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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pratos atribuídos à Fábrica da Bandeira

Os pratos que decidi mostrar hoje são atribuídos à Fábrica da Bandeira, cuja produção muito se confunde com a da Fábrica da Fervença, ou vice-versa, tal como já referi no post de 26 de Janeiro último. 
São peças que fotografei em casa de familiares porque achei interessante apresentarem uma temática diferente de outros pratos Bandeira(?)  mostrados em http://velhariasdoluis.blogspot.com/search?updated-max=2011-01-28T17%3A15%3A00Z&max-results=7  e assim permitirem alargar o conhecimento dos motivos centrais, já que as cercaduras são muito semelhantes.

O tema central aqui é um casario numa paisagem campestre, com a particularidade de terem colocado um pássaro em tamanho desproporcionado num dos telhados. Não sei se a intenção era representar um galo, mas a verdade é que saiu o que me parece ser um corvídeo. Aqui se encontram muitos tons amarelos e alaranjados como é típico das fábricas Fervença e Bandeira,  ambas unidades gaienses do séc. XIX, muito notórios nas barras concêntricas que delimitam o motivo central.

Este segundo prato apresenta a mesma gramática decorativa, como dizem os especialistas nestas coisas, mas é menos elaborado no desenho central. Os elementos maiores de qualquer das cercaduras, flores e folhas,  parecem ter sido aplicados a stencil, como acontece em muitas decorações desta época. 

Finalmente um prato do mesmo tipo com  decoração mais elaborada, mas esta é uma peça em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, por isso pertence à "crème de la crème". É interessante verificar as semelhanças, sobretudo em relação ao primeiro prato, no tipo de flores e folhas da cercadura, nas cores usadas, a forma de desenhar as árvores a enquadrar toda a cena, mas obviamente há diferenças, sobretudo um maior número de elementos, com a inclusão de animais de quinta, um lago com gansos e um caminho ou um riacho,  para além do motivo sempre presente do casario. 



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Caneca em faiança neoclássica

Já que ando na onda das faianças, aqui vou mostrar mais um exemplar que comprei há menos de um ano. 


Este jarro ou  caneca, de que gosto muito, apesar das esbeiçadelas e de uma lacuna no bordo do bocal, tem sido para mim fonte de grande frustração neste âmbito das velharias. Quando o comprei, na feira de Aveiro onde vou com frequência, vendo o medalhão com o busto feminino, as figuras de putti e as grinaldas, tudo me pareceu déjá vu e achei que seria muito fácil descobrir-lhe a origem. Enganei-me.
É sem dúvida faiança neoclássica e os vários elementos decorativos lembram os que aparecem em faianças do Rato, de Estremoz, da Bica do Sapato, de Massarelos, de Vandelli, etc. No entanto, neste momento, começo a duvidar de que seja português porque, apesar de me fartar de pesquisar nas colecções dos museus do IMC e em livros e catálogos, nunca vi nenhuma peça de faiança portuguesa, da mesma tipologia, que apresente um bojo recto como esta. Só vejo jarros, infusas, canecas, com bojo curvo e também ainda não vi nenhuma decoração igual a esta ou muito parecida.



Haverá por aí algum amante de faianças que possa ajudar a resolver o mistério?

Pormenor de um prato Vandelli do catálogo da exposição "Cerâmica de Coimbra Séc.XVI - Séc. XX"

Grande caneca do Museu Nacional Machado de Castro
atribuída a Domingos Brandão da escola de Vandelli
A primeira foto do jarro ou caneca do MNMC foi-me enviada pelo Mercador Veneziano que prontamente respondeu ao meu apelo para identificar a caneca deste post e me colocou na pista mais plausível: tratar-se de uma peça Vandelli, ou seja, da Fábrica do Rocio de Santa Clara em Coimbra fundada por  Domingos Vandelli (1730-1816).


Terrina e tabuleiro Vandelli ao lado da peça de Domingos Brandão em exposição no Museu Machado de Castro (foto acrescentada em Jan. 2013)

                                                                                                                                

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Prato atribuído à Fábrica da Fervença

O  prato que a Maria Isabel, do blogue Lérias e Velharias,  mostrou no último post  http://leriasrendasvelhariasdamaria.blogspot.com/2011/01/faianca-de-fervenca.html faz-me lembrar este meu, que  também comprei como Fervença.

