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terça-feira, 7 de julho de 2015

Um novo estudo sobre faiança de Coimbra



Há poucos dias tive a grata surpresa de receber uma oferta que me encheu de satisfação: a obra que eu há muito aguardava, Louça tradicional de Coimbra  1869-1965, da autoria do meu amigo António Pacheco, responsável pela coleção de Cerâmica do Museu Nacional Machado de Castro e co-autor da monografia Cerâmica de Coimbra - Do século XVI a XX.


O espaço temporal sobre que incide este estudo vem dar continuidade à monografia que menciono em cima, já que se concentra na produção coimbrã de final do século XIX e do século XX.
É objeto desta publicação  muita faiança não marcada, com caraterísticas cercaduras estampilhadas, muitas vezes em formas oitavadas. Mas já aparecem algumas marcas de fabricante, sobretudo do século XX, como Alfredo Oliveira e Viúva de Alfredo Oliveira, Retiro das Lages ou José Cardoso & Cª.


Este livro é profusamente ilustrado, com exemplares, não só de Faiança Ratinho, mas também com Cantão de Coimbra, Cerâmica Falante, "Louça de Vandelli", Faiança Historiada,...


A caneca oitavada, que figura na primeira fotografia podia ter integrado a obra, já que apresenta uma marca rara do período tratado. Só que já chegou tarde às minhas mãos, e quando dei conta dela ao autor, a obra já estava para a tipografia e não foi possível fazer o acrescento.


A decoração marmoreada em azul tem um pormenor de  traços a vinoso que  lhe enriquece o efeito e lhe dá um ar mais arcaico. Mas o principal interesse da peça é a marca Veiga Succes COIMBRA que aponta para fabrico anterior a 1911-12, dada a forma escrita abreviada de successores. 
Com efeito, é a 1ª Reforma Ortográfica de 1911, levada a cabo após a Implantação da República, no sentido de simplificar a escrita e fazer chegar a literacia a mais vastas camadas da população, que elimina as consoantes duplas cc, (diccionário), ll (illustrado), nn (annúncio) e substitui os ph por f, afastando assim muitos vocábulos do seu étimo latino ou grego.
(É por isso que me dá vontade de rir quando se utilizam os argumentos da etimologia para contestar o último acordo ortográfico...)


Este Veiga Successores refere-se certamente à Fábrica de Leonardo António da Veiga, 1870-1915, que já é referido por José de Queirós como laborando na Rua Simão de Évora e na Rua da Louça e que participou e foi premiado na Exposição Distrital de Coimbra de 1884.
Finalmente deixo aqui duas travessas oitavadas com interessantes motivos centrais, claramente filiadas na produção coimbrã de final do século XIX ou início do XX. Na primeira, os eternos corações flamejantes rodeados de coloridas flores, bem apropriados a humildes prendas de casamento ou de namoro; na segunda, também rodeado de flores em grinalda, o busto de uma guapa espanhola, estilo sevilhana, com a sua peinheta na cabeça - sempre as espanholitas a despertarem a imaginação do nosso Zé Povinho...


Estão as duas partidas e coladas, uma com gatos, outra não, mas...who cares?

segunda-feira, 9 de março de 2015

Uma herança muito especial


Antes não a tivesse recebido tão cedo...
Falo dos livros do meu pai, em particular dos que ele próprio encadernou, de que se podem ver alguns neste móvel.
Se há objetos que desde sempre associei ao meu pai e que ele desde miúda me incentivou a usar, a estimar, a valorizar, esses objetos são os livros, objetos especiais que podem contar histórias e que podem conter mundos, como ele cedo me fez perceber.


Aprendeu a encadernar ainda novo, em casa de uma familiar em Lisboa, mas nessa altura deve ter encadernado "O Mosquito" de que já aqui falei, o "Manual do Encadernador" de Maria Barjona de Freitas, uma obra imprescindível para esta arte, e pouco mais.



 Foi décadas mais tarde, quando esteve colocado em Santarém, nos anos 70, que se dedicou mesmo à encadernação de uma boa parte dos seus livros, talvez por ter uma oficina de encadernador bem perto do local de trabalho. Era ali que comprava os materiais e  ali ia finalizar os trabalhos com a aplicação de ouro nas lombadas, a ferros quentes. Depois revia-se na obra feita e partilhava comigo a satisfação de colocar na estante mais um livro assim consolidado e embelezado.

Uma da minhas capas preferidas
O requife e a fita de marcar
Encadernou sobretudo romances - os seus Eças, Aquilinos, Jorge Amados, Zolas, Dickens, Tolstois... - mas também poesia, o teatro de Gil Vicente e revistas que assinava regularmente, salientando-se a Seara Nova de 1964 a 1971.

