segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Apontamentos Arte Nova na Curia - I

A estância termal da Curia iniciou a actividade regular na primeira década do séc. XX, a partir da constituição da Sociedade das Águas da Curia , em 1902, para exploração dos seus aquíferos.


Os primeiros edifícios termais eram construções muito precárias, primeiro meros barracões de madeira, que aos poucos foram sendo substituídos por edifícios mais sólidos, até aos definitivos, que ainda hoje vemos e que, apesar das remodelações que alguns têm sofrido no seu interior, mantêm a traça  original dos anos dez do séc. XX.

 Nesta década e na seguinte, deu-se também o grande surto de construções hoteleiras na Curia, tendo o seu edifício mais emblemático, o Palace Hotel da Curia, sido concluído, após sucessivas ampliações, em 1926.


Percebe-se, assim, por esta cronologia, que a arquitectura destes edifícios tenha sofrido influência, quer da estética Arte Nova, quer da emergente Arte Deco. Embora não  exista aqui um edifício tipicamente Arte Nova, como os que existem em Aveiro, por exemplo, encontram-se muitos elementos arquitectónicos que se filiam nesta corrente estética e artística e todo o complexo termal tem um ar muito Belle Époque.

O edifício da buvette, escrito à francesa, ostentando as datas de início e fim da obra, 1912-1914.
Varanda do edifício do Casino, agora desativado, sobre a colonnade, vendo-se rostos femininos como ornamento a sustentar mísulas

Portão da entrada principal do mesmo edifício com coleantes linhas orgânicas e motivos florais

Um dos dois vitrais que ladeiam o portão

Mostrarei outros edifícios da Curia, com elementos Arte Nova, em posts futuros com as mesmas etiquetas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Prato inglês com motivo "Braganza"


Este prato de faiança de pó de pedra (stone china) do 3º quartel do séc. XIX, é bem demonstrativo de como os fabricantes ingleses contavam com o mercado português para a colocação dos seus produtos.
Nesta altura, 1864, a fábrica de Sacavém ainda estava a dar os primeiros passos, nas mãos de industriais ingleses, pelo que haveria ainda muito espaço para a loiça importada de Inglaterra.
O prato mostra várias vistas de Lisboa - no centro a estátua de D. José no Terreiro do Paço e à volta, em reservas separadas por folhas de acanto, uma fonte do Rossio (ou antes, do Passeio Público, por informação do MAFLS), a estátua de Camões no largo com o mesmo nome, o pelourinho da Praça do Município e o Teatro D. Maria II - com que compuseram o motivo a que chamaram Braganza, em alusão à casa real portuguesa.


Pelas marcas, penso que estiveram envolvidos dois fabricantes: C.& J. Shaw Junior que terá produzido a loiça branca  e  Hope & Carter de Burslem, uma das cinco cidades oleiras  de Stoke-on-Trent, em Staffordshire, que aplicou o motivo decorativo. A marca em forma de  losango, a Patent Office Registration Mark, foi introduzida em todos os produtos  ingleses fabricados  entre 1842 e 1883 e é assim um auxiliar precioso para a datação das peças. A cerâmica pertence à classe IV e depois os vários números e letras, de acordo com tabelas, correspondem ao dia, mês e ano de registo, e há ainda um número do fardo ou volume. Assim, sei que este prato foi marcado no dia 27 de Abril de 1864.


Escaparate com seleção de pratos em faiança inglesa azul e branca, todos do séc. XIX, que decoram a cozinha cá de casa

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Livro antigo seriamente truncado

Este livro, encadernado a pele, era da casa dos avós do meu marido. Quando o vi pela primeira vez, já pertença de uma tia que ficou a viver na casa, estava com mais dois, também encadernados e do mesmo tamanho (30x20),  poisado entre muita papelada debaixo do tampo de uma secretária, num pequeno escritório. Mal vi, ao pegar num deles,que eram livros do séc. XVIII, mostrei-me interessada em os levar para casa para ver de que obras se tratava, mas tal não me foi consentido. O meu marido acreditava que tinham pertencido a antepassados, tios-bisavós ou trisavós, que se dizia na família terem sido frades e freiras. Anos depois, após a morte dessa tia, a principal herdeira da casa e dos haveres concordou em nos dar um dos livros, mas qual não foi o meu espanto quando ao abri-lo, me deparei com páginas e páginas arrancadas, quer no princípio, quer no fim do livro. Acho que foi a maior decepção da minha vida nesta área das antiguidades.


