segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Pequeno mostruário da Vista Alegre - Small Vista Alegre showcase


Regresso hoje às celebrações do chá com Tea Cup Tuesday - Terri e Martha - e Tea Time Tuesday mas...
Today I'm back  to tea time celebrations with Tea Cup Tuesday - Terri and Martha - and Tea Time Tesday but...


Com o tempo quente em Portugal a prolongar-se por Setembro, a opção por bebidas quentes, como o chá, é geralmente abandonada a favor de líquidos mais refrescantes. No entanto, o meu cafézinho nunca dispenso, duas ou três vezes ao dia, e como se vê pela amostra junta, posso variar na escolha da chávena para o saborear.
With the hot weather in Portugal  continuing through September, opting for hot beverages such as tea, is often abandoned in favor of cooler drinks. However, I can't do without my little coffee two or three times a day, and as shown by the sample above, I can vary the choice of the cup to sip it. 

Três motivos diferentes para o mesmo formato
A verdade é que já tenho usado estas chávenas da Vista Alegre, do mesmo formato mas com motivos diferentes,  para servir café à família ou aos amigos. É uma opção alegre e descontraída que dá até para usar chávena e pires diferentes, sempre que haja peças desirmanadas, como é aqui o caso de algumas. Além disso pode-se ir sempre acrescentando com outros motivos, no mesmo formato ou até misturando formatos diferentes, como vi recentemente em casa de amigos.
The truth is that I have already used these cups by Vista Alegre, in the same shape but with different patterns, to serve coffee to family or friends. It is a cheerful and relaxed option that you can even use different cup and saucer, whenever there are unmatched items, as is the case of  some of these. Also you can always keep adding other patterns, in the same shape or even mixing different shapes, as I've seen recently at a friends'home.

O motivo Campestre

Motivo do tipo Cozinha Velha

Motivo Margão com pintura à mão

Motivo com vista da Quinta da Vista Alegre
Eu limitei-me a dar uso às ofertas de chávenas isoladas que por vezes recebi de presente e às compras de chávenas isoladas que fiz por algum motivo, por vezes até por encontrar verdadeiras pechinchas nas feiras de velharias, tratando-se de porcelana desta qualidade.
What I did was just give a good  use to solitary cups that I've been offered and to purchases of  isolated cups I did for some reason, sometimes for finding real bargains at flea markets, considering it's porcelain of this quality.


As marcas são todas do último quartel do século XX, sendo a de baixo do lado direito, tanto quanto eu sei,  ainda usada atualmente.
The backstamps are all from the last quarter of the twentieth century and the one on the second row right, as far as I know, is still used today.
Mas tratando-se de um regresso às celebrações do chá, não podia deixar de aqui acrescentar um outro exemplar da Vista Alegre, desta vez para o chá, com uma marca curiosa.
But in a return to tea celebrations, I couldn't but add here another set by Vista Alegre, this time for tea, with a curious marking.



Aparecem casos destes de dupla marcação - Vista Alegre e Sociedade de Porcelanas de Coimbra - este com a marca azul que a Vista Alegre usou de 1968 a 1971 carimbada em peças que já tinham sob o vidrado o carimbo da Sociedade de Porcelanas, adquirida pela Vista Alegre nos anos 1940. Sobre este assunto o MAFLS tem um post recente, com outra marca da VA assim sobreposta à SP, que merece uma visita.
There are cases like this of double stamping - Vista Alegre and Coimbra Porcelain Partnership - this one with the blue backstamp that Vista Alegre used from 1968 to 1971 marked on pieces that already bore the underglaze backstamp of Coimbra Porcelains - a firm bought by Vista Alegre in the 1940s.
On this subject,  MAFLS has a recent post that deserves a visit, showing another backstamp of VA thus added to the Coimbra SP mark.


Espero que tenham gostado deste chá... com chávenas  de café :) em porcelanas VA.
Hope you enjoyed this tea... with coffee cups :) in VA china.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Finalmente!!! o "Thesouro de Prudentes" restaurado!


