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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Duas terrinas com pronúncia do Norte...



Estas belas terrinas ovais de faiança portuguesa, em muito bom estado de conservação, pertencem a uma colecionadora que já há algum tempo teve a amabilidade de me enviar  fotografias de várias peças suas desta tipologia.


O tom rosa usado neste exemplar não lhe retira o ar de pertença ao grupo a que chamamos "Cantão popular", habitualmente pintado a azul.


Cá estão em imagens repetidas os elementos habituais: o palácio, a ponte, o salgueiro muito estilizado, as nuvens, os traços paralelos representando a água.



 Pelo tipo de pegas, que conheço de outros exemplares, atrevo-me a dizer que será fabrico de Gaia, embora na ausência de marca seja quase impossível identificar a oficina ou unidade fabril que a produziu.



Não nos podemos esquecer que as oficinas e unidades fabris destinadas à produção de cerâmica proliferaram na zona de Porto e Gaia ao longo do século XIX, contando-se ali várias dezenas, tendo muitas prolongado a sua atividade pelo século XX.


Este segundo exemplar, o meu preferido, com a decoração País de Miragaia, tem um formato muito semelhante ao da terrina azul e branca que postei em Fevereiro, os moldes parecem ter sido os mesmos, e só pelo formato, que não conheço em peças marcadas da Fábrica de Miragaia, não me atrevo a atribuír-lhe essa origem, mas é uma hipótese que fica em aberto.


Cá está o edifício com a cúpula, assim como a palmeira, dois elementos caraterísticos do motivo País de Miragaia.
A verdade é que houve outras fábricas da zona, - Fontinha, Santo António de Vale da Piedade e até mesmo Darque em Viana do Castelo - que produziram imitações deste padrão de Miragaia.


As pegas são muito originais e só por si poderão permitir atribuição de origem a quem se dedique ao estudo comparativo destas faianças. As manchas azuis de esponjados, com flores deixadas em fundo branco, são muito caraterísticas da faiança azul e branca da zona do Porto e Gaia.


A tampa com os motivos alternados e uma pega em forma de cogumelo. Aqui, parece-me ainda mais notório que o molde foi o mesmo da tampa da terrina que postei em Fevereiro.

Entretanto, um mês depois de ter publicado esta mensagem, encontrei uma terrina exatamente igual a esta, no formato e no motivo "tipo país", identificada como Miragaia e neste caso com marca. Pertence à coleção do Museu de Arte Sacra de Arouca e está fotografada no catálogo de uma exposição ali realizada em 1998 intitulada "Mostra de Faiança Portuguesa",  promovida pela Real Irmandade Rainha Santa Mafalda/Museu de Arte Sacra de Arouca.

Não posso deixar de agradecer à possuidora destas faianças, não só a generosa disponibilização das fotos, mas também o cuidado que teve em fotografar as peças de várias ângulos, de forma a permitir a fácil visualização de todos os pormenores.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Terrina de faiança com várias leituras

Tenho algumas peças de faiança portuguesa, incluindo terrinas, para além das que já aqui partilhei, mas como não sou capaz de dizer grande coisa sobre elas, não me tenho sentido motivada a mostrá-las aqui no blogue.
A que mostro hoje é a última que comprei, juntamente com dois galheteiros também de faiança, numa daquelas ocasiões, raras, felizmente para a bolsa, em que não conseguimos escolher qual das peças comprar e trazemos o lote para casa. Este não foi caro porque as peças têm todas restauro ou pequenos defeitos.


Achei esta terrina muito curiosa  porque embora aparentemente a tampa e a base não coincidam, a verdade é que a pasta e as duas tonalidades de azul da decoração são exatamente as mesmas.

Vista de cima nota-se também a coincidência nos motivos geométricos que decoram as asas e a pega da tampa. Se as duas peças não nasceram uma para a outra, pelo menos fizeram-lhes um casamento feliz.


O motivo da base parece-me ser uma mistura do "País" de Miragaia e afins com uma versão de "Cantão Popular" mas não sou capaz de dar palpites quanto à origem. A cúpula do edifício e a palmeira lembram Miragaia e suas imitações, mas os restantes elementos já são de outro "filme".



É difícil perceber se a estrutura com arcos à frente do edifício pretende representar uma ponte, geralmente presente no cantão popular. Eu penso que sim, mas, podia também ser uma galeria no rés-do-chão do palácio com um terraço por cima...


Por baixo das asas, pequenos motivos de água e nuvens, muito presentes nas decorações cantão popular. A toda a volta da base o motivo dos edifícios aparece em repetição, quatro vezes.
Curiosamente todo o conjunto fez-me lembrar, salvaguardando as óbvias diferenças e distâncias, as terrinas redondas no "Cantão" chinês que têm na base uma cena original "Cantão" ou semelhante e a tampa só decorada com peónias.


