Esta pequena maravilha de arte em porcelana foi adquirida há quase quatro anos no Marché aux Puces, em Paris, no mesmo dia em que comprei as Obras de Horácio de que falei no post de 7 de Janeiro último. O pires estava marcado por 35€ mas com uma pequena negociação, comprei-o por 25€.
Foram os meus dois "souvenirs" dessa viagem em família a Paris.
Quando o vi, reconheci a decoração, por já ter visto peças semelhantes nas minhas frequentes visitas virtuais a colecções de cerâmica de museus ingleses. Tenho alguma memória visual para estas coisas, e embora não tivesse a certeza do fabrico, percebi que era boa porcelana antiga italiana.
A decoração de putti e grinaldas em relevo, pintada à mão, é muito característica da porcelana italiana do final de setecentos, até hoje imitada com o nome generalizado de Capodimonte.
Capodimonte, junto a Nápoles, foi de facto um dos primeiros locais onde se fabricou verdadeira porcelana em Itália, a meados do séc. XVIII, mas durou muito pouco tempo a unidade aí instalada (1743-1759) já que foi transferida para Buen Retiro, perto de Madrid, graças a vicissitudes históricas de que falarei a seguir.
Entretanto, a pesquisa que fiz para identificar a fábrica de origem do meu pires, como não lhe detectava qualquer marca, levou-me à produção de Doccia, perto de Florença. Esta fábrica foi a segunda mais antiga fundada em Itália, nos anos 30 de setecentos, por iniciativa do Marquês Carlo Ginori, também ele entusiasmado com a recente descoberta, na Europa, da fórmula da verdadeira porcelana.
Encontrei online peças com decoração semelhante à do meu pires, atribuídas a produção Doccia do final do séc. XVIII, e assim fiquei convencida de ter em casa um exemplar de porcelana Doccia desse período.
No entanto, há dias ao tirar esta peça duma vitrine, já a pensar em mostrá-la num post, vi por uma qualquer incidência de luz que tem uma marca pouco perceptível gravada na pasta. Com muito esforço, lá descobri tratar-se de um N coroado, o N de Nápoles, inciso na pasta.
E lá tenho eu que voltar à história de Capodimonte. A fábrica ali instalada teve o patrocínio de Carlos de Bourbon, o rei de Nápoles, e usava como marca a flor de lis das armas dos Bourbon. Ao ter que assumir o trono espanhol por morte do pai, Filipe V de Espanha, e instalar-se em Madrid como Carlos III, desmantelou por completo a fábrica de Capodimonte e reinstalou uma unidade equivalente em Buen Retiro, mas de pouca duração, usando a mesma marca, a flor de lis.
Foi o filho de Carlos III, o rei de Nápoles Fernando IV, que em 1771 aí fundou a Fabbrica Reale Ferdinandea, desejando recriar a porcelana de alta qualidade que tinha sido produzida pelo seu pai. Para isso empregou muitos dos artesãos que tinham trabalhado em Capodimonte, mas os motivos decorativos passaram a ser dominados por um novo gosto, clássico, influenciado pelas recentes escavações em Pompeia e Herculano, ali tão próximas. Esta porcelana passou a ser marcada com a sigla do rei, FRF, ou com a letra N de Nápoles sob uma coroa, geralmente pintada em azul sob o vidrado. A mesma marca incisa na pasta foi usada no primeiro período de fabrico, entre 1771 e 1782 e pode ser essa a marca do meu pires.
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| Açucareiro Doccia do séc. XIX |
Esta fábrica real de Nápoles só sobreviveu até 1806 e a confusão com Doccia deve-se ao facto de ter sido a família Ginori, ainda à frente dos destinos de Doccia, que se mantinha a produzir com sucesso, a adquirir o que restava da fábrica de Nápoles, tendo usado o N coroado a azul sob o vidrado em muita da sua produção, já que se considerava sua legítima sucessora.




