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sexta-feira, 1 de março de 2013

Várias famílias de Cantão Popular


Ainda não há muito tempo, prometi ao LuísY do Velharias - grande entusiasta de Cantão popular que já conseguiu reunir uma boa coleção e fazer alguma sistematização dos vários tipos e  fabricos - que faria um post com os exemplares que fui reunindo, mesmo sendo alguns já bem conhecidos, para ajudar a compor a cena toda deste tipo de faiança.
São peças que também me atraem pela história do motivo - a adaptação das cenas Cantão, popularizadas pelo padrão inglês "willow", o salgueiro ou chorão -  pela ingenuidade da composição e pelos tons de azul intenso sobre o branco ou creme da pasta vidrada.
Como estão dispersos pela casa, alguns em paredes um pouco escuras, para não ter que os tirar todos do lugar para os fotografar, aproveitei um dos dias  de sol desta semana para lhes tirar o retrato "in loco"... mas acabei por ter de ligar a luz!
Neste conjunto há alguns que são fabrico de Aveiro, o do canto superior esquerdo marcado S. Roque e os dois iguais em cantos opostos, embora sem marca, têm a decoração típica das Faianças da Pinheira.


O único prato cuja decoração nunca vi noutro, é  este do canto inferior direito, numa pasta mais escura e com uma cercadura invulgar para este motivo decorativo, mas já não me lembro quando ou onde o comprei.  Embora com pormenores diferentes, a paisagem estilizada não difere muito da dos dois de Faianças da Pinheira.



Penso que a taça oval de aba ondulada e recortada que está ao centro será a peça mais antiga destas cinco, mas certamente já do século XX como todas as restantes. Aqui aparece a ponte bem definida mas sem figuras e entre os edifícios orientais a vegetação está reduzida ao mínimo, com uns traços na vertical cortados por outros curvos.

                  

Este jarro (ou caneca, ou infusa...) retoma alguns elementos decorativos da taça oval com uma grande profusão de traços, cruzados ou em arcos concêntricos a representar água e vários olhos, pestanudos ou não, que já foram núvens ou ilhas... Aqui as árvores,  ao contrário das dos  pratos anteriores, que lembram paraquedas, parecem uns grandes catos estilizados.


 E mais uma vez nesta travessa grande (cerca de 45 cm) os elementos decorativos são semelhantes.
Esta é a única peça que posso datar com alguma precisão porque foi comprada nova, pela minha mãe, no início dos anos 70, logo o fabrico não andará longe dessa data.
Eu diria que estão aqui quatro ou cinco famílias de Cantão popular e que o jarro e a travessa grande pertencem à mesma família, mesmo que possa não ser o mesmo fabrico e possam estar separados por décadas na origem. 
Era deste tipo um jarro que vi numa visita à reservas do Museu Santos Rocha da Figueira da Foz, que na ficha antiga de papel que tinha junto era atribuído a oficina de Carritos, uma aldeia mesmo à entrada da Figueira da Foz, na estrada por onde antigamente se vinha de Coimbra. Não consegui saber mais nada sobre essa hipotética oficina, mas acredito que ficando tão próxima do Museu da Figueira, quem escreveu a ficha devia ter conhecimento da sua existência.
Há ainda quem diga reconhecer de entre estas  decorações algumas vindas da região de Mortágua, mas disso é que, apesar de estar perto, não sei mesmo nada.




Por coincidência, no dia seguinte a esta publicação, em passagem rápida por uma feira de Coimbra, encontrei esta chávena que me foi oferecida por 1 euro! A pintura toda à mão é bastante tosca , mas a pasta é do tipo industrial, mais fina do que a das restantes peças sem marca. A história que me contaram foi que era o que restava de um conjunto que pertenceu a uma senhora de Mira, que teria agora perto de cem anos, e que fez a sua vida toda naquela zona, entre Mira e Cantanhede, onde terá comprado esta loiça. Neste caso até há uma marca, embora para mim indecifrável, aparentemente um MA.



