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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um pires de Sto. António de Vale da Piedade (?)



A divulgação feita pelo LuisY, no Velharias, da dissertação de mestrado da FLUP: A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista, da autoria de Laura Sousa, foi uma porta aberta a muitas tentativas de identificação de faiança não marcada com caraterísticas nortenhas.
Passei a olhar para muitas das peças de faiança que me rodeiam, em azul e branco ou em policromia, à luz das fotos que aparecem publicadas, procurando motivos, pormenores de cercaduras, formatos...
Assim, foi-me possível, por exemplo, a atribuição deste singelo pires de faiança a fabrico de SAVP, por comparação estilística com fragmentos de pratos e chávenas encontrados no levantamento arqueológico realizado no sítio da antiga fábrica, fotografados e publicados na referida obra.


Pormenor de fotografia publicada na página 129 do volume III que mostra um pires da FSAVP

Não foi tanto a paisagem central do pires, aparentada com os motivos de Cantão Popular tão presentes na nossa faiança nortenha, a dar o clique para a atribuição, mas antes a cercadura, com aquelas volutas ou arabescos franjados, que não conhecia de outros fabricos.


Não me foi possível comparar a forma do pires com desenho do mesmo tipo de peça, já que não é um dos desenhos constantes da obra, mas seria um dado importante, dado o caraterístico requebro presente no tardoz.

Tardoz do pires
Com o mesmo motivo destas peças e a mesma cercadura, encontrei num leilão da internet esta belíssima terrina, já vendida :( e, como seria de esperar, apresentada como Miragaia. É sem dúvida o motivo referido por Laura Sousa, como o subtipo 2.2 da louça azul e branca Cantão Popular, que aparece em vários fragmentos do levantamento arqueológico por ela dirigido.

Terrina apresentada como Miragaia em Imagens Raras

O motivo principal da terrina

O motivo central do meu pires
Mas não é só este pires que tenho agora como fabrico SAVP.
Ao "folhear" online a obra de Laura Sousa, encontrei fotografado um galheteiro igual a um exemplar meu que já aqui mostrei, com as caraterísticas "flores de Miragaia". A autora admite que seja de Santo António de Vale da Piedade, não só pela decoração, mas também pelo formato da concha para o sal ou especiarias, já que foram encontrados fragmentos de conchas com este formato e decoração.


Uma das curiosidades interessantes que encontrei na obra, foi a listagem no volume III das formas produzidas pela fábrica entre 1795 e 1877. Dela  constam nomes de objetos que já dificilmente reconhecemos, por exemplo, o nome de "talher" dado aos galheteiros. Na listagem por ordem alfabética aparecem na página 102  os termos "talher de concha" e "talher de grade" . Depreendo que os galheteiros de grade fossem do tipo em que as galhetas encaixam numa base vazada, como os exemplares que apresentei num poste de Julho de 2013. Os de concha seriam precisamente deste tipo que está na foto, com o recipiente frontal em forma de concha. Em 1877 ainda se fabricavam ambos os modelos com decoração de "fino azul".
Uma outra curiosidade interessante para mim foi o "Arte, livros e velharias" constar na lista bibliográfica desta dissertação de Laura Sousa, a propósito de uma marca da fábrica de Santo António que aqui apareceu num dos postes sobre a mesma. É muito bom saber que o blogue já teve alguma utilidade para o estudo da faiança portuguesa, graças às partilhas e aos contributos de seguidores e amigos.

Voltando à primeira peça, afinal não tenho um pires igual à bela chávena policromada do Luis, comprovadamente de fabrico SAVP, mas tenho um pires que lhe é atribuível :)) e encontrar a provável maternidade de qualquer peça antiga é sempre uma satisfação, por mais pequena ou insignificante que possa parecer.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Galheteiros atribuídos a Miragaia

(Ora vamos lá desviar a atenção de manobras políticas e noticiários...)


Este belíssimo galheteiro que aqui apresento em primeiro lugar, pertence a  pessoas amigas que também se perdem por antiguidades e velharias.
Onde quer que vá, os olhos ficam-me logo nestas coisas e como agora ando quase sempre com a máquina fotográfica...
Nunca vi igual em catálogos e não está marcado, mas os meus amigos compraram-no como Miragaia, o que, pelos tons de azul e o  requinte dos pormenores, sobretudo o trabalho da base, me parece muito provável, até do período Rocha Soares, pai.


