terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Rosas cor de rosa... por uma boa causa! - Pink roses...for a good cause!


Estamos no mês de Outubro, o mês dedicado internacionalmente à Luta Contra o Cancro da Mama ou Breast Cancer Awareness.
Como aconteceu já no ano passado, a Sandi, do blogue  Rose Chintz Cottage que há anos organiza semanalmente o Tea Time Tuesday, propôs este tema para o chá desta semana.
E assim, chego atrasada, mas não podia faltar... 
Como é hábito, participo também no Tea Cup Tuesday e no Tuesday Cuppa Tea com as suas simpáticas anfitriãs Martha, Terri e Ruth.
Com o rosa como tema, a opção que para mim se tornou mais óbvia na escolha da loiça para o chá foi a faiança inglesa chamada pink lustre, conhecida por cá como lustrina rosa.


aqui trouxe vários exemplares de lustrina inglesa, um tipo de decoração de loiça no século XIX que recorreu ao brilho metálico do cobre e de outros metais para proporcionar às classes menos endinheiradas a ilusão do luxo e da riqueza, evidentemente só acessível aos grandes burgueses e aristocratas.


Uma das chávenas que escolhi para este chá, já participou num poste comemorativo do bicentenário de Charles Dickens, mas a outra, oferta de um querido amigo, que achou que ela era "a minha cara":)), vem como vedeta, em estreia absoluta! 


É do tipo London shape, com a caraterística e elegante pega, um formato muito utilizado pelos fabricantes ingleses a partir do início do séc. XIX.  Também  muito típica da produção inglesa é a concentração da decoração no interior da chávena, ficando o exterior apenas avivado por um delicado motivo em silva. 


Curiosamente, tem para além da lustrina rosa um filete a amarelo, um pormenor que eu nunca tinha visto noutros exemplares deste tipo.



 Como a maior parte desta produção, sediada sobretudo em Staffordshire, nenhuma destas loiças está marcada, apenas cada um dos pires apresenta um número de padrão na mesma cor da decoração.


 Uma jarrinha muito antiga de vidro opalino (ou coalhado?) decorada com rosas e outras flores, a que se juntaram botões de rosa naturais,veio alegrar a mesa, num dia cinzento, bem outonal.


E cá está o chá servido! Chá verde acompanhado de um biscoitinho de maçã e sultanas não estraga a saúde a ninguém...




Deixo-vos com rosas do meu jardim...

   ...e  o laço cor de rosa.  Boa semana!

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Um "cantão popular"... à inglesa?

Muitas vezes os postes do Luís  no Velharias dão-me logo ideias para coisas que acho giro publicar, só que depois instala-se a inércia, falta a vontade para desenvolver - fotografar, confirmar dados, escrever - e... fico-me por aí.


Esse estímulo aconteceu novamente com a belíssima travessa inglesa W. Smith & Co. que ele publicou na semana passada. E desta vez, como uma espécie de prenda de aniversário do Velharias, resolvi mesmo avançar :) Assim espero retribuir um pouco o prazer que o Luís nos proporciona com a partilha de tantos objetos interessantes, trazendo aqui uma peça da sempre apreciada faiança inglesa, num padrão que é dos favoritos de muita gente que aqui passa.


Quando vi esta travessa numa banca em Coimbra, pensei tratar-se de mais um exemplar do nosso cantão popular, mas logo a vendedora me informou que não era portuguesa. De qualquer forma, bastou-me virá-la para reconhecer a marca Davenport gravada no tardoz. Tinha contas a acertar com a senhora por causa de uma troca, por isso fiquei contentíssima com o achado.

Marca da travessa

Só que, ao chegar a casa, quis ver com uma lupa os pormenores da marca para saber a época de produção. No caso Davenport, muitas das marcas com a âncora gravada na pasta encimada pelo nome Davenport têm algarismos de um e outro lado da âncora que indicam o ano de fabrico.
E aí começaram as dúvidas. Em primeiro lugar, não conseguia reconhecer na palavra as primeiras letras que formam Davenport; em segundo lugar, os algarismos que ladeiam a âncora, um 1 e um 5, apontariam para 1815, o que eu nunca tinha visto em inúmeras outras marcas do género.
É certo que a empresa foi fundada por John Davenport no final do séc. XVIII (1793) e por aí tudo bem. A travessa com um ar até algo primitivo dentro da faiança inglesa, decorada por estampilha com pinceladas à mão e muitos pormenores à mão livre, podia muito bem ter sido produzida pela Davenport nessa data. O que me causava estranheza era que uma marca tão recuada já incluísse  algarismos a ladear a âncora. Eu só conhecia exemplares do anos 30 aos anos 60 do século XIX , daí ter ficado com a pulga atrás da orelha.

