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segunda-feira, 23 de março de 2015

Um prato inglês e seus sucedâneos em faiança portuguesa

ou seja, sucedâneos de sucedâneos...


Este é um prato de faiança inglesa, com um atraente motivo oriental num flow blue muito ténue, talvez acidental, saído da fábrica de John Meir & Son a meados do séc. XIX. Trata-se de um fabricante sobejamente conhecido por cá, que ainda só John Meir estabeleceu a sua atividade cerâmica em Tunstall, Staffordshire, e aí laborou entre 1812 e 1836.
Eu já conhecia o motivo e já tinha visto pratos destes à venda, mas não a preços que me convidassem a trazer mais um azul e branco para casa. Desta vez, já lá vão uns meses, os deuses foram-me favoráveis...
Na marca consta o nome do motivo, Kirkee, e eu, iludida pela semelhança com os motivos da porcelana chinesa azul e branca, logo pensei ser o nome inglesado de alguma localidade ou região chinesa, como é o caso dos motivos Cantão.

A marca, com o efeito flow blue (ou azul escorrido ou borrão) a notar-se 

Puro engano. Ao pesquisar  o nome no Google, logo descobri tratar-se de uma cidade indiana perto de Pune, no estado de Maharashtra, e até longe do mar, ao contrário do que sugeria a gravura.
Foi uma cidade com relevância para os ingleses, no tempo em que dominaram grande parte do subcontinente indiano, daí ter merecido ser lembrada na sua produção cerâmica do séc. XIX, mesmo sem ter sido representada com qualquer fidelidade ao local. Com efeito, segundo a Wikipédia, foi lá que a Companhia Inglesa das Índias Orientais foi atacada e venceu os Marajás na que ficou conhecida como Batalha de Khadki (em inglês Kirkee), em 1817.


O prato Kirkee foi entretanto destronar outro no meu escaparate de faiança inglesa azul e branca e estava mesmo no meu ângulo de visão quando nos dias mais frios deste inverno me sentava junto ao fogão de lenha. Um dia reparei que aquele motivo era déjà vu. Sim, aquela baía do motivo central, com as formas vegetalistas  à beira da água, o edifício oriental mas com uma cruz no topo, o chorão, a vedação, eram-me familiares.


Fez-se luz! Era nada mais nada menos que o motivo central de uma tosca travessa de faiança que já aqui mostrei e cujos pormenores decorativos me intrigaram sempre.


Não percebia o que era aquele amontoado de pedregulhos a fazer curva, nem entendia o que eram aquelas quatro colunas, tipo lampião ou arco e balão das marchas populares... Finalmente foi desfeito o mistério.
Os elementos estão lá todos. Foi certamente desenho à vista feito a partir de um prato ou travessa do serviço de jantar Kirkee que terá chegado a uma casa abastada do Porto ou de Gaia, na época em que a comunidade inglesa do Porto era forte e as trocas comerciais com Inglaterra muitas e frequentes.


Só o desenho da cercadura se afastou do original, se é que podemos chamar original a um motivo claramente influenciado pela porcelana chinesa azul e branca - sim, vai tudo sempre ter à porcelana chinesa e depois encontramos sucedâneos de sucedâneos, numa cadeia que se estende até quase aos nossos dias.
Mais curioso ainda foi ter encontrado entretanto, no blogue "Velharias, tralhas e traquitanas" uma travessa de faiança portuguesa com uma decoração ainda mais fiel ao padrão Kirkee.


Neste caso até a cercadura procura reproduzir a barra, tipicamente chinesa, que delimita o covo do prato inglês, repetida em menor escala no recorte da respetiva aba, não faltando as reservas com os motivos florais nesta versão portuguesa.
É mais um dos muitos motivos da nossa faiança cuja filiação podemos reconhecer na faiança inglesa de pó de pedra, alguns com raizes orientais mais remotas - o motivo País de Miragaia vindo da Herculaneum Pottery, o Cantão Popular com raizes no Willow, os Chalés alpinos (Vilar de Mouros e outros) que reproduzem o Roselle, os nossos motivos Cavalinho ou Estátua com origem na Grecian Statue... E até julgo ter um Templo do Céu em faiança portuguesa que os ingleses também fabricaram! Mas esse fica para outro dia... ;)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um pires de Sto. António de Vale da Piedade (?)



