sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Festejando o S. Martinho


Estamos a aproximar-nos do fim de semana do S. Martinho, altura de provar o vinho novo - ou a jeropiga, que eu prefiro - a acompanhar com castanhas assadas, na companhia de amigos, em casa, nas tabernas ou nos tradicionais magustos.
Ainda se celebra muito nas zonas rurais, ao contrário dos centros urbanos onde, nesta altura, só se lembram de festejar o Hallowe'en (uma tradição muito nossa como o próprio nome indica!!!)


É uma celebração desse tipo que vemos nesta pintura de José Malhoa (1855-1933), apropriadamente intitulada "Festejando o S. Martinho", mas mais conhecida por "Os Bêbados". Vê-se um ambiente sórdido de taberna e, como está à vista e consta da descrição do Museu do Chiado, onde se encontra o quadro, mostra um grupo de aldeões bêbedos, sentados à volta de uma mesa com sardinhas, castanhas e vinho. Crê-se que seja gente de Figueiró dos Vinhos, onde Malhoa construiu casa e  veio a fixar residência, embora fosse natural das Caldas da Rainha.
É um bom exemplo de pintura naturalista, com aquele quadro bem real e cru da natureza humana a servir de objeto de arte. Para além da cena, adivinham-se vidas extremamente difíceis, deles e delas...


Lembrei-me desta pintura já há meses quando recebi da CC as fotos de canecas e picheiras em faiança ratinha, as segundas num formato igual à que figura no quadro. Resolvi por isso guardar estas fotos para esta altura.
Acho engraçado que este "par de jarras" pareça ainda estar toldado pelos vapores alcoólicos que habitualmente guardavam nas entranhas. Reparem como elas estão tremeliques! :)  Com medidas de 21 e 24 cm já levavam razoável quantidade de vinho...


Mas aqui aparecem elas já todas direitinhas, cheias da dignidade da sua função a mostrar as suas belas asas e decoração anexa.
Fazem parte da coleção da CC, que simpaticamente me enviou fotografias das suas picheiras ratinhas com inscrições tecendo loas ao vinho.




Para muita gente, agora como no passado, tinto ou branco, é todo bom!

Eu não me lembro de já ter visto peças destas em faiança ratinha. Com os ambientes que frequentavam e com mãos trémulas a segurá-las, não era fácil contarem com uma vida longa... ;)



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Bule Lusitânia


Como o blogue Moderna Uma Outra Nem Tanto celebra esta semana o seu primeiro aniversário, resolvi oferecer-lhes uma singela "prenda": apresentar aqui este bule Lusitânia, que fez parte de um tête-à-tête em estilo Déco igual ao que o MUONT publicou há meses, embora a decoração seja diferente.

O tête-à-tête  da coleção MUONT

Na altura, em comentário, falei-lhes do meu bule e eles sugeriram que o mostrasse aqui. Achei esta uma boa ocasião.
 Como lhes disse na altura, o conjunto deve ter sido fabricado nos finais dos anos 40,  já que foi prenda de casamento dos meus pais e eles casaram-se logo no início de 1950.


Ainda me lembro de o tabuleiro redondo e as chávenas andarem lá por casa, mas quando vi que só restava o bule, com estas belas linhas Art Déco, resolvi pô-lo a salvo :). As riscas estavam muito em voga nessa época e eu desconfio que a escolha do conjunto com riscas verdes  se deve ao facto de o meu pai ser desde sempre um sofredor do Sporting... ;)


A marca está muito pouco visível, mas consegue-se identificar bem como uma das marcas da Fábrica Lusitânia, da unidade instalada em Coimbra por volta de 1930.
E já agora, um extra para quem gosta de peças Déco e modernistas, como é o caso dos autores do blogue aniversariante: um açucareiro Vista Alegre com a marca de 1947-1968.


Nunca vi outras peças deste formato, mas sendo um açucareiro, haveria as restantes loiças do serviço, a branco ou decoradas.


Que estes amigos AM-JMV celebrem o aniversário do seu blogue  por muitos anos!!!

Por coincidência, na semana seguinte a este post, numa exposição sobre a porcelana Vista Alegre patente no Museu da Chapelaria em S. João da Madeira, fotografei peças de um serviço VA no modelo do meu açucareiro.


