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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Chávenas de porcelana Derby

A cidade inglesa de Derby, capital do Derbyshire, mesmo ao lado do famoso e prolífico centro cerâmico de Staffordshire, viu nascer, ainda no séc. XVIII, uma indústria de porcelana  que dura até hoje. Foram três as unidades produtoras de porcelana nesta cidade, que se sucederam ao longo de três séculos, começando  na mítica Derby Porcelain (1748-1848) e terminando  na actual Royal Crown Derby.
Após o encerramento da primeira, dirigida por William Duesbury e seus descendentes, vários dos antigos operários fundaram uma pequena fábrica na mesma cidade, em King Street, onde continuaram a produção de porcelana seguindo os modelos da anterior, passando a chamar-se King Street Factory. A partir de 1862 alargaram as suas instalações e passaram a utilizar a marca mais famosa da primitiva fábrica - um D encimado por dois paus cruzados com pequenos pontos de cada lado, por sua vez encimados por uma coroa - mas acrescentaram-lhe as iniciais S e  H, de Stevenson e Hancock os dois sócios da altura. Mais tarde, apenas o segundo continuou à frente da fábrica, mas as iniciais mantiveram-se pelo início do séc. XX, correspondendo agora ao seu nome Sampson Hancock.
Entretanto, ainda no final do séc. XIX, é fundada em Derby uma outra fábrica que começou por utilizar o nome  Derby Crown Porcelain Co. e a partir de 1890 adoptou o nome que ainda usa actualmente, Royal Crown Derby.
Página do famoso livro de padrões da primitiva Derby, encontrada em http://www.artfund.org/artwork/7194/four-derby-porcelain-pattern-books

Os livros de padrões ou pattern books, muito utilizados pelas mais conceituadas fábricas de cerâmica inglesas, tendo cumprido a sua função à época, que era a de registar formas e desenhos e facilitar novas encomendas, são hoje auxiliares preciosos para identificar e datar exemplares sem marca. Acontece em muitas peças inglesas antigas terem como única marca o número de padrão, inteiro ou fraccionário, escrito à mão de forma mais ou menos cuidada, em dourado ou em várias cores, sobretudo vermelho. São esses pormenores de cada  número que ajudam a identificar e a datar a peça. Mas mesmo existindo a marca da fábrica, como é o caso das minhas chávenas, servem para datar muitos exemplares de fabricantes que mantiveram a mesma marca durante décadas. Estes livros encontram-se geralmente nos arquivos de cada unidade fabril, no caso das ainda existentes, ou em museus e colecções de cerâmica, felizmente abundantes em Inglaterra.


 
Par de taças e pires de chá comprado na Feira da Ladra. Ostenta a marca Derby anterior a 1800, de cor lilás (a puce mark, em inglês). Note-se que este padrão é o nº 238 da página acima reproduzida.



Chávena e pires de chá  comprados num antiquário em Coimbra. A chávena tem um formato muito usado em Inglaterra no séc. XVIII, início do XIX, o chamado bute shape. O padrão corresponde ao número 235 da página do pattern book acima reproduzida, mas como se trata de um formato diferente, foi-lhe atribuído outro número, o 248.



Chávena e pires de chá da fábrica de King Street, comprados na feira de Portobello Road em Londres. O formato aqui é o chamado London shape, largamente utilizado durante o séc. XIX.


Tacinha em forma de coração da Royal Crown Derby, pintada à mão como as anteriores, já do séc. XX. Foi comprada por um preço irrisório na feira de Algés.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A primeira porcelana inglesa

