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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dois presépios e um poema

Em época de Natal e renovando os votos de Boas Festas a todos que me visitam, deixo esta mensagem que estava para ser publicada no dia 24 de Dezembro...
Quero aqui partilhar dois presépios:
O primeiro por ser um tesouro artístico do Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, que ali encontrei há dias em exposição (embora, estranhamente,  sem a cruz e sem os pináculos da maquineta).

Presépio e maquineta do MNMC, Lisboa, século XVIII
O segundo por ser um tesouro de momentos de ternura, com memórias familiares que se vão perpetuando...

O presépio do Gabriel - Natal de 2013


E um poema de Natal de que gosto particularmente:

Natal
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga



segunda-feira, 22 de abril de 2013

A faiança ratinha do Museu Machado de Castro


É inegável que o Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, alberga tesouros valiosíssimos, peças de alto valor patrimonial, histórico e artístico, com vários séculos de existência,  chegando o núcleo romano a cerca de dois milénios. Ganharam agora, com a remodelação do museu, um destaque merecido e deslumbram todos os visitantes.
A cerâmica também está ali bem representada em esculturas de terracota e em painéis de azulejos, mas talvez pela quantidade de bens de interesse nacional, certamente também europeu e até mundial, de que o museu dispõe, a faiança, com exemplares únicos desde o século XVI,  não dispõe de muito espaço na exposição permanente  e foi até esquecida no folheto-guia do museu.
Na minha opinião, e não sou a única a pensar assim, a faiança ratinha, um caso único na faiança popular portuguesa do século XIX e início do XX, com caraterísticas muito próprias que tornam fácil a sua identificação e atribuição às olarias coimbrãs e com um contexto histórico e social também muito peculiar, devia ter contado com um núcleo expositivo mais extenso.




São lindos os pratos ratinhos de figura central que lá se encontram em exposição, assim como estes dois que igualmente pertencem ao acervo do museu e encontrei no MatrizNet. São geralmente os mais valorizados, até pelo testemunho que dão de costumes, trajes e figuras típicas, mas as restantes três peças em exposição não lhes ficam atrás em interesse. Aquela garrafa, o pucarinho, o grande prato de flores são peças magníficas! Gosto de apreciar a forma como são tratados os motivos vegetalistas e até o jogo de cores nos geométricos, cada um exemplar único; desses haverá alguns nas reservas do museu inacessíveis ao olhar do público e é disso que tenho pena.
Já o Professor António Augusto Gonçalves, fundador do Museu Machado de Castro, dava primazia aos mais simples, sem figuras, vendo com olhar crítico a introdução, no final do século XIX, da figura central nos rústicos ratinhos. Considerava-as "arrebiques" que os descaraterizavam, talvez por os distanciarem da herança islâmica que lhes é atribuída.


À falta de exemplares mais comuns na exposição do museu, trouxe aqui um dos últimos que trouxe para casa e me agrada particularmente. São os verdes intensos que aqui mais me seduzem, naquelas pinceladas livres a imitar folhagem, numa composição floral pentagonal que acho muito atraente. 
Uma caraterística deste meu prato que é comum aos mais primitivos ratinhos e que também me atrai muito é a disposição do motivo por toda a superfície, covo e aba, sem distinção entre um e outra e obviamente sem cercadura, apenas dois filetes a rematar.
Em baixo o prato ladeado de dois pequenos covilhetes no mesmo tom de verde.


Deixei para o fim uma boa notícia que foi ao fim e ao cabo a razão para este poste: soube há pouco tempo que o  MNMC recebeu uma doação de mais de cem ratinhos para o seu acervo. Só que, como já não têm lugar na exposição permanente, teremos que aguardar por uma exposição temporária, quando houver meios para a preparar e montar, o que não será certamente nos próximos tempos...
E há outra boa notícia: um novo blogue, o Tempo e Histórias, que se propõe dedicar muito do seu espaço à faiança ratinha, ou não fosse a sua autora uma estudiosa desta faiança popular coimbrã.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Reabertura do Museu Machado de Castro

O Museu Machado de Castro reabriu... e está um assombro!