Como se pode ver no açucareiro, em termos de formato, só as asas são diferentes.
Penso até que este modelo está em exposição no Museu da Vista Alegre, mas com a diferença nas asas e na decoração, nunca tinha detetado afinidade com a minha peça.

domingo, 4 de novembro de 2012

Frontais de altar do Buçaco



Aqui, bem perto de mim, a dominar toda a Bairrada, há um lugar muito aprazível em qualquer época do ano, onde se passam tardes, dias, bem agradáveis: a Mata do Buçaco!
Ali se concentra um valioso património natural, histórico e artístico, nem sempre devidamente valorizado e acautelado, que vale a pena conhecer.
Data do século XVII (c. 1623) a fixação naquele "deserto" de uma congregação de Carmelitas Descalços, que logo procederam à edificação, não só do seu humilde convento, mas também de fontes, ermidas e capelas, enquanto iam plantando árvores por toda a mata, muitas espécies exóticas, e conservando as autóctones, como o aderno - segundo reza a publicidade, encontra-se ali o maior adernal da Europa.

A entrada do Convento de Santa Cruz do Buçaco
Do pequeno convento, onde Wellington pernoitou antes da Batalha do Buçaco, sobra apenas a igreja, o claustro e algumas celas, já que as restantes dependências foram destruídas no final do século XIX para dar lugar ao Palace Hotel do Buçaco. No entanto, a maioria das restantes  pequenas edificações construídas pelos frades pode-se ainda encontrar se nos perdermos pelos caminhos do recinto murado da Mata, algumas infelizmente pouco cuidadas e até vandalizadas.
Já há muitos anos que não entrava no convento, mas recentemente fui rever os tesouros que  ali se guardam: uma Nossa Senhora do Leite de Josefa de Óbidos e vários frontais de altar do século XVII.



O primeiro frontal que se encontra à entrada do convento está devidamente identificado e datado, com o seguinte texto a encimá-lo: "Frontal do altar da antiga Capela da Encarnação (Bussaco) azulejos de Lisboa cerca 1640"
Apresenta uma ornamentação de motivos entrelaçados, não muito comum no Buçaco, com policromia nos tons de azul e amarelo típicos da azulejaria do século XVII.


Pessoalmente, prefiro os que se encontram nos quatro cantos do claustro, frontais de ramagens  encimados por pinturas representando a cruz com coroa de espinhos e jarras com flores, na verdade pequenos altares em trompe l'oeil.
É notável esta reprodução em pintura azulejar dos riquíssimos panos bordados do oriente, a que não faltavam franjas, cordões e rendas. A influência do oriente é notória nos motivos de vegetação exuberante e aves exóticas enquadrando cartela com as armas da ordem dos Carmelitas.




Saliento aqui os vários "panos" do painel: para além do pano central, vê-se a sanefa com franja e os dois sebastos, as partes laterais, tudo rematado com as cantoneiras de rendas.




Encontrei esta terminologia específica na obra "Azulejaria em Portugal no século XVII" de Santos Simões, uma obra incontornável para quem se interessa por azulejaria antiga e que faz referência a vários destes painéis.


Está já neste estado um painel de pano damascado recuperado de uma das capelas da mata e aplicado num pátio interior do convento. Estando a céu aberto, talvez tenha ficado assim incompleto por ação de intempéries que terão feito cair azulejos. Se o intuito foi preservá-lo, não foi obviamente bem sucedido esse propósito.


E finalmente mostro o painel meu preferido, o mais espetacular, o frontal do altar da pequena igreja do convento. Não só são mais ricos os motivos em amarelo dourado da sanefa e dos sebastos, mas o pano central apresenta uma proliferação de motivos vegetais e animais - aves e insetos nos planos superiores e animais terrestres na base. E novamente as cantoneiras de rendas a rematar o conjunto.
De repente, numa pequena capela anexa à igreja, deparamos com esta pintura de Josefa de Óbidos.


O espaço é exíguo, está repleto de ex-votos maioritariamente em cera, pelo que foi difícil de fotografar. Mas é uma delícia de contemplar, esta Nossa Senhora do Leite, com a presença de S. José, e por isso também chamada uma Sagrada Família.
Voltando aos azulejos, quem sabe se nas dependências do convento que foram destruídas - o refeitório ou a sala do capítulo, que deveria ter - haveria outros frontais de altar do século XVII, que foram postos a salvo?
A verdade é que há frontais deste género no Museu Nacional do Azulejo e um tem  como proveniência "Convento Carmelita, região de Coimbra". Quanto aos do Museu Machado de Castro, são também de um convento carmelita, mas bem identificado, da Vila de Pereira ou Pereira do Campo.

