Esta pintura a óleo, com uma bela moldura antiga, foi comprada há uns anos na feira de velharias de Águeda. Tinha a tela bastante engelhada e a moldura danificada e com faltas de dourado, que se via ter sido feito a folha de ouro. Tivemo-la assim em casa, sempre com a ideia de a mandar restaurar, pelo menos esticar a tela, mas foi-se adiando o projecto. Finalmente no ano passado, decidimos levá-la para as aulas de Museologia, Conservação e Restauro e foi lá que o meu marido lhe deu um jeito, com a ajuda do professor, Miguel Duque.
Primeiro foi limpa com cera de abelha , pulverizada a parte de trás com xilofene e colocada numa estufa de desinfestação durante mais de um mês. Depois tirou-se a tela da moldura e foi passada a ferro a vapor, pelo avesso, claro. A moldura levou massa nos cantos, foi pintada no tom original, só o estritamente necessário, e foi-lhe aplicada folha de ouro nalguns frisos. Finalmente a tela foi colada em cartão pluma e recolocada na moldura. Por curiosidade, nas dobras da tela cobertas pela moldura há uns pequenos rostos de anjo, talvez ensaios que foram descartados ou então a tela era maior originalmente.
Sempre nos intrigou que Nossa Senhora seria aquela, com um botão de rosa na mão e o menino Jesus com um ar brincalhão, com um terço . Parecia-nos ter havido ali acrescentos ao original, nomeadamente o terço e uma forma esférica, que podia ser uma medalha, e à volta das mãos da santa parece ter havido retoques que as deformaram. O professor, muito entendido em arte sacra, descobriu, através de uma obra que descreve os santos e os seus atributos, que aquela rosa, a rosa sem espinhos do paraíso terreal, é o atributo de Santa Maria de La Antigua. Disse-nos que era muito venerada na América do Sul e então decidi-me a pesquisar sobre ela.
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| Imagem da Catedral de Sevilha |
Este culto mariano terá sido introduzido em Espanha por monges cistercienses durante os séculos da reconquista. A pintura que se encontra em Sevilha, principal centro de culto em Espanha, é de estilo romano-bizantino e terá vindo de uma igreja visigótica, incorporada numa mesquita durante o domínio árabe. Após a reconquista de Sevilha, no séc. XIII, ao construir-se a catedral no local da antiga mesquita e igreja, recuperou-se a pintura, que passou a ser muito venerada e passou a acompanhar o processo de reconquista de outras cidades, culminando com a conquista de Granada e a expulsão definitiva dos árabes da Península Ibérica.
Durante o séc. XVI, era esta a imagem mais venerada por marinheiros e navegantes, que saindo de Sevilha, a ela se encomendavam antes da partida para as terras longínquas dos novos mundos que iam descobrindo. O capelão da capela onde se encontrava a imagem na Catedral de Sevilha fazia questão de dar cópias da imagem para acompanhar cada missão de descoberta e conquista. Assim este culto foi ganhando uma dimensão planetária, mas ficou sobretudo arreigado nos países do continente americano de língua castelhana. O próprio Cristóvão Colombo a ela se encomendou antes das sua viagens a caminho das "Índias" e deu mesmo o seu nome à primeira ilha das Caraíbas onde aportou na sua segunda viagem (1493), a ilha Antigua.
A primeira cidade fundada pelos espanhóis em terra firme no continente americano, em 1514, foi Santa Maria de La Antigua del Darién. Hoje completamente desaparecida, situava-se num local que fica actualmente na região fronteiriça entre a Colômbia e o Panamá, palco das lutas entre as FARC e as forças governamentais colombianas.
Santa Maria de La Antigua é até hoje a Padroeira do Panamá. Fora da Espanha e das suas antigas colónias tem ou teve altares em Lisboa, em Roma e em Cracóvia.









