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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Casa-Museu Egas Moniz em Avanca



Fachada lateral da casa

Referi aqui, a propósito da visita à Casa-Museu Júlio Dinis em Ovar, que no mesmo dia, o Dia Internacional dos Museus, e com o mesmo grupo, também visitámos a Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca. Já lá vão mais de dois meses, mas como prometi na altura, e o prometido é devido :) aqui está a bela moradia de Egas Moniz (1874-1955).

A fachada principal
Ali  fomos recebidos pela  diretora deste espaço, um edifício que Egas Moniz reconstruiu em 1915 na sua terra natal, a partir da chamada Casa do Marinheiro, segundo projeto do arquiteto Ernesto Korrodi. A casa foi destinada a férias em família e recheada de coleções reunidas pelo casal e de objetos pessoais e profissionais do nosso Nobel da Medicina (1949). A diretora da casa-museu, na zona de receção e loja, fez uma breve apresentação da casa e da obra científica de Egas Moniz, guiando-nos seguidamente pelas diversas salas e núcleos expositivos.

Uma sala logo à entrada com lustre de cristal e várias jarras de cinco dedos em faiança
Recanto da biblioteca
Seriam pessoas com gostos ecléticos que colecionavam em diversas áreas, mas das várias coleções, como seria de esperar, as que mais me prenderam  a atenção - e já não era a primeira vez que as via - foram as porcelanas e faianças, desde o serviço de jantar em porcelana chinesa azul e branca até à faiança portuguesa esmaltada, loiças Wedgwood e porcelanas da Vista Alegre que se encontram pelas várias divisões mobiladas à época.

Faiança de Viana sobre uma lareira


Porcelana chinesa Cª das Índias numa outra sala


Galheteiros!!! e terrinas de porcelana chinesa num móvel da sala de jantar...
...e pratos e travessas de faiança portuguesa no cimo do móvel















Louças Wedgwood creamware no átrio do 1º andar























Mas há uma zona da casa em que as coleções estão musealizadas por salas específicas, de pintura, de prataria, de porcelana e cristais e também há salas dedicadas à obra científica de Egas Moniz.
Espero ter aqui aberto o apetite a quem aprecia casas antigas e recheio condizente para que programem uma visita  a Avanca, junto a Estarreja - para os que não conheçam bem esta zona, fica um pouco a norte de Aveiro.

Egas Moniz em retrato a óleo da autoria de Henrique Medina
Só mais duas notas sobre a obra do retratado:
. Foi-nos referido pela diretora do museu, que foi a sua descoberta da técnica cirúrgica da leucotomia pré-frontal, ou seja, uma cirurgia ao cérebro para tratamento de doenças neurológicas, que o levou a ser agraciado com o Prémio Nobel da Medicina. Pois esse prémio tem sido injustamente posto em causa por instâncias médicas internacionais por confundirem a prática de Egas Moniz, totalmente inovadora à época e eficaz no tratamento de certos casos, com a de médicos cirurgiões americanos que na mesma altura aplicaram em larga escala uma técnica semelhante conhecida por lobotomia frontal, esta sim com consequências terríveis para  muitos doentes. Há que pôr os pontos nos ii, não?
. A tese de doutoramento de  Egas Moniz, pouco conhecida do grande público, foi a "A Vida Sexual" ( obra com reedição à venda na loja desta Casa-Museu) devidamente ilustrada com partes anatómicas, como tinha que ser. Pois durante o Estado Novo, só podia ser comprada com receita médica :) e os estudantes de Medicina só a podiam consultar nas bibliotecas universitárias com autorização expressa do respetivo professor. LOL


domingo, 19 de maio de 2013

Dia dos Museus em duas Casas-Museu

É verdade, foi um dia em cheio!
De manhã a visita à recentemente remodelada - reabriu em Janeiro - Casa-Museu Egas Moniz em Avanca, onde já tinha estado por duas vezes, mas onde não me canso de voltar; de tarde a ida a Ovar para visitar a Casa-Museu Júlio Dinis, também com remodelação e reabertura recentes, desta vez para mim uma estreia.


