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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Chávena Worcester para o chá desta semana - Worcester cup for this week's tea


Fico felicíssima quando encontro à venda, a um preço convidativo, algo que reconheço das minhas pesquisas sobre porcelanas e há muito ambicionava ter nas mãos.


Desta vez, na Feira de Velharias de Aveiro, descobri uma chávena e pires que logo me pareceram de fabrico  inglês, o que o vendedor confirmou, e cuja marca me pareceu conhecida. Tratando-se de três  iniciais gravadas na pasta sob uma coroa, ao pegar primeiro na chávena não consegui certificar-me bem da letra do meio, mas ao virar o pires não me restaram muitas dúvidas. Eram as maiúsculas FBB, ou seja, Flight Barr & Barr.












Ora estes são os apelidos de duas famílias que dirigiram em sociedade a Fábrica de Porcelana Worcester entre 1792 e 1840 - o nome Flight já vinha do período anterior  iniciado em 1783 - tendo usado os dois nomes ou as suas iniciais como marca, em diferentes combinações, consoante os membros das duas famílias que se associavam. Esta combinação FBB começou a ser usada  há precisamente 200 anos, em 1813, e prolongou-se até 1840. 
aqui falei desta centenária fábrica de porcelana, hoje Royal Worcester, que, vindo dos primórdios do fabrico de porcelana em Inglaterra - foi fundada em 1751 - se manteve sempre em laboração, cheia de qualidade e de prestígio, até aos dias de hoje.















Não só me agrada muito o motivo dourado, na linha das cercaduras neoclássicas e do estilo Império, sobre a faixa em tom de pêssego,  mas também a pega, do tipo London shape, apresenta um pormenor de requinte que só conheço nas chávenas Worcester do período FBB ou do anterior, BFB. A única marca visível do tempo e do uso é o desgaste no dourado, sobretudo na orla da chávena, o que me permite imaginar quantas pessoas, de quantas famílias, já terão saboreado uma reconfortante chávena de chá usando estas porcelanas.


Deslumbram-me os pormenores, formas e decorações, da arte da porcelana, mas numa época do ano em que a natureza nos brinda com flores magníficas, quis fotografar a chávena no jardim em companhia adequada. Encontrei-a na simplicidade sofisticada de um jarro cor de fogo ou cor de pêssego bem maduro, que desabrochou quase sem se anunciar, com o bolbo escondido debaixo de outra planta numa pequena floreira.


Mas também é o tempo dos hibiscos, outra espécie de flores que sobressaem pela sua beleza e tenho agora em abundância no jardim. E parece que são comestíveis em saladas! Que bonitas devem ficar... mas eu... não sei se me atrevo a arriscar... ;)




















Espero que vos tenha agradado esta partilha para o chá com

Tea Cup Tuesday da Terri e da Martha 
Tuesday Cuppa Tea da Ruth (?)

As anfitriãs  destes eventos já anunciaram que farão um interregno para férias durante algumas semanas, não sei se esta inclusive, e portanto também não haverá chá no ALV até finais de Agosto.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Porcelana Worcester para o chá - Worcester porcelain for tea



O nome Worcester já aqui foi referido noutros posts sobre porcelana inglesa, especialmente no primeiro, mas até agora não lhe tinha dedicado uma abordagem em exclusivo.
É que embora tenha um ou outro prato com esta marca inglesa tão prestigiada, não tinha quaisquer chávenas marcadas que me permitissem introduzir este nome nos habituais eventos dedicados ao chá em que participo à terça-feira: Tea Cup Tuesday, Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea. 



Comprei as duas chávenas na Feira de Velharias de Aveiro, há cerca de dois ou três meses, e esta foi daquelas compras que me encheram de satisfação. Não sendo chávenas de chá - são o que os ingleses chamam coffee cans - são suficientemente grandes e bonitas para serem vedetas deste chá em época pascal.
A marca da porcelana Worcester, originalmente Worcester Porcelain Works, conhecida por Royal Worcester a partir de 1862, é facilmente identificável. 
Todos os seus elementos fornecem  informação, desde a coroa a representar o título de Royal até à letra S identificativa do ano de fabrico, 1881, passando pelo círculo em que se inserem Ws  de Worcester, o 51 de 1751 - a data da fundação - e ainda um crescente que parece a letra C e que foi a primeira marca usada pela fábrica.


Tudo na marca é descodificável e bate certo, só que para baralhar um pouco aparece também um número de padrão em forma de fração sob a letra B que não tenho visto referido relativamente a Worcester.
Esta é a única das fábricas de porcelana inglesas fundadas a meados do século XVIII que se manteve em laboração contínua até hoje, tendo atingido a excelência em pintura sobre porcelana.


Segundo a obra "Antique Porcelain" de John Sandon, a minha bíblia sobre porcelana inglesa, os seus fundadores foram John Wall, médico,  e William Davis, farmacêutico, e foi no estabelecimento do segundo que desenvolveram experiências químicas no campo da porcelana que lhes deram credibilidade e atraíram investidores. Estabeleceram como alvo um mercado diferente das manufaturas suas concorrentes - Bow e Chelsea, sediadas em Londres, e ainda Derby - e produziram peças com formas copiadas das baixelas de prata e decoração sobretudo com motivos chineses (chinoiserie)


Por volta de 1760 introduziram uma marca pintada a azul em forma de crescente, também usaram uma cópia das espadas cruzadas de Meissen cuja porcelana pretendiam imitar na altura, chegaram a usar como marca um selo chinês falso, mas grande parte da produção continuou por marcar.