As ramagens são do mesmo tipo, só que neste caso a formar cercadura, e há várias cores coincidentes: o laranja, o vinoso acastanhado, o azul e o amarelo. Este meu prato tem cerca de 32 cm de diâmetro e é feito numa pasta fina, mais fina do que qualquer dos outros pratos grandes que tenho em faiança. Tem um cabelo, de resto está em bom estado, mas não foi nada caro.
No site de um antiquário de Vila Nova de Gaia, encontrei este outro exemplar com cercadura semelhante e também atribuído à Fábrica da Fervença.


A verdade é que a Fábrica de Viana, instalada em Darque em 1774, também utilizou este tipo de decoração, pelo menos numa moringa que se pode ver no 1º volume da Faiança Portuguesa séculos XVIII-XIX, de Arthur de Sandão, p.252. Ainda na mesma obra, mas no 2º volume, p. 180, encontrei um prato da Menina Gorda da Fábrica da Bandeira com ramos soltos deste tipo, à volta do motivo central.
Torna-se assim muito difícil ter certezas. De qualquer forma, como o nome Fervença vem sempre à baila, e muitas vezes associado a fabrico Bandeira, vou falar um pouco sobre estas duas fábricas.

Prato de Viana da colecção do Museu Soares dos Reis
A Fábrica da Fervença foi fundada em Vila Nova de Gaia, já em pleno séc. XIX (1824), cerca de dez anos antes da sua congénere Fábrica da Bandeira, fundada na mesma localidade em 1835. Talvez por esta proximidade geográfica e laboração em simultâneo, já que ambas terão encerrado no início do séc. XX em data não apurada, estejam tão próximas nos motivos e cores utilizadas e, na ausência de marcas, facilmente se confundirem.
Também é certo que na mesma altura, em Gaia, proliferavam as fábricas de faiança: para além das duas já referidas, existiam as de Afurada, Cavaquinho, e Sto. António de Vale da Piedade, estas vindo já do séc. XVIII, a que se vieram  juntar as da Torrinha,  Senhor d'Além e  Devezas um pouco mais tarde. A existência de oito fábricas num espaço que se imagina restrito, à época, pressupõe contactos entre elas e uma constante mobilidade de trabalhadores, resultando em influências mútuas na produção cerâmica.
Voltando à Fábrica da Fervença, é possível identificar com certeza algumas peças que apresentam uma marca R, provavelmente do pintor Ramalho, sendo reconhecida à sua faiança uma qualidade de destaque entre as suas congéneres, graças à  pasta fina e ao cuidado posto nas decorações,  com ricos tons amarelos e alaranjados.


Entretanto, o Mercador Veneziano enviou-me fotografias dum prato exactamente igual ao meu, que tirou dum catálogo de 1990 da leiloeira Palácio do Correio Velho.
Também neste  caso o fabrico é atribuído à Fábrica da Fervença.

                    

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Folha cerâmica de Manuel Mafra

Manuel Mafra (1829- 1905) foi o ceramista caldense a quem se atribui a introdução em Portugal da cerâmica naturalista ao estilo de Bernard Palissy, o chamado neo-Palissy. Este estilo, caraterizado pela moldagem em cerâmica de formas vegetais e animais, em loiça utilitária ou meramente decorativa,  veio a atingir o nível de excelência que todos conhecemos com Rafael Bordalo Pinheiro.

Manuel Cipriano Gomes Mafra, de seu nome completo, fundou uma fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha em 1853, segundo se crê numa antiga oficina que terá pertencido à quase lendária Maria dos Cacos.
Este ceramista inovou não só nas formas mas também nas técnicas de vidrado e assim veio a ser reconhecido e apoiado pela Casa Real, sobretudo pelo rei artista D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha.
Usou na marca de fabrico uma âncora sob o seu nome, gravada na pasta, mas após ter sido nomeado fornecedor da Casa Real, por volta de 1870, substituiu a âncora por uma coroa. Por qualquer razão que desconheço, em 1897 terá fundado nova fábrica e aí voltou a usar a marca da âncora gravada na pasta.
Penso ser desse período o recipiente em forma de folha que aqui mostro.