Marca com data de 1860
e de 1836

Ao saber do caso de contrafação exemplificado pela travessa do Luís, comecei a achar que também a minha travessa podia ter uma marca falsa Davenport. E vai de procurar marcas de âncora na internet e no meu livro inglês de marcas,  de queimar as pestanas a decifrar pormenores com o nariz colado ao écran, ou de lupa em punho a percorrer todas as minhas peças Davenport, ou ainda de pesquisar informação no site the potteries.org. Tudo sem resultado, ou seja, não encontrei qualquer informação sobre contrafação deste fabrico, nem qualquer marca idêntica  a esta que não fosse Davenport. A que mais se assemelha talvez seja a da fábrica espanhola "la Cartuja de Sevilla" de Pickman y Cia, mas se atentarmos nos nomes e noutros pormenores, não se podem confundir.
Acabei por encontrar marcas incisas, mesmo nas minhas peças do padrão Rhine (Reno) já aqui mostradas,  com  letras e algarismos pouco claros, só que nunca me levantaram dúvidas por terem, além desta marca, uma outra a azul com o nome bem legível.



Acho esta segunda marca da âncora muito semelhante à da travessa de hoje.
E nestes  dois pratos com motivos florais vê-se como a palavra Davenport incisa nem sempre está clara e completa.





Ufa! Fiquei novamente convencida de ter adquirido uma travessa Davenport genuína e bem recuada.
Continuo intrigada com o tal 15 e com o processo de decoração a estampilha numa altura em que já se usava há muito o transfer printing em Inglaterra, mas, quem sabe, um dia qualquer esbarro numa explicação para o facto...
Voltando à travessa com o seu desenho Cantão, tem um  tamanho (41x32cm) muito usável, sobretudo se considerarmos as famílias numerosas de antigamente, daí as  muitas marcas de uso no vidrado e em todo o tardoz.
Para além da decoração da aba, tão típica das nossas faianças da mesma família, várias motivos nos são sobejamente conhecidos.


















Por incrível que pareça, este padrão com os  vários elementos assim simplificados, quase esquemáticos,  acabou por ter continuidade na nossa mais tosca faiança popular, como é o caso do exemplar que se segue, bem velho e usado, mas talvez 100 ou cento e tal anos mais novo do que o desenho inglês que lhe pode ter servido de modelo.




Mais uma foto da marca da travessa
 Já depois de ter publicado este poste, depois dos comentários do Luís e do Manel e depois de ter dado mais umas voltas por sites e imagens da internet, continuo a achar a travessa muito intrigante e vou resumir o que tenho como certo neste momento:
. trata-se de uma travessa em loiça pó de pedra ou faiança fina com uma marca que parece inglesa;
. não parece ser produção Davenport, dou razão ao Manel, não só pela marca, mas sobretudo pelo tipo de decoração - só tenho encontrado faiança do tipo transferware deste fabrico, mesmo a mais recuada;
. o motivo tem origem no cantão chinês mais tardio, mas apresenta o pormenor das nuvens (?) sobre a água, que só encontro no cantão popular português.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Porcelana Minton para um chá de aniversário - Minton porcelain for blog anniversary tea


Após meses de ausência em que deixei o blogue quase em auto-gestão - e surpreendentemente não se saiu mal, com um número razoável de visitas diárias - ao aproximar-se mais um aniversário do meu início nestas lides, achei que um espaço que teve uma atividade intensa e bem gratificante durante mais de três anos, merecia ter o seu 4º aniversário assinalado.
Não me canso de lembrar que foi o blogue que me trouxe conhecimentos e amizades que muito estimo, pessoas com quem tenho partilhado e aprendido muito e cujas visitas e comentários me estimularam a pesquisar e a querer saber sempre mais nesta área das velharias. 
A preparação de um chá de terça-feira, aliás sugerido pelo LuísY, em parceria com a Martha de Tea Cup Tuesday - não esquecendo a querida Terri a quem envio daqui um forte abraço - com a Sandi de Tea Time Tuesday, e com a Ruth de Tuesday Cuppa Tea , pareceu-me uma forma adequada de marcar devidamente este dia.


A Sandi propôs para esta semana, muito apropriadamente, um chá de Outono, mas para além da falta de luz que se nota nas minhas fotografias graças a este dia cinzento a anunciar a estação, não consegui pensar em nada apropriado. Sorry, Sandi.


Nunca tinha escrito aqui sobre a porcelana inglesa Minton, pela simples razão de que tenho tratado a porcelana e a faiança inglesas sobretudo nos chás da terça-feira e não tinha, ou julgava não ter, qualquer chávena dessa produção. Devidamente identificados tinha apenas pratos e pires, o que não chegava para o chá.