Falei aqui pela primeira vez neste livro há mais de dois anos, quando me dispus a restaurá-lo e a completá-lo na Oficina de Conservação e Restauro de Livros da Rua da Alegria em Coimbra, que nessa altura comecei a frequentar.
Thesouro de Prudentes de Gaspar Cardoso Sequeira é uma obra importante, quer pelo conteúdo, quer pelo autor, que foi um cosmógrafo e matemático português do século XVII, natural de Murça em Trás-os-Montes, sendo Thesouro de Prudentes (Lisboa, 1612) o seu segundo livro publicado.
A obra compõe-se de quatro livros, divididos em vários tratados sobre Astrologia, Medicina, Aritmética, Geometria, Ilusionismo (tratado III, livro III). Segundo informação da Wikipédia, é o quarto livro alguma vez escrito que descreve truques de ilusionismo e o primeiro a explicar como é que são feitos esses truques.



Encontrei-o na Feira da Ladra num estado deplorável, como se pode ver nas fotos que se seguem,  faltando-lhe mais de 100 páginas. Mas tratando-se de uma obra importante do nosso século XVII, e neste caso uma edição de 1701, achei que valia a pena trazê-la comigo.
Esta obra teve várias reedições ao longo dos séculos XVII e XVIII, em Coimbra e em Lisboa, sendo esta de Lisboa, da Oficina de Manuel Lopes Ferreira. A última que conheço é também de Lisboa, de 1712, do editor Miguel Manescal.


A capa é em pergaminho numa encadernação típica da época, não tem cartão a reforçá-la nem tinha guardas, elementos que não seriam usados neste tipo de encadernação, chamada de solapa.





O livro começou por ser todo desmanchado, a capa limpa e as folhas lavadas, uma operação morosa e delicada, seguindo-se o restauro das folhas rasgadas, com papel japonês. Ficou então a aguardar o completamento dos cadernos através da digitalização das páginas e folhas em falta a partir de um exemplar completo. Depois de uma primeira digitalização que correu mal e que deixou o trabalho parado durante um ano, quase me levando a desistir de o completar, tive acesso através da Oficina de Restauro a um outro exemplar e então foi possível retomar o processo.

Cadernos já restaurados

Costura dos cadernos por processo antigo

Transfil manual

Junção da capa aos cadernos já cosidos
É uma obra muito interessante também pelas ilustrações, só que, como é habitual acontecer, eram sobretudo as páginas ilustradas que estavam em falta.



Um dos muitos ornatos de fim de página
Deu muito trabalho e não ficou propriamente barato este meu Thesouro de Prudentes, mas é mesmo um tesouro de interesse bibliográfico!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Faiança figueirense - Carritos e Caceira


Caneca quadrilobada com 20cm de altura e 10cm de largo

Há cerca de dois anos, numa visita que me foi proporcionada às reservas de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz, reparei neste jarro ou caneca com a nossa conhecida decoração no chamado "Cantão popular" e fiquei muito  intrigada com a ficha junta que a atribuía a Fábrica dos Carritos.
Trata-se de  uma pequena localidade à entrada da Figueira da Foz, junto à estrada de Coimbra, que eu conhecia desde miúda de passagem, nas viagens com destino às férias na Figueira e de regresso a casa. No entanto, nunca tinha ouvido falar da existência de qualquer olaria ou unidade industrial que se dedicasse ao fabrico de faiança por aqueles sítios.