Curiosamente, no meu livro de marcas de cerâmica de Gordon Lang, Pottery & Porcelain Marks, Miller's, Great Britain, 1995, esta é uma das poucas marcas portuguesas referenciadas.
Entretanto, o Mercador Veneziano, seguidor deste blogue e de cujos três blogues sobre cerâmica também sou seguidora, enviou-me o link http://issuu.com/museusportugal/docs/manuel_mafra_-_ceramista que dá acesso ao catálogo online de uma exposição que decorreu no Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha intitulada "Manuel Mafra 1829-1905: Mestre na Cerâmica das Caldas".
Também me enviou esta sequência cronológica das marcas usadas por este ceramista caldense, que muito agradeço, baseada nos catálogos que possui:

 1853 - 1860 - MCGM aplicado à mão
1860 - 1870 - MCGM com âncora
1860 - 1870 - M. Mafra com âncora
1870 - 1887 - M. Mafra com coroa
1887 - 1890 - M. Mafra Filho com coroa
1897 - 1900? - variante M. Mafra com âncora

domingo, 26 de dezembro de 2010

Garrafa vassoura em faiança das Caldas

Garrafa vassoura
Vi-a no chão, no meio de outros objectos, na pequena feira de velharias da Curia e chamou-me logo a atenção, pelo formato e pelas dimensões.
Peguei nela e verifiquei q tinha uma marca no fundo, gravada na pasta, mas ilegível a olho nu. Perguntei à vendedora de que é que se tratava, mas ela não me soube dizer. Disse -me que a tinha comprado há poucos dias por também a ter achado uma peça interessante e nem tinha reparado que tinha marca.
Fez-me um preço muito razoável e eu trouxe-a para casa.
O fundo da garrafa sendo visível a marca oval
A peça parecia-me ter qualidade, quer pelo brilho do vidrado, quer pela modelagem naturalista, tão original.
Ao analisar melhor a marca, com a ajuda de uma lupa, e comparando-a com as marcas de fabricantes de faiança das Caldas - a hipótese que coloquei logo à partida - constantes do 2º volume da obra "Faiança Portuguesa" de Arthur de Sandão, verifiquei tratar-se da marca de António Alves Cunha, Caldas da Rainha.
A mesma marca encontrada num jarro à venda num site de leilões
António Alves Cunha (1856-1947) era filho de um outro ceramista caldense, José Alves Cunha, e dirigiu a sua oficina nas Caldas entre 1890 e 1925, tendo produzido uma variedade enorme de peças utilitárias e decorativas.
Investiguei ainda este formato de garrafa e descobri ter tido alguma popularidade nas Caldas da Rainha na viragem do séc. XIX para o XX,  já que encontrei outros exemplares em sites de leilões, em amarelo como esta, mas também  em verde, produzidas por outros fabricantes, nomeadamente Bello e Herculano Elias.
Era a época em que Raphael Bordallo Pinheiro, ao inspirar-se nos trabalhos do ceramista francês Bernard Palissy (1510-1590) criou formas vegetais e animais de uma qualidade surpreendente, reconhecida dentro e fora de portas. Nas colecções de artes decorativas dos museus ingleses, os que conheço melhor no estrangeiro, as formas de arte que nos representam são, para além dos painéis de azulejos do séc. XVIII, os azulejos e peças naturalistas de Raphel Bordallo Pinheiro.
Para os apreciadores da cerâmica das Caldas desta época, recomendo uma visita ao Aliança Underground Museum, nas Caves Aliança em Sangalhos, no coração da Bairrada, onde, entre outras colecções reunidas por Joe Berardo, se pode admirar um extenso e magnífico conjunto de peças Bordallo Pinheiro, estilo Palissy e outras.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Jarra de altar em faiança



Esta jarra de altar em faiança portuguesa, creio que de início do séc. XIX, foi comprada num antiquário na Figueira da Foz, a preço de saldo por lhe faltar um bocado na aba da abertura. Como não tinha aí qualquer decoração, mandei-a restaurar em Coimbra e fiquei muito satisfeita com o resultado. É certo que paguei pelo restauro o dobro do que dei pela jarra, mas mesmo assim não foi muito e valeu a pena porque adoro a peça.


O modelo desta jarra encontra-se muito em faiança de Miragaia, mas com motivos a azul e branco, de que se podem ver exemplares  na Igreja de S. Pedro de Miragaia, por exemplo. Já vi esta decoração em terrinas e é-lhes atribuído fabrico do Norte. No Museu Municipal de Viana do Castelo numa das vitrinas de loiça de Viana, há um jarro com um  motivo semelhante,  grinalda de flores e de pássaros nos mesmos tons, e se não estou em erro é fabrico de final do séc. XVIII.