Basicamente fica-me a convicção de que este tipo de Cantão popular, já muito estilizado ou simplificado, que se vulgarizou ao longo do século XX, terá origem em terras da zona centro-norte do país - Aveiro, Figueira da Foz, Mortágua... 
Falta-me ainda mostrar dois ou três exemplares, mais antigos, esses já de terras do Norte, mas vou deixá-los para outro post para as coisas ficarem mais arrumadinhas. :)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Galheteiro em faiança de Gaia ou de Miragaia?



Tinha este galheteiro de faiança já há algum tempo à espera de saber algo mais sobre ele, para além de, pela decoração, lhe atribuir origem "porto-gaiense". Bem sei que haveria muita gente a afirmar a pés juntos que ele é de Miragaia, mas já sabemos como essa atribuição é muitas vezes errónea, havendo várias outras possibilidades.
Os galheteiros que tenho visto com atribuição séria a Miragaia, ou estão marcados com o R de Rocha Soares, ou, marcados ou não, apresentam a base vazada, em policromia com grinaldas ao gosto neoclássico ou com argolas circulares ou ovais que se sucedem a toda a volta.


A semana passada, na minha última visita ao Museu Soares dos Reis, no Porto, reparei num exemplar em pó de pedra dentro duma vitrine, com exatamente o mesmo formato deste meu galheteiro, quer na pega, quer nos encaixes cilíndricos da base, quer no recipiente frontal em forma de concha com tampa. Vê-se a parte de trás na foto dentro da vitrine, e foi pela forma da pega, em D ou orelha, que me apercebi da semelhança.

Vitrine do Museu Soares dos Reis com faiança da Fábrica do Cavaquinho

Entretanto, já encontrei vários com a mesma estrutura e formato nas coleções dos museus nacionais, uns em pó de pedra outros em faiança mais grosseira, mas sempre em museus do Norte. Foi do Matriznet que copiei a foto que se segue, do mesmo exemplar que está dentro da vitrine, e para comparar juntei-lhe uma fotografia do meu galheteiro em "pose" idêntica.



Acontece que o galheteiro do MNSR,  como as restantes peças de pó de pedra que o acompanham, está atribuído à Fábrica do Cavaquinho, uma das unidades cerâmicas instaladas junto ao Douro no final do séc. XVIII, a par de Massarelos e de Miragaia, mas na margem de Gaia. Só que se trata de uma segunda sociedade fundada com este nome em 1786, que integrava o Dr Domingos Vandelli  já ligado à produção cerâmica em Coimbra, e que, ao contrário da primeira unidade fabril, dedicada à faiança, decidiu lançar-se no fabrico de louça de pó de pedra à maneira inglesa, projeto que foi bem sucedido durante alguns anos, até às invasões francesas. É desse período o galheteiro que se vê na vitrine.


Quanto a este meu, não será fabrico Cavaquinho, pelo menos não desse período já que não é em pó de pedra e tem um vidrado muito brilhante, mas é possível que tenham pertencido a essa fábrica, ou sido dela copiados, os moldes onde ele foi buscar a forma.
A Fábrica do Cavaquinho, em fases posteriores, dedicou-se à faiança de novo e pode até ter fabricado este tipo de galheteiros. Mas já em período decadente, a meados de oitocentos, acabou por ser vendida ao proprietário da Fábrica da Fervença, quando este teve que abandonar as primitivas instalações, bastante próximas do centro de Gaia, e passou a laborar ali. Quem sabe se ainda lá estavam muitos dos primitivos moldes prontos a serem reutilizados?
E agora, só para baralhar um pouco, resolvi aqui acrescentar uma base de galheteiro que encontrei à venda numa feira... como azeitoneira!


Está em péssimo estado, com o vidrado todo a descascar-se, mas a forma é a mesma, ressalvando que os encaixes cilíndricos são mais baixos e de maior diâmetro, como ligeiramente maior é o tamanho da concha.

Quanto à decoração, onde é que eu já vi isto? Lá para os lados de Viana... ou será Fervença?!

