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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Meninas... na faiança coimbrã



Hoje é dia de meninas, ou melhor, hoje o meu poste só podia falar de meninas! ;-)
Estas que aqui trago são o motivo central de peças de  faiança popular coimbrã, a faiança que se produziu em numerosas oficinas de olaria, em Coimbra e na região envolvente, incluindo, no extremo oeste, a Figueira da Foz.


Aqui estão elas ao centro de um prato grande (28 cm de diâmetro) com cercadura floral sobre filete amarelo, como é muito típico desta faiança do final do século XIX e início do XX. A decoração foi pintada sobre estampilha, mas parece que algo correu mal com a menina da esquerda porque ficou sem um dos braços! 


É um pormenor que se pode constatar por comparação com um par muito semelhante de meninas, com a mesma indumentária e adereços, mas neste caso de braço dado.


Estas decoram um dos chamados "pratos falantes", no seu tamanho habitual (23 cm) e legendado de acordo com a  cena, com a inscrição "Illusões da infancia". É bastante mais rústico que o anterior, sobretudo na pasta, mas também na pintura do desenho, por muito descuidada que tenha sido a do primeiro.


Uma das perplexidades que este motivo pode causar aos nossos olhos do século XXI, numa quadra em que as crianças são mimoseadas com brinquedos sofisticados cheios de botões, luz e som, é que, sendo meninas bem vestidas, uma até usa chapéu, e bem calçadas, a sugerir pertença a uma classe social desafogada, limitam-se a apresentar como brinquedo um arco e um pau. Na minha infância esse era um brinquedo de rapazes, mas de rapazes que corriam descalços, mesmo assim felizes e contentes, atrás do arco que rolava e era guiado ou acelerado com a ajuda do pauzito...
Depreendo  que nesta altura mais recuada também as raparigas assim brincavam.
Seja como for, este deve ter sido um motivo com bastante popularidade na faiança de Coimbra porque, para além destes pratos, conheço outros dois com meninas a brincar com o arco, sendo um deles do acervo do Museu Nacional Machado de Castro.

Prato do Museu Nacional Machado de Castro, atribuído a Coimbra e datado de 1875-1900

É pena a fotografia ter ficado com todo este reflexo, mas percebe-se bem que são duas meninas e uma vai a correr com o arco.
Também o Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz, conta com uma razoável quantidade da chamada faiança de Coimbra, particularmente de pratos falantes, mas... nas reservas. Esses julgo poderem, com alguma segurança, ser atribuídos a olarias da Figueira da Foz, como a Cerâmica e Exportadora Limitada, no Senhor da Arieira, Tavarede, já que numa notícia do bi-semanário "O Figueirense" de Setembro de 1922, refere-se essa unidade fabril da seguinte maneira:


Certamente não foram estes os pioneiros no fabrico deste tipo de loiça, mas como se trata de faiança muito raramente marcada, ficamos pelo menos a conhecer o nome de uma das fábricas que a produziu, a "Cerâmica e Exportadora Limitada".

domingo, 6 de outubro de 2013

Uma fachada bonita na Figueira da Foz

Como toda a gente, gosto de fotografar as coisas que esteticamente me atraem e as casas antigas, sobretudo se revestidas a azulejos, estão entre as minhas preferências. Só que depois ficam muitas vezes a aguardar no cartão da máquina, até virem para a ribalta aqui no blogue.
Esta casa, na Rua da Liberdade da Figueira da Foz,  pode passar despercebida a muitos passantes, sobretudo os belos efeitos decorativos do andar superior, mas é sem dúvida uma das mais bonitas do chamado Bairro Novo, originalmente denominado o Bairro Novo de Santa Catarina. 

~


Já a fotografei várias vezes. Houve alturas em que grande parte da casa ficava escondida por trás da folhagem dos plátanos e não se conseguia ver a totalidade da fachada. Outras, ao fazer a visualização das fotografias reparava que um carro maior ou uma carrinha ficavam inesteticamente a tapar uma parte da casa. Os feíssimos cabos pretos de eletricidade é que, sempre presentes e imutáveis,  não há hipótese nenhuma de evitar...
Um outro aspeto que me desgosta é a adulteração do original  com a introdução de caixilharia de alumínio, muito crua, em portas e janelas. Sobretudo a porta principal ficou horrível! E fico a imaginar aquelas bandeiras no seu aspeto primitivo, embelezadas por caixilharias em arcos, como as da casa que a Maria Paula fotografou em Braga.