A divulgação feita pelo LuisY, no Velharias, da dissertação de mestrado da FLUP: A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista, da autoria de Laura Sousa, foi uma porta aberta a muitas tentativas de identificação de faiança não marcada com caraterísticas nortenhas.
Passei a olhar para muitas das peças de faiança que me rodeiam, em azul e branco ou em policromia, à luz das fotos que aparecem publicadas, procurando motivos, pormenores de cercaduras, formatos...
Assim, foi-me possível, por exemplo, a atribuição deste singelo pires de faiança a fabrico de SAVP, por comparação estilística com fragmentos de pratos e chávenas encontrados no levantamento arqueológico realizado no sítio da antiga fábrica, fotografados e publicados na referida obra.


Pormenor de fotografia publicada na página 129 do volume III que mostra um pires da FSAVP

Não foi tanto a paisagem central do pires, aparentada com os motivos de Cantão Popular tão presentes na nossa faiança nortenha, a dar o clique para a atribuição, mas antes a cercadura, com aquelas volutas ou arabescos franjados, que não conhecia de outros fabricos.


Não me foi possível comparar a forma do pires com desenho do mesmo tipo de peça, já que não é um dos desenhos constantes da obra, mas seria um dado importante, dado o caraterístico requebro presente no tardoz.

Tardoz do pires
Com o mesmo motivo destas peças e a mesma cercadura, encontrei num leilão da internet esta belíssima terrina, já vendida :( e, como seria de esperar, apresentada como Miragaia. É sem dúvida o motivo referido por Laura Sousa, como o subtipo 2.2 da louça azul e branca Cantão Popular, que aparece em vários fragmentos do levantamento arqueológico por ela dirigido.

Terrina apresentada como Miragaia em Imagens Raras

O motivo principal da terrina

O motivo central do meu pires
Mas não é só este pires que tenho agora como fabrico SAVP.
Ao "folhear" online a obra de Laura Sousa, encontrei fotografado um galheteiro igual a um exemplar meu que já aqui mostrei, com as caraterísticas "flores de Miragaia". A autora admite que seja de Santo António de Vale da Piedade, não só pela decoração, mas também pelo formato da concha para o sal ou especiarias, já que foram encontrados fragmentos de conchas com este formato e decoração.


Uma das curiosidades interessantes que encontrei na obra, foi a listagem no volume III das formas produzidas pela fábrica entre 1795 e 1877. Dela  constam nomes de objetos que já dificilmente reconhecemos, por exemplo, o nome de "talher" dado aos galheteiros. Na listagem por ordem alfabética aparecem na página 102  os termos "talher de concha" e "talher de grade" . Depreendo que os galheteiros de grade fossem do tipo em que as galhetas encaixam numa base vazada, como os exemplares que apresentei num poste de Julho de 2013. Os de concha seriam precisamente deste tipo que está na foto, com o recipiente frontal em forma de concha. Em 1877 ainda se fabricavam ambos os modelos com decoração de "fino azul".
Uma outra curiosidade interessante para mim foi o "Arte, livros e velharias" constar na lista bibliográfica desta dissertação de Laura Sousa, a propósito de uma marca da fábrica de Santo António que aqui apareceu num dos postes sobre a mesma. É muito bom saber que o blogue já teve alguma utilidade para o estudo da faiança portuguesa, graças às partilhas e aos contributos de seguidores e amigos.

Voltando à primeira peça, afinal não tenho um pires igual à bela chávena policromada do Luis, comprovadamente de fabrico SAVP, mas tenho um pires que lhe é atribuível :)) e encontrar a provável maternidade de qualquer peça antiga é sempre uma satisfação, por mais pequena ou insignificante que possa parecer.

sábado, 14 de junho de 2014

Um pote Carvalhinho sob anonimato?



Noutras circunstâncias, já há muito aqui teria dado conta duma pequena descoberta que fiz há tempos. Mas quem me visita com alguma regularidade já certamente se apercebeu das dificuldades que tenho tido em manter este espaço minimamente ativo. Confesso que se não fosse um poste recente do MAFLS a avivar-me a memória - daí também a inspiração para a foto ;) -  ainda não era desta que aqui vinha falar do assunto.
A descoberta tem a ver com este pequeno pote de faiança, que tenho há mais de dez anos, vindo da Feira da Vandoma no Porto, quando ela se realizava junto à Cadeia da Relação.