Entretanto, mais uma vez a If, que também gosta de galheteiros e no seu comentário admite a hipótese de o meu galheteiro ser de Miragaia - eu diria que sim pela decoração mas não pela forma - enviou-me várias fotografias de um belo exemplar seu, certamente bastante mais antigo e com pormenores de maior requinte.

A mesma estrutura e número de elementos

A elegância das galhetas e a concha com divisória ao meio

Decoração de grinaldas e laços ao gosto neoclássico

A pega mais fina mas de desenho semelhante
Este a ser Miragaia, uma hipótese que também se coloca, seria certamente do 1º período (1775 - 1822).

Graças à achega da If sobre o meu galheteiro, até já acrescentei o título do post!!!

Nota: A informação que aqui partilho sobre a Fábrica do Cavaquinho obtive-a em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3834.pdf

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um prato com pinta de ser de Gaia



Tenho este prato de faiança há talvez um ano.
Não sei bem porquê, não tenho por hábito trazer aqui peças adquiridas há pouco tempo, parece que para falar delas preciso de um período mais ou menos longo de convívio :) - preciso de as observar durante algum tempo, de pesquisar sobre elas, de as conhecer melhor - mas  neste caso o convívio prolongado não resultou em nenhum conhecimento especial...
Este prato, com 33 cm de diâmetro, foi comprado na Feira de Algés, relativamente barato por estar partido, colado e gateado,  mas é um exemplar que transpira autenticidade e me dá muito prazer poder ver diariamente num lugar bem movimentado da casa.
Tem história, o que é atestado pelo busto de militar que lhe serve de tema central, sendo muitos bustos semelhantes  identificados com a figura do rei D. Miguel. Foi um tema popular nas faianças gaienses do século XIX, sobretudo tratado pela Fábrica da Bandeira em garrida policromia.
Esta figura real, defendendo o absolutismo do antigo regime, contra os ideais liberais do irmão D. Pedro, por algum motivo que me escapa, terá sido muito amada pelo povo, daí talvez a popularidade deste tema. Mas pergunto a mim própria se neste caso, sendo a figura representada com um bigode e ladeada de exóticas palmeiras, não pretenderá retratar antes D. Pedro, o IV de Portugal e o I do Brasil ou qualquer outra figura histórica...

O motivo das duas palmeiras aparece  noutras faianças atribuídas a  Gaia, como o exemplar acima que encontrei na internet (já não me lembro onde) e guardei, mas nunca o vi noutros pratos com busto de militar. Um pormenor gaiense comum aos dois pratos é a vegetação delimitada por uma série de pinceladas, espécie de esponjados, tendo pelo meio uns desenhos filiformes muito caraterísticos, que já salientei num outro post. Mas também Miragaia, do outro lado do rio, os apresenta.
O problema é que ser de Gaia significa poder ter sido fabricado por uma entre mais de uma dezena de fábricas ou oficinas de cerâmica, das quais as mais vezes referidas são Fervença, Bandeira, Afurada e Santo António de Vale da Piedade, todas com produção no século XIX e até a entrar já no XX, usando muitos motivos semelhantes.
Acho que nunca conseguiremos ultrapassar esta dificuldade...

Pratos de um catálogo da Leiria e Nascimento, dois deles com o busto de D. Miguel.
O da direita (nº81) é atribuído à Fábrica da Bandeira.

Entretanto o amigo Fábio Carvalho enviou-me um link no seu comentário onde se podem ver mais três exemplares de faiança portuguesa com bustos deste tipo:
                 http://s12.beta.photobucket.com/user/fabiocarvalho/library/Portugal

E agora, graças ao comentário dos AM-JMV, ganhou consistência uma outra hipótese em relação à figura representada no meu prato azul e branco. Sugeriram eles poder esta figura evocar os militares e exploradores das campanhas de África, no final do século XIX, figuras que se tornaram muito populares dado o impacto que as decisões da Conferência de Berlim - e a rejeição das nossas pretensões aos territórios africanos do mapa cor de rosa  que atingiu o auge com o ultimato inglês - provocou em toda a população portuguesa.