Ao contrário da faiança inglesa, a porcelana inglesa é muito pouco conhecida em Portugal, e quando aparece, a mais antiga, sem marca, é muitas vezes confundida com a porcelana chinesa de exportação, geralmente por encomenda, vulgo "Companhia das Índias", porque muitas fábricas começaram por copiar os motivos e as formas dessa porcelana chinesa. Era esta a porcelana que tinha servido o mercado inglês, sobretudo aristocrático, até ao séc. XVIII, e tal como na Holanda, Londres contou com oficinas de decoração de porcelana chinesa, sendo a mais conhecida a de James Giles, um pintor de porcelana que mais tarde também trabalhou para a fábrica Worcester.
Taça e pires de chá Worcester, c. 1765, a imitar porcelana chinesa azul e branca
Como aconteceu noutros países da Europa - na Alemanha, em Itália e na França - também em Inglaterra, a meados do séc. XVIII, se iniciou o fabrico de porcelana. Aqui, no entanto, ao contrário dos outros países europeus, esse fabrico não contou com o entusiasmo e apoio material dos membros da alta nobreza e da casa real. Foram industriais empreendedores que fizeram a sua aposta neste novo ramo da indústria, alguns já ligados ao fabrico de faiança, mas contando com o apoio de técnicos e artistas vindos do continente europeu. Só que a necessidade de satisfazerem  um mercado alargado que abrangesse também a classe média, para salvaguarda dos seus investimentos, não lhes permitia darem-se ao luxo de apostarem apenas no máximo requinte e qualidade como aconteceu com Sévres, em França,  Meissen, na Alemanha ou Capodimonte, na Itália.

Prato  Chelsea c. 1760
No entanto, a primeira fábrica de porcelana inglesa fundada por dois franceses, em 1743, em Chelsea, destinou os seus produtos à aristocracia, seguindo primeiro modelos de Meissen e depois de Sévres. A porcelana de Chelsea que hoje é um nome mítico da porcelana inglesa, caracterizou-se por uma pasta branda - ao contrário da porcelana chinesa de pasta dura - muito branca e leitosa, usada no fabrico de figuras muito delicadas e serviços de mesa com decorações vegetalistas,  peças que hoje atingem valores consideráveis pela sua raridade e beleza. Na primeira fase as peças eram marcadas com um triângulo gravado, mas depois passaram a utilizar uma âncora, primeiro relevada na pasta, depois impressa a vermelho, dourado ou castanho.
Como eu gostaria de ter uma peça com uma destas âncoras! Nem que fosse um pires! Só que, para além da questão do preço, que não é de somenos  importância, graças ao prestígio alcançado pela porcelana de  Chelsea, a marca da âncora foi imitada por outras fábricas, dentro e fora da Inglaterra e continuaram a produzir-se falsificações ao longo do séc. XIX. Só bons conhecedores das características da pasta e de pormenores da marca, por exemplo a posição em que era colocada, conseguem garantir a autenticidade das peças.

Figurinha Chelsea c. 1755
Apostando assim na qualidade, sem apoios de poderosos, esta fábrica não conseguiu manter-se para além do ano de 1769, talvez também devido à doença de Nicholas Sprimont, um dos franceses que a fundou, originalmente prateiro de profissão. Nessa altura  foi adquirida por William Duesbury, dono da Fábrica de Porcelana de Derby, que  tinha sido fundada em 1748. Durante algum tempo a unidade de Chelsea continuou a funcionar sob o nome Chelsea-Derby mas acabou por ser desmantelada em 1784.
Embora a fábrica de Chelsea seja a mais antiga a produzir porcelana inglesa, outras se lhe seguiram ainda antes da de Derby - Limehouse, Bow, Vauxhall -   mas nunca atingiram a notoriedade da primeira. Já nos anos 50 do séc. XVIII iniciou a sua actividade a fábrica de porcelana Worcester, a única que se manteve em produção contínua até aos dias de hoje.
                                         
 Taças e pires de chá da fábrica Lowestoft c.1780-1790, a da esquerda a imitar família rosa e a da direita a imitar imari

Derby e Worcester, para além de Chelsea, são nomes a reter quando se fala de porcelana inglesa, mas para além destas, podem-se nomear mais umas três dezenas de fábricas que produziram  porcelana durante mais ou menos tempo, incluindo Wedgwood e Davenport que são sobretudo conhecidas pela manufactura de faiança.