mãos à obra e comecei pela descolagem.
Esqueci-me de tirar uma fotografia do estado em que estava antes, mas tirei esta depois de descolado.


Segui as dicas que me foram dadas por um vendedor, meu ex-colega, para a descolagem e limpeza e comprei uma cola recomendada pela conservadora e restauradora Sandra Pena. No fim o meu marido encheu as ranhuras com uma massa branca e eu dei-lhe uns retoques a azul.
Não se pode dizer que tenha ficado um trabalho perfeito, mas para mim é um encanto poder apreciá-lo, exposto no meu armário de faianças.
No catálogo da exposição "Fábrica de Louça de Miragaia"  editado pelo Museu Soares dos Reis em 2008, há um prato igual e com a mesma marca  na página 221.


No mesmo catálogo este motivo decorativo conhecido por "tipo país" utilizado no 2º período de fabrico (1822-1850), fase em que se pretendia imitar a faiança inglesa azul e branca, é associado a um exemplar da Herculaneum Pottery de Liverpool com um motivo central conhecido como "View in the Fort  Madura" da Indian Series.
Tenho um prato desses há anos mas não conhecia a relação entre os dois motivos e mesmo depois de já ter visto a exposição sobre a Fábrica de Miragaia, mas antes de comprar o catálogo, fui alertada para o facto num post do blogue do LuísY.


O prato que tenho há mais tempo é o da direita, em flow blue ou azul escorrido, mas o da esquerda que adquiri entretanto, deve ser mais antigo, quer por ainda se ver em baixo a chamada seam ou costura da junção da estampa na aba, problema que foi resolvido pela técnica do flow blue, quer pela tonalidade da pasta e rebordo no tardoz.
No meu fraco entendimento de pastas cerâmicas, acredito que o mais antigo seja em creamware e o outro em pearlware, até porque tem uma tonalidade azulada, caraterística da pasta desse tipo de fórmula.
As marcas também são diferentes, situar-se-ão entre 1810 e 1820, mais ou menos o período em que foi usado este padrão decorativo, tendo a fábrica sido encerrada em 1840.


O que é curioso é que o nosso motivo “País” da Fábrica de Miragaia e de outras que a imitaram, sobretudo Darque na opinião de José Queirós,está mais próximo da versão da Herculaneum do que esta está da pintura original de Thomas Daniell, do final do século XVIII . Até as flores em fundo esponjado da aba, usadas por Miragaia e que depois perduraram como cercadura muito típica nas faianças do Norte, devem ser uma cópia da aba de flores da versão Herculaneum. Nesta, a cena resultou de uma amálgama feita pelos artistas gravadores de elementos presentes em várias gravuras de uma série de paisagens indianas -  juntaram ao forte um arco, a vegetação luxuriante, incluindo as palmeiras, uma montanha e as figuras e assim criaram uma paisagem que nunca existiu. A Fábrica de Miragaia só não copiou a montanha e as figuras de homens e elefante, mas também há peças mais pequenas desta série da Herculaneum que não incluem estes elementos.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Oveiro em "flow blue" inglês

No Brasil, a loiça inglesa azul e branca decorada por transfer-print é muito apreciada e consequentemente cara, quando aparece à venda nos antiquários, em especial a que lá se designa por borrão ou borrãozinho, isto é, o flow blue inglês, traduzido em Portugal por azul escorrido.

Lá, como cá, é nas feiras de velharias que se podem encontrar as pechinchas e assim, por um pequeno golpe de sorte, vi este oveiro à venda na feira da Rua do Lavradio, no Rio de Janeiro, pela módica quantia de 5 reais, ou seja, cerca de 2 euros.
A única marca que tem é a palavra ENGLAND, mas este padrão decorativo, chamado "Beauty Roses", é da firma W. H. Grindley & Co que operou em Tunstall, Stoke-on-Trent, Staffordshire, entre 1880 e 1991.
Penso que seja uma peça já do séc. XX, mas a única certeza que tenho é que com a marca ENGLAND é seguramente posterior a 1891.
Tem a particularidade de ser um oveiro duplo, servindo assim para tamanhos diferentes de ovos. A parte maior, que está decorada, serve para ovos de gansa, mas virando-se o oveiro ao contrário fica o tamanho de ovos de galinha ou pata. Estes pormenores eram importantes numa época em que o hábito de consumir ovos quentes ao pequeno-almoço estava generalizado em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, consumindo-se ovos de vários tipos de aves.


Ao contrário do que se possa pensar, o termo flow blue não designa uma tonalidade de azul, mas sim uma técnica decorativa em que se deixa o pigmento azul escorrer ou esborratar para fora dos limites do desenho e assim obtém-se este efeito de borrão, daí a razão do termo brasileiro.
Foi produzido em Inglaterra sobretudo entre 1830 e 1920, mas também utilizado na Alemanha, na Holanda e nos Estados Unidos e até em Portugal, pela Fábrica de Loiça de Sacavém. É nos Estados Unidos que esta técnica decorativa é mais popular e mais coleccionada e talvez venha dessa influência o apreço que os nossos amigos brasileiros têm por ela.


Conjunto de peças Copeland em flow blue, três delas no padrão Ruins ou Melrose

Marca de 1848, ano representado pela letra U na registration mark das peças Ruins ou Melrose

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pratos de Staffordshire da "Shipping Series"


A "Shipping series", que se pode traduzir por série das embarcações, é um padrão decorativo usado em Staffordshire, na Inglaterra, entre 1810 e 1830, a avaliar pelas datas atribuídas aos pratos e travessas desta série que aparecem em leilões online.
O que caracteriza este motivo de faiança inglesa azul e branca, referida como pearlware, sem marca, é a existência de uma reserva ao centro, com embarcações, geralmente num mar revolto sob um céu carregado, e de uma aba com flores, conchas e plantas marinhas, sugerindo paragens tropicais.
Estes pratos são denominados "Fragata I", o prato raso, e "Fragata II", o prato de sobremesa. Nunca vi nenhum de sopa, que teria certamente uma embarcação diferente destas, mas mostro aqui uma travessa com uma bela cena de batalha naval, denominada "Batalha nocturna entre Blanche e La Pique", segundo uma gravura de 1797, que encontrei na internet.


