| Paisagem com leiteiras e vacas |
Foi no início do verão passado, com os olhos ainda cheios das paisagens nórdicas do Museu do Prado que estiveram em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, que me senti atraída por esta paisagem, emoldurada com dignidade, mas muito suja e manchada, no chão de uma feira de velharias.
Ao pegar nela reparei imediatemente nas inscrições, entre elas o nome P. P. Rubens, mas custou-me a acreditar que fosse o tal! Perguntei o preço, pouco mais de meia dúzia de euros, e ainda hesitei porque efetivamente as manchas de "foxing", que conheço muito bem como resultado da humidade nos livros, nunca mais desaparecem e sem dúvida retiram beleza a qualquer obra em papel.
| O estado da gravura ao ser retirada da moldura |
Para além das manchas, havia sinais bem nítidos de que a gravura em tempos foi enrolada e depois passou parte da vida guardada e esquecida numa qualquer estante ou armário, certamente com pilhas de livros por cima, o que lhe deixou vincos irremediavelmente marcados no papel.
Bem, mas tinha esperança de poder fazer alguma coisa para melhorar o aspeto geral e tinha já certo o prazer de ter muito para descobrir por trás dos nomes inscritos num e noutro lado da margem inferior.
Começando pelo lado esquerdo, confirmei por pesquisa no Google, que foi Peter Paul Rubens (1577-1640) que pintou esta paisagem e que Schelte à Bolswert fez o trabalho de gravação.
Quanto a Rubens, pouca gente desconhece o nome e a importância que teve como pintor flamengo do século XVII, com uma obra vasta em várias temáticas - retrato, paisagem, cenas bíblicas, históricas e mitológicas.
Já Schelte à Bolswert (1586 - 1659), também conhecido por Schelte Adamsz. Bolswert, era para mim inteiramente desconhecido, mas fiquei a saber que foi um gravador profícuo de mérito reconhecido, nascido na cidade de Bolswert, na Frísia - lá, como cá, o hábito de usar como apelido o nome da terra de origem - e que trabalhou muitos anos em estreita ligação com Rubens, tendo continuado após a sua morte.
Do lado direito vemos o nome do impressor, Gillis Hendricx, de Antuérpia, cidade onde Rubens trabalhou e veio a morrer.
Soube também que Bolswert gravou, entre muitos outros trabalhos, não só as grandes paisagens de Rubens, mas também a série de pequenas paisagens, 20 ao todo. Para gravura, não são propriamente pequenas - cerca de 35cm x 45cm (a folha).
Continuando a pesquisa à procura das pequenas paisagens com os dados constantes nesta gravura, fui ter ao Museu Britânico, onde encontrei duas gravuras exatamente iguais à minha, datadas de 1638.
| A paisagem humanizada do lado esquerdo da gravura |
Qualquer das duas é assim intitulada e descrita: Pequeno lago com vacas e duas leiteiras; paisagem com um pequeno lago contendo juncos, uma das leiteiras inclina-se para encher um balde com água e uma das vacas esfrega o pescoço contra o tronco de uma árvore em baixo à esquerda, um pescador senta-se na margem ao longe à esquerda.
Estas são as cenas que tanto proliferam nas loiças inglesas decoradas a transferprint e que foram certamente a sua fonte de inspiração: campo, riachos, leiteiras, vaquinhas, pescadores...
![]() |
| Peter Paul Rubens - "Paisagem com leiteiras e vacas" - Museu de Liechtenstein |
Foi naquela página online do Museu Britânico que soube que o original de "Paisagem com leiteiras e vacas" se encontra na coleção do Museu de Liechtenstein, (não em Vaduz, como lá éstá indicado, mas em Viena, Áustria) e que esta foi a primeira paisagem autónoma pintada por Rubens, em 1616. Surpreendeu-me vê-la em espelho em relação às gravuras, mas se não fosse esse facto, a semelhança é tal que poderia parecer que as gravuras eram fotocópias a preto e branco, em escala mais reduzida, da pintura original.
Assim, a cores, a cena enche-me o olhar!
Resolvido o desafio da identificação e da descoberta de informação, havia que melhorar o aspeto da gravura e por isso decidi levá-la a uma casa de molduras só para que cortassem um passepartout em cartolina que cobrisse toda a margem desfeada pelo "foxing".
Assim, a cores, a cena enche-me o olhar!
Resolvido o desafio da identificação e da descoberta de informação, havia que melhorar o aspeto da gravura e por isso decidi levá-la a uma casa de molduras só para que cortassem um passepartout em cartolina que cobrisse toda a margem desfeada pelo "foxing".
Assim foi feito, foi passada a ferro com cuidado e de novo emoldurada e agora já tenho o meu Rubens pendurado na parede! ;)

