Nunca mais tive oportunidade de confirmar a informação da ficha, mas este ano, o responsável pela cerâmica do Museu Municipal,  pôs-me nas  mãos um documento precioso, intitulado "Retalhos da História da Cerâmica..." um trabalho de estágio realizado no ano letivo de 1976-77 na Escola Preparatória Dr João de Barros, da Figueira da Foz. Ali se transcrevem entrevistas a antigos trabalhadores e a descendentes, alguns já octogenários, dos proprietários de fábricas de cerâmica do concelho da Figueira, tendo sido nessa altura que esta peça de faiança deu  entrada na coleção de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha, por  oferta dos netos do fabricante de Carritos, Sivestre Vaz dos Santos.
O filho deste, com o mesmo nome, nascido em 1900, referiu em entrevista que a fábrica dos Carritos iniciou laboração antes do seu nascimento, mas só se aguentou no fabrico de louça branca até aos tempos da  primeira Grande Guerra, porque faltava o estanho para os vidrados. Deste relato terá resultado a datação da caneca azul e branca com decoração Cantão. A produção nunca terá sido grande já que era o pai que fazia quase tudo, com alguma  ajuda familiar, vindo apenas de vez em quando um pintor de Carvalhais de Lavos pintar a fornada. .
O avô do entrevistado, Manuel Vaz dos Santos, já era  proprietário de uma fábrica de louça branca em Caceira - localidade muito próxima de Carritos - para a qual  mandou vir oleiros de Coimbra no final do século XIX. Com eles, Sivestre Vaz dos Santos pai aprendeu a arte que praticou em Carritos.
A fábrica de Caceira é referida por José Queirós como sendo propriedade de Vaz dos Santos & Pinto, em 1902.
É precisamente desta fábrica o vaso ornamental que se segue, pertencente a um par, e que também faz parte da coleção de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha.
Mais uma surpresa para mim! Quando vi os dois vasos decorados com as armas reais, com aqueles relevos e esponjados, imaginei serem fabrico do Norte e afinal eram produtos de aqui bem perto!

Vaso ornamental de um par fabricado em Caceira

Pormenor interessante das zonas laterais  onde habitualmente se inserem as asas
Mais uma vez fiquei a pensar em como é falível dar palpites sobre a origem da  nossa faiança. Afinal, para além das inúmeras olarias existentes em Coimbra no século XIX e inícios do XX,   houve fábricas ou olarias em várias outras localidades do distrito e só na coleção do Museu Santos Rocha encontram-se peças de mais duas unidades fabris do concelho da Figueira da Foz: uma no  Senhor da Arieira (Tavarede) e outra em  Carvalhais (Lavos).

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

De novo a Fábrica de Santo António


Tenho a sorte de, através do blogue, ir contactando com entusiastas e colecionadores de faiança e, de vez em quando,  receber fotografias de boas peças, como é o caso deste vaso ornamental de arquitetura ou de jardim, com marca da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade. Formalmente muito semelhante a um exemplar do acervo do Museu do Açude no Rio de Janeiro, já apresentado pelo LuísY no Velharias graças à colaboração em fotos do nosso amigo Fábio Carvalho, e a um outro exemplar da Ordem da Lapa no Porto, que aqui mostrei, tem a particularidade de revelar em toda a sua beleza o azul intenso de Santo António, complementado pela mancha de amarelo nas duas pegas com cabeças de leão.

Vaso de jardim do acervo do Museu do Açude
Tendo sido uma importante unidade cerâmica de Vila Nova de Gaia, sempre tratada pelos estudiosos destas matérias nas obras que publicaram - Vasco Valente, José Queirós, Artur de Sandão... -  a Fábrica de Santo António não é um nome muito conhecido por cá - talvez seja mais conhecido no Brasil que foi o destino privilegiado destas cerâmicas ornamentais - ou sequer referido pela generalidade dos  vendedores e compradores de faiança. Pelo menos não ao nível de Miragaia, Fervença, Bandeira ou Viana, para só referir fabricos do Norte.
Penso que tal situação só se pode dever a duas razões: o facto de esta fábrica ter marcado muito pouca da sua produção se considerarmos os seus cerca de 150 anos de laboração, ficando por isso muitas peças no anonimato; o facto de alguma da sua produção estar muito na linha do último período da Fábrica de Miragaia, a que esteve ligada por volta dos anos 30 do século XIX e de que parece ter "herdado" operários e materiais, após o fecho em 1855, sendo as duas produções frequentemente confundidas.
E assim ficamos com muitos meninos nos braços, sem saber que nome de família lhes dar, vindo logo à baila o nome de Miragaia, mas com a suspeita de que possam ser desta fábrica gaiense com nome de santo, quer sejam os azuis e brancos do motivo País, quer as várias versões do Cantão Popular ou mesmo faianças policromadas.


