Admito que possa haver mistérios na vida pessoal ou literária de António Feliciano de Castilho(1800-1875), mas aqui refiro-me ao título do único romance que lhe é conhecido, Mil e um Mistérios, a que ele, talvez ironicamente, deu o sub-título de Romance dos Romances, mas que deixou inacabado.
Sempre interessada por assuntos da história local, descobri-o há anos na minha biblioteca escolar, não só esta edição da Câmara Municipal de Águeda, que assinalou os anos de permanência do escritor na freguesia de Castanheira do Vouga durante as Guerras Liberais, mas também a edição de 1907 de que falarei adiante.
É um romance bairradino, já que a ação se passa na Bairrada, o que não surpreende quem saiba que Castilho tinha familiares na Bairrada e aqui passou longas temporadas.
| Edição da Câmara Municipal de Águeda |
A história do romance centra-se em Aguim, aldeia muito antiga do concelho de Anadia, onde o escritor tinha as suas raízes do lado paterno (já agora, também o escultor Machado de Castro ali tinha ligações familiares) e encontram-se no romance referências a muitas outras localidades bairradinas - Águeda, Luso, Mogofores, Mealhada, Peneireiro, Tamengos (a freguesia a que pertence a estância termal da Curia) - e à Mata do Buçaco, servindo de cenário para uma evocação da vida na Bairrada a meados do século XIX.
Os trinta capítulos desta obra foram publicados por Castilho em 1845, mas a história ainda estaria longe do seu desfecho e, estranhamente, apesar de ainda ter vivido mais 30 anos, não se lhe conhece a publicação de mais uma linha sequer de Mil e Um Mistérios. Foi já postumamente, na edição de 1907, que saiu a lume um acrescento, ainda sem conclusão, que tinha ficado em forma de manuscrito à guarda do seu secretário - não nos podemos esquecer que o escritor ficara cego ou quase cego na infância (talvez agora lhe chamássemos amblíope?) e tinha que ditar todos os seus escritos.
A obra, com os trinta capítulos e o acrescento intitulado O Frade, surgiu com os números 52 e 53 na edição das Obras Completas de António Feliciano de Castilho, por iniciativa do filho Júlio de Castilho.
| Os dois volumes da edição de 1907 |
É um romance de aldeia que se pode considerar precursor do romance campesino, um tipo de romance cuja criação é atribuída a Júlio Dinis, duas décadas mais tarde. No entanto, com a ação localizada num ambiente de aldeia bairradina, temos a mestria de Castilho a levar-nos constantemente, mas sempre a propósito da narrativa, para personagens e autores das literaturas europeias suas contemporâneas ou para figuras e mitos das civilizações clássicas, em referências e comparações cheias de ironia e de humor.
Penso que é uma obra difícil de enquadrar em qualquer corrente literária. Ali encontramos, desde episódios picarescos cheios de comicidade, a descrições pormenorizadas dos falares, trajes e costumes aldeãos, caraterísticas do realismo então incipiente, referências a figuras da mitologia clássica, próprias do arcadismo em que o autor se formou, passando por personagens de índole romântica, cujas ações e atitudes são influenciadas por leituras de obras bem populares do romantismo.
Na tripla dedicatória do romance deparamos com mistérios a acrescentar aos outros mil e um do enredo: porquê dedicar a obra aos leitores do ano 1900 e a quatro escritores portugueses contemporâneos que Castilho não identifica, adivinhando-se que o faz com a mesma ironia com que a dedica a todas as boas mulheres. Escritores já consagrados à época, 1845, eram Alexandre Herculano e Almeida Garrett, da primeira leva de românticos, mas quem seriam os outros dois?
Penso que é uma obra difícil de enquadrar em qualquer corrente literária. Ali encontramos, desde episódios picarescos cheios de comicidade, a descrições pormenorizadas dos falares, trajes e costumes aldeãos, caraterísticas do realismo então incipiente, referências a figuras da mitologia clássica, próprias do arcadismo em que o autor se formou, passando por personagens de índole romântica, cujas ações e atitudes são influenciadas por leituras de obras bem populares do romantismo.
| Um dos meus exemplares, edição de 1938 |
No trigésimo capítulo, intitulado o ermo, o cenário é o chamado Deserto do Buçaco onde se instalou uma comunidade de Carmelitas Descalços no século XVII. Faz uma descrição fabulosa da mata plantada e cuidada pelos carmelitas durante dois séculos, então já de lá ausentes há doze anos, segundo nos diz o próprio narrador.
E é com o protagonista, João Simões, a deambular pela mata e a ter um misterioso sinal de presença humana, que termina esta parte da obra em capítulos. Tal desfecho terá permitido associar-lhe o manuscrito "O Frade", acrescentado ao romance em 1907.




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