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sábado, 25 de junho de 2011

Mais uma lamparina de porcelana

aqui mostrei uma lamparina de quarto da Vista Alegre, toda em branco, no modelo "Castelo".
Gosto destes objetos, caídos em desuso, que foram feitos para dar conforto a pessoas acamadas ou doentes, num tempo em que a maioria das casas nem dispunha de eletricidade nem estava preparada para enfrentar os rigores dos dias frios.


Nesse tempo, em Portugal até há uns cinquenta ou sessenta anos, o tratamento dado em casa  aos  doentes consistia, quase em exclusivo, na administração de mezinhas caseiras e numa longa permanência de resguardo no aconchegante vale dos lençois.
No bule se guardava a infusão mantida quente graças à lamparina acesa, que simultaneamente fornecia uma ténue iluminação ao quarto.


Comprei esta torre de lamparina sem o bule porque me encantei  pela decoração: motivo floral em grinalda com fitas, muito delicado e romântico.
Não tem qualquer marca, mas quando a comprei confesso que esperava que fosse Vista Alegre. Agora penso que é uma veilleuse francesa porque já vi torres do mesmo formato a que é atribuída essa origem e embora a Vista Alegre tenha fabricado vários modelos de lamparina, após alguma pesquisa não vi nenhum igual a este.


De qualquer forma, adaptei-lhe um bule para lamparina da Vista Alegre, que já tinha em casa, e ficou um conjunto bastante harmonioso.


Rosas , margaridas, miosótis, na sua delicadeza de pintura à mão, formam composições diferentes à volta desta peça de porcelana.


Esta é a marca do bule, usada pela Vista Alegre entre 1921 e 1947.

Deixo aqui o link para a que  é considerada a maior coleção de veilleuses do mundo. Aparecem algumas torres com a mesma forma desta minha, embora com decorações diferentes, mas nenhuma peça está identificada quanto a fabrico.
Embora não esteja referido, o exemplar número 491, no quarto grupo de peças, é um modelo da Vista Alegre, o "Chalet".

terça-feira, 14 de junho de 2011

Porcelana com retratos de senhora/ Porcelain with portraits of ladies

Esta semana vou participar no Tea Cup Tuesday e Tea Time Tuesday, mais uma vez com peças antigas da Vista Alegre.


A Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, fundada em 1824, não é a única fábrica de porcelana existente em Portugal, como posso fazer crer a quem me visita às terças-feiras e conhece pouco da produção portuguesa, mas é a única que vem do século XIX e por isso, como amante que sou de antiguidades, interessa-me sobretudo a produção desta unidade fabril.
Começou a sua atividade com o fabrico de vidro, mas desde que iniciou o fabrico de porcelana, pouco tempo depois, seguiu as modas europeias em muitas das suas decorações.



 

                                              

É o caso destas peças de chá e de café decoradas por decalque, com bustos de jovens senhoras com um ar muito romântico, em quatro versões diferentes, emolduradas por ramos de espigas a ouro.
Nas várias peças aparecem duas marcas ligeiramente diferentes, mas ambas usam a figura de uma ema que foi usada pela Vista Alegre num período de quatro décadas que vai de 1881 a 1921.



Acho o bule muito gracioso na sua simplicidade de forma, pequeno e bojudo.


 Esta moda decorativa foi iniciada e muito usada pelas fábricas de porcelana francesas e também pelas austríacas, na altura o Império Austro-Húngaro abrangendo um vasto território que incluía o que é hoje a República Checa, também muito ligada ao fabrico de porcelana.


 Esta chávena e pires é o único exemplar que possuo em porcelana de Sèvres, ostentando um busto que  representará a Imperatriz Josefina Bonaparte.


Como se vê pela marca, o N de Napoleão com a coroa imperial pouco perceptível, não se trata da riquíssima Sèvres dos Ls entrelaçados do século XVIII, mas de uma produção do tempo de Napoleão III já da segunda metade do século XIX (1852 - 1870).


Segue o estilo Império, bem identificável pelo elaborado formato da asa revestida a ouro, embora já muito gasto por século e meio de existência e uso.