É por isso que, sempre que aparecem peças marcadas da Fábrica de Santo António, há um regozijo enorme por parte de quem se interessa pela origem da faiança portuguesa, como é o meu caso e o de seguidores e amigos que por aqui se encontram.


Há cerca de dois anos, precisamente em Agosto de 2011, já aqui mostrei uma terrina igual a esta, com o motivo País, sem marca, em fotos enviadas por uma colecionadora que aqui tem amavelmente partilhado algumas das suas peças. Acabei por a atribuir a Miragaia por ter encontrado na Coleção do Museu de Arte Sacra de Arouca um exemplar idêntico assim marcado. E com base nessa informação, também o MAFLS considerou Miragaiense uma sua terrina deste formato e decoração.
Acontece que...


...como se vê esta tem marca da Fábrica de Santo António... de Vale da Piedade.
Tanto o vaso ornamental como esta terrina pertencem à coleção de um seguidor do Norte que já por várias vezes me cedeu fotografias de peças suas, mais uma generosa partilha que nos permite a visualização de exemplares que de outra forma não estariam acessíveis. Muito lhe agradeço por isso e também pela informação que me tem facultado a acompanhar as fotos.
Segundo Vasco Valente, na sua obra Cerâmica Artística Portuense, as marcas dos dois vasos foram usadas no último período de laboração da fábrica, entre 1887 e a data de encerramento, cerca de 1930, durante a gerência de António José da Silva e Silva. Mas já José Queirós em Cerâmica Portuguesa e outros estudos fá-las recuar no tempo, datando marca semelhante (apenas diferindo nas palavras "fábrica de" escritas por extenso) e também a marca tipo Miragaia com os ramos de louro, dos anos 40 do século XIX, ou seja, do que é já considerado o 2º período de fabrico. Por outro lado, a marca da terrina não está referenciada por qualquer dos autores citados acima, pelo que, sendo seguramente do período posterior a Rossi, o fundador da fábrica e seu proprietário, ele e depois a filha, entre 1785 e os anos 1830, incluindo o período dos arrendatários Rocha Soares, fico na dúvida se a terrina será do segundo período se do terceiro e último.

A marca com ramos de louro datada por José Queirós de 1840 e por Vasco Valente do último período de fabrico

Estas considerações e dúvidas podem parecer coca-bichices, pormenores sem importância, mas eu, com as minhas manias já bem conhecidas por aqui ;), considero-as relevantes para o conhecimento da história das peças e da produção da fábrica.
Deixo para o fim a que considero a vedeta de hoje:


Também do mesmo colecionador é este escorredor de copos ou salva de aguardente, só que... sem marca. Foi no entanto comprada como fabrico de Santo António de Vale da Piedade, a intensidade do azul aponta nesse sentido, mas também a tipologia parece fundamentar a atribuição. É que conhece-se pelo menos um escorredor de copos deste formato atribuído por um especialista a Santo António de Vale da Piedade. A decoração é também a azul, mas marmoreada e pode ser vista no 2º volume da obra Faiança Portuguesa de Arthur de Sandão, p.154.


