quinta-feira, 27 de junho de 2013

Obras do P. Teodoro de Almeida



Já aqui tenho referido que a principal razão para me sentir atraída por objetos antigos, nomeadamente os de cerâmica, é conhecer a sua história ou a história que muitos deles podem contar. Mas não são "livros abertos" e mesmo quando há marcas, a informação não nos chega de forma direta; temos que interpretar todos os sinais que as peças nos dão e depois procurar saber mais sobre elas, o que, sendo algo de aliciante para os amantes de velharias, causa também alguma frustração por sabermos que nunca teremos a história completa...
A situação é totalmente diferente com os livros, incluindo o livro antigo... desde que haja página de rosto.
Os dois que se vêem na foto são de um autor português do século XVIII, o iluminista Padre Teodoro de Almeida (1727 - 1804), e basta abrir qualquer deles para obtermos sobeja informação sobre o autor e a obra.


Começo pela página de rosto de Recreasão Filozófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural para instrucsão de pessoas curiozas, que não frequentárão as aulas. Neste exemplar o título já não figura completo ao cimo da página porque encontrei-o com as primeiras páginas mutiladas e tive que as restaurar, completando-as com papel japonês.
O que ficou diz-nos que o autor pertencia à Congregação do Oratório de S. Filipe Neri e era membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Real Sociedade de Londres e da de Biscaia. Assim, ficamos logo cientes de que se trata de um religioso que se dedicou às ciências e à Filosofia  e atingiu notoriedade, ou pelo menos reconhecimento, em instituições de prestígio, nacionais e estrangeiras. De facto, para além de escritor e filósofo, ele é considerado o primeiro físico experimental português.

Imagem retirada de DE RERUM NATURA a acompanhar texto do Professor Carlos Fiolhais

Quanto à obra, ficamos a conhecer, logo no título,  o assunto tratado - a Filosofia - a forma como é desenvolvido - em diálogo - e a que tipo de público se dirige - para instrução de pessoas curiosas que não frequentaram as aulas. Ficamos ainda a saber que esta é já uma quinta impressão muito mais correcta que as precedentes e que a obra foi desenvolvida em vários volumes, sendo este o 7º, que trata da Lógica. Finalmente o ano em que foi impressa - 1785 - e o local -  Lisboa na Régia Oficina Tipográfica - tendo sido licenciado, como era obrigatório à época.
Como bilhete de identidade de um objeto não está nada mal!
Trata-se de uma obra enciclopédica em 10 volumes, o último dos quais foi publicado em 1800. Do I ao VI trata da Filosofia Natural, o VII como já vimos, trata da Lógica e os VIII, IX e X da Ética e da Moral.


Indo para além da página de rosto, logo nas primeiras páginas aparece o índice das várias Tardes ou capítulos  em que se divide este volume, que começa na Tarde XXXVI. A primeira página está encimada por uma pequena gravura ou vinheta, sem menção de autoria, que apresenta duas figuras, cada uma com uma chama sobre a cabeça, vendo-se ao longe uma candeia a emitir uma luz intensa. Certamente uma representação visual das luzes do conhecimento que iluminam o espírito,  o conceito subjacente ao Iluminismo do chamado Século das Luzes.
Temos logo a iniciar o texto a fala de alguém, Eugénio, que tem como interlocutores Teodózio e Sílvio; são estas as personagens que vamos acompanhar ao longo de todo o volume e cujos diálogos, em linguagem muito simples, têm tiradas deliciosas e exemplos práticos hilariantes. Um deles é a história de um rapaz rude que, ao trabalhar numa horta com amigos, levou com uma enxada na cabeça, ficando com o juizo alterado. Ao contrário do que seria de esperar, ficou tão esperto que se veio a tornar Ministro de nome na Corte! :)



Alguém duvida que este discurso aparentemente tão inocente está a querer atingir o Marquês de Pombal, que perseguiu e obrigou o P. Teodoro de Almeida a exilar-se em França?!
Há uns meses, a Maria Paula, do blogue as coisas de que eu gostofalou deste autor a propósito de uma exposição no Mosteiro de Tibães onde se transcreviam extratos da Recreação Filosófica. Um deles , sobre o amor, não posso deixar de partilhar também aqui:


Para quem não esteja familiarizado com este tipo de escrita, convém lembrar que o som s, quando não está em final de palavra, é representado pelo f.
O outro título do Padre Teodoro de Almeida que tinha para partilhar é O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, mas a conversa já vai longa, acho melhor guardá-lo para outra ocasião.