Penso ser dessa fase esta pequena taça de chá que comprei há dois anos em Londres, em Camden Lock Market, só pelo ar primitivo da porcelana e a graça que lhe achei. Mais tarde, durante as minhas pesquisas na internet, encontrei  uma chávena de café, com decoração semelhante a verde e dourado, assim moldada em estrias verticais e também sem marca, atribuída a Worcester desse primeiro período, por volta de 1775, com a nota de que talvez tivesse sido decorada fora da fábrica, prática comum à época. 



Já não encontrei hoje na internet a fotografia dessa chávena de café, apenas lá permanecia a descrição, mas este moldado em estrias ou gomos muito finos é vulgar encontrar-se na porcelana Worcester do final do século XVIII.  A chávena estava à venda, sem pires, por perto de 300£ e a minha taça custou-me apenas 5£...

Foto de família com jasmim
São estas pequenas descobertas - ou a ilusão da descoberta - que entusiasmam os amantes de velharias a calcorrear feiras e mercados de antiguidades, onde quer que se encontrem ...

BOA PÁSCOA!
HAPPY EASTER!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A primeira porcelana inglesa

Ao contrário da faiança inglesa, a porcelana inglesa é muito pouco conhecida em Portugal, e quando aparece, a mais antiga, sem marca, é muitas vezes confundida com a porcelana chinesa de exportação, geralmente por encomenda, vulgo "Companhia das Índias", porque muitas fábricas começaram por copiar os motivos e as formas dessa porcelana chinesa. Era esta a porcelana que tinha servido o mercado inglês, sobretudo aristocrático, até ao séc. XVIII, e tal como na Holanda, Londres contou com oficinas de decoração de porcelana chinesa, sendo a mais conhecida a de James Giles, um pintor de porcelana que mais tarde também trabalhou para a fábrica Worcester.
Taça e pires de chá Worcester, c. 1765, a imitar porcelana chinesa azul e branca
Como aconteceu noutros países da Europa - na Alemanha, em Itália e na França - também em Inglaterra, a meados do séc. XVIII, se iniciou o fabrico de porcelana. Aqui, no entanto, ao contrário dos outros países europeus, esse fabrico não contou com o entusiasmo e apoio material dos membros da alta nobreza e da casa real. Foram industriais empreendedores que fizeram a sua aposta neste novo ramo da indústria, alguns já ligados ao fabrico de faiança, mas contando com o apoio de técnicos e artistas vindos do continente europeu. Só que a necessidade de satisfazerem  um mercado alargado que abrangesse também a classe média, para salvaguarda dos seus investimentos, não lhes permitia darem-se ao luxo de apostarem apenas no máximo requinte e qualidade como aconteceu com Sévres, em França,  Meissen, na Alemanha ou Capodimonte, na Itália.

Prato  Chelsea c. 1760
No entanto, a primeira fábrica de porcelana inglesa fundada por dois franceses, em 1743, em Chelsea, destinou os seus produtos à aristocracia, seguindo primeiro modelos de Meissen e depois de Sévres. A porcelana de Chelsea que hoje é um nome mítico da porcelana inglesa, caracterizou-se por uma pasta branda - ao contrário da porcelana chinesa de pasta dura - muito branca e leitosa, usada no fabrico de figuras muito delicadas e serviços de mesa com decorações vegetalistas,  peças que hoje atingem valores consideráveis pela sua raridade e beleza. Na primeira fase as peças eram marcadas com um triângulo gravado, mas depois passaram a utilizar uma âncora, primeiro relevada na pasta, depois impressa a vermelho, dourado ou castanho.
Como eu gostaria de ter uma peça com uma destas âncoras! Nem que fosse um pires! Só que, para além da questão do preço, que não é de somenos  importância, graças ao prestígio alcançado pela porcelana de  Chelsea, a marca da âncora foi imitada por outras fábricas, dentro e fora da Inglaterra e continuaram a produzir-se falsificações ao longo do séc. XIX. Só bons conhecedores das características da pasta e de pormenores da marca, por exemplo a posição em que era colocada, conseguem garantir a autenticidade das peças.

Figurinha Chelsea c. 1755
Apostando assim na qualidade, sem apoios de poderosos, esta fábrica não conseguiu manter-se para além do ano de 1769, talvez também devido à doença de Nicholas Sprimont, um dos franceses que a fundou, originalmente prateiro de profissão. Nessa altura  foi adquirida por William Duesbury, dono da Fábrica de Porcelana de Derby, que  tinha sido fundada em 1748. Durante algum tempo a unidade de Chelsea continuou a funcionar sob o nome Chelsea-Derby mas acabou por ser desmantelada em 1784.
Embora a fábrica de Chelsea seja a mais antiga a produzir porcelana inglesa, outras se lhe seguiram ainda antes da de Derby - Limehouse, Bow, Vauxhall -   mas nunca atingiram a notoriedade da primeira. Já nos anos 50 do séc. XVIII iniciou a sua actividade a fábrica de porcelana Worcester, a única que se manteve em produção contínua até aos dias de hoje.
                                         
 Taças e pires de chá da fábrica Lowestoft c.1780-1790, a da esquerda a imitar família rosa e a da direita a imitar imari

Derby e Worcester, para além de Chelsea, são nomes a reter quando se fala de porcelana inglesa, mas para além destas, podem-se nomear mais umas três dezenas de fábricas que produziram  porcelana durante mais ou menos tempo, incluindo Wedgwood e Davenport que são sobretudo conhecidas pela manufactura de faiança.