Lembro-me que o comprei a um vendedor de ocasião, com uma pequena banca de meia dúzia de peças, que dizia ser esta uma peça de boa faiança não marcada, sem me adiantar mais nada de concreto. Gostei dos azuis, da pintura à mão em motivos que me pareceram de influência oriental e lá a trouxe para casa, achando que algum dia chegaria, por analogia, à origem do fabrico.
























E foi o que aconteceu... mas só há poucos meses!
A verdade é que durante todos estes anos muitas vezes analisei os pormenores do desenho, a pasta fina, o azulado do vidrado, mas nada que me abrisse os olhos e permitisse chegar a alguma conclusão. Uma peça de cerâmica sem qualquer marca e com decoração desconhecida deixa-me em geral completamente perdida...

Finalmente, na última vez que fui à feira de velharias de Algés, ao passar pela banca de um vendedor conhecido, reparei num grande vaso ou cachepot que me pareceu ter algo de muito familiar. Não disse nada na altura, mas voltei a passar e a observar, tentando lembrar-me de onde eu já teria visto uma decoração igual ou parecida.


A certa altura fez-se luz: era o meu pequeno pote de faiança azul e branca comprado na Vandoma. Meti conversa com o vendedor, uma pessoa amável e discreta que conheço há anos dali e há mais anos ainda da feira de Coimbra, e quis saber de onde seria a magnífica peça.


Ele disse-me que pela marca devia ser da Fábrica Constância, mas ao mostrar-ma vi um F.C. a azul que eu nunca associaria à fábrica lisboeta. Disse-lhe que me parecia ser antes da Fábrica do Carvalhinho, lembrei-o que os azulejos Carvalhinho eram marcados na pasta com as iniciais FC, e me parecia que estas iniciais a azul também tinham sido usadas para marcar outras peças de faiança. Achou logo que a minha hipótese devia estar correta e acedeu ao meu pedido para fotografar a peça.


Ao chegar a casa confirmei que os motivos tinham muita semelhança com os do meu pote, embora mais elaborados e em maior escala, e a marca F.C. lá estava no meu livro de marcas de José Queirós editado pela Livraria Estante Editora. Trata-se da marca 197, cujo verbete  indica tratar-se de fabrico recente (anterior à data da publicação do estudo, 1907-8), localiza a Fábrica do Carvalhinho à Corticeira (Porto) e refere como proprietários Dias de Freitas e Filhos.
A hipótese Fábrica do Carvalhinho nunca se me tinha colocado, habituada que estava aos carimbos bem conhecidos e facilmente identificáveis que encontramos nessas faianças. São do período em que a fábrica já se localizava em Vila Nova de Gaia e estava sob administração da Fábrica de Loiça de Sacavém, entre os anos 30 e 60 do século passado.



Mas a Fábrica do Carvalhinho foi fundada uns cem anos antes, por volta de 1840, a crer numa marca usada em 1940 para comemorar o centenário, por isso é natural que haja muitas peças não marcadas à espera de serem identificadas por um qualquer golpe de sorte...
Com tudo isto, embora sem as certezas que a marca me daria, atribuo agora uma identidade e uma idade aproximada ao meu modesto pote e até lhe reconheço um ar de família com alguns vasos Carvalhinho que já aqui postei.  Para além disso, fiquei mais atenta à possibilidade Carvalhinho para peças de faiança deste estilo sem qualquer marca.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Será de Vale da Piedade?


Refiro-me à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, uma das mais importantes e mais duradouras fábricas de cerâmica de Vila Nova de Gaia. Nunca é demais repetir que teve uma existência de cerca de 150 anos (1785 - 193...) com uma produção muito variada, desde faiança utilitária doméstica até azulejos e ornamentos de arquitetura, destinada não só ao mercado interno, mas também à exportação, sobretudo para o Brasil.
Como acontece com quase toda essa produção, este prato grande marmoreado não está marcado, mas há um dado que me faz suspeitar tratar-se de fabrico de Santo António. É a semelhança decorativa com uma salva de aguardente ou escorredor de copos, peça já aqui referida, apresentada por Artur de Sandão na obra Faiança Portuguesa, Séculos XVIII - XIX , vol. II, p. 154 e atribuída a Santo António de Vale da Piedade, ao período de João do Rio Júnior (anos 60-80 do século XIX).



Também no Museu da Cerâmica, nas Caldas da Rainha,  há um prato muito semelhante , mas aí a ficha de catalogação limita-se a referir fabrico do Norte, sem mais, datando-o do século XIX.