Agora que está a terminar o mês dos Santos Populares, deixo aqui a foto completa com os livros, junto do meu Santo Antoninho do Pão, acompanhado de uma bromélia que me lembra uma alcachofra do S. João, em noite dedicada ao colega de festejos, S. Pedro :))


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A "prata dos pobres" - The "poor man's silver"

À primeira vista, parece haver um contraste acentuado entre os materiais de que são feitos os objetos desta fotografia. Barro e prata? Bem, na verdade, barro e barro!!!
At first sight, there seems to be a stong contrast between the materials the objects in the picture are made of. Clay and silver? Well, actually, clay and clay!!!


O açucareiro e a leiteira, em lustrina inglesa prateada, são as minhas últimas aquisições de faiança inglesa e as primeiras que fiz neste tipo de lustrina; por isso resolvi trazê-los hoje para a mesa do chá para participar em Tea Cup Tuesday, com a Terri e a Martha Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea.
The sugar bowl and the cream jug, both in English silver lustre, are my last purchases of English pottery and the first I made in this kind of lustreware; so I decided to bring them for tea today to take part in Tea Cup Tuesday with Terri and Martha, Tea Time Tuesday and Tuesday Cuppa Tea.

Encontrei-as na Feira de Velharias de Aveiro e como as comprei quase ao preço do barro,  vim para casa que  não cabia em mim de contente! :)
I found them at Aveiro flea market and as I bought them almost at clay price, I came home feeling as happy as a lark! :)


É que, sendo efetivamente a pasta de barro o material base no fabrico destas peças, foram sujeitas a requintes na moldagem e no acabamento que as fazem parecer aquilo que não são. Tornaram-se assim  muito desejáveis para figurar na mesa de uma população ínglesa menos abonada, sem acesso à aquisição dos objetos de prata que esta lustrina nitidamente copia. Por isso este tipo de lustrina ficou conhecida como "prata dos pobres"
The fact is that even if the clay paste is the raw material to make these pieces, they went through  molding and finishing processes that make them look like something they are not. Thus they became very desirable objects to be used on the table of a less well-off  population, having no access to the silver objects this lustreware clearly copies. That's why this kind of lustreware became known as "poor man's silver".

Este é um dos três tipos de lustrina - cobre, prata e rosa ou púrpura -  que os fabricantes ingleses desenvolveram e aplicaram nos seus produtos desde o início de oitocentos.
This is one of the three types of lustre - copper, silver and pink or purple - that the English makers developed and applied on their products since the early eighteen hundreds 

Na mesma peça, lustrina de cobre e púrpura ( antiquesatlas.com)
On the same jug, copper and purple lustre (antiquesatlas.com)


O intenso brilho prateado da minha leiteira
The extreme silver brilliance of my cream jug

A lustrina de prata foi conseguida com óxido de platina, aplicado em duas ou três camadas, mas a intensidade do brilho dependia muito da cor da pasta de barro, sendo as tonalidades mais ricas e intensas obtidas a partir de pasta mais escura, o que é  aqui o caso da leiteira.
Silver lustre was obtained with oxide of platinum, applied in two or three coats, but the intense brilliance of the objects depended a lot on the colour of the clay paste, the richer and more intense colours being obtained from darker paste, which is the case of the cream jug.


Nem o açucareiro nem a leiteira têm  marca, mas Spode e Wedgwood, dois nomes incontornáveis da produção cerâmica inglesa a que já dediquei vários posts,  surgem mais uma vez associados ao lançamento e divulgação deste novo produto nas duas primeiras décadas do século XIX.
Both the sugar bowl and the creamer are unmarked, but Spode and Wedgwood, two inescapable names of the British ceramic production, which I've already dealt with in other posts, are again associated to the launching and development of this new product in the early 1800s.


Para acompanhar as duas peças de lustrina, escolhi esta chávena e pires que já aqui partilhei, mas que achei combinar bem por também ter acabamentos a lustrina, neste caso num tom rosa-púrpura, e também pela cor do motivo com cenas mitológicas a bat printing.
To make company to the two lustre items, I chose this teacup and saucer which I've already shared, but I thought would look good here with its pink lustre finishings and also for the grey colour of the motif with bat-printed mythological scenes.