Também muito provavelmente da Fábrica de Louça de Miragaia é o galheteiro acima, uma das poucas compras que já fiz pela internet, mas com entrega em mão em Coimbra. Apesar de lhe faltar a pega, que é um elemento importante neste tipo de peças, considero que foi uma boa compra! Afinal o vendedor até conhecia o meu marido, de outros contextos, e embora o preço fosse já muito razoável, ele ainda nos fez um desconto ;)
Até o mundo da internet por vezes se torna pequeno...


Comparando as duas fotografias, vê-se bem como as tonalidades de azul se apresentam diferentes, pela incidência da luz em diferente hora e local, o que mostra como são falíveis as comparações de cores por reprodução fotográfica ou via net.
Não está marcado, mas com aquelas flores e a base vazada, tem um ar muito miragaiense, talvez não do primeiro período (1775-1822), mas do segundo período de laboração (1822-1850),  períodos considerados e descritos pelo catálogo Fábrica de Louça de Miragaia, Lisboa, IMC, 2008.
Procurando no MatrizNet, encontrei peças semelhantes na coleção do  Museu Abade de Baçal - uma base sem galheta e um galheteiro completo, ambos sem marca, mas com atribuição a Miragaia com ponto de interrogação..

Coleção do Museu do Abade de Baçal
Tenho pena de não conseguir ver a pega desta base de outro ângulo. Segundo a descrição, na ficha de inventário, tem pormenores  muito interessantes, com peixes a formar as hastes, terminando numa mão que segura uma argola, o que certamente enriquecerá a restante decoração.
Coleção do Museu do Abade de Baçal
Em qualquer das bases os pés são do mesmo tipo, mais um pormenor a apontar para o mesmo fabrico, o que me deixa cheia de satisfação por ter algumas pistas fiáveis em relação à origem do meu galheteiro.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Galheteiro em faiança de Gaia ou de Miragaia?



Tinha este galheteiro de faiança já há algum tempo à espera de saber algo mais sobre ele, para além de, pela decoração, lhe atribuir origem "porto-gaiense". Bem sei que haveria muita gente a afirmar a pés juntos que ele é de Miragaia, mas já sabemos como essa atribuição é muitas vezes errónea, havendo várias outras possibilidades.
Os galheteiros que tenho visto com atribuição séria a Miragaia, ou estão marcados com o R de Rocha Soares, ou, marcados ou não, apresentam a base vazada, em policromia com grinaldas ao gosto neoclássico ou com argolas circulares ou ovais que se sucedem a toda a volta.


A semana passada, na minha última visita ao Museu Soares dos Reis, no Porto, reparei num exemplar em pó de pedra dentro duma vitrine, com exatamente o mesmo formato deste meu galheteiro, quer na pega, quer nos encaixes cilíndricos da base, quer no recipiente frontal em forma de concha com tampa. Vê-se a parte de trás na foto dentro da vitrine, e foi pela forma da pega, em D ou orelha, que me apercebi da semelhança.

Vitrine do Museu Soares dos Reis com faiança da Fábrica do Cavaquinho

Entretanto, já encontrei vários com a mesma estrutura e formato nas coleções dos museus nacionais, uns em pó de pedra outros em faiança mais grosseira, mas sempre em museus do Norte. Foi do Matriznet que copiei a foto que se segue, do mesmo exemplar que está dentro da vitrine, e para comparar juntei-lhe uma fotografia do meu galheteiro em "pose" idêntica.



Acontece que o galheteiro do MNSR,  como as restantes peças de pó de pedra que o acompanham, está atribuído à Fábrica do Cavaquinho, uma das unidades cerâmicas instaladas junto ao Douro no final do séc. XVIII, a par de Massarelos e de Miragaia, mas na margem de Gaia. Só que se trata de uma segunda sociedade fundada com este nome em 1786, que integrava o Dr Domingos Vandelli  já ligado à produção cerâmica em Coimbra, e que, ao contrário da primeira unidade fabril, dedicada à faiança, decidiu lançar-se no fabrico de louça de pó de pedra à maneira inglesa, projeto que foi bem sucedido durante alguns anos, até às invasões francesas. É desse período o galheteiro que se vê na vitrine.