Terrina do último leilão da leiloeira Renascimento, porcelana da China, período Qianlong

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Terrina de faiança azul e branca

Gosto muito desta terrina, que não é minha, mas da casa de familiares que frequento muito e onde há muita faiança  portuguesa. Aliás, foi lá que eu fiquei mais contagiada pelo bichinho das velharias e antiguidades, embora desde muito cedo tivesse propensão para essa  doença.


Não sei de que fabrico é, apenas lhe noto afinidades com faianças do Norte, especialmente Porto e Gaia,  sendo do tipo de faianças conhecidas como Miragaia.
É uma terrina pequena que tem  alguns elementos do cantão popular, por exemplo, a forma de representar o céu e as nuvens,  mas depois faltam-lhe o rio ou lago e a ponte. Nas reservas com paisagem vêem-se edifícios com torre,  o que parece ser uma fonte ou um poço, árvores quase despidas de folhagem, mas a parte mais curiosa é uma figura feminina junto a uma forma com chaminé que talvez represente um comboio, parece até haver uns troços de linha de caminho de ferro (será que sou eu que estou a ver coisas demais?) Há ainda os bandos de pássaros representados por séries de cruzinhas, que não conheço no cantão popular, nem na decoração "País" de Miragaia, mas aparecem noutras decorações do tipo "País".


O pormenor das folhas (também há quem lhes chame moscas) a preencher os espaços entre as reservas bem emolduradas, dá-lhe um ar mais elaborado do que é habitual encontrar-se no cantão popular. Há ainda o pormenor da base com esponjados que também não conheço nesse tipo de decoração.
Enfim, mais um enigma para tentar desvendar neste emaranhado de motivos e fabricos que constituem a produção de  faiança portuguesa antiga.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Terrinas de faiança: Vilar de Mouros ou Alcobaça?...ou Coimbra?



Surgem por vezes, nas feiras de velharias, peças de faiança com um motivo de casa de montanha com arvoredo que são generalizadamente atribuídas a Vilar de Mouros.
Estas são desse tipo, mas o tom de azul plúmbeo que ostentam, o brilho do vidrado e alguns pormenores decorativos sugerem-me  fabrico da zona centro, séc. XIX/XX. Com efeito, vê-se em ambas as peças, não só um edifício ladeado de árvores, com parte da pintura a esponjados, mas também motivos geométricos tais como séries de linhas paralelas e, no segundo caso, quadriculados. As linhas paralelas, a formar losango, aparecem nas duas terrinas por baixo de cada pega.




A segunda terrina parece-me mais uma versão do chamado cantão popular com o edifício em forma de pagode, uma ponte à frente e uma figura do lado direito que parece segurar um guarda-sol.
Fundamentando-me no roteiro de uma exposição, realizada em 1992, no Museu de Alcobaça, diria que os tons de azul e os esponjados são de Alcobaça, fabrico de José dos Reis.




A imagem da capa apresenta o motivo da travessa que se mostra mais abaixo e que , tal como o prato, é  atribuída a José dos Reis. Se atentarmos no prato, vemos  algumas linhas paralelas a formar o céu com nuvens.  Mas essas linhas, assim como o quadriculado,  também aparecem na faiança decorada com o cantão popular, sobretudo nas peças da zona centro, nomeadamente Aveiro.
Por outro lado, não nos podemos esquecer que, ainda segundo aquele roteiro, José dos Reis era natural de Coimbra, tendo-se estabelecido em Alcobaça em 1875, à procura de maior facilidade de colocação dos seus produtos.
Será Coimbra o centro cerâmico de onde irradiaram todas estas formas? A verdade é que há quem mencione Coimbra como local de origem destas terrinas, dizendo que eram usadas para servir os estudantes nas casas onde se alojavam.
Estas duas foram compradas em dias consecutivos, uma na feira de Coimbra e a outra na feira de Aveiro, porque não conseguimos resistir à segunda que, por não ter tampa, foi baratíssima.
Não posso deixar de mostrar aqui um prato que vi num leilão da net, atribuído aVilar de Mouros. Parece-me ter um carácter mais minhoto, talvez pela cor garrida do verde - também já vi peças parecidas em rosa forte - pelo que podia ter sido feito no Alto Minho.


No entanto, a pintura a pinceladas fortes, tipo esponjados e sobretudo a borda estampilhada, fazem-no diferir muito dos exemplares apresentados por Artur de Sandão na sua obra de referência, Faiança Portuguesa, na página 168 do segundo volume.