segunda-feira, 29 de julho de 2013

Chávena Worcester para o chá desta semana - Worcester cup for this week's tea


Fico felicíssima quando encontro à venda, a um preço convidativo, algo que reconheço das minhas pesquisas sobre porcelanas e há muito ambicionava ter nas mãos.


Desta vez, na Feira de Velharias de Aveiro, descobri uma chávena e pires que logo me pareceram de fabrico  inglês, o que o vendedor confirmou, e cuja marca me pareceu conhecida. Tratando-se de três  iniciais gravadas na pasta sob uma coroa, ao pegar primeiro na chávena não consegui certificar-me bem da letra do meio, mas ao virar o pires não me restaram muitas dúvidas. Eram as maiúsculas FBB, ou seja, Flight Barr & Barr.












Ora estes são os apelidos de duas famílias que dirigiram em sociedade a Fábrica de Porcelana Worcester entre 1792 e 1840 - o nome Flight já vinha do período anterior  iniciado em 1783 - tendo usado os dois nomes ou as suas iniciais como marca, em diferentes combinações, consoante os membros das duas famílias que se associavam. Esta combinação FBB começou a ser usada  há precisamente 200 anos, em 1813, e prolongou-se até 1840. 
aqui falei desta centenária fábrica de porcelana, hoje Royal Worcester, que, vindo dos primórdios do fabrico de porcelana em Inglaterra - foi fundada em 1751 - se manteve sempre em laboração, cheia de qualidade e de prestígio, até aos dias de hoje.















Não só me agrada muito o motivo dourado, na linha das cercaduras neoclássicas e do estilo Império, sobre a faixa em tom de pêssego,  mas também a pega, do tipo London shape, apresenta um pormenor de requinte que só conheço nas chávenas Worcester do período FBB ou do anterior, BFB. A única marca visível do tempo e do uso é o desgaste no dourado, sobretudo na orla da chávena, o que me permite imaginar quantas pessoas, de quantas famílias, já terão saboreado uma reconfortante chávena de chá usando estas porcelanas.


Deslumbram-me os pormenores, formas e decorações, da arte da porcelana, mas numa época do ano em que a natureza nos brinda com flores magníficas, quis fotografar a chávena no jardim em companhia adequada. Encontrei-a na simplicidade sofisticada de um jarro cor de fogo ou cor de pêssego bem maduro, que desabrochou quase sem se anunciar, com o bolbo escondido debaixo de outra planta numa pequena floreira.


Mas também é o tempo dos hibiscos, outra espécie de flores que sobressaem pela sua beleza e tenho agora em abundância no jardim. E parece que são comestíveis em saladas! Que bonitas devem ficar... mas eu... não sei se me atrevo a arriscar... ;)




















Espero que vos tenha agradado esta partilha para o chá com

Tea Cup Tuesday da Terri e da Martha 
Tuesday Cuppa Tea da Ruth (?)

As anfitriãs  destes eventos já anunciaram que farão um interregno para férias durante algumas semanas, não sei se esta inclusive, e portanto também não haverá chá no ALV até finais de Agosto.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Exposição "Folhas de Clausura" em Coimbra


Não é uma exposição com imagens espetaculares, apelará certamente a um público muito restrito, mas aconselho-a a quem se interesse por livro antigo e pelo trabalho de conservação e restauro de livros. Poderão visitá-la até 28 de Julho, diariamente a partir das 15 horas.

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Trata-se da apresentação ao público do resultado de um projeto realizado em parceria pela Confraria da Rainha Santa Isabel e pelo CEARTE  para reabilitação de parte do acervo bibliográfico que foi pertença das freiras clarissas do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. O trabalho foi levado a cabo em duas ações de formação e concluído em regime de voluntariado, sendo as intervenções entregues a formandos sob a supervisão da técnica de conservação e restauro Maria do Céu Ferreira, de cuja oficina já aqui falei e tenho frequentado na Rua da Alegria em Coimbra.

 

Nas paredes do espaço expositivo alinham-se mais de duas dezenas de fotografias que ilustram as fases do processo de restauro dos livros, enquanto nos expositores horizontais se mostram os alvos da intervenção e nas vitrines se expõem materiais, ferramentas e produtos químicos que se utilizam nos trabalhos de restauro.