Pode ser que alguém neste mundo virtual conheça o motivo e possa dar mais umas dicas sobre esta jarra de faiança, que só ficaria a ganhar se tivesse o par, mas enfim, não se pode pedir demais à vida...

Chávena do Museu de Alberto Sampaio datada dos Séc. XVIII-XIX


Par de jarras de fabrico atribuível a Miragaia ou a Santo António de Vale da Piedade
(MdS Leilões)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pratos de faiança com motivos florais

Um bom tema para iniciar o mês de Novembro. Já que as flores estão a acabar nos jardins, temos de nos rodear de flores de outra natureza.
Estes pratos grandes, tipo palangana, serão todos do final do séc. XIX, princípio do séc. XX.
Para além dos diferentes motivos centrais, acho muito interessante a variedade de cercaduras  inventadas pelos artistas populares que criaram as decorações destes pratos. É raro encontrarem-se duas iguais e é essa  grande originalidade, o carácter único de cada prato, que lhes dá sedução, para além da beleza da composição, simples e ingénua, quase infantil.

Este foi o primeiro prato grande de faiança que comprei, já lá vão uns doze anos. Foi  num antiquário da Mealhada, o Sr. Américo, que me fazia uns descontos no tempo em que as antiguidades estavam muito inflaccionadas, mas este prato, considerando que está gateado atrás, não foi nada barato. Atraiu-me nele sobretudo o grande vaso ou cesto de flores, a lembrar-me o cesto de flores do brasão da vila de Condeixa. Não sei se é de fabrico coimbrão ou se é fabrico do Norte, mas o tom de amarelo vivo  lembra Fervença ou Bandeira.

Este é talvez o meu prato de flores preferido. Os tons fortes, sobretudo o cor de laranja,  também lembram fabrico de Vila Nova de Gaia, Fervença ou Bandeira, mas vá-se lá saber ao certo. Foi comprado num antiquário de Aguiar da Beira, junto à estrada para Viseu. Parecia impecável quando o comprei mas a verdade é que passado algum tempo notei-lhe um cabelo. Não sei se estalou com  alguma diferença de temperatura durante a viagem ou já em casa.

Este outro está impecável mas tem uma decoração singela  numa pasta amarelada, diferente de todos os outros, certamente pelo tipo de vidrado que foi utilizado. Foi comprado no mesmo antiquário do anterior, numa outra ida à Beira Alta.

Mais um prato com tons pouco vistosos mas em excelente estado de conservação. Foi comprado num antiquário de Lamego, durante um fim de semana que lá passámos e eu quis trazer um "recuerdo". Este já é mais do tipo que eu associo a Coimbra, princípio do séc. XX.

A típica decoração de flores de Coimbra, pelo menos tanto quanto eu consigo identificar. É o exemplar de maior diâmetro (38cm) e é muito raso, ao contrário de todos os outros. Foi comprado numa ida para a Figueira da Foz num antiquário perto da Tocha, o Sr. Lucas e a simpática sobrinha Marisa, agora já formada em Direito, mas ainda uma entusiástica vendedora de velharias. Acho-o muito parecido com vários pratos da Maria Isabel, do blogue "Lérias e Velharias".

Finalmente este grande prato, embora sem marca, tem as flores, as folhas em pluma e o azul cobalto característicos da Fábrica do Cavaco - Gaia. Comprado pelo meu marido na feira de Coimbra, num dia em que resolveu alargar os cordões à bolsa... A figura que apresenta no centro parece-me de lavrador em traje domingueiro, só que não consigo identificar o objecto que leva pendurado na mão esquerda. Será um relógio de bolso? Mas porquê naquela posição? Outra coisa que me intriga é o tom vermelhusco que lhe puseram na cara, mas não na mão se a intenção fosse ser esse o tom de pele. Será que quiseram representar um bêbedo? É certo que ao Domingo os homens nas aldeias costumavam ir para casa com um grãozito na asa...
Aceitam-se palpites...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conjunto de cuspideiras de faiança...e uma VA


Este é um pequeno conjunto de cuspideiras e cuspidores ou escarradeiras e escarradores (todos estas palavras aparecem nos dicionários) na maioria de faiança, mas inclui uma de porcelana da Vista Alegre. Tenho-as na minha casa de banho do sótão a fazer companhia a uns penicos também de faiança que mostrarei noutra altura.