Acho lindo o efeito matizado destes azulejos verdes biselados, um tipo de revestimento que foi muito comum na Figueira da Foz, nesta e noutras cores, mas de vez em quando, como aconteceu no ano passado na marginal de Buarcos, lá tenho o desgosto de ver mais uma casa destas a ir ao chão...
Confio que no perímetro do Bairro Novo estes exemplares estejam mais protegidos, mas quando até o antigo Casino Mondego, depois Hotel Portugal, foi substituído por um edifício todo moderno bem no centro da zona de picadeiro...




A construção desta moradia deve ser contemporânea da edificação do bairro, com início nos finais do século XIX. 
Embora haja aqui elementos decorativos que me fazem pensar no estilo Arte Nova - as linhas fluidas e naturais dos motivos florais, as portas e janelas geminadas com cantarias em arco - e a própria assimetria da fachada, penso tratar-se aqui de um exemplar eclético, de um movimento que se abria a vários estilos e influências. De inspiração neoclássica parece-me o painel de azulejos com as grinaldas e também o medalhão com o putto a beber por uma taça, sendo certo que estas figurinhas também se encontram nas composições Arte Nova. Muito interessante a sobreposição dos ornamentos em volutas ao padrão de azulejos, já de si um belo efeito conseguido com a aplicação alternada de azulejos lisos e de padrão floral muito simples.


Já a platibanda do corpo principal, sobre o mimoso friso de azulejos emoldurados com grinaldas, me parece apontar para outras influências... 
Mas não vale a pena dar palpites sobre assuntos que não domino. Faltando-me o conhecimento, basta-me a fruição estética de uma construção com arte e bom gosto que, já que escapou ao período recente de bota-abaixo e construção "moderna" desenfreada, estando a precisar de alguma manutenção, espero que consiga sobreviver à "crise" e durar por muitos mais anos...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Faiança figueirense - Carritos e Caceira


Caneca quadrilobada com 20cm de altura e 10cm de largo

Há cerca de dois anos, numa visita que me foi proporcionada às reservas de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz, reparei neste jarro ou caneca com a nossa conhecida decoração no chamado "Cantão popular" e fiquei muito  intrigada com a ficha junta que a atribuía a Fábrica dos Carritos.
Trata-se de  uma pequena localidade à entrada da Figueira da Foz, junto à estrada de Coimbra, que eu conhecia desde miúda de passagem, nas viagens com destino às férias na Figueira e de regresso a casa. No entanto, nunca tinha ouvido falar da existência de qualquer olaria ou unidade industrial que se dedicasse ao fabrico de faiança por aqueles sítios.


Nunca mais tive oportunidade de confirmar a informação da ficha, mas este ano, o responsável pela cerâmica do Museu Municipal,  pôs-me nas  mãos um documento precioso, intitulado "Retalhos da História da Cerâmica..." um trabalho de estágio realizado no ano letivo de 1976-77 na Escola Preparatória Dr João de Barros, da Figueira da Foz. Ali se transcrevem entrevistas a antigos trabalhadores e a descendentes, alguns já octogenários, dos proprietários de fábricas de cerâmica do concelho da Figueira, tendo sido nessa altura que esta peça de faiança deu  entrada na coleção de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha, por  oferta dos netos do fabricante de Carritos, Sivestre Vaz dos Santos.
O filho deste, com o mesmo nome, nascido em 1900, referiu em entrevista que a fábrica dos Carritos iniciou laboração antes do seu nascimento, mas só se aguentou no fabrico de louça branca até aos tempos da  primeira Grande Guerra, porque faltava o estanho para os vidrados. Deste relato terá resultado a datação da caneca azul e branca com decoração Cantão. A produção nunca terá sido grande já que era o pai que fazia quase tudo, com alguma  ajuda familiar, vindo apenas de vez em quando um pintor de Carvalhais de Lavos pintar a fornada. .
O avô do entrevistado, Manuel Vaz dos Santos, já era  proprietário de uma fábrica de louça branca em Caceira - localidade muito próxima de Carritos - para a qual  mandou vir oleiros de Coimbra no final do século XIX. Com eles, Sivestre Vaz dos Santos pai aprendeu a arte que praticou em Carritos.
A fábrica de Caceira é referida por José Queirós como sendo propriedade de Vaz dos Santos & Pinto, em 1902.
É precisamente desta fábrica o vaso ornamental que se segue, pertencente a um par, e que também faz parte da coleção de cerâmica do Museu Municipal Santos Rocha.
Mais uma surpresa para mim! Quando vi os dois vasos decorados com as armas reais, com aqueles relevos e esponjados, imaginei serem fabrico do Norte e afinal eram produtos de aqui bem perto!