Um dos expositores com diversos livros e alguns objetos neles encontrados 
Não só pelas obras - todas de cariz religioso e em grande número  livros de ritual litúrgico - mas sobretudo pelos objetos encontrdos nos livros - pagelas, folhas secas, pequenos manuscritos e restos de materiais - é possível desvendar um pouco da vida quotidiana das mulheres que viveram em clausura naquele mosteiro. Daí também o interesse desta exposição.

À direita desenho em forma de leque com carateres orientais ainda não totalmente decifrados

Pagelas, os achados mais comuns dentro dos livros

Obra com encadernação de solapa, sem capa dura, ao lado de pagela e manuscrito nela encontrados







































Nestes trabalhos de restauro de livro antigo, valorizo a manutenção da capa original, sempre que possível, devendo ser colada sobre a nova capa de pele, como se vê  em baixo.




No catálogo da exposição, um dos responsáveis da Confraria da Rainha Santa Isabel faz um breve mas interessante historial das vicissitudes por que passou a comunidade de clarissas do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e a sua livraria, desde o abandono do velho mosteiro assoreado junto ao rio e a instalação no novo edifício em 1677, até ao aquartelamento ali de tropas napoleónicas e à extinção das ordens religiosas a que se seguiu uma lenta agonia. Daí a dispersão que todo o acervo sofreu, sobretudo  após a morte da última freira em 1891. 
Os exemplares mais raros e mais antigos da livraria monástica foram incorporados em diversos arquivos, bibliotecas e museus - Biblioteca da Universidade de Coimbra, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo, Museu Machado de Castro... O que restou no local, resultante já da fusão de dois acervos livrescos conventuais, o de Santa Clara-a-Nova e o de Sandelgas, integra 272 volumes já catologados, com datas entre 1611 e 1893, impressos em Coimbra, em Lisboa e no Porto, mas também noutras cidades europeias como Antuérpia, Madrid ou Veneza.




A caminho da saída, não resisti a fotografar este bucólico recanto do mosteiro, onde imagino uma jovem noviça a colher  folhas de avenca para secar dentro do seu livro de orações, longe de imaginar que esses seus  pequenos e singelos pertences viriam a ser descobertos e expostos a olhos profanos séculos depois...




terça-feira, 16 de julho de 2013

Bebendo chá pelo pires - Drinking tea from the saucer

Boris Kustodiev - Mulher de comerciante bebendo chá -1923 

Hoje, esta prática de sorver o chá pelo pires, quem sabe se até com um ruidozinho a acompanhar, :) parece-nos estranha, muitos diriam até que é sinal de falta de chá (!), mas a verdade é que era uso corrente nos salões do século XVIII, nos países da Europa e no Novo Mundo.
Nas culturas mais a oriente, o uso manteve-se até bem dentro do século XX, como se pode ver por estas duas pinturas  de  artistas russos; e não faltariam outros exemplos para o ilustrar.

Konstantin Makovsky - Bebendo chá - 1914

A intenção era arrefecer o chá mais rapidamente, o que me parece muito boa ideia para quem não dispensa o chá mesmo no verão - eu, sinceramente, não sou grande bebedora de chá nesta época - só que os atuais pires, pequenos e baixos,  já não são muito apropriados a essa função.
Há que recorrer para isso aos formatos mais antigos, de final do século XVIII e princípio do séc. XIX, que foram muito usados na porcelana chinesa ao gosto europeu que cá chegou via Companhias das Índias e fabricados pelas primeiras indústrias de porcelana europeias. Esses pires têm a mesma capacidade, se não mais, que as chávenas ou taças com que fazem conjunto.


É o caso destes exemplares que já aqui partilhei, de fabrico inglês New Hall ou Coalport em decorações Família Rosa, provavelmente da primeira década do século XIX.


Restava-me pôr à prova um desses conjuntos, para tomar um chá de caramelo de nata (Teestunde Sahne Karamell), delicioso,  que veio, imagine-se ... da loja do Palácio de Sanssouci em Potsdam, perto de Berlim...