Há pouco mais de um ano encontrei este gracioso conjunto à venda no chão da feira de velharias das Fontainhas, no Porto, e por menos de 5 € trouxe estas irresistíveis peças para casa.
Não sabendo do que se tratava, encontrei um número de padrão a azul que logo me fez suspeitar serem inglesas.


Mas os requintados pormenores com decoração a ouro, sobretudo as pegas do açucareiro, embora muito maltratado e com uma tentativa de restauro que correu mal, e a pega torcida da chávena, levaram-me a listar como possibilidades de fabrico vários nomes, desde Sèvres a Coalport e Minton.





Finalmente, um destes dias, ao pensar nestas peças para um tea time, descobri que aquela pega torcida da chávena, com uma junção em forma de folhas ao corpo da peça, é tipicamente Minton. Um pormenor que fez a diferença para a identificação... até prova em contrário. Claro, foram as imagens da internet que me iluminaram o caminho.
Logo fui rever as peças que já tinha com marca ou padrão Minton e resolvi escolher para acompanhar o chá neste dia de aniversário a que tenho há mais tempo e talvez seja a minha preferida.


É um pratinho de sobremesa que encontrei numa feira há quase dez anos e me custou a módica quantia de 2 € :).
Não o identifiquei logo como Minton, mas aquela decoração a ouro, os medalhões e as rosas, tudo em primorosa pintura à mão, fizeram-me perceber a qualidade da peça.


Só depois reparei que, para além do número de padrão, tinha a palavra Minton, quase impercetível, gravada na pasta em maiúsculas. Não consegui fotografá-la de modo a que fosse aqui visível, por isso só mostro o pattern number - A5937 - seguido de um tally ou cifra do pintor.


Pelo tipo de decoração e pelos números de padrão, imagino que todas estas peças datem do final do século XIX, mas a produção Minton começou ainda no final do XVIII.
A partir do meu livrinho English Porcelain, de John Sandon, resumi a informação sobre a empresa, que aqui registo.
Foi Thomas Minton que deu início à firma com a produção de faiança em Stoke-on-Trent, Staffordshire, em 1793, mas poucos anos depois virou-se também para o fabrico de porcelana, do tipo bone china. A partir de 1805, usou uma marca baseada nos Ls cruzados de Sèvres com a letra M e um número de padrão., mas sabemos que nem todas as peças eram assim marcadas, sobretudo nos serviços.

Foi com o filho, Herbert Minton, que a partir de 1830 muita da inspiração para formas e decorações veio dos grandes nomes do continente europeu, primeiro de Meissen e depois de Sèvres. Com uma produção de qualidade reconhecida, mais para o fim do século  veio a ser muito marcante a influência japonesa. 
No século XX assiste-se a um certo declínio que vai culminar no fecho da fábrica já nos anos 80.  


E pronto, o chá está servido. A taça que foi certamente taça de pingos ou slop bowl pode agora ser usada para uns docinhos a acompanhar o chá. ;)



sábado, 14 de Junho de 2014

Um pote Carvalhinho sob anonimato?



Noutras circunstâncias, já há muito aqui teria dado conta duma pequena descoberta que fiz há tempos. Mas quem me visita com alguma regularidade já certamente se apercebeu das dificuldades que tenho tido em manter este espaço minimamente ativo. Confesso que se não fosse um poste recente do MAFLS a avivar-me a memória - daí também a inspiração para a foto ;) -  ainda não era desta que aqui vinha falar do assunto.
A descoberta tem a ver com este pequeno pote de faiança, que tenho há mais de dez anos, vindo da Feira da Vandoma no Porto, quando ela se realizava junto à Cadeia da Relação.


Lembro-me que o comprei a um vendedor de ocasião, com uma pequena banca de meia dúzia de peças, que dizia ser esta uma peça de boa faiança não marcada, sem me adiantar mais nada de concreto. Gostei dos azuis, da pintura à mão em motivos que me pareceram de influência oriental e lá a trouxe para casa, achando que algum dia chegaria, por analogia, à origem do fabrico.
























E foi o que aconteceu... mas só há poucos meses!
A verdade é que durante todos estes anos muitas vezes analisei os pormenores do desenho, a pasta fina, o azulado do vidrado, mas nada que me abrisse os olhos e permitisse chegar a alguma conclusão. Uma peça de cerâmica sem qualquer marca e com decoração desconhecida deixa-me em geral completamente perdida...

Finalmente, na última vez que fui à feira de velharias de Algés, ao passar pela banca de um vendedor conhecido, reparei num grande vaso ou cachepot que me pareceu ter algo de muito familiar. Não disse nada na altura, mas voltei a passar e a observar, tentando lembrar-me de onde eu já teria visto uma decoração igual ou parecida.