Entretanto, uma seguidora do blogue, na sequência do seu comentário a este post, enviou-me fotografias de peças V.A. com este motivo, mas duas delas, o pires da direita e a travessa, têm estampas diferentes. O pires da esquerda parece ter a mesma estampa do meu bule.



O pires do lado direito tem marca do período 1921-1947, o que revela que a Vista Alegre usou este motivo durante várias décadas.


 Não recebi foto da marca da travessa, mas este modelo com a aba moldada em relevo foi produzido pela V.A. até muito recentemente embora com outras decorações.

A Real Fábrica de Louça de Sacavém também utilizou esta linha decorativa no final do século XIX.


Tenho esta chávena e pires de chá com muito uso, esbeiçadelas, manchas, faltas de dourado, mas para mim tem sobretudo interesse pela rara marca gravada na pasta, com a coroa de Sacavém e a palavra GRANITO. Penso que este foi o nome dado a um certo tipo de pasta, já que também aparecem marcas com a referência GRANITE na faiança inglesa da mesma época.


Assim, também satisfaço a curiosidade do seguidor deste blogue, Flávio Teixeira.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Chávena de porcelana de Paris ? / Paris porcelain cup?

Mais uma terça-feira em que vou participar no Tea Cup Tuesday com uma chávena de porcelana pintada à mão.

 Neste mundo das antiguidades e velharias, é fácil cairmos em equívocos quando nos falta informação sobre as peças, principalmente quando falta a marca de fabrico.


Comprei esta chávena e pires, já há alguns anos, como Velho Paris ou Vieux Paris e depois de alguma pesquisa, encontrei um exemplar exatamente igual ao meu num catálogo online da leiloeira Cabral Moncada, de 2005.


A peça era descrita da seguinte maneira: "Chávena e pires, porcelana, decoração rosa, policromada e dourada, flores, Europa séc. XIX/XX. Dim. 17,5 x 9cm." As dimensões correspondem ao diâmetro do pires e à altura da chávena, por isso percebe-se que se trata de um tamanho grande, uma  chávena de pequeno-almoço.


Assim, fiquei convencida de que tinha em casa uma bonita chávena de porcelana europeia, muito provavelmente francesa, Velho Paris.


As marcas pintadas à mão, as iniciais J.F. e o número, que se podem ver no verso do pires, penso serem de pertença, talvez de um colecionador. A chávena tem um M marcado na porcelana.













Acontece, porém, que na minha última visita ao Museu da Vista Alegre, me deparei com uma chávena de modelo igual ao da minha, os mesmos concheados retocados a dourado no pires e na chávena, a mesma asa, a mesma faixa a ouro no interior da chávena. A decoração, sendo diferente, é do mesmo tipo, apresentando uma reserva na chávena com um belo bouquê de flores.


Agora é que estou baralhada: será a minha chávena Velho Paris ou Vista Alegre?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Azul cobalto, ouro e flores/ Cobalt blue, gold and flowers


Em mais um evento Tea Cup Tuesday, eu resolvi mostrar algumas peças que têm em comum a decoração a azul cobalto, ouro e flores.


Esta peça, em faiança inglesa, é uma caixa para chá, o que se chama tea caddy. Fabricaram-nas nos mais diversos materiais - porcelana, faiança, prata, osso, marfim, madeira, papier-mâché, etc. - e há hoje grandes colecionadores destes objetos.
Ostenta o padrão decorativo Mandarin com as cores mais marcantes da produção Mason's -  azul cobalto, vermelho ferro e ouro - sempre presentes nas populares decorações imari.
Este género de decoração é muito caraterístico da produção Mason's, firma que, em 1813, patenteou um tipo de faiança a que chamaram ironstone china, pela sua dureza e resistência a uma manipulação diária.