E como se pode ver, o pires cumpriu bem a função e já posso beber um chá menos escaldante sem ter que esperar muito...
E para terminar, mais uma pintura que ilustra esta forma de tomar chá, desta vez à volta da mesa familiar,  e que encontrei, como as outras duas, em http://www.wikipaintings.org/en/search/tea/1#close.

Nikolay Bogdanov - Novos donos (Bebendo Chá) - 1913

Mais uma vez me associo, embora com um pouco de atraso, aos eventos das bloggers amigas do lado de lá do Atlântico, que celebram o chá à terça-feira:

Tea Cup Tuesday da Terri e da Martha
Tea Time Tuesday da Sandi
Tuesday Cuppa Tea da Ruth



domingo, 14 de julho de 2013

Coimbra mexe...

Coimbra com o Paço das Escolas ao fundo e a Rua da Sofia e seus colégios em primeiro plano

Será que a cidade se encheu de brios depois de a Universidade de Coimbra, Alta e Rua da Sofia terem sido classificadas pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, fez ontem precisamente um mês?
Já o merecia há muito tempo, penso eu, não só pelo património tangível, edificado, com vários núcleos interessantes cheios de história - só a Biblioteca Joanina merecia o galardão -  mas pelo património intangível, o peso cultural que Coimbra e a sua universidade tiveram no mundo lusófono. Sobretudo por um aspeto que nunca é demais salientar: foi esta universidade, instalada definitivamente em Coimbra no séc. XVI, que formou toda a intelligentsia de língua portuguesa - sublinho, também da África lusófona e do Brasil - até ao início do século XX. Foi por isso um património comum a toda a lusofonia que foi distinguido pela UNESCO.

Biblioteca Joanina, a mais bela jóia da cidade

Há até quem atribua à experiência académica comum, obtida em Coimbra pelas elites brasileiras do século XIX, aos laços de união que elas forjaram nas lutas e cumplicidades juvenis, a unidade política do imenso território que é o Brasil, ao contrário do que aconteceu com a América espanhola que se pulverizou em quase duas dezenas de países independentes.
Mas não foram as áreas distinguidas que me surpreenderam pela sua animação no último Sábado ; foi sim na Baixa que encontrei uma variedade de motivos de interesse, para turistas e residentes, que não esperava ver ali.
Enquanto na Praça Velha decorria uma feira de produtos regionais, com tasquinhas de petiscos e animação com música popular ao vivo, na Rua do Quebra-Costas realizava-se mais uma feira de artesanato, sobretudo artesanato urbano, com um ou outro apontamento musical acústico.

Rua de Fernandes Tomás

Passado o Arco de Almedina em direção à feira, via-se ao lado a velha Rua de Fernandes Tomás (que eu calcorreei tantas vezes quando vivia na Alta...) cheia de sombrinhas em coloridos de croché,  suspensas entre os prédios. Um magnífico e inesperado efeito!
Descendo de novo em direção à Igreja de Santa Cruz ia-se encontrar a entrada toda florida na preparação de um espetáculo de folclore agendado para a noite.

Igreja de Santa Cruz

 Ao lado, no Café Santa Cruz, as portas entupiam de público a assistir, sentado, em pé, onde era possivel arranjar lugar, ao concerto "Coros Ibéricos ecoam em Coimbra", com a participação do Coro Municipal Carlos Seixas e do Coro da Universidade de Valladolid. (Este carismático café é também um dos locais onde se podem ouvir fados ao fim de semana.)

Praça 8 de Maio
O coro espanhol atuou com os seus elementos espalhados pela sala, contando com a boa acústica do local e surpreendendo o público com a fantástica sonoridade e o inusitado da atuação. Foi um belo momento musical ao final da tarde!

Café Santa Cruz

Deixei para o fim o local por onde comecei este variado programa de sábado em Coimbra:
A visita à exposição "Folhas de Clausura", a decorrer na galeria superior dos claustros do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, apresentando um trabalho de conservação e restauro de livro antigo do acervo bibliográfico que pertenceu às freiras clarissas daquele convento. Pode ser visitada até ao dia 28 de Julho, mas voltarei a falar dela com mais pormenor.