Prato do Museu da Cerâmica

Não só a decoração mas também as dimensões coincidem com  as do meu prato (30 cm de diâmetro e 5 cm de altura).
Este foi mais um dos meus achados na Feira de Velharias de Aveiro, a preço de pechincha, certamente por estar partido e colado, embora não se note muito, e por não exibir uma decoração muito vistosa. Mas só pelo desafio da descoberta e por admitir ser de Santo António, trouxe-o para casa há uns meses com todo o prazer... e acho que fica muito bem a fazer companhia a uma caraterística tampa em Cantão Popular.



Tive conhecimento, há algum tempo, de uma página criada no Facebook, sobre a Fábrica de Santo António,  pelo estudioso de cerâmica Francisco Queiroz. Recomendo a visita, pelo que deixo aqui o link:
https://www.facebook.com/FabricaDeSantoAntonioDoValeDaPiedade

E, também do mesmo autor, uma outra página sobre a Fábrica das Devesas:
https://www.facebook.com/pages/F%C3%A1brica-de-Cer%C3%A2mica-das-Devesas/271032116245596



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

De novo a Fábrica de Santo António


Tenho a sorte de, através do blogue, ir contactando com entusiastas e colecionadores de faiança e, de vez em quando,  receber fotografias de boas peças, como é o caso deste vaso ornamental de arquitetura ou de jardim, com marca da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade. Formalmente muito semelhante a um exemplar do acervo do Museu do Açude no Rio de Janeiro, já apresentado pelo LuísY no Velharias graças à colaboração em fotos do nosso amigo Fábio Carvalho, e a um outro exemplar da Ordem da Lapa no Porto, que aqui mostrei, tem a particularidade de revelar em toda a sua beleza o azul intenso de Santo António, complementado pela mancha de amarelo nas duas pegas com cabeças de leão.

Vaso de jardim do acervo do Museu do Açude
Tendo sido uma importante unidade cerâmica de Vila Nova de Gaia, sempre tratada pelos estudiosos destas matérias nas obras que publicaram - Vasco Valente, José Queirós, Artur de Sandão... -  a Fábrica de Santo António não é um nome muito conhecido por cá - talvez seja mais conhecido no Brasil que foi o destino privilegiado destas cerâmicas ornamentais - ou sequer referido pela generalidade dos  vendedores e compradores de faiança. Pelo menos não ao nível de Miragaia, Fervença, Bandeira ou Viana, para só referir fabricos do Norte.
Penso que tal situação só se pode dever a duas razões: o facto de esta fábrica ter marcado muito pouca da sua produção se considerarmos os seus cerca de 150 anos de laboração, ficando por isso muitas peças no anonimato; o facto de alguma da sua produção estar muito na linha do último período da Fábrica de Miragaia, a que esteve ligada por volta dos anos 30 do século XIX e de que parece ter "herdado" operários e materiais, após o fecho em 1855, sendo as duas produções frequentemente confundidas.
E assim ficamos com muitos meninos nos braços, sem saber que nome de família lhes dar, vindo logo à baila o nome de Miragaia, mas com a suspeita de que possam ser desta fábrica gaiense com nome de santo, quer sejam os azuis e brancos do motivo País, quer as várias versões do Cantão Popular ou mesmo faianças policromadas.


É por isso que, sempre que aparecem peças marcadas da Fábrica de Santo António, há um regozijo enorme por parte de quem se interessa pela origem da faiança portuguesa, como é o meu caso e o de seguidores e amigos que por aqui se encontram.


Há cerca de dois anos, precisamente em Agosto de 2011, já aqui mostrei uma terrina igual a esta, com o motivo País, sem marca, em fotos enviadas por uma colecionadora que aqui tem amavelmente partilhado algumas das suas peças. Acabei por a atribuir a Miragaia por ter encontrado na Coleção do Museu de Arte Sacra de Arouca um exemplar idêntico assim marcado. E com base nessa informação, também o MAFLS considerou Miragaiense uma sua terrina deste formato e decoração.
Acontece que...


