Antes não a tivesse recebido tão cedo...
Falo dos livros do meu pai, em particular dos que ele próprio encadernou, de que se podem ver alguns neste móvel.
Se há objetos que desde sempre associei ao meu pai e que ele desde miúda me incentivou a usar, a estimar, a valorizar, esses objetos são os livros, objetos especiais que podem contar histórias e que podem conter mundos, como ele cedo me fez perceber.
Foi décadas mais tarde, quando esteve colocado em Santarém, nos anos 70, que se dedicou mesmo à encadernação de uma boa parte dos seus livros, talvez por ter uma oficina de encadernador bem perto do local de trabalho. Era ali que comprava os materiais e ali ia finalizar os trabalhos com a aplicação de ouro nas lombadas, a ferros quentes. Depois revia-se na obra feita e partilhava comigo a satisfação de colocar na estante mais um livro assim consolidado e embelezado.
| Uma da minhas capas preferidas |
| O requife e a fita de marcar |
Encadernou sobretudo romances - os seus Eças, Aquilinos, Jorge Amados, Zolas, Dickens, Tolstois... - mas também poesia, o teatro de Gil Vicente e revistas que assinava regularmente, salientando-se a Seara Nova de 1964 a 1971.
| Quatro volumes da revista Seara Nova |
Foi quase uma centena de volumes que ele encadernou nas horas vagas, sobretudo nos longos serões de inverno. Rodeava-se de ferramentas, peles, papéis, pequenos utensílios, fios, fitas, requifes, etc. e lá ia fazendo o trabalho com toda a paciência e desvelo.
| A prensa de madeira e alguns materiais que depois me passou para encadernação e restauro |
Encadernava em meia de pele, nas cores mais variadas como se pode ver na segunda fotografia, sendo as minhas preferidas as de carneira em tom natural, que depois vai escurecendo, com aplicação de rótulos coloridos.
| Alguns clássicos encadernados |
De início, eliminava as capas moles originais, mas mais tarde passou a mantê-las e também as bandas laterais, como deve ser feito. Neste Léah e outras histórias de José Rodrigues Miguéis colou um retrato do autor numa das guardas.
Já passou um ano desde que vi o meu pai pela última vez e tem sido muito dolorosa a ausência, mas constato cada vez mais que os que nos são próximos e muito queridos nunca nos deixam verdadeiramente, pelo menos enquanto tivermos memória. No caso do meu pai, mantenho o contacto através de fotografias, de recordações e a manusear as coisas que ele estimava. Ao folhear os livros que me deixou, encontro não só o seu autógrafo, mas por vezes textos manuscritos numa caligrafia impecável, às vezes notas, uma ou outra fotografia...
Mas sinto sobretudo muitas saudades de lhe ouvir a voz e as gargalhadas...
| O rapazinho que aprendeu a encadernar |









