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| Bandeira do Espírito Santo de uma irmandade açoriana |
Mostrei
aqui, há pouco mais de um mês, um prato de faiança decorado com a coroa real, tendo como intenção assinalar a comemoração do Dia da Restauração a 1 de Dezembro de 1640.
Era minha convicção que a coroa real e aquele raminho num azul tão monárquico se destinavam a prestar tributo à monarquia portuguesa e foi nesse pressuposto que desenvolvi todo o texto.
Estranhava apenas que todos os outros exemplares que conhecia, assim como o belo conjunto que vim a acrescentar ao post por cedência de fotos de uma colecionadora amiga, para além da coroa apresentassem outros símbolos reais, como as bandeiras e as armas reais.
Na altura o Mercador Veneziano enviou-me fotos de pratos só com a coroa, mas não lhes encontrei grande afinidade com o meu, quer em termos cromáticos, quer decorativos, por serem a azul e branco e com cercaduras muito diferentes.
Ele tinha-os fotografado num dos seus catálogos e enviou-me também as descrições de ambos, que atribuiam o primeiro a Gaia e o segundo a Coimbra
Estava tão interessada em encontrar afinidades que me ajudassem a determinar o local de fabrico do meu prato, que não me detive noutras reflexões sobre os motivos simbólicos. Afinal eu já conhecia aquela coroa em contextos que já nada têm a ver com a monarquia, mas foi o Mercador Veneziano que me pôs à frente dos olhos essa nova pista.
Enviou-me fotos de um outro livro seu intitulado "A Cerâmica Terceirense" de Jácome de Bruges Bettencourt e eu pude constatar que este tipo de decoração, embora geralmente monocromada, era usada em pratos destinados ao culto do Espírito Santo, introduzido em Portugal pela "Rainha Santa" Isabel de Aragão, mulher de D. Dinis, em tempos festejado por todo o país, mas hoje sobretudo arreigado em terras açorianas, ou naquelas para onde foi levado pelos emigrantes açorianos no Brasil e nos E.U.A.
Só nessa altura reparei que a coroa do meu prato tem desenhado ao centro, por baixo da cruz, o que se pode entender como o corpo estilizado de uma pomba com as asas abertas, mas nenhum dos outros pratos apresenta essa caraterística.
São peças que se destinariam à recolha de esmolas - não de dinheiro mas pedaços de carne ou de pão que depois eram servidos no bodo - sendo os alimentos servidos gratuitamente a toda a população, originalmente aos mais pobres da comunidade, em compridas mesas ao longo da rua, daí a origem da expressão "bodo aos pobres".
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| Mesa do bodo com o Império ao fundo -Vila da Calheta, S. Jorge, 1959 |
Estou ligada aos Açores e a estas festividades por dois períodos da minha vida: ainda criança, vivi meio ano na vila da Calheta da ilha de S. Jorge e aí tive a experiência de ser coroada com a coroa imperial do Espírito Santo numa das coroações integradas nos festejos que se realizavam na Primavera. Ali era escolhida uma criança para desempenhar as funções de imperador e ser coroada, no fim da missa de festa.
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| Colocação da coroa, aqui só para a fotografia |
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| Cortejo da coroação dirigindo-se à igreja |
Mais tarde na cidade de Angra, onde vivi dois anos da minha adolescência, assistia à festas que se realizavam a partir de Maio quase todos os fins de semana nas diversas freguesias, incluindo touradas à corda, e passava diariamente, nas minhas idas para o liceu, por um destes Impérios do Espírito Santo, edifícios muito ingénuos e garridos, sobretudo na Terceira, onde se centram as atividades de cada irmandade e que nos dias de festa
estão todos abertos e engalanados.
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| Império de S. Bento na cidade de Angra |
Aqui no continente, embora ainda haja várias localidades que realizam festas de culto ao Espírito Santo - sendo a mais conhecida a Festa dos Tabuleiros em Tomar - só tenho conhecimento de uma localidade onde as festas têm ainda hoje caraterísticas semelhantes às dos Açores: Colares no concelho de Sintra, a avaliar por um programa das festas que li num site da internet.
Voltando ao meu prato com a coroa, permanece a dúvida de onde terá sido o seu fabrico. A decoração é muito diferente da dos exemplares açorianos aqui mostrados, para mim tem um ar nortenho, por isso talvez se destinasse a celebrações em terras continentais, mas quais?
Um agradecimento muito especial ao Mercador Veneziano que me sugeriu esta interessante pista, sendo o responsável por algumas (re)descobertas que fiz e por me fazer revisitar outros tempos, outros lugares...