Casa-Museu Júlio Dinis
São dois espaços totalmente diferentes. O primeiro, um belo palacete do início do século XX, intimamente ligado à vida e obra do nosso Nobel da Medicina, uma casa de família, embora destinada a férias, bem vivenciada e repleta de objetos pessoais e coleções reunidas pelo casal. Dela falarei com mais pormenor em outra ocasião. 
Quanto ao segundo, uma típica casa vareira de rés-do-chão transformada num espaço cultural, mantendo três das pequenas divisões originais devidamente mobiladas, foi destinado a perpetuar a memória de uma estada breve em Ovar do médico e escritor Joaquim Guilherme Gomes Coelho(1839-1870) que todos conhecemos por Júlio Dinis, nascido e residente no Porto.



Sendo espaços diferentes, estão ligados não só pela curta distância entre as duas localidades, mas também pelo facto de o médico e cientista Egas Moniz ser considerado o primeiro dinisiano, tendo publicado Júlio Denis e a sua Obra, Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 1924.
Foram cerca de três meses, há precisamente 150 anos,  que Júlio Dinis passou nesta casa de familiares, em período de tratamento da tuberculose que o iria vitimar prematuramente aos 31 anos. Foi ali que observou a vida das gentes do povo, os seus hábitos, as ambições de alguns, os trajares e falares, que lhe serviriam de inspiração para os  romances campesinos que escreveu a seguir, particularmente As Pupilas do Senhor Reitor, cuja escrita iniciou naquele período.

O conjunto de material informativo preparado para os visitantes
A remodelação do edifício não se fez sem polémica. Sendo uma  casa de lavradores do século XIX já rara em Ovar, pequena como era, mas com um grande pátio e terreno nas traseiras - a fazer jus ao ditado "casa onde caibas, terra que não saibas"- foi ali construído um novo edifício ligado à casa, onde foi instalado um moderno auditório e outras dependências, ocupando uma grande área do pátio...  e lá se foi um espaço importante de uma casa de memórias...



Terá sido esse pátio, fulcro das atividades da lavoura, para onde se abria a cozinha da casa,  que permitiu ao  escritor tomar contacto com os jornaleiros e outros trabalhadores ao serviço desta Casa dos Campos, ouvindo os seus relatos aos donos da casa sobre o dia de trabalho, por vezes sem ser notado e tomando notas, enquanto se ia inspirando para a construção de personagens. Mas também fazia passeios pelo campo, observava as lavadeiras nos ribeiros ou os bandos de raparigas que regressavam do trabalho a cantar. Outras pessoas que conheceu na altura, como o médico local, serviram de modelo a descrições realistas de figuras como o inesquecível João Semana.



Estranhamente, ou talvez não, só encontrei cá em casa um exemplar das obras de Júlio Dinis, Uma Família Inglesa, que reli recentemente, o que significa que também eu embarquei na onda de esquecimento geral a que este escritor injustamente tem sido votado... como Aquilino, Castilho, Herculano, Junqueiro...  Tomei contacto com Júlio Dinis, como quase todos da minha geração, na adolescência,  ainda na casa paterna, sendo de lá o exemplar que hoje fotografei e aqui mostro, encadernado pelo meu pai, mas mantendo-lhe a capa original.


Muitos consideram estes romances leitura ligeira, muito bucólica e cor-de-rosa, mas não deixam de ser testemunhos de uma época e de um estilo de vida já desaparecido, cuja dureza era compensada pela abundância proporcionada por terras férteis e pelo sol sempre presente em época de verão, a convidar a festejos e a rituais de namoro, mesmo durante as tarefas agrícolas.   São romances de história simples mas bem construídos e com grande riqueza de personagens que permitiriam  fazer ainda cedo no percurso escolar a iniciação ao romance. Mas permitem também mais de um plano de leitura, apresentando motivos de interesse para diferentes tipos de leitores.