Frontal de altar do Museu Nacional do Azulejo com as armas dos Carmelitas
Um outro património interessante do Buçaco são os revestimentos a embrechados, que se vêem  na fotografia da entrada do convento, mas esse é um tema que poderá ficar para outras núpcias...




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A leiteira - The milkmaid


Não, não é desta leiteira que vou falar, embora a pintura de Johannes Vermeer assim intitulada, que habita o Rijksmuseum de Amsterdão, desse pano para mangas para fazer um post (já repararam na barra de azulejos Delft junto ao chão? figura avulsa século XVII?). Apesar de muito conhecida,  merece bem ser divulgada e abordada em todos os seus pormenores, artísticos e outros, mas isso obviamente  deixo aos especialistas...



Trata-se aqui de participar no chá de terça-feira de Tea Cup Tuesday, Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea com as minhas peças de faiança inglesa azul e branca com um motivo que foi bastante popular no século XIX:  the milkmaid, ou seja, a leiteira. Mostra uma serviçal realmente em funções de leiteira, a ordenhar uma vaca no campo, observada por duas tranquilas ovelhas, uma branca e uma preta, enquanto a rapariga de Vermeer talvez seja antes uma criada de cozinha numa das suas tarefas diárias, a preparar algum alimento com pão e com leite.


Fui buscar as peças a um armário aberto onde exponho faiança inglesa azul e branca numa salita a que os americanos chamariam den. aqui mostrei algumas das faianças que se vêem na foto, mas outras ainda não foram tema de qualquer post.


Estas  três taças de chá e respetivos pires não são do mesmo conjunto, mas sendo todas em faiança transferware azul e branca, ficam sempre bem juntas e para mim têm o interesse adicional de poder admirar motivos diferentes.
Efetivamente, do motivo milkmaid só tenho uma taça e dois pires. Depois há mais duas taças de um motivo também de cena rural com lavradores, casa senhorial e vacas, que ainda não consegui identificar, e um pires com motivo oriental.


À exceção desse motivo oriental, com marca Davenport, nenhuma peça está marcada, mas esta milkmaid, é sem dúvida a da fábrica Spode, um padrão introduzido na produção por volta de 1815.
São de uma faiança muito fina, quase porcelana, pelo que julgo tratar-se do tipo de pasta denominado pearlware.


Outros fabricantes usaram este tema nas suas faianças transferware - Rathbone, por exemplo, e até a Villeroy & Boch do séc. XIX - mas há diferenças, não só em pormenores da cena central, mas também na composição floral da cercadura e na guarnição da mesma.
Quanto à outra cena rural presente em duas taças, não havendo pires é difícil mostrá-la na totalidade, mas aqui ficam fotos de dois lados da mesma taça.





Finalmente, porque este é um chá de Outono, quero acrescentar um fruto que tenho aqui em abundância todos os anos nesta altura, bem saboroso comido à colher como sobremesa ou, porque não, a acompanhar o chá. São os nossos belos diospiros  que penso não serem muito familiares às minha parceiras destes eventos que habitam paragens longínquas mais a norte.


Não só o fruto tem esta linda cor de fogo mas também as árvores, os diospireiros, ficam com as folhas em tons avermelhados e eu adoro ver essa coloração na folhagem de outono. Só não as fotografei porque começou a chover hoje à tarde, já não fui a tempo.
É o Outono a avançar, com o mês de outubro a chegar ao fim...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bandeira e Fervença de novo

Nem sempre este blogue tem vivido da "prata da casa" como temática ou como ilustração de textos, mesmo quando se trata de objetos e não de edifícios ou monumentos.
Com efeito, a disponibilização de fotos por parte de familiares e amigos, alguns já feitos através do blogue, tem sido um recurso inestimável que em muito tem contribuído para enriquecer os conteúdos. Alguns desses posts estão até entre os mais populares.
É de novo o caso do tema de hoje, "alimentado" por três bons exemplares de faiança do Norte, que tenho a agradecer à If, grande entusiasta e estudiosa das nossas faianças.


