Não só durante o passado mês, mas durante todo este ano, multiplicam-se por todo o mundo, sobretudo no mundo anglófono, as celebrações dos 200 anos do nascimento de Charles Dickens, a 7 de Fevereiro de 1812, como já referi no post comemorativo.
Nesse post, há precisamente um mês, propus-me voltar a falar de Dickens, sobretudo da minha relação com a sua obra, e achei que hoje, também dia 7, seria um dia apropriado.
A minha iniciação a Charles Dickens foi feita ainda na infância, quando o meu pai me falava de personagens como Oliver Twist, o Sr. Pickwick ou o Pip de Grandes Esperanças e por isso, sempre que falo em Charles Dickens, regresso à minha meninice. Uma das obras de Dickens que tínhamos em casa era o Oliver Twist das edições Romano Torres, e foi por aí que comecei, acompanhando com muita tristeza e compaixão as desventuras do pobre rapazito órfão.
O meu pai sempre apreciou muito o humor de Dickens e, ele próprio uma pessoa bem humorada, gostava, e gosta, de citar frases de algumas personagens, como o Sr. Pumblechook de Grandes Esperanças que dirigindo-se ao Pip, ao cuidado de uma irmã severa de quem aquele senhor era amigo, lhe dizia: Rapaz, sê reconhecido a quem te educa manualmente. O meu pai ria-se sempre que dizia isto e várias vezes o ouvi repetir a frase ao meu filho, meio a sério, meio a brincar, dando a entender que ele também precisava de "educação manual" !
Assim, não é por acaso que os únicos livros que tenho comigo encadernados pelo meu pai - entre as várias dezenas que ele durante algum tempo se dedicou a encadernar nas horas vagas - sejam estes três romances de Dickens que me foram oferecidos na adolescência.
Não me lembro já da ordem por que li as restantes obras, mas sei que delirei com o hilariante Sr Pickwick, emocionei-me com os episódios da vida de Pip e os amores e desamores de David Copperfield, irritei-me com personagens secundárias de traços muito marcados como o "humilde" Huriah Heep, depois de ter travado conhecimento com a galeria de marginais de uma Londres pobre e sórdida em cuja rede caiu o pobre e inocente Oliver Twist.
Com "Tempos Difíceis" apercebi-me da miséria em que viviam os trabalhadores fabris da potência industrial que era a Inglaterra vitoriana, das injustiças e da arbitrariedade com que eram tratados pelos seus empregadores, que Dickens critica à sua maneira, nunca panfletária, caricaturando-os através de uma caraterização cheia de tiques, atitudes ridículas e afirmações descabidas. Também é muito caraterístico do modo como trata as suas personagens, sobretudo as que deseja pôr a ridículo, a maneira como falam e as expressões repetidas que usam.
Apeteceu-me agora relê-lo, não só pela evocação de Charles Dickens, mas também pelos tempos difíceis que estamos a atravessar, em que, de novo e sempre, "quem se lixa é o mexilhão"...
Tendo também lido a Loja de Antiguidades, não guardo grande memória desse romance. No entanto, quem sabe se esse título não terá contribuido para introduzir em mim o bichinho das velharias, já que loja de antiguidades era algo que não existia nas localidades onde vivi na infância e adolescência (pelo menos até aos meus 15 anos).
Claro que tendo "devorado" estas obras quando ainda dava os primeiros passos na aprendizagem do inglês, foram lidas em português - nem nesse tempo tínhamos fácil acesso a edições originais - e embora já tenha voltado a ler em inglês extratos que me marcaram mais ou que abordei nas minhas aulas, por exemplo para ilustrar aspetos da Revolução Industrial, nunca me dispus a reler qualquer delas integralmente no original. Ainda estou muito a tempo, claro, e foi para isso que comprei o Oliver Twist e o David Copperfield que já mostrei no outro post.
Esta minha edição inglesa do Oliver Twist saiu numa edição popular das Obras Completas de Charles Dickens, em 1907, mas este exemplar resultou de uma reimpressão em 1913.
| As únicas páginas ilustradas desta edição |
Sempre lamentei o facto de Dickens não ter feito parte dos programas das três cadeiras de Literatura Inglesa que tive na faculdade, programas esses que se desenvolveram desde épocas muito recuadas da literatura anglo-saxónica até, felizmente, Shakespeare, mas daí, infelizmente, não passámos...