Parecia-me que tinha havido ali um ato de maldade gratuito e inqualificável. É que nem sequer sabia o título, a data, nada. Não havendo folha de rosto, lá se vai a identidade. Dispunha apenas da informação da lombada, o nome do autor, SOARES BAHIENS e o volume, T.I.

Fui então investigar pelo autor, o Padre João Álvares Soares, também conhecido por Soares Bahiense, padre jesuíta do mesmo colégio da Companhia de Jesus da Baía a que pertenceu o Padre António Vieira, e acabei por chegar ao título: Progymnasma Literario.
A obra foi publicada em 1737, quarenta anos após a morte de Vieira, e é constituída por um conjunto de 72 discursos de caráter moral, seguindo as letras do alfabeto, mas que terminaram na letra C, na palavra Ceo. São textos com muitas referências a figuras e episódios bíblicos e também à mitologia clássica. Como a obra não foi concluída, só existe este primeiro volume.
O único exemplar que encontrei nas bibliotecas portuguesas, na informação disponibilizada online, foi no fundo antigo da  Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra que se localiza na Biblioteca Joanina e fui lá para o consultar. Tive que o requisitar com antecedência na Biblioteca Geral e depois voltar lá para a consulta. Consegui que me digitalizassem e gravassem em CD, mediante pagamento, claro, não só a folha de rosto, mas toda a dedicatória ao rei D. João V e também a parte final do índice que também tinha sido arrancada.


Era um exemplar magnífico e raro que de forma tão leviana se tornou irreconhecível, mas agora penso que não terá sido um ato de maldade mas antes ignorância pura e simples. O livro teve o azar de cair em mãos pouco instruídas, a dona e a criada com quem vivia, que certamente encontraram alguma utilidade para aquelas folhas todas de papel. Sei que pelo menos um dos outros dois exemplares salvou-se completo.


Como sou grande admiradora do Padre António Vieira, agrada-me pensar que este livro possa ter sido escrito sob a sua influência, já que o autor pode muito bem ter sido seu discípulo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Chávena de Sacavém com busto de D. Manuel II


Hoje vou assinalar aqui uma efeméride:
Foi há precisamente 100 anos, 4 de Outubro de 1910, o último dia de vigência do regime monárquico em Portugal.
Embora não seja monárquica, longe disso, nutro uma simpatia muito especial pelo nosso último rei, D. Manuel II. Foi atirado para a governação ainda muito jovem, certamente amargurado pela morte violenta do pai e do irmão mais velho, e exerceu o poder por um período muito curto, de pouco mais de dois anos e meio, mas procurando resolver alguns problemas sociais. Já no exílio em Inglaterra, declarou sempre a sua grande ligação a Portugal e revelou-se um grande bibliófilo e estudioso do Livro Antigo português adquirindo e organizando livros e documentos relacionados com a nossa história. Deixou o resultado dos seus estudos em dois volumes publicados, mas a morte súbita e precoce em 1932, não o deixou publicar um terceiro volume, já preparado, publicado postumamente pela sua secretária inglesa.


Esta chávena de Sacavém é, portanto, facilmente datável. Embora a marca gravada na pasta - coroa relevada acompanhada da palavra SACAVEM - possa apontar para uma época anterior, a aplicação da estampa datará certamente do período que vai de 1 de Fevereiro de 1908, o Regicídio, a 5 de Outubro de 1910.


Só o pires  está marcado, mas na fotografia a marca é pouco visível.

domingo, 3 de outubro de 2010

Azulejos Delft de figura avulsa.