Vaso ornamental de um par fabricado em Caceira

Pormenor interessante das zonas laterais  onde habitualmente se inserem as asas
Mais uma vez fiquei a pensar em como é falível dar palpites sobre a origem da  nossa faiança. Afinal, para além das inúmeras olarias existentes em Coimbra no século XIX e inícios do XX,   houve fábricas ou olarias em várias outras localidades do distrito e só na coleção do Museu Santos Rocha encontram-se peças de mais duas unidades fabris do concelho da Figueira da Foz: uma no  Senhor da Arieira (Tavarede) e outra em  Carvalhais (Lavos).

sábado, 22 de setembro de 2012

Mais um ano de blogue, mais um Ratinho... e cacos e caquinhos

Bem, esta coisa dos aniversários ou datas importantes do blogue, começa a parecer rotineira, mas a verdade é que o Arte Livros e Velharias faz hoje dois anos.
Durante este tempo, afastei-me um pouco dos propósitos iniciais, ou seja, acabei por descurar o tema livros e dedicar-me sobretudo à cerâmica, a área das velharias e das artes decorativas que afinal me entusiasma mais e que encontra mais adeptos neste núcleo bloguista. 
Assim, resolvi partilhar neste post comemorativo o último exemplar de faiança ratinha que comprei, talvez o maior e melhor de todos os que fui reunindo.


Tem história para contar, pelo menos tem as cicatrizes de um bom tombo, com restauro e gatos no tardoz, mas é uma palangana (36 cm de diâmetro) com esta decoração riquíssima de flores e folhas a que é difícil resistir, do tipo flores com filamentos em pena de pavão, segundo a classificação da investigadora  Ivete Ferreira .
Vou agora confessar aqui que, como outros apreciadores de faiança, há outras coisas a que não consigo resistir: apanhar um ou outro  caquinho colorido que se atravesse no meu caminho. 
Penso que será a atração das cores vivas, ou uma costela de Gaudi ou talvez recordações de infância em que quando eu e as minhas amigas descobríamos cacos coloridos nalgum quintal, eles tornavam-se brinquedos tão aliciantes como os outros que tínhamos, de plástico, de lata ou de madeira...
Confissão feita, vou mostrar parte da recolha que fiz este ano na Figueira da Foz, enquanto fazia as minhas caminhadas numa zona perto da praia.


Esta seleção é toda de faiança ratinha e muitos não são propriamente caquinhos, são mesmo cacos, bocados com alguma dimensão, que permitem adivinhar os motivos, aqui mais de vinte diferentes.
Para além destes, encontrei muitos fragmentos sem decoração, caraterísticos fundos de taças, por exemplo, ou com apenas a barra azul ou em ziguezague da borda, que se incluem igualmente na faiança ratinha; também, em menor número, faiança azul e branca, algum cantão popular, restos de azulejos maioritariamente lisos, sem interesse à exceção de um fragmento de azulejo Delft (nada de estranhar na Figueira da Foz...) e, claro, muitos caquinhos de pratos de Sacavém e congéneres.
E agora perguntam os meus amigos e leitores. Mas onde e como se juntou tanta loiça partida no mesmo local?
É claro que os cacos não estavam todos juntos ali à mão de semear :), estavam em montes de areia depositados na entrada do molhe norte junto à praia e o que saltava mais à vista eram bocados de telhas, de tijolos e pedras. Ao passar e ao olhar para aquilo apercebi-me de alguma cor pelo meio e assim descobri que havia muitos bocados de faiança e até de porcelana VA, sobretudo branca...