Representa as fragatas Blanche, inglesa e La Pique, francesa, ao largo de Guadalupe no Mar das Caraíbas, durante os confrontos que opuseram os dois países no final do séc. XVIII, na sequência da independência americana, apoiada pelos franceses.
Há travessas com outras cenas, pelo menos três, a que eu já vi referência: "Cena Portuária" (I e II) e "Batalha Naval Diurna"
Por ilustrarem factos históricos, estas peças integram-se numa categoria de  faiança inglesa azul e branca denominada "Historical Staffordshire" que mostra factos e figuras da história inglesa e americana. Lembram-me as magníficas tempestades no mar do pintor inglês William Turner (1775-1851) com obra contemporânea destes pratos e travessas.
Os pratos que comprei, um na feira de Espinho por 45€ e o outro, com esbeiçadelas que já disfarcei, na Vandoma por 3€, em média 24 € cada, não foram nada caros,  mas as travessas atingem preços elevadíssimos, sobretudo as que têm  cenas mais raras. Uma "Harbour Scene II", que se mostra em baixo, foi vendida num leilão da Bonhams por 1.920 libras.

                   

Já depois de ter terminado este post, encontrei num catálogo online um jarro com a mesma decoração, o que achei muito curioso porque nunca tinha visto qualquer peça para além de pratos e travessas. Haverá certamente também terrinas , molheiras e outros formatos de peças, mas estarão com certeza guardadas para deleite particular de coleccionadores ingleses e americanos, sobretudo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Grande travessa inglesa do tipo "well-and-tree"

Esta é uma travessa de faiança inglesa de dimensões consideráveis (51x42), uma meat platter, com a particularidade de ter uma concavidade, o poço (well), que tem a função de molheira. A esse poço vão dar umas ranhuras em forma de árvore (tree), que encaminham os sucos e o molho que escorrem da carne, daí o nome que lhe é dado, well-and -tree platter.
Gosto de a ter às vezes como centro da mesa da sala de jantar e, dado o seu tamanho e formato invulgares, é quase sempre motivo de conversa. Também devido ao tamanho e formato, a montagem destas peças durante o fabrico devia exigir cuidados especiais de manuseamento.


Graças à enorme procura destes produtos, não só por parte de todos os territórios do Império Britânico onde havia súbditos de Sua Magestade,  mas também de países europeus como Portugal, e perante a feroz concorrência de centenas, se não de milhares de pequenas e grandes fábricas e olarias, o engenho dos industriais ingleses, na mira do lucro constante, foi aguçado ao ponto de produzirem uma variedade enorme de peças de grande beleza e funcionalidade, com muita atenção a pormenores.
Esta não é das mais espectaculares, já que tem um padrão decorativo discreto, chamado Lemon Flower, obtido pelo processo de transfer printing, o mais usado nesta época, séc. XIX.  Muitas são todas decoradas com as belas paisagens bucólicas, cenas de caça, os castelos em ruínas, cenas marinhas, enfim , todos os motivos que bem conhecemos da faiança inglesa azul e branca.


No verso estão duas marcas, a que se vê acima, impressa com o nome do padrão e as iniciais do fabricante, J C & Cº, e outra gravada  na pasta, uma âncora e a palavra London, que não consegui que ficasse legível numa fotografia. Está no meio da zona central do verso da travessa, como ainda se consegue discernir na segunda foto. As iniciais J C são do fabricante John Carr, estabelecido em North Shields, Northumberland. Não se trata, portanto de uma das muitas unidades de Staffordshire, embora este fabricante, como aliás vários outros de fora do condado de Staffordshire, tenha utilizado, não nesta travessa, mas em outros dos seus produtos, a marca Warranted Staffordshire, isto é, produto garantido de Staffordshire, para aproveitar o prestígio que aquela grande zona oleira tinha alcançado dentro e fora de portas.


A firma esteve em actividade de 1845 a 1900, sucedendo-se durante este período várias marcas: J Carr (1845),  J C & Cº (1850), J C & Son (1854), J C & Sons (1861).
Perante tal quadro, esta well-and-tree platter  data de cerca de 1850, sendo assim bem mais de centenária.
O que me continua a intrigar é a marca gravada na pasta, a tal âncora com o que parece ser a palavra London em maiúsculas escrita por cima. Há muitas marcas inglesas com âncora, mas não conheço nenhuma com a palavra London. Uma boa hipótese era ser a marca de Thomas Fell, também sediado em Northumberland, mais exactamente na cidade de Newcastle-upon-Tyne, que usou a âncora gravada, mas com um F ao lado. Se fosse a marca de Fell, a hipótese seria que tivesse havido uma transferência de loiça branca de uma fábrica para a outra , por qualquer motivo, encomenda maior a satisfazer, por exemplo.


Não sendo, haverá alguém "out there" que me possa esclarecer sobre esta marca?

Quase três anos depois desta publicação, em Julho de 2013, quando andava a pesquisar na net à procura de uma outra marca, encontrei aqui a resposta para a marca gravada na pasta com a palavra London sobre uma âncora. Parece que era a marca de um revendedor de Londres,  encontrada em loiças de  John Carr, Thomas Fell e J. Burn.