Esta escultura da Pietá, nome com que vulgarmente se designam representações de Nossa Senhora da Piedade e de Nossa Senhora das Dores, foi comprada em muito mau estado na feira de velharias de Aveiro. Para além de lhe faltarem as mãos do Cristo e ter faltas de policromia, como ainda se vê, estava muito suja e baça, tinha orifícios causados por xilófagos e rachas na madeira.
Quando a trouxemos para casa, o meu marido e eu começámos por a limpar toda com cera de abelha e depois foi pulverizada com xilofene e metida numa estufa de desinfestação - um saco de plástico a que se retira o ar, matando os xilófagos por ausência de oxigénio - durante várias semanas. Depois de desinfestada, tapámos-lhe os orifícios maiores e as rachas com uma massa de madeira e finalmente levou um fixador, para a madeira carcomida não se esboroar mais, e o acabamento a cera de abelha. Aprendemos este processo numas aulas de Museologia Conservação e Restauro que frequentámos no ano passado na Curia, dadas pelo professor Miguel Duque.
Acho que lhe demos um restauro museológico, que visou sobretudo conservar a peça, evitando que o processo de degradação continuasse.
Tenho pena de não ter conhecimentos de História de Arte que me permitam datar esta escultura. Poderá ser do séc. XVIII, considerando a grande expressividade nos rostos, quer da Virgem Maria, quer de Jesus Cristo e o ondulado dos cabelos dele. Mas não tem o movimento das vestes tão típico do Barroco setecentista. Também poderá ser uma peça de arte popular e não reflectir com tanta evidência as tendências artísticas da sua época, mas revela sem dúvida uma grande mestria na arte de esculpir em madeira.
O termo Pietá - que significa piedade em italiano, do latim pietas, pietatis - para designar a figura da Virgem Maria segurando o filho morto nos braços, vulgarizou-se na Europa devido à magnífica escultura em mármore de Miguel Ângelo, do final do séc. XV, que se pode ver na Basílica de S. Pedro no Vaticano. No entanto, as primeiras representações deste momento da morte de Jesus Cristo e do sofrimento da sua mãe recuam à Alemanha do séc. XIII onde estas imagens eram designadas por Vesperbild. Passaram então a ter um lugar equiparado ao da crucificação, na devoção dos fiéis.
Pessoalmente, e não tendo nada a ver com questões de devoção, em termos de tema de arte sacra, prefiro estas imagens do amor e conforto que uma mãe, no meio duma dor extrema, procura ainda dar ao filho morto, do que as da crucificação, que representam o sofrimento atroz de um homem, completamente só e desamparado, à mercê da maldade mais desumana dos seus semelhantes.
Pessoalmente, e não tendo nada a ver com questões de devoção, em termos de tema de arte sacra, prefiro estas imagens do amor e conforto que uma mãe, no meio duma dor extrema, procura ainda dar ao filho morto, do que as da crucificação, que representam o sofrimento atroz de um homem, completamente só e desamparado, à mercê da maldade mais desumana dos seus semelhantes.