Quanto a este meu, não será fabrico Cavaquinho, pelo menos não desse período já que não é em pó de pedra e tem um vidrado muito brilhante, mas é possível que tenham pertencido a essa fábrica, ou sido dela copiados, os moldes onde ele foi buscar a forma.
A Fábrica do Cavaquinho, em fases posteriores, dedicou-se à faiança de novo e pode até ter fabricado este tipo de galheteiros. Mas já em período decadente, a meados de oitocentos, acabou por ser vendida ao proprietário da Fábrica da Fervença, quando este teve que abandonar as primitivas instalações, bastante próximas do centro de Gaia, e passou a laborar ali. Quem sabe se ainda lá estavam muitos dos primitivos moldes prontos a serem reutilizados?
E agora, só para baralhar um pouco, resolvi aqui acrescentar uma base de galheteiro que encontrei à venda numa feira... como azeitoneira!


Está em péssimo estado, com o vidrado todo a descascar-se, mas a forma é a mesma, ressalvando que os encaixes cilíndricos são mais baixos e de maior diâmetro, como ligeiramente maior é o tamanho da concha.

Quanto à decoração, onde é que eu já vi isto? Lá para os lados de Viana... ou será Fervença?!

Entretanto, mais uma vez a If, que também gosta de galheteiros e no seu comentário admite a hipótese de o meu galheteiro ser de Miragaia - eu diria que sim pela decoração mas não pela forma - enviou-me várias fotografias de um belo exemplar seu, certamente bastante mais antigo e com pormenores de maior requinte.

A mesma estrutura e número de elementos

A elegância das galhetas e a concha com divisória ao meio

Decoração de grinaldas e laços ao gosto neoclássico

A pega mais fina mas de desenho semelhante
Este a ser Miragaia, uma hipótese que também se coloca, seria certamente do 1º período (1775 - 1822).

Graças à achega da If sobre o meu galheteiro, até já acrescentei o título do post!!!

Nota: A informação que aqui partilho sobre a Fábrica do Cavaquinho obtive-a em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3834.pdf

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Galheteiro em faiança de Viana (?)

aqui mostrei, em Outubro do ano passado, galheteiros atribuíveis a Estremoz, mas por uma razão ou por outra, tardei a voltar a este tema.
Afirmei na altura que gosto especialmente destes objetos, mas não confessei que fiquei ainda mais encantada e motivada :) ao ver uma coleção de algumas dezenas na casa de uma familiar de pessoas amigas, no centro de Lisboa. Várias prateleiras com filas de galheteiros antigos de faiança... é uma vista magnífica!
Só que são objetos que resistem mal à passagem do tempo.
Sendo a faiança um material facilmente quebrável, o facto de estes recipientes servirem a  azeite, tornando as superfícies viscosas e escorregadias ao manuseamento, agrava a probabilidade de queda e quebra. E não nos podemos esquecer que nos ambientes rurais a janta ou a ceia consistia em muitas casas invariavelmente no escorrido ou escoado, isto é batatas cozidas com hortaliça, uma postita de bacalhau ou outro peixe, quando o havia, e um fiozinho de azeite a alegrar o menu. E lá vinha o galheteiro, para muitos um luxo, diariamente para a mesa.


Tudo isto para dizer que o meu galheteiro de hoje está cheio de mazelas, de faltas e defeitos como dizem os catálogos das leiloeiras, mas está completo, o que nem sempre acontece.
Não tem qualquer marca e talvez por isso e pelas mazelas comprei-o a um preço convidativo, mas para quem conheça faiança de Viana e especificamente galheteiros de Viana do século XIX, a atribuição parece-me inevitável. 



A haste central com a pega em forma de lira (obrigada if) é muito caraterística, assim como o formato das galhetas, com o bico pronunciado e a tampa estilo boné.



É um galheteiro bastante pequeno, com galhetas baixinhas e gorduchas, o que lhe dá graça, tendo cada uma apenas 11cm de altura, incluindo a tampa.



A estrutura da base consiste em quatro pequenas taças separadas, ligadas por "pontes" a formar um quadrifólio, no centro do qual se insere a haste que serve de pega. Tenho visto este formato muito usado em galheteiros do Norte, pelo menos Viana ou Darque e Torrinha têm exemplares marcados com estas caraterísticas, mas têm geralmente as galhetas mais altas.
Galheteiro fabrico de Darque-Viana, séc. XVIII/XIX, marcado com V, de um catálogo da leiloeira S. Domingos
Entretanto, a nossa amiga e colecionadora de faianças, que também gosta de galheteiros e já disponibilizou imagens de um galheteiro de Estremoz, enviou-me fotos de um belo exemplar de Viana, marcado.