O fundador da empresa, Miles Mason, começou a sua carreira como comerciante em Londres de porcelana chinesa importada pela Companhia das Índias, ainda no final do século XVIII. Com a riqueza acumulada nessa actividade, ele abriu uma fábrica de faiança em Fenton, Staffordshire, em 1806, a que deu o nome de Minerva Works. No entanto, sendo um negócio de família continuado por filhos e netos até meados do século XIX, a sua produção foi sempre mais conhecida pelo nome da família, Masons ou Mason's. Este nome, bastante conhecido e prestigiado em Inglaterra e no estrangeiro, manteve-se até à atualidade, fazendo agora parte do Grupo Wedgwood.
As chávenas e pires que ladeiam este tea caddy, embora também inglesas e com cores semelhantes, não são do mesmo fabrico. Falarei delas num outro post.



Esta chávena e pires de chá, que acho de uma beleza extraordinária, fazem  parte de um par que me tem feito perder horas em pesquisa, já que não dispõem de qualquer marca de fabrico. Apenas os dois pires têm a letra g, desenhada à mão, gravada na porcelana. 

Eu adoro a pintura à mão, os desenhos a ouro sobre o azul cobalto, mas sobretudo os belos bouquets pintados no interior das chávenas.


Já considerei várias hipóteses de fabrico: português -Vista Alegre; francês - Vieux Paris (Velho Paris);  inglês - período Regência, mas há sempre um pormenor que não bate certo com cada uma das possíveis proveniências.

No caso da Vista Alegre, embora eles tenham decorações semelhantes, eu não conheço exatamente este modelo de chávena; se elas fossem Velho Paris, cuja vasta e diversificada produção não conheço muito bem, penso que teriam uma pega diferente e não esta pega em forma de anel; se fossem inglesas, do século XIX, elas poderiam não ter marca mas teriam certamente um número de padrão no fundo.



Depois de todas estas considerações, recebi a ajuda preciosa do Manel num comentário e estou agora convencida de que as chávenas são francesas, Vieux Paris ou Sèvres. Inclino-me  mais para a hipótese avançada pelo Manel de serem Vieux Paris, já que a porcelana de Sèvres ostenta geralmente a famosa marca dos Ls entrelaçados, para além de outras marcas que possa ter de pintores, douradores ou oleiros.

sábado, 30 de abril de 2011

Faianças e porcelanas escatológicas!!!


Apesar do fim a que se destinavam, em Portugal até meados do século XX, estas peças de faiança não deixam de ter a sua graça, até porque eram decoradas com o mesmo cuidado com que se decoravam as peças de mesa ou as mais nobres de higiene.
Gosto de  ver estes "recipientes"com plantas dentro e tenho-os muitas vezes nessa função,  numa casa de banho cá de casa.
O fundo de dois deles a pedido da Maria Isabel
Os dois primeiros exemplares são do tipo geralmente atribuído a faiança de Coimbra. Comprei-os em feiras mas já não estou certa onde ou quando. Acho piada ao das flores, muito popular, mas também gostei do segundo, mais sóbrio, com riscas num bonito azul cobalto.




E como os últimos são os primeiros, o exemplar abaixo foi o primeiro que comprei, num antiquário em Silves, já lá vão uns bons 12 ou mais anos. Ainda me lembro do preço, 4.500$00. Tinha uma esbeiçadela que depois tapei com massa branca e por isso me fizeram aquele preço. Penso que o tipo de flores e folhagens não engana - fabrico do Norte e muito provavelmente Cavaco, Gaia, embora não tenha qualquer marca.

Os nossos antepassados conviviam bem com estes objectos (a isso eram obrigados!!!) e segundo reza a história, até nas salas de banquete estavam presentes os elegantes "bourdaloues" usados pelas senhoras da alta sociedade debaixo dos vestidos muito rodados e armados.

Este é um bourdaloue em porcelana francesa do século XIX, mas também se fabricavam em faiança e em prata.  O nome terá tido origem ironicamente em Louis Bourdaloue (1632-1704) um pregador jesuíta francês  muito dado a extensos e teatrais sermões, o que levava as suas ouvintes a sofrerem horrores na contenção das necessidades fisiológicas. Assim nasceu o hábito de transportarem estas pequenas peças, dentro dos regalos que usavam para aquecer as mãos. Quem adivinharia???



