Bem, esta coisa dos aniversários ou datas importantes do blogue, começa a parecer rotineira, mas a verdade é que o Arte Livros e Velharias faz hoje dois anos.
Durante este tempo, afastei-me um pouco dos propósitos iniciais, ou seja, acabei por descurar o tema livros e dedicar-me sobretudo à cerâmica, a área das velharias e das artes decorativas que afinal me entusiasma mais e que encontra mais adeptos neste núcleo bloguista.
Assim, resolvi partilhar neste post comemorativo o último exemplar de faiança ratinha que comprei, talvez o maior e melhor de todos os que fui reunindo.
Tem história para contar, pelo menos tem as cicatrizes de um bom tombo, com restauro e gatos no tardoz, mas é uma palangana (36 cm de diâmetro) com esta decoração riquíssima de flores e folhas a que é difícil resistir, do tipo flores com filamentos em pena de pavão, segundo a classificação da investigadora
Ivete Ferreira .
Vou agora confessar aqui que, como outros apreciadores de faiança, há outras coisas a que não consigo resistir: apanhar um ou outro caquinho colorido que se atravesse no meu caminho.
Penso que será a atração das cores vivas, ou uma costela de Gaudi ou talvez recordações de infância em que quando eu e as minhas amigas descobríamos cacos coloridos nalgum quintal, eles tornavam-se brinquedos tão aliciantes como os outros que tínhamos, de plástico, de lata ou de madeira...
Confissão feita, vou mostrar parte da recolha que fiz este ano na Figueira da Foz, enquanto fazia as minhas caminhadas numa zona perto da praia.
Esta seleção é toda de faiança ratinha e muitos não são propriamente caquinhos, são mesmo cacos, bocados com alguma dimensão, que permitem adivinhar os motivos, aqui mais de vinte diferentes.
Para além destes, encontrei muitos fragmentos sem decoração, caraterísticos fundos de taças, por exemplo, ou com apenas a barra azul ou em ziguezague da borda, que se incluem igualmente na faiança ratinha; também, em menor número, faiança azul e branca, algum cantão popular, restos de azulejos maioritariamente lisos, sem interesse à exceção de um fragmento de
azulejo Delft (nada de estranhar na Figueira da Foz...) e, claro, muitos caquinhos de pratos de Sacavém e congéneres.
E agora perguntam os meus amigos e leitores. Mas onde e como se juntou tanta loiça partida no mesmo local?
É claro que os cacos não estavam todos juntos ali à mão de semear :), estavam em montes de areia depositados na entrada do molhe norte junto à praia e o que saltava mais à vista eram bocados de telhas, de tijolos e pedras. Ao passar e ao olhar para aquilo apercebi-me de alguma cor pelo meio e assim descobri que havia muitos bocados de faiança e até de porcelana VA, sobretudo branca...
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| O forte de Santa Catarina marcava, até há poucas décadas, a foz do rio Mondego. É neste local, à volta do forte, que estão a decorrer as obras. |
Terão vindo de uma zona de obras perto do Forte de Santa Catarina, mesmo em frente à Esplanada Silva Guimarães. Pelo que me explicou um trabalhador, quando andaram a abrir uma vala comprida para fazerem fundações e alargarem a estrada, transportaram o entulho para este sítio bastante próximo, junto ao molhe.
Ora o local da vala, há algumas décadas, antes de construirem o molhe que atirou a foz do rio mais para diante, era mesmo junto à foz do Mondego, embora já na zona de praia banhada pelo mar. Imagino que ali se depositassem, misturados com areia, muitos objetos partidos que à época as pessoas deitavam fora para os cursos de água.
Mas acabei por encontrar um inteiro :) - nem mais nem menos que uma pequena trempe (7 cm de lado) de forno de oleiro, com que se separavam as peças empilhadas durante a cozedura e que deixavam nas faianças aquelas três marcas sem vidrado que conhecemos.
Estes achados penso que podem confirmar a grande produção e utilização de faiança ratinha na zona centro e a existência de olarias nos arredores da Figueira da Foz, pelo curso do rio Mondego acima, até Coimbra e ainda mais a montante. E se tivessem sido detetados e estudados no primeiro local de depósito, onde os fragmentos estariam menos partidos e em maior número, poderiam ter lançado alguma luz na história da produção de faiança popular nesta zona.
Entretanto, deste local onde os encontrei, todo aquele entulho estava novamente a ser transportado para aterros numa zona industrial e por isso todos os dias ali andava uma máquina a encher dois camiões e a pôr a descoberto mais fragmentos, sendo que alguns iam aparecendo completamente trucidados.
Sabemos como estas coisas são tratadas noutros países e o Fábio Carvalho tem-nos contado no seu Porcelana Brasil o que acontece no
Rio de Janeiro ou em
Manaus quando se fazem escavações na zona histórica. Aqui, quer em Lisboa, quer na Figueira da Foz, quer noutros locais do país, em geral ninguém liga aos fragmentos cerâmicos, a não ser que estejam em sítios arqueológicos bem antigos a ser alvo de estudo.
De qualquer forma, aqui fica a história contada; os cacos ficam guardados até que um dia, quem sabe, alguém se interesse... faça deles um painel todo artístico... ou, o mais provável, vão todos parar ao lixo...