Num dia em que, estranhamente para esta altura de  Junho, cairam aqui umas chuvadas, não pude pôr a mesa para o chá no jardim, como fizeram algumas das minhas parceiras do chá;  por isso limito-me a partilhar uma parte da vista do jardim que tenho da minha varanda - um lilás e uma cameleira já sem flores, um hibisco, ao centro, ainda sem flores.
On a day with rain fall, strangely enough for this time of June, I couldn't set the tea table in the garden, like many of my tea partners did; so, I only share part of the garden view I have from my balcony - a lilac and a camellia japonica already flowerless, a hibiscus with no flowers, yet.


No entanto, não me posso queixar da chuva, já que, entre outras vantagens, nunca vi a minha estrelícia tão florida como este ano e isso devo-o ao longo inverno de chuva que tivemos aqui.
However, I can't complain about the rain, since, among other advantages, I've never seen my bird-of -paradise with so many flowers as this year and I owe it to the long rainy winter we had here.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Auspicio Regis et Senatus Angliae


Comprei este prato coberto há uns dois anos na Feira de Algés, a um preço que revelava não ter a peça grande significado para o vendedor, mas que a mim me deixou logo bastante  entusiasmada :) 
Trata-se de faiança inglesa, como suspeitei imediatamente pelo formato e  decoração e confirmei logo a seguir pela marca. Não apresentava nome de fabricante, mas as palavras Indian Ironstone, sob um brasão com símbolos reais e um lema em latim, foram suficientes para lhe perceber o fabrico inglês.


Ao chegar a casa, começou o desafio para identificar o fabricante e determinar a época de fabrico, a parte aliciante para mim da compra deste tipo de velharias.
Descobri logo na internet ser Auspicio Regis et Senatus Angliae (À Ordem do Rei e Parlamento de Inglaterra) o lema ou motto da Companhia das Índias Inglesa,  o que me deixou um tanto perplexa;  e logo fui encontrar os mesmos símbolos do meu prato, usados como seus atributos.


Com essas armas e lema esperaria encontrar uma peça de porcelana armoriada de fabrico chinês, dos milhares de peças importadas pela Europa via Companhias das Índias, mas não um caseiro prato coberto fabricado em Inglaterra, numa pasta de faiança muito usada no século XIX que pela robustez e durabilidade os fabricantes ingleses de Staffordshire apelidaram de "ironstone", também conhecida por semi-porcelana ou porcelana opaca.
Ainda pensei que podia ter sido uma encomenda feita a um desses fabricantes para os escritórios da Companhia em Londres, mas não me parecia fazer sentido a localização da marca - no tardoz da peça e não em lugar de destaque como sinal de pertença, tal como se vê na seguinte peça de porcelana à venda na internet.


A Companhia das Índias Orientais inglesa foi criada para o comércio com o Oriente no ano de 1600, no reinado de Isabel I,  mas a sua existência prolongou-se até ao final do século XIX, nessa altura já uma sombra do que tinha sido, pelo que podia datar do período mais tardio a encomenda desta loiça.
Nestas voltas e conjeturas andei algum tempo até que - Eureka! - encontrei, mais uma vez na santa internet, uma peça com a mesma marca, mas com uma outra gravada na pasta que desfez parte do mistério: Alcock's Indian Ironstone. 
O apelido Alcock aparece ligado à produção cerâmica em Cobridge,  Staffordshire,  desde 1828, mas foi no período de John & George Alcock, ou seja, 1839-1846, que esta marca com o conhecido lema foi usada.


Assim fiquei a saber qual foi o fabricante do meu prato coberto e qual a época de fabrico, apenas permanece o mistério de saber como lhe foi permitido marcar os seus produtos com um símbolo tão conhecido e prestigiado como foi o da British East India Company.


O motivo é nitidamente de influência oriental a lembrar as decorações Imari inglesas, com pintura policromada à mão sobre desenho estampado a cinzento pelo processo de transfer printing.  Nos ramos com flores e folhagens aparecem, de onde em onde, uns elegantes faisões que para mim constituem um pormenor interessante desta decoração.