 Acima vêem-se três belíssimos bourdaloues, respetivamente em porcelana de Vincennes, de Sévres e  chinesa de exportação, todos do século XVIII.
Finalmente, o bourdaloue em forma de gato, em porcelana chinesa do século XVIII, funcionando a cauda como  pega e  a cabeça como tampa. Muito engenhoso, sem dúvida!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Prato de porcelana de Paris

Este é um dos meus tesouros de porcelana, não só pela  delicadeza e frescura da decoração - bouquets e raminhos pintados à mão, com uma fina orla dourada à volta da aba - mas pelo que representa na história da porcelana francesa do séc. XVIII.


Quando o comprei, na feira de velharias de Espinho, há cerca de oito anos, andava numa fase de grande interesse pela porcelana europeia e de pesquisa de marcas de porcelana e por isso, ao ver as marcas deste prato com os dois A maiúsculos, não lhe resisti, apesar dum restauro muito manhoso que lhe tinham feito para encobrir uma zona na aba, partida e colada. Era um ramo pintado, muito mal feito, que consegui remover ao chegar a casa. Não soube logo que marcas eram aquelas, mas sabia que já as tinha visto e que eram de boa porcelana antiga. O prato tem um tamanho considerável para porcelana, cerca de 32cm, e a história que agora conheço do fabricante permite-me atribuir-lhe uma data entre 1776 e 1789.


O fabrico de porcelana em França teve início no final do séc. XVII, em Rouen e St. Cloud, porcelana de pasta tenra que ainda não usava o caulino. Surgem entretanto outras fábricas em Chantilly e Mennecy, mas só a meados do séc. XVIII o rei Luís XV decide financiar a instalação de uma fábrica de porcelana no seu Castelo Real de Vincennes. Para proteger este investimento, promulga um Édito Real que vai condicionar a actividade de todas as outras fábricas de porcelana em França, impedindo-as de usar ouro e determinadas cores na decoração das suas peças e proibindo todos os trabalhadores de Vincennes de se mudarem para fábricas rivais. A protecção real permitiu a esta unidade, transferida para Sèvres em 1756 por influência de Madame de Pompadour,  atingir elevadíssimo grau de qualidade que rivalizava com a de Meissen, na Alemanha (de que falei nos primeiros posts deste blogue). A porcelana continuava a ser de pasta tenra, ao contrário da de Meissen, mas a partir de 1769 passaram a fabricar ao mesmo tempo porcelana de pasta dura, como a chinesa e a alemã.



Devido a este proteccionismo de que gozava a porcelana real de Sèvres, às portas de Paris, muitos fabricantes que se estabeleceram em Paris no último quartel do séc. XVIII, mais de uma dúzia, procuravam obter protecção de poderosos para a sua actividade gozar de relativa liberdade de criação artística. Estas fábricas eram conhecidas ou pelo nome do proprietário, ou pelo nome do patrono (nobre ou membro da família real), ou pelo nome da rua onde se instalaram. Está neste caso o fabricante deste prato, André-Marie Leboeuf, que se estabeleceu na rue Thiroux em 1776. Assim, esta porcelana é conhecida por "rue Thiroux" ou também por "Porcelaine à la Reine" já que o seu patrono, neste caso patrona, era nem mais nem menos do que a Rainha Maria Antonieta, sendo o A da sua inicial, coroado ou não, que está na marca. Como esta personagem teve o fim triste que todos conhecemos em 1793, a fábrica mudou de mãos a seguir à Revolução Francesa e terá certamente deixado de utilizar a marca coroada.

Prato pequeno (23,5cm) com uma das marcas do meu, o A vermelho coroado, à venda na internet
                
À porcelana produzida nestas fábricas de Paris no final do séc. XVIII, início do séc. XIX, muita dela sem marca, convencionou-se chamar "Vieux Paris" - ou "Velho Paris", ou "Old Paris", ou "Alte Paris" porque esta expressão foi traduzida para várias línguas europeias para identificar este tipo de porcelana.