Aqui as duas peças, base e salva, bem visíveis e no seu esplendor máximo com a ingénua decoração de pássaro e ramos.
Devo confessar que este post saiu quase a ferros!!! Com a azáfama familiar que tem andado à minha volta, e ainda bem, só hoje arranjei umas horitas para alinhavar  a escrita... enquanto a malta foi até à praia ... :)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os "Mil e um Mistérios" de Castilho




Admito que possa haver mistérios na vida pessoal ou literária de António Feliciano de Castilho(1800-1875), mas aqui refiro-me ao título do único romance que lhe é conhecido, Mil e um Mistérios, a que ele, talvez ironicamente, deu o sub-título de Romance dos Romances, mas que deixou inacabado.
Sempre interessada por assuntos da história local, descobri-o há anos na minha biblioteca escolar, não só esta edição da Câmara Municipal de Águeda, que assinalou os anos de permanência do escritor na freguesia de Castanheira do Vouga durante as Guerras Liberais, mas também a edição de 1907 de que falarei adiante.
É um romance bairradino, já que a ação se passa na Bairrada, o que não surpreende quem saiba que Castilho  tinha familiares na Bairrada e aqui passou longas temporadas.

Edição da Câmara Municipal de Águeda

A história do romance centra-se em Aguim, aldeia muito antiga do concelho de Anadia, onde o escritor tinha as suas raízes do lado paterno (já agora, também o escultor Machado de Castro ali tinha ligações familiares) e encontram-se no romance referências a muitas outras localidades bairradinas - Águeda, Luso, Mogofores, Mealhada, Peneireiro, Tamengos (a freguesia a que pertence a estância termal da Curia) - e à Mata do Buçaco,  servindo de cenário para uma evocação da vida na Bairrada a meados do século XIX.

Os trinta capítulos desta obra foram publicados por Castilho em 1845, mas a história ainda estaria longe do seu desfecho e, estranhamente, apesar de ainda ter vivido mais 30 anos, não se lhe conhece a publicação de mais uma linha sequer de Mil e Um Mistérios. Foi já postumamente, na edição de 1907, que saiu a lume um acrescento, ainda sem conclusão, que tinha ficado em forma de manuscrito à guarda do seu secretário - não nos podemos esquecer que o escritor ficara cego ou quase cego na infância (talvez agora lhe chamássemos amblíope?) e tinha que ditar todos os seus escritos.

Os dois volumes da edição de 1907
A obra, com os trinta capítulos e o acrescento intitulado O Frade, surgiu com os números 52 e 53 na edição das Obras Completas de António Feliciano de Castilho, por iniciativa do filho Júlio de Castilho.
É um romance de aldeia que se pode considerar precursor do romance campesino, um tipo de romance cuja criação é atribuída a Júlio Dinis, duas décadas mais tarde. No entanto, com a ação localizada num ambiente de aldeia bairradina, temos a mestria de Castilho a levar-nos constantemente, mas sempre a propósito da narrativa, para personagens e autores das literaturas europeias suas contemporâneas ou para figuras e mitos das civilizações clássicas, em referências e comparações cheias de ironia e de humor.
Penso que é uma obra difícil de enquadrar em qualquer corrente literária. Ali encontramos, desde episódios picarescos cheios de comicidade,  a descrições pormenorizadas dos falares, trajes e  costumes aldeãos, caraterísticas do realismo então incipiente, referências  a figuras da mitologia clássica, próprias do arcadismo em que o autor se formou, passando por personagens de índole romântica, cujas ações e atitudes são influenciadas por leituras de obras bem populares do romantismo.

Um dos meus exemplares, edição de 1938

 Na tripla dedicatória do romance deparamos com mistérios a acrescentar aos outros mil e um do enredo: porquê dedicar a obra aos leitores do ano 1900 e a quatro escritores portugueses contemporâneos que Castilho não identifica, adivinhando-se que o faz com a mesma ironia com que a dedica a todas as boas mulheres. Escritores já consagrados à época, 1845, eram Alexandre Herculano e Almeida Garrett, da primeira leva de românticos, mas quem seriam os outros dois?