O forte de Santa Catarina marcava, até há poucas décadas, a foz do rio Mondego. É neste local, à volta do forte, que estão a decorrer as obras.

Terão vindo de uma zona de obras perto do Forte de Santa Catarina, mesmo em frente à Esplanada Silva Guimarães. Pelo que me explicou um trabalhador, quando andaram a abrir uma vala comprida para fazerem fundações e alargarem a estrada, transportaram o entulho para este sítio bastante próximo, junto ao molhe.
Ora o local da vala, há algumas décadas, antes de construirem o molhe que atirou a foz do rio mais para diante, era mesmo junto à foz do Mondego, embora já na zona de praia banhada pelo mar.  Imagino que ali se depositassem, misturados com  areia, muitos objetos partidos que à época as pessoas deitavam fora para os cursos de água.
Mas acabei por encontrar um inteiro :) - nem mais nem menos que uma pequena trempe (7 cm de lado) de forno de oleiro, com que se separavam as peças empilhadas durante a cozedura e que deixavam nas faianças aquelas três marcas sem vidrado que conhecemos.



Estes achados penso que podem confirmar a grande produção e utilização de faiança ratinha na zona centro e a existência de olarias nos arredores da Figueira da Foz, pelo curso do rio Mondego acima, até Coimbra e ainda mais a montante. E se tivessem sido detetados e estudados no primeiro local de depósito, onde os fragmentos estariam menos partidos e em maior número, poderiam ter lançado alguma luz na história da produção de faiança popular nesta zona.
Entretanto, deste local onde os encontrei, todo aquele entulho estava novamente a ser transportado para aterros numa zona industrial e por isso todos os dias ali andava uma máquina a encher dois camiões e a pôr a descoberto mais  fragmentos, sendo que alguns iam aparecendo completamente trucidados.
Sabemos como estas coisas são tratadas noutros países e o Fábio Carvalho tem-nos contado no seu Porcelana Brasil o que acontece no Rio de Janeiro ou em Manaus quando se fazem escavações na zona histórica. Aqui, quer em Lisboa, quer na Figueira da Foz, quer noutros locais do país, em geral ninguém liga aos fragmentos cerâmicos, a não ser que estejam em sítios arqueológicos bem antigos  a ser alvo de estudo.
De qualquer forma, aqui fica a história contada; os cacos ficam guardados até que um dia, quem sabe, alguém se interesse... faça deles um painel todo artístico... ou, o mais provável, vão todos parar ao lixo...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Figueira da Foz e o Bairro Novo

Passada para mim a fase de constante mobilidade estival, é agora altura de rever e selecionar fotografias e de as organizar por pastas no computador, algumas para usar no blogue,  outras... "para mais tarde recordar"...

Figueira da Foz - Avenida Marginal em postal dos anos 70

Um dos temas a que dediquei alguma atenção - e não foi este ano a primeira vez - foram os edifícios interessantes do Bairro Novo na Figueira da Foz.
Em primeiro lugar há que explicar a quem não conheça tão bem a cidade, o que é que se entende por Bairro Novo.
A Figueira da Foz desenvolveu-se ao longo dos séculos como povoação ribeirinha, inteiramente virada para o rio Mondego. Ali se desenrolava toda a atividade portuária, piscatória e comercial. Junto ao mar ficavam dunas, palheiros e pardieiros escassamente habitados e a estrada que levava a Buarcos, esta sim uma pequena localidade virada para o mar.
Só no final do século XIX se tomou a decisão de desenvolver como zona balnear toda a área que vai hoje do Jardim Municipal à Avenida Marginal, onde se situa o picadeiro, a esplanada e o casino. É esse o Bairro Novo.
Há ali vários edifícios  que fazem parte da rota Arte Nova, não por serem afirmações inequívocas desse estilo, mas por haver neles algum elemento decorativo com que o autor do projeto lhes pretendeu dar um ar de modernidade, de acordo com a moda arquitetónica da época.
aqui falei da "Casa das Conchas" e tenciono mostrar outros exemplares integrados na rota.
No entanto, dedico este post a um que, não se filiando nessa corrente - apresenta antes um estilo revivalista, romântico - merece destaque pela localização, pelo inusitado aspeto acastelado e pela história que o liga à construção do Bairro Novo.