Exposição no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

And last but not least...
Resta-me confessar qual foi o principal motivo que me levou à cidade neste dia: nem mais nem menos do que a festinha de final de ano do infantário do meu...formiguinha elétrica! :) 
Era ver o auditório cheio de embevecidos pais e avós a assistirem às incipientes atuações em grupo das suas crianças. É que tudo neles tem graça e não há ensaio que resista à espontaneidade e inocência dos mais pequenos, a começar pelas expressões de espanto naquelas carinhas larocas, quando se abrem as cortinas do palco e enfrentam o seu derretido público a aplaudir com entusiasmo...  Que ternura imensa!!!


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Galheteiros atribuídos a Miragaia

(Ora vamos lá desviar a atenção de manobras políticas e noticiários...)


Este belíssimo galheteiro que aqui apresento em primeiro lugar, pertence a  pessoas amigas que também se perdem por antiguidades e velharias.
Onde quer que vá, os olhos ficam-me logo nestas coisas e como agora ando quase sempre com a máquina fotográfica...
Nunca vi igual em catálogos e não está marcado, mas os meus amigos compraram-no como Miragaia, o que, pelos tons de azul e o  requinte dos pormenores, sobretudo o trabalho da base, me parece muito provável, até do período Rocha Soares, pai.


Também muito provavelmente da Fábrica de Louça de Miragaia é o galheteiro acima, uma das poucas compras que já fiz pela internet, mas com entrega em mão em Coimbra. Apesar de lhe faltar a pega, que é um elemento importante neste tipo de peças, considero que foi uma boa compra! Afinal o vendedor até conhecia o meu marido, de outros contextos, e embora o preço fosse já muito razoável, ele ainda nos fez um desconto ;)
Até o mundo da internet por vezes se torna pequeno...


Comparando as duas fotografias, vê-se bem como as tonalidades de azul se apresentam diferentes, pela incidência da luz em diferente hora e local, o que mostra como são falíveis as comparações de cores por reprodução fotográfica ou via net.
Não está marcado, mas com aquelas flores e a base vazada, tem um ar muito miragaiense, talvez não do primeiro período (1775-1822), mas do segundo período de laboração (1822-1850),  períodos considerados e descritos pelo catálogo Fábrica de Louça de Miragaia, Lisboa, IMC, 2008.
Procurando no MatrizNet, encontrei peças semelhantes na coleção do  Museu Abade de Baçal - uma base sem galheta e um galheteiro completo, ambos sem marca, mas com atribuição a Miragaia com ponto de interrogação..

Coleção do Museu do Abade de Baçal
Tenho pena de não conseguir ver a pega desta base de outro ângulo. Segundo a descrição, na ficha de inventário, tem pormenores  muito interessantes, com peixes a formar as hastes, terminando numa mão que segura uma argola, o que certamente enriquecerá a restante decoração.
Coleção do Museu do Abade de Baçal
Em qualquer das bases os pés são do mesmo tipo, mais um pormenor a apontar para o mesmo fabrico, o que me deixa cheia de satisfação por ter algumas pistas fiáveis em relação à origem do meu galheteiro.



quinta-feira, 27 de junho de 2013

Obras do P. Teodoro de Almeida



Já aqui tenho referido que a principal razão para me sentir atraída por objetos antigos, nomeadamente os de cerâmica, é conhecer a sua história ou a história que muitos deles podem contar. Mas não são "livros abertos" e mesmo quando há marcas, a informação não nos chega de forma direta; temos que interpretar todos os sinais que as peças nos dão e depois procurar saber mais sobre elas, o que, sendo algo de aliciante para os amantes de velharias, causa também alguma frustração por sabermos que nunca teremos a história completa...
A situação é totalmente diferente com os livros, incluindo o livro antigo... desde que haja página de rosto.
Os dois que se vêem na foto são de um autor português do século XVIII, o iluminista Padre Teodoro de Almeida (1727 - 1804), e basta abrir qualquer deles para obtermos sobeja informação sobre o autor e a obra.


Começo pela página de rosto de Recreasão Filozófica ou Diálogo sobre a Filosofia Natural para instrucsão de pessoas curiozas, que não frequentárão as aulas. Neste exemplar o título já não figura completo ao cimo da página porque encontrei-o com as primeiras páginas mutiladas e tive que as restaurar, completando-as com papel japonês.
O que ficou diz-nos que o autor pertencia à Congregação do Oratório de S. Filipe Neri e era membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Real Sociedade de Londres e da de Biscaia. Assim, ficamos logo cientes de que se trata de um religioso que se dedicou às ciências e à Filosofia  e atingiu notoriedade, ou pelo menos reconhecimento, em instituições de prestígio, nacionais e estrangeiras. De facto, para além de escritor e filósofo, ele é considerado o primeiro físico experimental português.