Ocorreu-me entretanto, já depois de publicar este post, pela presença na marca das palavras Indian Ironstone, que as peças assim marcadas pela Alcock se poderiam destinar à exportação para os territórios indianos que na época ainda estavam sob o controle da Companhia das Índias inglesa. Apesar de ser apenas uma conjetura, parece-me  esta a explicação mais lógica.





segunda-feira, 3 de junho de 2013

Para o chá com os pequenitos - For tea with the little ones




Quando há crianças em casa, há sempre algumas loiças a elas destinadas, com a respetiva bonecada em decoração colorida. Foi esse tipo de loiça que escolhi para o chá - com a Terri e a  Martha em Tea Cup Tuesday - ainda a pensar no Dia Internacional da Criança assinalado há dois dias.
When there are children at home, there are always some pieces of tableware meant for them, with the typical colourful kid-like decoration. That was the kind of china I chose for today's tea - with Terri and Martha at Tea Cup Tuesday - having in mind the celebration of the  International Children's Day two days ago.


É certo que nas últimas décadas o plástico de vários tipos destronou a cerâmica, já que, dada a natureza dos seus utilizadores, raramente estas loiças permaneciam intactas por muito tempo... mas este  conjunto de chávena de chá, pires e prato de sobremesa em porcelana muito fina, resistiu bem à passagem do tempo.
It's true that in the last decades plastic of several kinds displaced ceramics, since, due to the nature of their users, seldom did these wares keep intact for long... but this trio of teacup, saucer and dessert plate, in a very thin porcelain, resisted the passing  of time.

Ele a pintar...  He at painting...

Ela a pescar... She at fishing
Foi fabricado, já lá vão umas décadas, pela Sociedade de Porcelanas de Coimbra, encerrada em 2005, mas outros fabricantes portugueses, - e não só a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre ou a  Fábrica de Loiça de Sacavém - incluiram este tipo de loiça na sua produção. No entanto, é a Coimbra SP a marca que tenho visto mais vezes nas loiças para crianças.
It was made, already decades ago, by Sociedade de Porcelanas de Coimbra (Coimbra Porcelain Partnership) that was closed in 2005, but other Portuguese makers, not only Vista Alegre Porcelain or Fábrica de Loiça de Sacavém, included this kind of wares in their production. However Coimbra SP is the backstamp I most often see on children's plates.

A seguir, três cachopitos com ar reguila são o motivo central de um prato de faiança de Sacavém. Num estilo bastante diferente do trio de porcelana, o prato de sopa ou de papa ostenta uma ternurenta inscrição.
Next, three kids with a naughty  look are the  central motif of an earthenware Sacavém plate. In a very different style from the porcelain trio, the soup or porridge plate shows  this very sweet inscription :"Good morning mummy".










E agora, toca a chamar a criançada para a mesa... :)
And now, let's call the kids to the table... :)


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Crianças, fábulas...e um grande escritor quase esquecido...



Em vésperas do Dia da Criança e na semana em que se assinalam os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro (1885-1963), efeméride muito pouco assinalada tanto quanto me apercebi, ocorreu-me trazer aqui uma das suas obras de literatura infantil, Romance da Raposa, uma leitura deliciosa para crianças e adultos.
As aventuras da raposa Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira  ou raposeta pintalegreta, senhora de muita treta - são narradas numa riqueza e vivacidade de linguagem e com um humor que terá pouco paralelo na literatura portuguesa do século XX. Com sequências de palavras a rimar entre si, tipo lengalenga, com uma musicalidade que enfeitiça qualquer leitor, miúdo ou graúdo, parece-me uma escolha muito acertada para pais ou avós embalarem as suas crianças  com uma historinha ao deitar na caminha. Eles podem não entender grande parte do vocabulário, mas a sonoridade das rimas e a comicidade das situações serão suficientes para prender os miúdos às aventuras e artimanhas da Salta-Pocinhas, sempre esfomeada, e para quererem saber mais na noite seguinte...

As ilustrações a preto de Benjamim Rabier continuam a ser muito atraentes

Só li este romance já adulta quando o meu pai o ofereceu à minha filha, porque na minha própria infância e adolescência nunca me tinha cruzado com ele, embora tivesse em casa  à disposição vários outros títulos de Aquilino - o Malhadinhas, A Casa Grande de Romarigães, Maria Benigna... - que li mais tarde.
O Romance da Raposa, escrito por Aquilino para o seu filho, em 1924,  vem na longa tradição de fábulas de animais,  desde o longínquo Esopo da Grécia antiga, muitas com a raposa como protagonista.