Alexandre de Serpa Pinto, tornado um herói nacional após arriscada
e solitária travessia do interior de África (1879)
Em imagens da época, estes homens aparecem com os seus caraterísticos capacetes de exploradores, podendo ter sido esse o modelo para o tosco desenho da figura do meu prato... que também usa capacete!
Capelo e Ivens nos seus trajos de exploradores africanos 

Este seria um período mais consentâneo com a provável data de fabrico do prato, que a mim me parece ser o final do século XIX, já distante da guerra civil entre liberais e absolutistas que pôs na ribalta as duas figuras reais que referi em cima.

Ainda mais um importante contributo, desta vez da If. No seu comentário lembrou que o nosso amigo LuisY, no Velharias, já publicou um prato ratinho com o busto de Serpa Pinto, mas ele certamente não se lembrou de o referir no comentário que fez aqui. Vale a pena ir lá apreciá-lo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Bule em faiança azul e branca


Ultimamente este blogue tem vivido de deixas dadas por blogues amigos. Desta vez estou a partilhar um bule que me parece comparável com um que a Maria Paula publicou há pouco.
Este bule é uma das peças de faiança que tenho comigo há mais tempo.
Gosto imenso dele - das linhas, da cor, do motivo decorativo - mas tem um grande defeito: não me conta nada da sua história...


Talvez por o bico ter ficado exageradamente comprido (ou não?) lembra-me uma lâmpada de Aladino, dos contos da minha infância...
Quando o encontrei, numa arrecadação da loja de velharias do Sr Franquelim em Condeixa, estava muito sujo e com piriscas dentro, sem tampa, sem metade do bico e com uma falha no pé. Perguntei ao Sr Franquelim quanto custava e ele, muito admirado por ver uma rapariga de vinte e tal anos interessada naquele "caco", ofereceu-mo logo.


 Depois mandei-o restaurar - na altura um restauro caro como fogo! - e um dia encontrei uma tampa que devia ser de um galheteiro de faiança - do saleiro ou do pimenteiro - e achei que ficava mais compostinho com ela. :)  Mas também gosto de o ver sem tampa.
Como está  à vista no bico, o restauro correu mal, isto é, ele ficou bem feito na altura, só que as peças restauradas não podem ser lavadas e este bule deve ter levado um bom banho numa daquelas sessões muito zelosas de limpezas... Quando dei por ela, estava manchado e a descascar, por isso procurei retirar os restos do acabamento com muito cuidado. Só não mexi  no bico que tinha uma parte acrescentada e sujeitava-me a ficar com ela na mão...


É no formato do pé e nas riscas, neste belo tom de azul cobalto de toda a decoração, que o acho parecido com o bule da Maria Paula mas aqui a decoração floral foi feita a estampilha enquanto o dela apresenta um motivo de casario certamente pintado à mão livre....

quinta-feira, 1 de março de 2012

Prato de Massarelos


Quando se trata de abordar aqui faiança portuguesa, as peças, na maioria não marcadas, são um verdadeiro quebra-cabeças. Por isso, quando aparece alguma com marca, mesmo que difícil de identificar, é uma verdadeira bênção!
Sabemos que a partir do final do século XVI ou início do XVII, os malegueiros portugueses, sobretudo lisboetas, desenvolveram o fabrico de faiança azul e branca, tentando imitar e competir com a porcelana chinesa Ming que chegava ao porto de Lisboa nas caravelas e naus da Carreira das Índias.
Cerca de século e meio mais tarde, após o Terramoto que, com a destruição colossal que provocou em Lisboa, pôs termo a muita dessa produção cerâmica, que aliás já estava  em declínio,  foi o Marquês de Pombal o grande incentivador da abertura de manufacturas de loiça, não só em Lisboa com a Real Fábrica de Louça  ao Rato, mas também noutros locais do país que lhe seguiram o modelo.