A certa altura fez-se luz: era o meu pequeno pote de faiança azul e branca comprado na Vandoma. Meti conversa com o vendedor, uma pessoa amável e discreta que conheço há anos dali e há mais anos ainda da feira de Coimbra, e quis saber de onde seria a magnífica peça.


Ele disse-me que pela marca devia ser da Fábrica Constância, mas ao mostrar-ma vi um F.C. a azul que eu nunca associaria à fábrica lisboeta. Disse-lhe que me parecia ser antes da Fábrica do Carvalhinho, lembrei-o que os azulejos Carvalhinho eram marcados na pasta com as iniciais FC, e me parecia que estas iniciais a azul também tinham sido usadas para marcar outras peças de faiança. Achou logo que a minha hipótese devia estar correta e acedeu ao meu pedido para fotografar a peça.


Ao chegar a casa confirmei que os motivos tinham muita semelhança com os do meu pote, embora mais elaborados e em maior escala, e a marca F.C. lá estava no meu livro de marcas de José Queirós editado pela Livraria Estante Editora. Trata-se da marca 197, cujo verbete  indica tratar-se de fabrico recente (anterior à data da publicação do estudo, 1907-8), localiza a Fábrica do Carvalhinho à Corticeira (Porto) e refere como proprietários Dias de Freitas e Filhos.
A hipótese Fábrica do Carvalhinho nunca se me tinha colocado, habituada que estava aos carimbos bem conhecidos e facilmente identificáveis que encontramos nessas faianças. São do período em que a fábrica já se localizava em Vila Nova de Gaia e estava sob administração da Fábrica de Loiça de Sacavém, entre os anos 30 e 60 do século passado.



Mas a Fábrica do Carvalhinho foi fundada uns cem anos antes, por volta de 1840, a crer numa marca usada em 1940 para comemorar o centenário, por isso é natural que haja muitas peças não marcadas à espera de serem identificadas por um qualquer golpe de sorte...
Com tudo isto, embora sem as certezas que a marca me daria, atribuo agora uma identidade e uma idade aproximada ao meu modesto pote e até lhe reconheço um ar de família com alguns vasos Carvalhinho que já aqui postei.  Para além disso, fiquei mais atenta à possibilidade Carvalhinho para peças de faiança deste estilo sem qualquer marca.



domingo, 25 de Maio de 2014

O velhinho "O Mosquito"








 Este volume e mais dois com igual encadernação devem constituir as memórias mais remotas que eu tenho de livros. Vistos assim, sobriamente encadernados, não serão muito atraentes a olhares infantis, mas ao abri-los, ao folheá-los, deparamo-nos com páginas e páginas ilustradas de banda desenhada, a capa sempre com desenhos a  cores e com  uma sucessão de personagens e suas aventuras que encantaram os meninos portugueses durante 17 anos. São as revistas de BD "O Mosquito" que saíram semanalmente ou bissemanalmente de 1936 a 1953.

O primeiro dos números encadernados neste volume



 Os números que assim estão encadernados em três volumes são dos anos 40, de Junho de 1943 a Dezembro de 1944, foram comprados pelo meu pai aos 13-14 anos - lá conseguia arranjar os 5 tostões duas vezes por semana - pelos vistos muito estimados e mais tarde encadernados por ele próprio.
O tipo de aventuras interessava sobretudo aos rapazes, mas havia temas de interesse para um leque de idades bastante alargado e por vezes também dirigidos às jovens leitoras.

Curiosidades diversas

Os galãs e divas do cinema da época

Para as raparigas ao estilo "faça você mesmo"

Na minha primeira infância era em geral com as histórias de Serafim e Malacuéco que o meu pai me distraía, mostrando-me as imagens e as cenas caricatas, mas não me dando margem para mexer ou estragar.


Para as minhas mãos vinha sim um outro volume, mais pequeno, que ele organizou em forma de caderno com os suplementos de "O Mosquito" destinados às meninas : "A Formiga" lançado em Setembro de 1943.


Anúncios da saída próxima de "A Formiga"

O meu estafado volume de "A Formiga"
Nunca tinha estado muito atenta às datas destes exemplares que possuo, pensava até que "A Formiga" era já do "meu tempo"... Imagino agora que foram revistas estimadas e guardadas durante alguns anos antes de eu nascer e depois encadernadas e carinhosamente partilhadas comigo. 
Gostava de saber mais pormenores, mas agora já é tarde para fazer perguntas...

Lindos  nas cores garridas e nos ingénuos desenhos
Resta-me folhear e apreciar estes atraentes repositórios de memórias longínquas e partilhá-los aqui como objetos de muito valor para mim... antes de mais sentimental, claro!