A Clara, de José Malhoa, Museu do Chiado
Na narrativa de As Pupilas do Senhor Reitor existe  análise e crítica social na caraterização do ambiente rural de meados do século XIX e na denúncia de certos comportamentos de tipos populares, como as beatas...; há reflexos das discussões sérias do momento nas reações dos aldeãos aos ecos que lhes chegavam das teorias evolucionistas de Darwin; há tratamento psicológico das personagens e talvez as primeiras descrições realistas no romance português, havendo quem considere Júlio Dinis próximo do naturalismo de Zola.
Este romance de génese ovarense poderá ter contra si o sucesso da versão cinematográfica de Leitão de Barros, conotado com o Estado Novo, o que leva por vezes à associação anacrónica desta obra literária com esses tempos de má memória...

terça-feira, 12 de março de 2013

Telhas de faiança da Fábrica das Devezas


Já aqui falei por mais de uma vez nos beirais da Casa-Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, mas ainda não tinha partilhado as fotografias que lhes tirei na última visita. Hoje a casa e um edifício anexo albergam várias coleções que vão da escultura à cerâmica, podendo-se aqui apreciar um bom acervo de faiança portuguesa, sobretudo gaiense, capaz de deslumbrar qualquer apreciador de faiança antiga.
É bem conhecida a ligação do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942) à Companhia Cerâmica das Devezas, fundada em 1865, de que o seu pai foi co-fundador e sócio.



Tendo esta casa sido construída no final do século XIX para residência e ateliê do escultor, segundo projeto do seu irmão, o arquiteto  José Teixeira Lopes, é obrigatório deduzir que os materiais cerâmicos de construção terão vindo da Fábrica das Devezas, com sede em Vila Nova de Gaia, aliás não muito longe deste edifício, e à época já com uma importante sucursal na Pampilhosa do Botão.


E seguindo a mesma lógica, podemos com segurança atribuir o fabrico das telhas ou telhões que formam estes beirais à mesma empresa cerâmica, embora não apresentem a terminação em relevo branco que já vimos noutros com o mesmo padrão, que lhe são atribuídos.
Aqui fica a evidência de que as telhas destes beirais são exatamente iguais às de outros três que mostrei em posts anteriores, dois no Porto - em S. Roque da Lameira e na Ribeira - e um em Ovar.



O que foi para mim uma surpresa constatar foi o formato muito mais estreito das telhas que se sobrepõem às que ficam visíveis no beiral. Foi-me dito por um vendedor de velharias que essas não têm qualquer decoração, serão brancas, o que me parece lógico, mas quanto ao tamanho ou formato pensava eu que seria o mesmo, o que as fotos acima desmentem.


Aqui está uma telha decorada deste tipo que integra a coleção do Museu Nacional do Azulejo (MNA). Tem de medida 63cm de comprimento e 17cm de largura.
E agora passo a apresentar duas telhas de beiral ou telhões que encontrei à venda no Porto há pouco tempo.


Na decoração são totalmente diferentes de todas as que vi até à data, aplicadas em beirais ou não. Lembram azulejos em azul e amarelo, com um remate muito bonito nas mesmas cores.
Pareciam-me mais  curtas do que  todos os outros exemplares que conheço - 58cm x 15cm e 59cm x 17cm -  mas afinal o exemplar acima do MNA tem medidas semelhantes , ao contrário de outros telhões do museu que, com a mesma largura, chegam a ter mais de 1m de comprimento.


Tal facto levou-me a pensar que podiam ser fabrico das Devesas, tal como o exemplar que mostrei acima igual aos telhões da Casa-Museu Teixeira Lopes. Mas há no MNA um outro telhão com as mesmas medidas marcado Santo António de Vale da Piedade. E agora?
E para terminar, só mais uma curiosidade: segundo as descrições destes materiais que encontrei na base de dados  do MNA, os beirais a azul e branco foram inspirados na China antiga.
Mais uma vez, a China como fonte longínqua de inspiração...