Fábrica de Massarelos, Porto

No Porto, a primeira foi a de Massarelos, fundada em 1763 ou 1766 por Manuel Duarte Silva , que criou ali uma empresa familiar.
Ora este prato apresenta uma marca que José Queirós data ainda do século XVIII e que Artur de Sandão identifica como fabrico de Massarelos, do primeiro período da história da empresa (1766-1819).


O B maiúsculo acompanhado de uma espécie de acento circunflexo, neste caso a azul, mas também aparece a verde e a cor de vinho, é uma marca já referenciada por José Queirós na sua obra Cerâmica Portuguesa, de 1907, atribuindo-a a fabrico do Norte do fim do séc. XVIII, sem avançar com qualquer nome de fábrica.
Foi Artur de Sandão que ao encontrar peças muito idênticas, umas com esta marca e outras com marca já identificada como Massarelos, concluiu tratar-se do mesmo fabrico.
Este prato, com aba recortada ainda ao estilo Rocaille, segue uma moda decorativa que se encontra noutras produções portuguesas da mesma época, não só na fábrica do Rato, mas também em Viana, no Juncal e em Miragaia, com a flor de morangueiro ao centro e a chamada faixa de Rouen à volta da aba.


Sobre esta faixa dita de Rouen, já uma vez escrevi que estas modas nas artes decorativas me parecem uma pescadinha de rabo na boca. É que não é nada difícil perceber que  nestas decorações ruanescas  houve  influência da porcelana chinesa azul e branca que já tinha inspirado os malegueiros portugueses do século XVII. Foi essa nossa faiança  que, ao ser exportada para os países do centro e norte da Europa, ajudou a cimentar o gosto por esse tipo de decorações e as fez chegar à mesa do cidadão burguês, que não conseguia chegar à preciosa e delicada porcelana da China. Depois surgiu nesses países produção própria continuando a inspiração nos motivos chineses: na Holanda a conhecida faiança de Delft, na Inglaterra a chamada English Delft e na França penso que será a faiança de Ruão a entroncar nesta tendência.
Parece que foi então a vez de Portugal ir buscar à Europa além Pirinéus um modelo inspirado na porcelana chinesa que o nosso país, duzentos anos antes, tinha tido um papel fundamental em tornar mais conhecida e apreciada.
Prato da Fábrica do Rato marcado FRTB ( catálogo online da leiloeira S. Domingos)

Prato de Viana (catálogo online da leiloeira S. Domingos)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Jarra de altar em faiança azul e branca



Encontrei esta jarra de altar com forma de balaústre num antiquário do Porto. Já aqui tinha mostrado outra com a mesma forma, mas com tamanho e decoração diferentes, embora as riscas verticais do pé se mantenham.
Apesar de partida, faltando-lhe um bocado na aba da abertura, que entretanto já preenchemos grosseiramente, cativou-me a forma e a decoração, naquele azul cobalto a lembrar muita da produção oitocentista do Porto e de Gaia.


Mas o que me fez definitivamente comprá-la foi a inscrição "S. Pedro" que ostenta no bojo. Pensei imediatamente na Igreja de S. Pedro de Miragaia e daí na possibilidade de ser um produto  da Fábrica de Miragaia...
Lembrava-me de ter visto jarras deste género não só nos altares daquela  igreja, mas também no museu anexo e por isso, logo que pude, fiz uma nova visita à igreja de Miragaia, verificando então que as suas belas jarras de faiança azul e branca têm como inscrição as iniciais S.P.M. (S. Pedro Miragaia).


Comecei  a pensar que a jarra devia ter pertencido a uma outra igreja ou capela que venerasse aquele santo e com um pouco de pesquisa, fui parar à outra margem do rio Douro, mais precisamente à freguesia da Afurada em Vila Nova de Gaia, terra de pescadores, que tem como padroeiro S. Pedro.
A atual igreja de S. Pedro da Afurada é muito recente e moderna, mas foi construída para substituir a capela da Afurada, destruída pelas cheias do Douro, tendo ficado no estado que se vê em baixo, na grande cheia de Dezembro de 1909.