Imagem retirada de DE RERUM NATURA a acompanhar texto do Professor Carlos Fiolhais

Quanto à obra, ficamos a conhecer, logo no título,  o assunto tratado - a Filosofia - a forma como é desenvolvido - em diálogo - e a que tipo de público se dirige - para instrução de pessoas curiosas que não frequentaram as aulas. Ficamos ainda a saber que esta é já uma quinta impressão muito mais correcta que as precedentes e que a obra foi desenvolvida em vários volumes, sendo este o 7º, que trata da Lógica. Finalmente o ano em que foi impressa - 1785 - e o local -  Lisboa na Régia Oficina Tipográfica - tendo sido licenciado, como era obrigatório à época.
Como bilhete de identidade de um objeto não está nada mal!
Trata-se de uma obra enciclopédica em 10 volumes, o último dos quais foi publicado em 1800. Do I ao VI trata da Filosofia Natural, o VII como já vimos, trata da Lógica e os VIII, IX e X da Ética e da Moral.


Indo para além da página de rosto, logo nas primeiras páginas aparece o índice das várias Tardes ou capítulos  em que se divide este volume, que começa na Tarde XXXVI. A primeira página está encimada por uma pequena gravura ou vinheta, sem menção de autoria, que apresenta duas figuras, cada uma com uma chama sobre a cabeça, vendo-se ao longe uma candeia a emitir uma luz intensa. Certamente uma representação visual das luzes do conhecimento que iluminam o espírito,  o conceito subjacente ao Iluminismo do chamado Século das Luzes.
Temos logo a iniciar o texto a fala de alguém, Eugénio, que tem como interlocutores Teodózio e Sílvio; são estas as personagens que vamos acompanhar ao longo de todo o volume e cujos diálogos, em linguagem muito simples, têm tiradas deliciosas e exemplos práticos hilariantes. Um deles é a história de um rapaz rude que, ao trabalhar numa horta com amigos, levou com uma enxada na cabeça, ficando com o juizo alterado. Ao contrário do que seria de esperar, ficou tão esperto que se veio a tornar Ministro de nome na Corte! :)



Alguém duvida que este discurso aparentemente tão inocente está a querer atingir o Marquês de Pombal, que perseguiu e obrigou o P. Teodoro de Almeida a exilar-se em França?!
Há uns meses, a Maria Paula, do blogue as coisas de que eu gostofalou deste autor a propósito de uma exposição no Mosteiro de Tibães onde se transcreviam extratos da Recreação Filosófica. Um deles , sobre o amor, não posso deixar de partilhar também aqui:


Para quem não esteja familiarizado com este tipo de escrita, convém lembrar que o som s, quando não está em final de palavra, é representado pelo f.
O outro título do Padre Teodoro de Almeida que tinha para partilhar é O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, mas a conversa já vai longa, acho melhor guardá-lo para outra ocasião.


Agora que está a terminar o mês dos Santos Populares, deixo aqui a foto completa com os livros, junto do meu Santo Antoninho do Pão, acompanhado de uma bromélia que me lembra uma alcachofra do S. João, em noite dedicada ao colega de festejos, S. Pedro :))


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A "prata dos pobres" - The "poor man's silver"

À primeira vista, parece haver um contraste acentuado entre os materiais de que são feitos os objetos desta fotografia. Barro e prata? Bem, na verdade, barro e barro!!!
At first sight, there seems to be a stong contrast between the materials the objects in the picture are made of. Clay and silver? Well, actually, clay and clay!!!


O açucareiro e a leiteira, em lustrina inglesa prateada, são as minhas últimas aquisições de faiança inglesa e as primeiras que fiz neste tipo de lustrina; por isso resolvi trazê-los hoje para a mesa do chá para participar em Tea Cup Tuesday, com a Terri e a Martha Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea.
The sugar bowl and the cream jug, both in English silver lustre, are my last purchases of English pottery and the first I made in this kind of lustreware; so I decided to bring them for tea today to take part in Tea Cup Tuesday with Terri and Martha, Tea Time Tuesday and Tuesday Cuppa Tea.

