Resolvi concentrar numa parede da cave de minha casa, as faianças que identifico como ratinhas, umas mais típicas e mais antigas do que outras mas todas com o ar rústico que as carateriza.
São bacias ou palanganas, pratos, pratinhos e pequenas tigelas ou covilhetes que têm como denominador comum a sua origem coimbrã e o seu caráter utilitário em casas camponesas, acompanhando os trabalhadores sazonais, os ratinhos, para o Alentejo e Ribatejo.
A melhor coleção que já vi deste tipo de loiça faz parte do acervo da Casa Museu de José Régio em Portalegre.
Segundo reza a história, o escritor José Régio, professor liceal em Portalegre durante mais de três décadas, ocupava as horas vagas correndo as aldeias alentejanas, acompanhado de um homem com um burro para transportar a carga. Adquiria todos os exemplares que encontrava não só de Cristos, com que constituiu a sua mais conhecida e apreciada coleção, mas também de faianças do tipo ratinho, as que encontrava mais frequentemente nos lares rústicos do Alentejo.
Quanto às minhas faianças deste tipo, foram quase todas compradas em mau estado, por isso a preços mais suportáveis, o que lhes pode tirar valor comercial, mas aos meus olhos não lhes tira o encanto. Duas foram restauradas, mas depois não gostei do resultado porque perdem autenticidade, ficaram baças devido ao acabamento que levaram.
Este prato grande, restaurado como se vê, foi comprado numa casa de velharias em Nisa e , segundo o vendedor, era chamado prato dos casamentos, por ser neste tipo de prato que os noivos mandavam iguarias de carne aos seus vizinhos e amigos por altura da boda. Nunca consegui confirmar esta informação, mas acredito que fosse um costume local.
Esta bacia foi comprada em Lagos e, apesar do estado em que está, é a minha preferida. O verde muito intenso, mais do que se nota na fotografia, e os esponjados a vinoso, sem preocupação de simetria, dão-lhe um ar único e muito especial.
A esta chamo alguidar por ser mais funda. Tem uma série de gatos atrás, mas acho-a muito bonita. Lembra-me asas de pássaros em pleno voo, desenhadas de uma forma muito ingénua. Estava no chão há uns anos na feira de Coimbra, era barata, e lá veio cá para casa.
Outra das minhas preferidas pela intensidade das cores, mais uma bacia. Precisava de um jeito no centro, mas ainda não lhe mexemos. Tenho medo de a lavar com soluções de lixívia ou de água oxigenada porque podem danificar a pasta. Comprada na feira da Mealhada, tem atrás o número 52, escrito a tinta dentro de um losango, pelo que pode ter feito parte de uma coleção de faianças... ou então veio de um lote de leilão.
Este prato foi o primeiro ratinho que comprei, sem saber nada do que se tratava. Tinha vinte e tal anos, vivia em Condeixa e entrei na loja de velharias do Sr Franquelim, que já me encantava na altura. Ele tinha em cima do balcão uma série de pratos e travessas e eu perguntei-lhe quanto custavam. Ficou admirado de eu querer aquilo, disse-me que eram coisas de uma velhota que tinha morrido há pouco e que eu conhecia, pediu-me pouco dinheiro e eu levei as peças para casa.
Eram três travessas ovais de esponjados, este prato e outro igual que passado algum tempo se partiu, e uma tigelinha verde que também está na minha parede e que eu pensava que era usada para guardar o crescente para fazer o pão.
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| As minhas tigelinhas ou covilhetes ratinho, sendo a da direita a que tenho há mais tempo e está na parede na primeira foto. |