Cuspideiras de faiança, uma branca de faiança fina, com e sem tampa, sem marca
Já tendia a pensar que os termos no feminino se referiam às peças mais pequenas, sobretudo para uso  doméstico, e no masculino às maiores, usadas em salões, clubes, hospitais, hoteis, carruagens, etc. Só agora confirmei essa impressão no velhinho Novo Diccionario Illustrado da Língua Portugueza, de 1911.
Assim, encontrei aqui cuspideira e cuspidor como sinónimos de escarrador, mas depois aparecem as seguintes definições para escarradeira e escarrador:
Escarradeira, s. f. Vaso de cabeceira ou de sala no qual se escarra: o doente pediu a ----.
Escarrador, s. m. Espécie de caixinha de ferro cheia de areia ou serradura para deitar pontas de cigarro, escarrar, etc. / Escarradeira grande em sítio público.
Só um àparte sobre dicionários: na minha actividade profissional, sempre trabalhei  muito com dicionários, alguns enciclopédicos,  e desenvolvi algum gosto por estes objectos, tendo vários já muito antigos e desactualizados (séc. XVIII e XIX alguns). O certo é q me servem agora para encontrar nomes e definições de objectos do passado, quer em português, quer em inglês (o alemão está mais arrumado na prateleira até porque me é muito menos útil). Quando não têm o ano de edição, o que é raro, basta-me procurar palavras que designam objectos só inventados ou conhecidos no séc. XIX ou XX, para datar mais ou menos a edição.



Cuspidor da Fábrica de Loiça de Sacavém e respectiva marca

As cuspideiras e cuspidores são peças que caíram em desuso há muito tempo, mas fazem parte da história social, sobretudo do séc. XIX, acompanhando uma certa preocupação pela aquisição e manutenção de hábitos de higiene, neste caso procurando evitar o feio e insalubre gesto de cuspir para o chão.
Na Inglaterra e nos Estados Unidos começaram a usar-se mais ou menos ao mesmo tempo, a meados do séc. XIX, 1840 segundo informação que encontrei na Wikipedia mas que nem sempre é credível. 



Cuspidor, inglês ou americano, numa só peça, com orifício para drenagem, sem marca
Este cuspidor em faiança castanha marmoreada, moldado com formas de conchas (comprado na feira da Vandoma no Porto por 4€) é muito típico de um certo fabrico americano, o chamado Bennington's Rockingham, mas difere no acabamento do fundo porque os americanos ficam a branco.
A verdade é que as fábricas americanas copiavam as inglesas quase ao mesmo tempo e é difícil  distinguir a origem, mas irei continuar a investigar.
Quando andei a pesquisar na net sobre o meu cuspidor castanho marmoreado, descobri que para além de se chamar spittoon (do verbo to spit - cuspir), o termo que eu conhecia em inglês, também lhe chamam , sobretudo nos Estados Unidos, cuspidor e eu pensava que o termo tinha vindo do espanhol por influência dos países hispânicos vizinhos. Afinal, a palavra é referida em dicionários  ingleses e americanos como sendo proveniente do português from the verb "cuspir" meaning "to spit". Segundo estas fontes, os cuspidores eram utilizados especialmente por quem usava tabaco de mascar e depois o cuspia, claro, muito antes do advento da pastilha elástica. Conhecendo nós os contactos multiculturais que os nossos antepassados estabeleceram e cultivaram nas suas deambulações pelo mundo, ao longo de cerca de 500 anos, nada custa a admitir que tenham sido eles, não só a dar a conhecer o tabaco e as formas de dele usufruir aos povos europeus, mas também a trazer da China aqueles recipientes que lhe viriam a ser associados, embora também usados noutros contextos. Assim, terá sido o nome dado em português, cuspidor, que chegou primeiro aos europeus anglo-saxónicos.
 Estes recipientes deixaram de ser usados em locais públicos a partir de meados do séc. XX, nos países ocidentais, porque na China, onde este objecto era utilizado há séculos, só foi abandonado mais para o final do século.