Quatro volumes da revista Seara Nova

Foi quase uma centena de volumes que ele encadernou nas horas vagas, sobretudo nos longos serões de inverno. Rodeava-se de ferramentas, peles, papéis, pequenos utensílios, fios, fitas, requifes, etc. e lá ia fazendo o trabalho com toda a paciência e desvelo.

A prensa de madeira e alguns materiais que depois me passou para encadernação e restauro
Encadernava em meia de pele, nas cores mais variadas como se pode ver na segunda fotografia, sendo as minhas preferidas as de carneira em tom natural, que depois vai escurecendo, com aplicação de rótulos coloridos.

Alguns clássicos encadernados
De início, eliminava as capas moles originais, mas mais tarde passou a mantê-las e também as bandas laterais, como deve ser feito. Neste Léah e outras histórias de José Rodrigues Miguéis colou um retrato do autor numa das guardas.





Já passou um ano desde que vi o meu pai pela última vez e tem sido muito dolorosa a ausência, mas constato cada vez mais que os que nos são próximos e muito queridos nunca nos deixam verdadeiramente, pelo menos enquanto tivermos memória. No caso do meu pai, mantenho o contacto através de fotografias, de recordações e a manusear as coisas que ele estimava. Ao folhear os livros que me deixou, encontro não só o seu autógrafo, mas por vezes textos manuscritos numa caligrafia impecável, às vezes notas, uma ou outra fotografia...
Mas sinto sobretudo muitas saudades de lhe ouvir a voz e as gargalhadas...

O rapazinho que aprendeu a encadernar


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Livrinhos de orações - As "Horas Marianas"



Não tendo a motivação religiosa a atrair-me para os livrinhos de orações, é sempre muito mais a forma do que o conteúdo o que neles me desperta interesse. Mas se considerarmos como conteúdo todas as ilustrações, as estampas e vinhetas que ilustram o texto, então essa parte do conteúdo exerce realmente sobre mim uma grande atração!
É a arte do livro, presente desde logo no tipo de encadernação, com ou sem ornatos a ouro, e todo o trabalho de ilustração, geralmente em gravuras a preto e branco, mas por vezes com magníficos desenhos a cores.
Estes dois volumes são de Horas Marianas, exemplares do século XIX destinados a um público vasto de crentes católicos, muitas vezes de modestas posses. 


 Em muitas casas humildes, mas com pais alfabetizados, era este o único livro disponível - a par da Imitação de Cristo ou da Bíblia para a Infância -  para ensinar as primeiras letras ou números aos mais pequenitos. Guardo comigo uma Bíblia para a Infância, que já veio da casa de bisavós meus, e nela encontrei muitos números de páginas repetidos a lápis e também algumas letras desenhadas com mão insegura...
Isso vi confirmado nas palavras de Mariquitas, uma  menina aldeã quase analfabeta do romance Mil e um Mistérios (1845) de Castilho: "Meu pai ensinou-me a ler um poucochinho nas Horas Marianas que temos lá em casa; mas letra de sentença nunca me calhou...." (cap. VIII, p.58)



Nestes livrinhos, se tivermos a sorte de os encontrar intactos ou quase, podem estar reunidas gravuras de maior ou menor qualidade e em maior ou menor quantidade, o que é sempre para mim um bónus muito apreciado.
Vou falar de um dos exemplares, datado de 1852, que obviamente me chamou a atenção em primeiro lugar pela encadernação. com profusão de motivos dourados resultantes da aplicação de ferros quentes. Sei, por experiência própria, como é difícil acertar as letras e motivos, sobretudo se repetidos à volta da capa, sendo um trabalho especializado a exigir perícia e mão firme. Também os cortes foram dourados, como era prática comum em livros religiosos.


As Horas Marianas, neste caso Novíssimas como se lê no título, a sugerir sucessivas edições, penso radicarem na tradição dos Livros de Horas medievais, manuscritos maravilhosamente iluminados, verdadeiras obras de arte que só podemos admirar nos acervos das grandes bibliotecas.
Aqui somos brindados logo no início, ainda antes da página de rosto, com uma estampa de página inteira representando Cristo, preso e supliciado, com o manto, a vara e a coroa de espinhos, numa das cenas que antecedem a Via Sacra.