Em cima Fables de La Fontaine Illustrées
E aqui entra uma edição  das fábulas de La Fontaine (1621-1695) que comprei há anos, uma edição francesa do final do século XIX, infelizmente sem as páginas iniciais - pelo menos a página de rosto e as primeiras quatro páginas numeradas -  intitulada Fables de La Fontaine illustrées, o título de capa, ou Fables choisies de La Fontaine, o título de topo de página.
Contém centenas de fábulas em verso, protagonizadas por humanos e por animais e em várias dezenas intervém a raposa. São doze livros encadernados num volume, com muitas ilustrações a preto e algumas a cores de página inteira, curiosamente todas estas ilustrando histórias com figuras humanas.

O velho e os três rapazes

A leiteira e o pote de leite
O moleiro, o rapaz e o burro

Mas voltando à popularidade da raposa, também o grande J. W. Goethe (1749-1832) escreveu uma história em verso intitulada Reineke Fuchs (Reineke, a Raposa), destinada ao público infantil; e em contos tradicionais portugueses a astúcia e manha da raposa sempre surgiu como forma de nos ensinar a sermos espertos e nos precavermos contra certas habilidades... que são apanágio de muitos dos nossos semelhantes...
Há dois desses contos que estão gravados na minha memória, tantas vezes me foram contados e recontados enquanto criança: A Raposa e o Lobo em que como é habitual a comadre matreira sai a ganhar no que os dois combinam fazer em comum  e A Raposa e o Mocho, sendo desta vez a raposa que sai  enganada pelo sábio mocho. Tem um final com duas frases que retive até hoje :)
 - Mocho comi! (grita a raposa vaidosa abrindo as goelas)
 - A outro sim, que não a mim!!! (responde o mocho escapando-se da boca escancarada)

E daqui a mais um anito ou dois, o Gabriel vai ter muitas historinhas como estas para ouvir! E depois os primos, os irmãos... :))


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma caneca que veio do Norte...


 

Bem, comprei-a no Norte, a um vendedor do Norte, isso posso assegurar. Quanto à origem do fabrico, as dúvidas habituais... mas há palpites!
Descobri-a na Feira da Vandoma no Porto, assim inteirinha mas com várias rachadelas, a um preço  que achei compativel com o estado... e com a atração que exerceu logo sobre mim :)
É um recipiente de litro, pelo que o imagino a ser usado por homens de há cem anos dados ao copo, que ao regressarem do trabalho, ao fim do dia, tinham passagem obrigatória por tabernas ou adegas para beber uma litrada, à roda ou talvez não! E depois, em casa, era um Deus nos acuda...
Na forma e tamanho é muito parecida  com uma que foi partilhada pelo Luís no Velharias, atribuída à Fábrica da Fervença em Gaia. O meu palpite quanto a esta azul e branca, por analogia  com outras faianças nortenhas, é que seja também de Gaia - os dois tons de azul, o estampilhado, os esponjados, as pinceladas largas - e logo os nomes que ocorrem, com produção mais conhecida neste tipo de faianças, são Fervença, Bandeira e Santo António de Vale da Piedade; mas sei lá quantas fábricas gaienses, utilizaram as mesmas técnicas decorativas?!

Canjirão da coleção António Capucho atribuído à Fábrica da Bandeira em Gaia

Mede 15cm de altura, 10,5 cm de diâmetro, tem paredes finas e, ao achá-la muito leve, verifiquei o peso que é de 400 gramas. Será que estes dados são relevantes para a identificação? Se ao menos aparecesse uma igual em coleções antigas...


Bem, eu sei que ela só estava habituada a lidar com vinho, mas não resisti a pôr-lhe dentro este raminho de flores bem singelas - malmequeres e centaureas(?) - que, mesmo sem grandes cuidados,  teimam em aparecer todos os anos no meu jardim. E eu fico bem agradecida por esta dádiva da natureza!

A minha sinfonia azul




domingo, 19 de maio de 2013

Dia dos Museus em duas Casas-Museu

É verdade, foi um dia em cheio!
De manhã a visita à recentemente remodelada - reabriu em Janeiro - Casa-Museu Egas Moniz em Avanca, onde já tinha estado por duas vezes, mas onde não me canso de voltar; de tarde a ida a Ovar para visitar a Casa-Museu Júlio Dinis, também com remodelação e reabertura recentes, desta vez para mim uma estreia.