Este é o único exemplar que possuo destes azulejos holandeses que acho encantadores. É do tipo cenas bíblicas, facilmente identificáveis por aparecer Jesus Cristo ou  outras figuras sagradas com auréola à volta da cabeça. Estas cenas tinham todas nome, Fuga para o Egipto, O jardim das oliveiras, A Anunciação e dezenas de outras, mas para identificar algumas menos óbvias, caso da minha, é necessário conhecer códigos que os meus escassos conhecimentos nesta área não me permitem dominar. Para além da cena central, tem um motivo decorativo em cada canto que permitia dar alguma uniformidade à composição de azulejos num revestimento com cenas muito variadas.
Comprei-o por dois ou três euros, aqui perto de casa, num armazém de venda de móveis usados que vinham do estrangeiro, de onde também traziam outros artigos de recheios de habitações. Estava ali, sozinho, sem moldura, em cima de um móvel, e eu nem sabia  se era um verdadeiro azulejo Delft mas quis logo trazê-lo para casa. Só depois de fazer alguma investigação e de ver outros exemplares, soube realmente que era autêntico.
A melhor coleção portuguesa deste tipo de azulejos encontra-se na Figueira da Foz, na Casa do Paço. Trata-se de um edifício mandado construir no final do Séc. XVII pelo bispo de Coimbra D. João de Melo, mas só terminado na primeira década do séc. XVIII.
Apresenta várias salas com silhares de azulejos, destes de figura avulsa chamados de Delft, embora houvesse outros centros de produção de azulejos na Holanda.
 No país de origem, eram usados para revestir por completo fogões de sala, mas também, nalgumas regiões, revestiam sala e cozinha do chão ao teto. Aqui, na Figueira, foram aplicados à portuguesa, isto é, a formar silhares que revestem paredes de salas até mais ou menos um terço da sua altura, com uma borda de azulejos diferentes a terminar. A solução aqui encontrada foi muito engenhosa: como havia azulejos de três tipos - cenas campestres, cenas bíblicas e cavaleiros e mouros -  e em duas cores sobre o branco - azul e vinoso de manganês -  foram alternando os motivos e cores para obter o efeito pretendido.




Curiosamente, nesta coleção de cerca de 7000 exemplares, os azulejos de cenas bíblicas são a manganês e não a azul como o meu. Foram aplicados numa sala mais pequena que se pensa ter servido de capela.
Acredita-se que todos estes azulejos terão chegado à Figueira, não por encomenda, mas graças ao aproveitamento da carga de um navio holandês, naufragado junto à foz do Mondego, à época da construção do Paço.
O local neste momento só é visitável mediante contacto com os serviços de cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz.

Fachadas de azulejos no Porto


(um sábado com pronúncia do norte...)

Estas fotografias foram tiradas numa zona do Porto entre a Igreja de S. Nicolau e a Alfândega. Mostram uma variedade de azulejos, produzidos nas fábricas do Porto e de Gaia - Miragaia, Massarelos, Devezas, Torrinha, Carvalhinho, Monte Cavaco, Sto. António do Vale da Piedade - sobretudo na 2ª metade do séc. XIX.











Aqui presto a minha homenagem à arte azulejar portuguesa, com o seu expoente máximo nos séc. XVII e XVIII, a nossa marca maior nas artes decorativas que é reconhecida e valorizada em todo o mundo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Santo António de Roca

Seja ele que santo for, até prova cabal em contrário, vai ser o meu Santo António de Roca, Santo António de Lisboa, claro. Tem uma carinha bonita e simpática, nasceu num sítio lindo de Lisboa, estudou na bela cidade de Coimbra, gosta de marchas, arraiais e sardinhas, promove casamentos populares, é um santo viajado e disputado pelo povo de duas cidades, Lisboa e Pádua, logo, tem que ser muito milagreiro ...
Que mais se pode querer para um santo?


Mudando de registo:
 Nota-se agora na foto que o pescoço foi afeiçoado para ser introduzido num encaixe e já tinha o orifício onde se inseriu o espigão, dois pormenores em que assenta a pretensão a Santo de Roca. Vou procurar saber de que época é, mas não sei se a escultura tem características que permitam datá-la.
A base foi feita de um bloco de madeira de carvalho escurecida, arranjada numa carpintaria vizinha, a que se aplicou um espigão de metal cromado. Ainda vai levar cera e um fixador e fica pronto.

Aqui está ele, já instalado e feliz, junto ao fogão de sala.
(a senhora que trabalha cá em casa, mal entrou na sala e o viu, chamou-lhe logo Santo António)