Há assim a possibilidade de que esta minha jarra tenha sido salva da destruição que afetou a capela e, quem sabe, seja uma peça  produzida pela local Fábrica da Afurada.
Mas Fervença, Bandeira, Torrinha e, sobretudo, Santo António de Vale da Piedade, também não estavam longe; pelos azuis intensos, com pinceladas muito visíveis, a última destas hipóteses parece-me bastante plausível.

A mesma forma de balaústre nas duas jarras de altar

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prato de Miragaia

Finalmente tenho um prato da Fábrica de Miragaia. E com marca!

Celebrando-se hoje o segundo aniversário do blogue Velharias, do LuísY, é a ele que dedico este post, com votos de que celebre muitos mais aniversários, para deleite de todos nós.


O prato foi oferta de uma querida amiga e minha madrinha (também minha comadre, já que dois filhos são meus afilhados, um deles padrinho da minha filha; é  afilhada da minha mãe que por sua vez é afilhada da mãe dela... estão a ver o intrincado da  relação... lol).
Sempre conheci os pratos Miragaia lá em casa, mas obviamente durante muitos anos não sabia do que se tratava. Este verão estive mais uma vez a apreciar um que está exposto, a ver a marca, Miragaia Porto por extenso, e a apreciar a pasta, lembrando-me das atribuições indevidas que se vêem pelas feiras. Ao falarmos dele a minha madrinha referiu que o par tinha sido partido por um dos meus afilhados em  miúdo, tinha sido colado mas não sabia onde ele parava. Acrescentou que se calhar alguém já o tinha deitado fora...
Imaginem o meu desgosto! Disse-lhe que de qualquer forma, se o encontrasse, eu gostaria muito de ficar com ele mesmo partido e colado (que descaramento!)
Finalmente - alegria!!! - o prato apareceu e foi-me oferecido.


Tinha uma cola amarela e estava muito mal colado, com junções mal ajustadas, abertas mesmo. Tive que meter mãos à obra e comecei pela descolagem.
Esqueci-me de tirar uma fotografia do estado em que estava antes, mas tirei esta depois de descolado.


Segui as dicas que me foram dadas por um vendedor, meu ex-colega, para a descolagem e limpeza e comprei uma cola recomendada pela conservadora e restauradora Sandra Pena. No fim o meu marido encheu as ranhuras com uma massa branca e eu dei-lhe uns retoques a azul.
Não se pode dizer que tenha ficado um trabalho perfeito, mas para mim é um encanto poder apreciá-lo, exposto no meu armário de faianças.
No catálogo da exposição "Fábrica de Louça de Miragaia"  editado pelo Museu Soares dos Reis em 2008, há um prato igual e com a mesma marca  na página 221.


No mesmo catálogo este motivo decorativo conhecido por "tipo país" utilizado no 2º período de fabrico (1822-1850), fase em que se pretendia imitar a faiança inglesa azul e branca, é associado a um exemplar da Herculaneum Pottery de Liverpool com um motivo central conhecido como "View in the Fort  Madura" da Indian Series.
Tenho um prato desses há anos mas não conhecia a relação entre os dois motivos e mesmo depois de já ter visto a exposição sobre a Fábrica de Miragaia, mas antes de comprar o catálogo, fui alertada para o facto num post do blogue do LuísY.


O prato que tenho há mais tempo é o da direita, em flow blue ou azul escorrido, mas o da esquerda que adquiri entretanto, deve ser mais antigo, quer por ainda se ver em baixo a chamada seam ou costura da junção da estampa na aba, problema que foi resolvido pela técnica do flow blue, quer pela tonalidade da pasta e rebordo no tardoz.
No meu fraco entendimento de pastas cerâmicas, acredito que o mais antigo seja em creamware e o outro em pearlware, até porque tem uma tonalidade azulada, caraterística da pasta desse tipo de fórmula.
As marcas também são diferentes, situar-se-ão entre 1810 e 1820, mais ou menos o período em que foi usado este padrão decorativo, tendo a fábrica sido encerrada em 1840.