Pátio do Museu Machado de Castro (anos 50)

Já toda a gente sabe que o Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, reabriu em pleno esta semana, no dia 11, mas eu não podia deixar de assinalar aqui esse acontecimento!
Após o encerramento para obras de fundo em 2006, só em 2009 ou 2010 abriu parcialmente ao público para visitas ao criptopórtico romano, enquanto se dava continuidade ao trabalho de acabamentos nas salas de exposição e a todo o trabalho de museografia e de expografia.
Numa primeira visita que ali fiz, pareceu-me que estava a ver muitas das peças pela primeira vez, tal o impacto que provoca a forma de as expor nos novos espaços e nos espaços remodelados, mas também acredito que mais brilho lhes foi dado pelas intervenções de conservação e restauro a que foram entretanto sujeitas.
As coleções incluem escultura e pintura antigas, ourivesaria, paramentaria, mobiliário... e para mim a cereja no topo do bolo, a coleção de cerâmica.





Embora tenha apreciado a forma como a faiança está exposta, por ordem cronológica, em dois longos expositores - e os azulejos nas paredes opostas - fico sempre frustrada por se tratar de peças em grande parte já minhas conhecidas e por pensar que haverá nas reservas muitas outras peças interessantes que não são dadas aos olhos do público. Aguardemos as exposições temáticas...
O edifício só por si é um objeto museológico, com mais de 2000 anos de história, por isso houve alguma polémica à volta dos acrescentos que lhe foram feitos, da autoria do arquiteto Gonçalo Byrne, mas eu gostei muito do que vi e da forma como a partir dos novos e dos antigos espaços se apreciam recantos da velha Alta de Coimbra.
Quanto a esta minha pintura, tem uma história engraçada que resolvi aqui partilhar.



Encontrei-a há meses na Feira da Vandoma no Porto, muito suja e com a moldura revestida a gesso a esboroar-se, mas reconheci logo o Pátio do Museu Machado de Castro, ou seja, o antigo Paço Episcopal de Coimbra. O vendedor não sabia do que se tratava, mas enchia a boca com o nome do pintor que ele dizia ser um Pedro Rodrigues e lhe servia de pretexto para carregar no preço.
Pareceu-me logo que o apelido era Dinis mas não o quis contrariar e não comprei o quadro, porque realmente o estado era lastimoso. Alguém a fazer limpeza na casa da avó achou que aquele chaço não tinha valor nenhum e deu-o ao desbarato. Entretanto, falei naquela pintura ao C.A. e passando nós lá já à saída da feira, o preço tinha diminuído para metade e com alguma negociação ficou reduzido a poucas dezenas de euros.
Viemos todos contentes com este tesouro para casa - para mim o mais interessante era ser uma vista do Museu Machado de Castro, mas o nome do pintor também me parecia familiar - e enquanto o C.A. tratava de retirar os restos de gesso e de lixar a moldura, eu limpei a pintura toda, um óleo sobre placa de madeira, com uma cotonete humedecida. Pareceu renascer das cinzas!
Na assinatura lê-se P. Dinis 52 e daí concluí tratar-se do pintor coimbrão Pinho Dinis (1921-2007) e de uma obra de 1952, da sua primeira fase, talvez ainda dos seus tempos de aprendizagem.
Bem, não é o Renoir que a outra comprou por 7 dólares numa feira de rua, o valor comercial até pode ser diminuto, mas foi um achado (e salvamento) que me encheu de satisfação!

Oleiras de Pinho Dinis
Há uma sala Pinho Dinis na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra, assinalada pelo seu Auto-retrato, mas preferi acescentar aqui esta bela tela, Oleiras, representando três mulheres na tarefa de pintar loiça numa qualquer olaria coimbrã.