Agora apresenta-se a princesinha do grupo:

Cuspideira Vista Alegre, marca VA azul
Cá estão as belas florzinhas do séc. XIX nesta cuspideira da Vista Alegre, mas infelizmente falta-lhe a tampa que também devia ser muito delicada.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tigela antiga de faiança



A propósito de um comentário ao post anterior por parte da Maria Isabel, seguidora deste blogue,  lembrei-me que tinha esta tigela ou malga ou taça, que me parece corresponder à descrição que ela faz das tigelas para o crescente do pão. Tem um restauro caseiro, mal amanhado, mas sempre deu para disfarçar uma grande esbeiçadela que tinha. Nota-se um granulado, sobretudo atrás, que forma manchas acinzentadas e que me fartei de esfregar em vão, antes de chegar à conclusão que é sujidade incorporada na pasta, causada certamente por fumo ou cinzas da cozedura a lenha.


Vivia aqui numa dependência da cave, meio desprezada, e eis que agora foi reabilitada e já teve honras de ser fotografada e exposta...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pratos ratinhos e afins





Resolvi concentrar numa parede da cave de minha casa, as faianças que identifico como ratinhas, umas mais típicas e mais antigas do que outras mas todas com o ar rústico que as carateriza.


São bacias ou palanganas, pratos, pratinhos e pequenas tigelas ou covilhetes que têm como denominador comum  a sua origem coimbrã e o seu caráter utilitário  em casas camponesas, acompanhando os trabalhadores sazonais, os ratinhos, para o Alentejo e Ribatejo.
A melhor coleção que já vi deste tipo de loiça faz parte do acervo da Casa Museu de José Régio em Portalegre.
Segundo reza a história, o escritor José Régio,  professor liceal  em Portalegre durante mais de três décadas, ocupava as horas vagas correndo as aldeias alentejanas, acompanhado de um homem com um burro para transportar a carga. Adquiria todos os exemplares que encontrava não só de Cristos, com que constituiu a sua mais conhecida e apreciada coleção, mas também de faianças do tipo ratinho, as que encontrava mais frequentemente nos lares rústicos do Alentejo.

 Quanto às minhas faianças deste tipo, foram quase todas compradas em mau estado, por isso a preços mais suportáveis, o que lhes pode tirar valor comercial, mas aos meus olhos não lhes tira o encanto. Duas foram restauradas, mas depois não gostei do resultado porque perdem autenticidade, ficaram baças devido ao acabamento que levaram.


Este prato grande, restaurado como se vê, foi comprado numa casa de velharias em Nisa e , segundo o vendedor, era chamado prato dos casamentos, por ser neste tipo de prato que os noivos mandavam iguarias de carne aos seus vizinhos e amigos por altura da boda. Nunca consegui confirmar esta informação, mas acredito que fosse um costume local.


Esta bacia foi comprada em Lagos e, apesar do estado em que está, é a minha preferida. O verde muito intenso, mais do que se nota na fotografia, e os esponjados a vinoso, sem preocupação de simetria, dão-lhe um ar único e muito especial.


A esta chamo alguidar por ser mais funda. Tem uma série de gatos atrás, mas acho-a muito bonita. Lembra-me asas de pássaros em pleno voo, desenhadas de uma forma muito ingénua. Estava no chão há uns anos na feira de Coimbra, era barata, e lá veio cá para casa.


Outra das minhas preferidas pela intensidade das cores, mais uma bacia. Precisava de um jeito no centro, mas ainda não lhe mexemos. Tenho medo de a lavar com soluções de lixívia ou de água oxigenada porque podem danificar a pasta. Comprada na feira da Mealhada, tem atrás o número 52, escrito a tinta dentro de um losango, pelo que pode ter feito parte de uma coleção de faianças... ou então veio de um lote de leilão.


Este prato foi o primeiro ratinho que comprei, sem saber nada do que se tratava. Tinha vinte e tal anos, vivia em Condeixa e entrei na loja de velharias do Sr Franquelim, que já me encantava na altura. Ele tinha em cima do balcão uma série de pratos e travessas e eu perguntei-lhe quanto custavam. Ficou admirado de eu querer aquilo, disse-me que eram coisas de uma velhota que tinha morrido há pouco e que eu conhecia, pediu-me pouco dinheiro e eu levei as peças para casa. 
Eram três travessas ovais de esponjados, este prato e outro igual que passado algum tempo se partiu, e uma tigelinha verde que também está na minha parede e que eu pensava que era usada para guardar o crescente para fazer o pão.


As minhas tigelinhas ou covilhetes ratinho, sendo a da direita a que tenho há mais tempo e está na parede na primeira foto.