O que é curioso é que o nosso motivo “País” da Fábrica de Miragaia e de outras que a imitaram, sobretudo Darque na opinião de José Queirós,está mais próximo da versão da Herculaneum do que esta está da pintura original de Thomas Daniell, do final do século XVIII . Até as flores em fundo esponjado da aba, usadas por Miragaia e que depois perduraram como cercadura muito típica nas faianças do Norte, devem ser uma cópia da aba de flores da versão Herculaneum. Nesta, a cena resultou de uma amálgama feita pelos artistas gravadores de elementos presentes em várias gravuras de uma série de paisagens indianas -  juntaram ao forte um arco, a vegetação luxuriante, incluindo as palmeiras, uma montanha e as figuras e assim criaram uma paisagem que nunca existiu. A Fábrica de Miragaia só não copiou a montanha e as figuras de homens e elefante, mas também há peças mais pequenas desta série da Herculaneum que não incluem estes elementos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Duas terrinas com pronúncia do Norte...



Estas belas terrinas ovais de faiança portuguesa, em muito bom estado de conservação, pertencem a uma colecionadora que já há algum tempo teve a amabilidade de me enviar  fotografias de várias peças suas desta tipologia.


O tom rosa usado neste exemplar não lhe retira o ar de pertença ao grupo a que chamamos "Cantão popular", habitualmente pintado a azul.


Cá estão em imagens repetidas os elementos habituais: o palácio, a ponte, o salgueiro muito estilizado, as nuvens, os traços paralelos representando a água.



 Pelo tipo de pegas, que conheço de outros exemplares, atrevo-me a dizer que será fabrico de Gaia, embora na ausência de marca seja quase impossível identificar a oficina ou unidade fabril que a produziu.



Não nos podemos esquecer que as oficinas e unidades fabris destinadas à produção de cerâmica proliferaram na zona de Porto e Gaia ao longo do século XIX, contando-se ali várias dezenas, tendo muitas prolongado a sua atividade pelo século XX.


Este segundo exemplar, o meu preferido, com a decoração País de Miragaia, tem um formato muito semelhante ao da terrina azul e branca que postei em Fevereiro, os moldes parecem ter sido os mesmos, e só pelo formato, que não conheço em peças marcadas da Fábrica de Miragaia, não me atrevo a atribuír-lhe essa origem, mas é uma hipótese que fica em aberto.


Cá está o edifício com a cúpula, assim como a palmeira, dois elementos caraterísticos do motivo País de Miragaia.
A verdade é que houve outras fábricas da zona, - Fontinha, Santo António de Vale da Piedade e até mesmo Darque em Viana do Castelo - que produziram imitações deste padrão de Miragaia.


As pegas são muito originais e só por si poderão permitir atribuição de origem a quem se dedique ao estudo comparativo destas faianças. As manchas azuis de esponjados, com flores deixadas em fundo branco, são muito caraterísticas da faiança azul e branca da zona do Porto e Gaia.


A tampa com os motivos alternados e uma pega em forma de cogumelo. Aqui, parece-me ainda mais notório que o molde foi o mesmo da tampa da terrina que postei em Fevereiro.

Entretanto, um mês depois de ter publicado esta mensagem, encontrei uma terrina exatamente igual a esta, no formato e no motivo "tipo país", identificada como Miragaia e neste caso com marca. Pertence à coleção do Museu de Arte Sacra de Arouca e está fotografada no catálogo de uma exposição ali realizada em 1998 intitulada "Mostra de Faiança Portuguesa",  promovida pela Real Irmandade Rainha Santa Mafalda/Museu de Arte Sacra de Arouca.

Não posso deixar de agradecer à possuidora destas faianças, não só a generosa disponibilização das fotos, mas também o cuidado que teve em fotografar as peças de várias ângulos, de forma a permitir a fácil visualização de todos os pormenores.