...como se vê esta tem marca da Fábrica de Santo António... de Vale da Piedade.
Tanto o vaso ornamental como esta terrina pertencem à coleção de um seguidor do Norte que já por várias vezes me cedeu fotografias de peças suas, mais uma generosa partilha que nos permite a visualização de exemplares que de outra forma não estariam acessíveis. Muito lhe agradeço por isso e também pela informação que me tem facultado a acompanhar as fotos.
Segundo Vasco Valente, na sua obra Cerâmica Artística Portuense, as marcas dos dois vasos foram usadas no último período de laboração da fábrica, entre 1887 e a data de encerramento, cerca de 1930, durante a gerência de António José da Silva e Silva. Mas já José Queirós em Cerâmica Portuguesa e outros estudos fá-las recuar no tempo, datando marca semelhante (apenas diferindo nas palavras "fábrica de" escritas por extenso) e também a marca tipo Miragaia com os ramos de louro, dos anos 40 do século XIX, ou seja, do que é já considerado o 2º período de fabrico. Por outro lado, a marca da terrina não está referenciada por qualquer dos autores citados acima, pelo que, sendo seguramente do período posterior a Rossi, o fundador da fábrica e seu proprietário, ele e depois a filha, entre 1785 e os anos 1830, incluindo o período dos arrendatários Rocha Soares, fico na dúvida se a terrina será do segundo período se do terceiro e último.

A marca com ramos de louro datada por José Queirós de 1840 e por Vasco Valente do último período de fabrico

Estas considerações e dúvidas podem parecer coca-bichices, pormenores sem importância, mas eu, com as minhas manias já bem conhecidas por aqui ;), considero-as relevantes para o conhecimento da história das peças e da produção da fábrica.
Deixo para o fim a que considero a vedeta de hoje:


Também do mesmo colecionador é este escorredor de copos ou salva de aguardente, só que... sem marca. Foi no entanto comprada como fabrico de Santo António de Vale da Piedade, a intensidade do azul aponta nesse sentido, mas também a tipologia parece fundamentar a atribuição. É que conhece-se pelo menos um escorredor de copos deste formato atribuído por um especialista a Santo António de Vale da Piedade. A decoração é também a azul, mas marmoreada e pode ser vista no 2º volume da obra Faiança Portuguesa de Arthur de Sandão, p.154.


Aqui as duas peças, base e salva, bem visíveis e no seu esplendor máximo com a ingénua decoração de pássaro e ramos.
Devo confessar que este post saiu quase a ferros!!! Com a azáfama familiar que tem andado à minha volta, e ainda bem, só hoje arranjei umas horitas para alinhavar  a escrita... enquanto a malta foi até à praia ... :)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Galheteiros atribuídos a Miragaia

(Ora vamos lá desviar a atenção de manobras políticas e noticiários...)


Este belíssimo galheteiro que aqui apresento em primeiro lugar, pertence a  pessoas amigas que também se perdem por antiguidades e velharias.
Onde quer que vá, os olhos ficam-me logo nestas coisas e como agora ando quase sempre com a máquina fotográfica...
Nunca vi igual em catálogos e não está marcado, mas os meus amigos compraram-no como Miragaia, o que, pelos tons de azul e o  requinte dos pormenores, sobretudo o trabalho da base, me parece muito provável, até do período Rocha Soares, pai.


Também muito provavelmente da Fábrica de Louça de Miragaia é o galheteiro acima, uma das poucas compras que já fiz pela internet, mas com entrega em mão em Coimbra. Apesar de lhe faltar a pega, que é um elemento importante neste tipo de peças, considero que foi uma boa compra! Afinal o vendedor até conhecia o meu marido, de outros contextos, e embora o preço fosse já muito razoável, ele ainda nos fez um desconto ;)
Até o mundo da internet por vezes se torna pequeno...


Comparando as duas fotografias, vê-se bem como as tonalidades de azul se apresentam diferentes, pela incidência da luz em diferente hora e local, o que mostra como são falíveis as comparações de cores por reprodução fotográfica ou via net.
Não está marcado, mas com aquelas flores e a base vazada, tem um ar muito miragaiense, talvez não do primeiro período (1775-1822), mas do segundo período de laboração (1822-1850),  períodos considerados e descritos pelo catálogo Fábrica de Louça de Miragaia, Lisboa, IMC, 2008.
Procurando no MatrizNet, encontrei peças semelhantes na coleção do  Museu Abade de Baçal - uma base sem galheta e um galheteiro completo, ambos sem marca, mas com atribuição a Miragaia com ponto de interrogação..

Coleção do Museu do Abade de Baçal
Tenho pena de não conseguir ver a pega desta base de outro ângulo. Segundo a descrição, na ficha de inventário, tem pormenores  muito interessantes, com peixes a formar as hastes, terminando numa mão que segura uma argola, o que certamente enriquecerá a restante decoração.
Coleção do Museu do Abade de Baçal
Em qualquer das bases os pés são do mesmo tipo, mais um pormenor a apontar para o mesmo fabrico, o que me deixa cheia de satisfação por ter algumas pistas fiáveis em relação à origem do meu galheteiro.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma caneca que veio do Norte...