É a imagem conhecida popularmente por Senhor da Cana Verde, muito venerado em vilas e aldeias sobretudo do Norte do país, mas também referenciada pela designação mais erudita de Ecce Homo.
Na margem inferior pode ler-se Rouargue sc, sendo Rouargue o apelido de dois irmãos artistas, Emile Rouargue (1795-1865) e Adolphe Rouargue (1810 - 187?), nascidos em Paris,  muito prolíficos na produção de gravuras, maioritariamente de paisagens.
Na página seguinte, protegida por papel de seda, vê-se um belíssimo desenho colorido à mão a emoldurar o título, lembrando-me uma iluminura, salvaguardadas as devidas diferenças, que aos meus olhos muito enriquece este pequeno livro.


Cada uma das partes intituladas Officios é introduzida por desenhos, geralmente com a cruz ao meio



e termina com pequenas vinhetas com figuras ou cenas bíblicas.





Para além destas vinhetas, o livro conta  ainda com mais duas gravuras, estampas de página inteira, também de autoria Rouargue, tendo uma como tema Maria e o Menino Jesus e a outra Maria e o anjo.

 

Não sei se terá havido outras gravuras de página inteira  na obra. A verdade é que qualquer uma destas, embora  pequena (5x7,5), faria um belo quadro se fosse emoldurada...




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os "Mil e um Mistérios" de Castilho




Admito que possa haver mistérios na vida pessoal ou literária de António Feliciano de Castilho(1800-1875), mas aqui refiro-me ao título do único romance que lhe é conhecido, Mil e um Mistérios, a que ele, talvez ironicamente, deu o sub-título de Romance dos Romances, mas que deixou inacabado.
Sempre interessada por assuntos da história local, descobri-o há anos na minha biblioteca escolar, não só esta edição da Câmara Municipal de Águeda, que assinalou os anos de permanência do escritor na freguesia de Castanheira do Vouga durante as Guerras Liberais, mas também a edição de 1907 de que falarei adiante.
É um romance bairradino, já que a ação se passa na Bairrada, o que não surpreende quem saiba que Castilho  tinha familiares na Bairrada e aqui passou longas temporadas.

Edição da Câmara Municipal de Águeda

A história do romance centra-se em Aguim, aldeia muito antiga do concelho de Anadia, onde o escritor tinha as suas raízes do lado paterno (já agora, também o escultor Machado de Castro ali tinha ligações familiares) e encontram-se no romance referências a muitas outras localidades bairradinas - Águeda, Luso, Mogofores, Mealhada, Peneireiro, Tamengos (a freguesia a que pertence a estância termal da Curia) - e à Mata do Buçaco,  servindo de cenário para uma evocação da vida na Bairrada a meados do século XIX.

Os trinta capítulos desta obra foram publicados por Castilho em 1845, mas a história ainda estaria longe do seu desfecho e, estranhamente, apesar de ainda ter vivido mais 30 anos, não se lhe conhece a publicação de mais uma linha sequer de Mil e Um Mistérios. Foi já postumamente, na edição de 1907, que saiu a lume um acrescento, ainda sem conclusão, que tinha ficado em forma de manuscrito à guarda do seu secretário - não nos podemos esquecer que o escritor ficara cego ou quase cego na infância (talvez agora lhe chamássemos amblíope?) e tinha que ditar todos os seus escritos.

Os dois volumes da edição de 1907
A obra, com os trinta capítulos e o acrescento intitulado O Frade, surgiu com os números 52 e 53 na edição das Obras Completas de António Feliciano de Castilho, por iniciativa do filho Júlio de Castilho.
É um romance de aldeia que se pode considerar precursor do romance campesino, um tipo de romance cuja criação é atribuída a Júlio Dinis, duas décadas mais tarde. No entanto, com a ação localizada num ambiente de aldeia bairradina, temos a mestria de Castilho a levar-nos constantemente, mas sempre a propósito da narrativa, para personagens e autores das literaturas europeias suas contemporâneas ou para figuras e mitos das civilizações clássicas, em referências e comparações cheias de ironia e de humor.
Penso que é uma obra difícil de enquadrar em qualquer corrente literária. Ali encontramos, desde episódios picarescos cheios de comicidade,  a descrições pormenorizadas dos falares, trajes e  costumes aldeãos, caraterísticas do realismo então incipiente, referências  a figuras da mitologia clássica, próprias do arcadismo em que o autor se formou, passando por personagens de índole romântica, cujas ações e atitudes são influenciadas por leituras de obras bem populares do romantismo.