 Os motivos centrais destes dois primeiros exemplares, embarcações à vela, parecem-me muito ligados às vivências dos trabalhadores cerâmicos das fábricas gaienses, ali à beira do rio e tão perto do mar. Também não nos podemos esquecer que o século XIX foi uma época de intensa emigração, sobretudo para o Brasil, a partir do populoso Norte do país, e era este o meio de transporte utilizado pelos viajantes. Por isso, teria a sua  popularidade como motivo decorativo, embora eu não conheça outros exemplares neste género de faiança.


A paleta de cores é muito idêntica, e também os filetes à volta do covo, mas pelo tipo de cercadura podemos arriscar atribuir o primeiro à Fábrica da Bandeira e o segundo à da Fervença, ambas situadas em Vila Nova de Gaia e ambas fundadas na primeira metade do século XIX.
O terceiro exemplar destaca-se pela cercadura nada usual, com grinaldas de flores miúdas a delimitar zonas de quadriculado amarelo.


Já o motivo central de casario é comum a outros exemplares atribuídos à Fábrica da Bandeira, como este que eu já tinha mostrado num primeiro post e repetido num outro meses depois.
 Há diferenças de pormenor mas o conjunto de edifícios é basicamente o mesmo e há grande semelhança na forma de representar a vegetação.



Também curioso é verificar que o conjunto de quatro cisnes que aparecem no primeiro prato com o motivo do barco à vela é exatamente o mesmo que se pode observar no  prato seguinte, do Museu Nacional de Arte Antiga, atribuído à Fábrica da Bandeira. Imagino que cada fábrica disporia de variados motivos em stencil que depois eram agrupados ou sobrepostos formando diferentes composições.

Penso que esta possibilidade que temos tido de comparar, quer os motivos centrais, quer os filetes e cercaduras, em vários exemplares, muitos já com atribuição de fabrico, nos vai permitindo ganhar mais conhecimento e confiança relativamente a estas faianças não marcadas.
Obrigada, If, mais uma vez...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ó meu São Sebastiãozinho!!!


Ando a rever a Gabriela... a cravo e canela, claro, só que em versão novela da noite! Nada de Dancing Days, Avenida Brasil ou outra que ainda há ou houve depois dessa, mas de que não sei o nome, apesar de  a SIC  tentar garantir as audiências para a sua sessão  contínua de telenovelas, metendo umas nas outras, prolongando ou encurtando os tempos a seu belo prazer, sem qualquer respeito pelo espectador.
Por causa destes malabarismos, entre outras coisas, já há anos que não seguia nenhuma, mas a Gabriela conquistou-me de novo.
E na Gabriela, para além da titular e de outras figuras inesquecíveis saídas da pena de Jorge Amado (1912 - 2001) cujo centenário se celebra este ano, há uma personagem por quem nutro especial simpatia: a D. Sinhazinha.
Para já acho que chamar a alguém D. Sinhazinha, dois títulos em que um é nome próprio, não lembraria a ninguém, mas lembra à criatividade linguística dos nossos amigos e parceiros na lusofonia do lado de lá do Atlântico.
Pois é, simpatizo com a D. Sinhazinha e acho que estando casada com aquele brutamontes que às vezes lhe diz: "Quero lhe usar", só podia encontrar refúgio num santinho de aspeto jovem e bem parecido como o São Sebastião, a quem nem as setas todas a trespassá-lo alteram a beleza e compostura!
Acabou por encontrar um S. Sebastião de carne e osso e a história lá vai tendo os seus momentos tórridos, quase todas as noites, connosco a assistir...


Por isso, lembrei-me de partilhar aqui este registo de S. Sebastião, em homenagem à D. Sinhazinha agora que já se anuncia a tragédia - o seu querido S. Sebastião de barro já foi todo escaqueirado pelo odioso marido (fabuloso desempenho de José Wilker... mas que saudades dele jovem no papel de Dr Mundinho!) e as beatas de Ilhéus já se puseram em campo, com as antenas no ar. Vai acabar por ter em ficção o destino de muitas mulheres na vida real... ainda nos dias de hoje!!!
Mas voltando à imagem, este é o mesmo tipo de representação da estatueta de barro da novela, em que o santo não revela qualquer sinal de sofrimento e se apresenta como um verdadeiro Adónis, oferecendo-se assim à devoção de mulheres carentes como a D. Sinhazinha. A gravura não deve ser muito antiga, mas é bela e eu acho engraçado que a senhora que fez o trabalho manual com tecido, fitas e cordões - arranquei-lhe alguns extras pois era mais garrido e kitsch do que agora se apresenta - resolveu desenhar uma aura prateada à volta da cabeça. Realmente, por muito desajustado que seja o acrescento, sem ele a figura dificilmente lhe lembraria  um santo!