No trigésimo capítulo, intitulado o ermo, o cenário é o chamado Deserto do Buçaco onde se instalou uma comunidade de Carmelitas Descalços no século XVII. Faz uma descrição fabulosa da mata plantada e cuidada pelos carmelitas durante dois séculos, então já de lá ausentes há doze anos, segundo nos diz o próprio narrador. 
E é com o protagonista, João Simões, a deambular pela mata e a ter um misterioso sinal de presença humana, que termina esta parte da obra em capítulos. Tal desfecho terá permitido associar-lhe o manuscrito  "O Frade", acrescentado ao romance em 1907.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Casa-Museu Egas Moniz em Avanca



Fachada lateral da casa

Referi aqui, a propósito da visita à Casa-Museu Júlio Dinis em Ovar, que no mesmo dia, o Dia Internacional dos Museus, e com o mesmo grupo, também visitámos a Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca. Já lá vão mais de dois meses, mas como prometi na altura, e o prometido é devido :) aqui está a bela moradia de Egas Moniz (1874-1955).

A fachada principal
Ali  fomos recebidos pela  diretora deste espaço, um edifício que Egas Moniz reconstruiu em 1915 na sua terra natal, a partir da chamada Casa do Marinheiro, segundo projeto do arquiteto Ernesto Korrodi. A casa foi destinada a férias em família e recheada de coleções reunidas pelo casal e de objetos pessoais e profissionais do nosso Nobel da Medicina (1949). A diretora da casa-museu, na zona de receção e loja, fez uma breve apresentação da casa e da obra científica de Egas Moniz, guiando-nos seguidamente pelas diversas salas e núcleos expositivos.

Uma sala logo à entrada com lustre de cristal e várias jarras de cinco dedos em faiança
Recanto da biblioteca
Seriam pessoas com gostos ecléticos que colecionavam em diversas áreas, mas das várias coleções, como seria de esperar, as que mais me prenderam  a atenção - e já não era a primeira vez que as via - foram as porcelanas e faianças, desde o serviço de jantar em porcelana chinesa azul e branca até à faiança portuguesa esmaltada, loiças Wedgwood e porcelanas da Vista Alegre que se encontram pelas várias divisões mobiladas à época.

Faiança de Viana sobre uma lareira


Porcelana chinesa Cª das Índias numa outra sala


Galheteiros!!! e terrinas de porcelana chinesa num móvel da sala de jantar...
...e pratos e travessas de faiança portuguesa no cimo do móvel















Louças Wedgwood creamware no átrio do 1º andar























Mas há uma zona da casa em que as coleções estão musealizadas por salas específicas, de pintura, de prataria, de porcelana e cristais e também há salas dedicadas à obra científica de Egas Moniz.
Espero ter aqui aberto o apetite a quem aprecia casas antigas e recheio condizente para que programem uma visita  a Avanca, junto a Estarreja - para os que não conheçam bem esta zona, fica um pouco a norte de Aveiro.

Egas Moniz em retrato a óleo da autoria de Henrique Medina
Só mais duas notas sobre a obra do retratado:
. Foi-nos referido pela diretora do museu, que foi a sua descoberta da técnica cirúrgica da leucotomia pré-frontal, ou seja, uma cirurgia ao cérebro para tratamento de doenças neurológicas, que o levou a ser agraciado com o Prémio Nobel da Medicina. Pois esse prémio tem sido injustamente posto em causa por instâncias médicas internacionais por confundirem a prática de Egas Moniz, totalmente inovadora à época e eficaz no tratamento de certos casos, com a de médicos cirurgiões americanos que na mesma altura aplicaram em larga escala uma técnica semelhante conhecida por lobotomia frontal, esta sim com consequências terríveis para  muitos doentes. Há que pôr os pontos nos ii, não?
. A tese de doutoramento de  Egas Moniz, pouco conhecida do grande público, foi a "A Vida Sexual" ( obra com reedição à venda na loja desta Casa-Museu) devidamente ilustrada com partes anatómicas, como tinha que ser. Pois durante o Estado Novo, só podia ser comprada com receita médica :) e os estudantes de Medicina só a podiam consultar nas bibliotecas universitárias com autorização expressa do respetivo professor. LOL