Casa-Museu Júlio Dinis
São dois espaços totalmente diferentes. O primeiro, um belo palacete do início do século XX, intimamente ligado à vida e obra do nosso Nobel da Medicina, uma casa de família, embora destinada a férias, bem vivenciada e repleta de objetos pessoais e coleções reunidas pelo casal. Dela falarei com mais pormenor em outra ocasião. 
Quanto ao segundo, uma típica casa vareira de rés-do-chão transformada num espaço cultural, mantendo três das pequenas divisões originais devidamente mobiladas, foi destinado a perpetuar a memória de uma estada breve em Ovar do médico e escritor Joaquim Guilherme Gomes Coelho(1839-1870) que todos conhecemos por Júlio Dinis, nascido e residente no Porto.



Sendo espaços diferentes, estão ligados não só pela curta distância entre as duas localidades, mas também pelo facto de o médico e cientista Egas Moniz ser considerado o primeiro dinisiano, tendo publicado Júlio Denis e a sua Obra, Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 1924.
Foram cerca de três meses, há precisamente 150 anos,  que Júlio Dinis passou nesta casa de familiares, em período de tratamento da tuberculose que o iria vitimar prematuramente aos 31 anos. Foi ali que observou a vida das gentes do povo, os seus hábitos, as ambições de alguns, os trajares e falares, que lhe serviriam de inspiração para os  romances campesinos que escreveu a seguir, particularmente As Pupilas do Senhor Reitor, cuja escrita iniciou naquele período.

O conjunto de material informativo preparado para os visitantes
A remodelação do edifício não se fez sem polémica. Sendo uma  casa de lavradores do século XIX já rara em Ovar, pequena como era, mas com um grande pátio e terreno nas traseiras - a fazer jus ao ditado "casa onde caibas, terra que não saibas"- foi ali construído um novo edifício ligado à casa, onde foi instalado um moderno auditório e outras dependências, ocupando uma grande área do pátio...  e lá se foi um espaço importante de uma casa de memórias...



Terá sido esse pátio, fulcro das atividades da lavoura, para onde se abria a cozinha da casa,  que permitiu ao  escritor tomar contacto com os jornaleiros e outros trabalhadores ao serviço desta Casa dos Campos, ouvindo os seus relatos aos donos da casa sobre o dia de trabalho, por vezes sem ser notado e tomando notas, enquanto se ia inspirando para a construção de personagens. Mas também fazia passeios pelo campo, observava as lavadeiras nos ribeiros ou os bandos de raparigas que regressavam do trabalho a cantar. Outras pessoas que conheceu na altura, como o médico local, serviram de modelo a descrições realistas de figuras como o inesquecível João Semana.



Estranhamente, ou talvez não, só encontrei cá em casa um exemplar das obras de Júlio Dinis, Uma Família Inglesa, que reli recentemente, o que significa que também eu embarquei na onda de esquecimento geral a que este escritor injustamente tem sido votado... como Aquilino, Castilho, Herculano, Junqueiro...  Tomei contacto com Júlio Dinis, como quase todos da minha geração, na adolescência,  ainda na casa paterna, sendo de lá o exemplar que hoje fotografei e aqui mostro, encadernado pelo meu pai, mas mantendo-lhe a capa original.


Muitos consideram estes romances leitura ligeira, muito bucólica e cor-de-rosa, mas não deixam de ser testemunhos de uma época e de um estilo de vida já desaparecido, cuja dureza era compensada pela abundância proporcionada por terras férteis e pelo sol sempre presente em época de verão, a convidar a festejos e a rituais de namoro, mesmo durante as tarefas agrícolas.   São romances de história simples mas bem construídos e com grande riqueza de personagens que permitiriam  fazer ainda cedo no percurso escolar a iniciação ao romance. Mas permitem também mais de um plano de leitura, apresentando motivos de interesse para diferentes tipos de leitores.

A Clara, de José Malhoa, Museu do Chiado
Na narrativa de As Pupilas do Senhor Reitor existe  análise e crítica social na caraterização do ambiente rural de meados do século XIX e na denúncia de certos comportamentos de tipos populares, como as beatas...; há reflexos das discussões sérias do momento nas reações dos aldeãos aos ecos que lhes chegavam das teorias evolucionistas de Darwin; há tratamento psicológico das personagens e talvez as primeiras descrições realistas no romance português, havendo quem considere Júlio Dinis próximo do naturalismo de Zola.
Este romance de génese ovarense poderá ter contra si o sucesso da versão cinematográfica de Leitão de Barros, conotado com o Estado Novo, o que leva por vezes à associação anacrónica desta obra literária com esses tempos de má memória...