 

Bem, comprei-a no Norte, a um vendedor do Norte, isso posso assegurar. Quanto à origem do fabrico, as dúvidas habituais... mas há palpites!
Descobri-a na Feira da Vandoma no Porto, assim inteirinha mas com várias rachadelas, a um preço  que achei compativel com o estado... e com a atração que exerceu logo sobre mim :)
É um recipiente de litro, pelo que o imagino a ser usado por homens de há cem anos dados ao copo, que ao regressarem do trabalho, ao fim do dia, tinham passagem obrigatória por tabernas ou adegas para beber uma litrada, à roda ou talvez não! E depois, em casa, era um Deus nos acuda...
Na forma e tamanho é muito parecida  com uma que foi partilhada pelo Luís no Velharias, atribuída à Fábrica da Fervença em Gaia. O meu palpite quanto a esta azul e branca, por analogia  com outras faianças nortenhas, é que seja também de Gaia - os dois tons de azul, o estampilhado, os esponjados, as pinceladas largas - e logo os nomes que ocorrem, com produção mais conhecida neste tipo de faianças, são Fervença, Bandeira e Santo António de Vale da Piedade; mas sei lá quantas fábricas gaienses, utilizaram as mesmas técnicas decorativas?!

Canjirão da coleção António Capucho atribuído à Fábrica da Bandeira em Gaia

Mede 15cm de altura, 10,5 cm de diâmetro, tem paredes finas e, ao achá-la muito leve, verifiquei o peso que é de 400 gramas. Será que estes dados são relevantes para a identificação? Se ao menos aparecesse uma igual em coleções antigas...


Bem, eu sei que ela só estava habituada a lidar com vinho, mas não resisti a pôr-lhe dentro este raminho de flores bem singelas - malmequeres e centaureas(?) - que, mesmo sem grandes cuidados,  teimam em aparecer todos os anos no meu jardim. E eu fico bem agradecida por esta dádiva da natureza!

A minha sinfonia azul




sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Cantão Popular nortenho



O prometido é devido e hoje cá estou com mais algumas peças de faiança portuguesa conhecida por Cantão Popular, das que tenho mais antigas e que identifico como nortenhas. Têm em comum o tipo de cercadura e o tema central, uma paisagem ribeirinha com ilha, edifício oriental, arvoredo e nuvens.
Começo por falar do prato da esquerda, que não oferece dúvidas quanto à origem, já que está marcado Cavaco Gaia.



Penso tratar-se da peça mais recente deste conjunto,  da Fábrica Cerâmica do Cavaco, uma das unidades gaienses que integrou o nome Cavaco, tendo  laborado à beira do Douro até meados do séc. XX.
Este intenso azul cobalto torna muita da sua produção inconfundível a juntar à marca que estas faianças quase sempre ostentam. À paisagem já muito estilizada faltam elementos Cantão tal como foi popularizado pelo padrão "Willow" inglês, pelo menos  a ponte e as três figuras, um barco...


Quanto à travessinha da direita, com aquelas árvores tipo cato, já foi aqui tratada num outro post, por isso não vou adiantar agora mais nada sobre ela.
À esquerda está um prato sem marca, mas cuja paisagem e respetivos elementos decorativos são muito semelhantes aos do prato Cavaco. Falta no entanto a este a intensidade do azul e o tracejado mais abundante que carateriza essa produção bem identificada.


A semelhança entre os dois relativamente à paisagem permite-me pensar que se trata de fabrico próximo, embora este segundo prato, com algumas mazelas e restauros, me pareça de uma época mais recuada.


A paisagem da travessa é menos estilizada do que a dos pratos, mas continuam a faltar-lhe elementos típicos do Cantão Popular. Ao centro deverá estar representada uma ilha, com o palácio oriental, arvoredo, num desenho mais realista do que o habitual, e demais vegetação, mas tal como nos dois pratos anteriores não se vislumbra qualquer ponte, apenas água, representada em primeiro plano e ao fundo, assim como nuvens e pássaros.
Este foi mais um pequeno contributo para a sistematização das várias versões de Cantão Popular, iniciada e desenvolvida pelo LuisY no seu Velharias.