Um dos meus exemplares, edição de 1938

 Na tripla dedicatória do romance deparamos com mistérios a acrescentar aos outros mil e um do enredo: porquê dedicar a obra aos leitores do ano 1900 e a quatro escritores portugueses contemporâneos que Castilho não identifica, adivinhando-se que o faz com a mesma ironia com que a dedica a todas as boas mulheres. Escritores já consagrados à época, 1845, eram Alexandre Herculano e Almeida Garrett, da primeira leva de românticos, mas quem seriam os outros dois?


No trigésimo capítulo, intitulado o ermo, o cenário é o chamado Deserto do Buçaco onde se instalou uma comunidade de Carmelitas Descalços no século XVII. Faz uma descrição fabulosa da mata plantada e cuidada pelos carmelitas durante dois séculos, então já de lá ausentes há doze anos, segundo nos diz o próprio narrador. 
E é com o protagonista, João Simões, a deambular pela mata e a ter um misterioso sinal de presença humana, que termina esta parte da obra em capítulos. Tal desfecho terá permitido associar-lhe o manuscrito  "O Frade", acrescentado ao romance em 1907.



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Exposição "Folhas de Clausura" em Coimbra


Não é uma exposição com imagens espetaculares, apelará certamente a um público muito restrito, mas aconselho-a a quem se interesse por livro antigo e pelo trabalho de conservação e restauro de livros. Poderão visitá-la até 28 de Julho, diariamente a partir das 15 horas.

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Trata-se da apresentação ao público do resultado de um projeto realizado em parceria pela Confraria da Rainha Santa Isabel e pelo CEARTE  para reabilitação de parte do acervo bibliográfico que foi pertença das freiras clarissas do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. O trabalho foi levado a cabo em duas ações de formação e concluído em regime de voluntariado, sendo as intervenções entregues a formandos sob a supervisão da técnica de conservação e restauro Maria do Céu Ferreira, de cuja oficina já aqui falei e tenho frequentado na Rua da Alegria em Coimbra.

 

Nas paredes do espaço expositivo alinham-se mais de duas dezenas de fotografias que ilustram as fases do processo de restauro dos livros, enquanto nos expositores horizontais se mostram os alvos da intervenção e nas vitrines se expõem materiais, ferramentas e produtos químicos que se utilizam nos trabalhos de restauro.

Um dos expositores com diversos livros e alguns objetos neles encontrados 
Não só pelas obras - todas de cariz religioso e em grande número  livros de ritual litúrgico - mas sobretudo pelos objetos encontrdos nos livros - pagelas, folhas secas, pequenos manuscritos e restos de materiais - é possível desvendar um pouco da vida quotidiana das mulheres que viveram em clausura naquele mosteiro. Daí também o interesse desta exposição.

À direita desenho em forma de leque com carateres orientais ainda não totalmente decifrados

Pagelas, os achados mais comuns dentro dos livros

Obra com encadernação de solapa, sem capa dura, ao lado de pagela e manuscrito nela encontrados







































Nestes trabalhos de restauro de livro antigo, valorizo a manutenção da capa original, sempre que possível, devendo ser colada sobre a nova capa de pele, como se vê  em baixo.




No catálogo da exposição, um dos responsáveis da Confraria da Rainha Santa Isabel faz um breve mas interessante historial das vicissitudes por que passou a comunidade de clarissas do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e a sua livraria, desde o abandono do velho mosteiro assoreado junto ao rio e a instalação no novo edifício em 1677, até ao aquartelamento ali de tropas napoleónicas e à extinção das ordens religiosas a que se seguiu uma lenta agonia. Daí a dispersão que todo o acervo sofreu, sobretudo  após a morte da última freira em 1891. 
Os exemplares mais raros e mais antigos da livraria monástica foram incorporados em diversos arquivos, bibliotecas e museus - Biblioteca da Universidade de Coimbra, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo, Museu Machado de Castro... O que restou no local, resultante já da fusão de dois acervos livrescos conventuais, o de Santa Clara-a-Nova e o de Sandelgas, integra 272 volumes já catologados, com datas entre 1611 e 1893, impressos em Coimbra, em Lisboa e no Porto, mas também noutras cidades europeias como Antuérpia, Madrid ou Veneza.