Encontrei-as na Feira de Velharias de Aveiro e como as comprei quase ao preço do barro,  vim para casa que  não cabia em mim de contente! :)
I found them at Aveiro flea market and as I bought them almost at clay price, I came home feeling as happy as a lark! :)


É que, sendo efetivamente a pasta de barro o material base no fabrico destas peças, foram sujeitas a requintes na moldagem e no acabamento que as fazem parecer aquilo que não são. Tornaram-se assim  muito desejáveis para figurar na mesa de uma população ínglesa menos abonada, sem acesso à aquisição dos objetos de prata que esta lustrina nitidamente copia. Por isso este tipo de lustrina ficou conhecida como "prata dos pobres"
The fact is that even if the clay paste is the raw material to make these pieces, they went through  molding and finishing processes that make them look like something they are not. Thus they became very desirable objects to be used on the table of a less well-off  population, having no access to the silver objects this lustreware clearly copies. That's why this kind of lustreware became known as "poor man's silver".

Este é um dos três tipos de lustrina - cobre, prata e rosa ou púrpura -  que os fabricantes ingleses desenvolveram e aplicaram nos seus produtos desde o início de oitocentos.
This is one of the three types of lustre - copper, silver and pink or purple - that the English makers developed and applied on their products since the early eighteen hundreds 

Na mesma peça, lustrina de cobre e púrpura ( antiquesatlas.com)
On the same jug, copper and purple lustre (antiquesatlas.com)


O intenso brilho prateado da minha leiteira
The extreme silver brilliance of my cream jug

A lustrina de prata foi conseguida com óxido de platina, aplicado em duas ou três camadas, mas a intensidade do brilho dependia muito da cor da pasta de barro, sendo as tonalidades mais ricas e intensas obtidas a partir de pasta mais escura, o que é  aqui o caso da leiteira.
Silver lustre was obtained with oxide of platinum, applied in two or three coats, but the intense brilliance of the objects depended a lot on the colour of the clay paste, the richer and more intense colours being obtained from darker paste, which is the case of the cream jug.


Nem o açucareiro nem a leiteira têm  marca, mas Spode e Wedgwood, dois nomes incontornáveis da produção cerâmica inglesa a que já dediquei vários posts,  surgem mais uma vez associados ao lançamento e divulgação deste novo produto nas duas primeiras décadas do século XIX.
Both the sugar bowl and the creamer are unmarked, but Spode and Wedgwood, two inescapable names of the British ceramic production, which I've already dealt with in other posts, are again associated to the launching and development of this new product in the early 1800s.


Para acompanhar as duas peças de lustrina, escolhi esta chávena e pires que já aqui partilhei, mas que achei combinar bem por também ter acabamentos a lustrina, neste caso num tom rosa-púrpura, e também pela cor do motivo com cenas mitológicas a bat printing.
To make company to the two lustre items, I chose this teacup and saucer which I've already shared, but I thought would look good here with its pink lustre finishings and also for the grey colour of the motif with bat-printed mythological scenes.

Num dia em que, estranhamente para esta altura de  Junho, cairam aqui umas chuvadas, não pude pôr a mesa para o chá no jardim, como fizeram algumas das minhas parceiras do chá;  por isso limito-me a partilhar uma parte da vista do jardim que tenho da minha varanda - um lilás e uma cameleira já sem flores, um hibisco, ao centro, ainda sem flores.
On a day with rain fall, strangely enough for this time of June, I couldn't set the tea table in the garden, like many of my tea partners did; so, I only share part of the garden view I have from my balcony - a lilac and a camellia japonica already flowerless, a hibiscus with no flowers, yet.


No entanto, não me posso queixar da chuva, já que, entre outras vantagens, nunca vi a minha estrelícia tão florida como este ano e isso devo-o ao longo inverno de chuva que tivemos aqui.
However, I can't complain about the rain, since, among other advantages, I've never seen my bird-of -paradise with so many flowers as this year and I owe it to the long rainy winter we had here.