Pela decoração ao estilo neoclássico a vinoso, diria que se trata de fabrico do século XVIII, da primeira fase de produção da Fábrica de Viana que laborou em Darque de 1774 a 1855.


A estrutura da base é a mesma dos anteriores galheteiros que aqui vemos e novamente tem a pega da haste central em forma de lira, mas as pegas dos recipientes  apresentam um belo formato em folha e não um simples botão, revelando uma preocupação em dar requinte aos pormenores que me parece apontar para as primeiras fases de fabrico de Darque.


Muito obrigada a esta estimada amiga por mais uma partilha que tanto veio enriquecer o post!


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Galheteiro em faiança de Estremoz(?)




Gosto de galheteiros. Quer sejam em vidro, em cristal, em porcelana ou em faiança, são sempre peças airosas com vários componentes de pequenas dimensões e eu, pelo menos em objetos, partilho com os britânicos a opinião de que "small is beautiful".
Não tinha nenhum de faiança mas neste verão comprei quatro, não de uma assentada só, mas de duas assentadas :) . 

Foram todos comprados ao mesmo vendedor em duas feiras de velharias. Deve ter sido um lote que ele  comprou com defeitos e por isso ficaram a preços razoáveis. Este foi o mais caro apesar de ter dois enxertos em vez das asas originais e  restauros nas tampas.




Apresenta aquele tipo de decoração que se identifica como Estremoz e se for essa a origem, será que é anterior a 1808, data do fecho da Fábrica Viúva Antunes, ou terá havido ali outras unidades cerâmicas que continuaram este tipo de produção? 
Aqui vemos os típicos rochedos a manganés em primeiro plano, elementos vegetalistas de folhas e flores, e uma casa sugerida por linhas amarelas verticais, horizontais e oblíquas, como também é típico nestas decorações de paisagens.


Uma outra hipótese, atendendo à decoração, é ser da Real Fábrica da Bica do Sapato em Lisboa, encerrada por volta de 1820, cujas peças também apresentam muitas vezes este tipo de paisagens.
Mas ainda para baralhar mais as coisas temos as nossas faianças do Norte, com a proliferação de unidades fabris que já conhecemos, tendo algumas copiado modelos de outras, vizinhas ou distantes...


Assim, sem marca - há apenas umas marcas a verde numa das bases das galhetas, mas penso que serão marcas de pintor ou ensaios de cor para a pintura -  fica sempre a dúvida, mas gosto de acreditar que tenho em casa um galheteiro de Estremoz. E bem bonito, diga-se.
Acho encantadoras não só a pega com as suas aletas mas as próprias conchas que servem de saleiro e de pimenteiro com aquela espiral no meio. Já vi outros galheteiros com estes concheados atribuídos a Estremoz.

E agora, mais uma vez tenho que agradecer a colaboração da colecionadora de faianças já nossa conhecida que, sabendo que eu tinha comprado um galheteiro deste tipo, se dispôs a enviar-me fotografias de um seu exemplar muito parecido, atribuído a Estremoz.
Elas aqui estão, de uma belíssima peça, muito bem fotografada como já nos habituámos a ver nas fotos desta nossa amiga.


Começo por salientar a semelhança dos dois galheteiros no formato da pega com aquelas curvas e contra-curvas, as chamadas aletas em linguagem técnica. A tampa da galheta também é idêntica, quer na forma, quer na decoração.


Ao contrário das galhetas de outros galheteiros que apresentam a linha do bojo quebrada - como exemplo, há dois mostrados pelo LuísY do Velharias num post de Janeiro deste ano - nestes o bojo das galhetas é arredondado, numa linha curva contínua até ao pé.
As paisagens num e noutro galheteiro têm os mesmos elementos base.

     

Aqui admiro o belo perfil da galheta com a sua elegante asa original.


À exceção do saleiro e do pimenteiro, com as deliciosas tampas ainda intactas, todas as formas da base são idênticas nos dois galheteiros, mas não a decoração.

Para terminar, mais duas galhetas soltas da nossa colecionadora, das tais com o bojo em linha quebrada, uma com faixa azul e outra com faixa rosa.




São ou não são um encanto? A mim parecem-me miniaturas destinadas a brincadeiras de crianças :).
Espero que tenham gostado de apreciar estas belas peças de faiança portuguesa.