A caminho da saída, não resisti a fotografar este bucólico recanto do mosteiro, onde imagino uma jovem noviça a colher  folhas de avenca para secar dentro do seu livro de orações, longe de imaginar que esses seus  pequenos e singelos pertences viriam a ser descobertos e expostos a olhos profanos séculos depois...




quinta-feira, 27 de junho de 2013

Obras do P. Teodoro de Almeida



Já aqui tenho referido que a principal razão para me sentir atraída por objetos antigos, nomeadamente os de cerâmica, é conhecer a sua história ou a história que muitos deles podem contar. Mas não são "livros abertos" e mesmo quando há marcas, a informação não nos chega de forma direta; temos que interpretar todos os sinais que as peças nos dão e depois procurar saber mais sobre elas, o que, sendo algo de aliciante para os amantes de velharias, causa também alguma frustração por sabermos que nunca teremos a história completa...
A situação é totalmente diferente com os livros, incluindo o livro antigo... desde que haja página de rosto.
Os dois que se vêem na foto são de um autor português do século XVIII, o iluminista Padre Teodoro de Almeida (1727 - 1804), e basta abrir qualquer deles para obtermos sobeja informação sobre o autor e a obra.


Começo pela página de rosto de Recreasão Filozófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural para instrucsão de pessoas curiozas, que não frequentárão as aulas. Neste exemplar o título já não figura completo ao cimo da página porque encontrei-o com as primeiras páginas mutiladas e tive que as restaurar, completando-as com papel japonês.
O que ficou diz-nos que o autor pertencia à Congregação do Oratório de S. Filipe Neri e era membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Real Sociedade de Londres e da de Biscaia. Assim, ficamos logo cientes de que se trata de um religioso que se dedicou às ciências e à Filosofia  e atingiu notoriedade, ou pelo menos reconhecimento, em instituições de prestígio, nacionais e estrangeiras. De facto, para além de escritor e filósofo, ele é considerado o primeiro físico experimental português.

Imagem retirada de DE RERUM NATURA a acompanhar texto do Professor Carlos Fiolhais

Quanto à obra, ficamos a conhecer, logo no título,  o assunto tratado - a Filosofia - a forma como é desenvolvido - em diálogo - e a que tipo de público se dirige - para instrução de pessoas curiosas que não frequentaram as aulas. Ficamos ainda a saber que esta é já uma quinta impressão muito mais correcta que as precedentes e que a obra foi desenvolvida em vários volumes, sendo este o 7º, que trata da Lógica. Finalmente o ano em que foi impressa - 1785 - e o local -  Lisboa na Régia Oficina Tipográfica - tendo sido licenciado, como era obrigatório à época.
Como bilhete de identidade de um objeto não está nada mal!
Trata-se de uma obra enciclopédica em 10 volumes, o último dos quais foi publicado em 1800. Do I ao VI trata da Filosofia Natural, o VII como já vimos, trata da Lógica e os VIII, IX e X da Ética e da Moral.


Indo para além da página de rosto, logo nas primeiras páginas aparece o índice das várias Tardes ou capítulos  em que se divide este volume, que começa na Tarde XXXVI. A primeira página está encimada por uma pequena gravura ou vinheta, sem menção de autoria, que apresenta duas figuras, cada uma com uma chama sobre a cabeça, vendo-se ao longe uma candeia a emitir uma luz intensa. Certamente uma representação visual das luzes do conhecimento que iluminam o espírito,  o conceito subjacente ao Iluminismo do chamado Século das Luzes.
Temos logo a iniciar o texto a fala de alguém, Eugénio, que tem como interlocutores Teodózio e Sílvio; são estas as personagens que vamos acompanhar ao longo de todo o volume e cujos diálogos, em linguagem muito simples, têm tiradas deliciosas e exemplos práticos hilariantes. Um deles é a história de um rapaz rude que, ao trabalhar numa horta com amigos, levou com uma enxada na cabeça, ficando com o juizo alterado. Ao contrário do que seria de esperar, ficou tão esperto que se veio a tornar Ministro de nome na Corte! :)



Alguém duvida que este discurso aparentemente tão inocente está a querer atingir o Marquês de Pombal, que perseguiu e obrigou o P. Teodoro de Almeida a exilar-se em França?!
Há uns meses, a Maria Paula, do blogue as coisas de que eu gostofalou deste autor a propósito de uma exposição no Mosteiro de Tibães onde se transcreviam extratos da Recreação Filosófica. Um deles , sobre o amor, não posso deixar de partilhar também aqui:


Para quem não esteja familiarizado com este tipo de escrita, convém lembrar que o som s, quando não está em final de palavra, é representado pelo f.
O outro título do Padre Teodoro de Almeida que tinha para partilhar é O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, mas a conversa já vai longa, acho melhor guardá-lo para outra ocasião.


Agora que está a terminar o mês dos Santos Populares, deixo aqui a foto completa com os livros, junto do meu Santo Antoninho do Pão, acompanhado de uma bromélia que me lembra uma alcachofra do S. João, em noite dedicada ao colega de festejos, S. Pedro :))