Já esta segunda gravura, ao contrário do que é habitual, apresenta um S. Sebastião Mártir em sofrimento, aparentemente já moribundo. No canto inferior esquerdo podem ver-se os instrumentos do martírio e em pano de fundo uma cidade. Apesar de muito mais antiga do que a anterior - a mim parece-me trabalho do século XVIII - é uma representação bem mais realista de um  homem martirizado pelas setas dos soldados de Diocleciano, o Imperador romano que  o condenou à morte quando descobriu que ele, um soldado romano, era cristão.


Comprei-a há tempos na Feira da Ladra, atraída pela gravura, mas não deixo de achar interessante o tipo de moldura, um trabalho recente nada comum, com marca de um atelier (atelier P.T.).
Andei a pesquisar imagens do santo na internet e encontrei variadíssimas representações, mas sempre com a mesma iconografia de um homem semi-nu atado a uma árvore com o corpo trespassado por setas e quase sempre um corpo belo e jovem sem sinais de dor.
A única exceção que encontrei foi esta gravura magnífica da Biblioteca Nacional, datada de 1650-1750 sem certeza, em que vemos S. Sebastião de cabeça descaída e olhos fechados como aparece na minha gravura, mas com uma iconografia que inclui um anjinho a aliviá-lo do sofrimento retirando-lhe as setas do corpo. Parece um deus grego caído em desgraça!
Por que será que o anjinho também me faz lembrar Cupido a atingir o belo jovem com uma seta?


Já se adivinha aqui o caminho que há-de tomar a devoção a S. Sebastião...



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Voltando a Viana...





Muitas vezes me tenho aqui queixado - eu e outros amigos e amigas que se interessam por faiança portuguesa - das dificuldades que sentimos para identificar a nossa faiança não marcada. É por isso uma verdadeira bênção encontrar uma peça marcada, como é o caso desta jarrinha de altar.
A marca é o inconfundível V de Viana - à época Vianna, como também aparece escrito em algumas peças - aqui pintado a vinoso de manganés.



Trata-se da fábrica instalada em Darque no final do século XVIII (1774) e que aí laborou até 1855.
Estudiosos destes assuntos e o próprio Museu Municipal de Viana do Castelo consideram três fases na produção desta antiga manufatura, e eu penso que a minha jarrinha de altar (com 15 cm de altura) se deve integrar  na segunda fase, iniciada por volta de 1795.
A verdade é que a faixa decorativa à volta da boca ainda lembra vagamente a tarja de Rouen, muito típica do primeiro período em decorações a azul, mas a paleta cromática num motivo decorativo alegre e popular pintado à mão, só poderá situá-la no segundo.
Também do segundo período, até cerca de 1820, são as decorações sobre o chamado azul safra, com motivos florais a branco ou com delicados raminhos coloridos (o LuisY do Velharias tem um post muito elucidativo sobre este assunto).



Seria o caso destes dois pires que me encandearam os olhos há uns meses em Ovar, só que aqui é a marca que vem baralhar a questão.
Pois é, não há fome que não dê em fartura e neste caso há marca a mais para meu gosto ;). Preferia que continuassemos com o simples V ou com o nome Vianna, mas nesta marca até já aparece a palavra Portugal !


Conclusão: deve tratar-se de cópias do século XX efetuadas por fábrica vianense que ainda não consegui identificar. Inclino-me para a empresa Jerónimo Pereira Campos, Filhos, com origem em Aveiro, que se estabeleceu em Alvarães, nos anos 30, por compra da Cerâmica de Viana Lda, e anexou nos anos 40 a Fábrica de Louça de Viana, Lda., da Meadela.
Bem, devo confessar que o preço que paguei pelos pires está perfeitamente de acordo com fabrico do séc. XX e não do início do séc. XIX, mas ao comprar há sempre aquela esperançazita, não é?