 Encontrava-se há décadas num estado lastimável, uma ruína a desfear aquela zona nobre de veraneio, mas este ano estava reservada uma surpresa agradável a quantos frequentam habitualmente aquele local. Embora não estejam ainda concluídas as obras de reabilitação, o edifício apresenta-se agora de cara lavada e aspeto digno.

Foto cortesia do blogue RUIN'ARTE

A meia altura no pequeno torreão pode ler-se a inscrição "Castello Engenheiro Silva", referindo-se ao  primitivo proprietário, um grande entusiasta e impulsionador das obras que resultaram no Bairro Novo.



Estando localizado na Esplanada Silva Guimarães, desde sempre apareceu nos postais antigos dessa zona à beira mar, mas nem sempre teve esta volumetria. Efetivamente, começou por ser o "Palacete Baldaque da Silva", um edifício iniciado no final do século XIX, de rés-do-chão terminando em ameias e com o torreão na esquina, continuado por um muro que dava a volta a parte do quarteirão. Nos anos 20, 30 do século XX, foi aumentado com mais dois andares e alargado, ficando tal  como o vemos hoje.

Foto cortesia do blogue arquivoartigospalhetas

Em cima, vê-se o Palacete Baldaque da Silva em postal de 1910. Do lado esquerdo, ao fundo, consegue-se ver o torreão; em primeiro plano uma entrada no local onde se situa hoje a "Casa das Conchas", que mostrei num post recente.

De volta à Figueira, três semanas depois de ter fotografado o Castello Engenheiro Silva, encontrei-o já concluído, pelo menos no exterior - a remodelação de todo o interior ficará para uma segunda fase.



Ficou bonito, não? E agora aquela frente virada ao mar - que se avista lá longe, é verdade - readquiriu a beleza dos tempos áureos da Praia da Claridade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Um chá à beira-mar - A seaside tea

Desta vez, para um chá de verão a pedir brisas marinhas, vou participar nos habituais eventos ligados ao chá - Tea Cup Tuesday, Tea Time Tuesday e Tuesday Cuppa Tea - com inspiração em duas cidades do nosso litoral centro: Caldas da Rainha e Figueira da Foz.


 Das Caldas vieram estas loiças SECLA, uma empresa ali constituída nos anos 40 do século passado, pretendendo de início inserir-se na tradição cerâmica caldense, mas cedo começando a inovar nas formas, cores e decorações. 


 Gosto do efeito encanastrado da chávena e pires de chá e sobretudo atrai-me este tom de azul petróleo muito usado pela SECLA nos anos 60, à época uma cor da moda, sobretudo no vestuário.



Só a chávena está marcada com o carimbo onde se lê SECLA PORTUGAL.


 A caneca apresenta a mesma cor, o mesmo vidrado muito brilhante e uma bela decoração com uma sucessão de redemoinhos ou vórtices.


Desta vez, no carimbo mais desvanecido, pode ler-se SECLA MADE IN PORTUGAL.



 O prato, também da SECLA, pintado à mão com um motivo de elementos marinhos, parece da autoria de Hansi Staël (1913-1961) a ceramista húngara que trabalhou na SECLA nos anos 50.



Não está assinado, ao contrário de outros com um motivo semelhante, mas foi certamente pintado por influência dos desenhos desta artista.

Prato à venda na internet com a assinatura de Hansi Staël
E agora vamos até à Figueira da Foz, aliás, já lá estávamos ;), uma vez que estas peças são ali usadas num pequeno apartamento da família.

A Casa das Conchas sob a luminosidade do sol da Figueira

Nesta cidade, onde tenho apreciado muitos revestimentos e painéis azulejares em edifícios, reparei que os frisos de azulejos da bem conhecida "Casa das Conchas", situada numa zona nobre da cidade, na Esplanada Silva Guimarães sobranceira à praia, apresentam motivos marinhos também com algas, peixes e moluscos.


São bastante  anteriores a estes de Staël - pela comparação de postais antigos concluí que a casa terá sido construída em 1916-17 - mas encontro afinidades na composição e no desenho, embora nestes frisos de azulejos estejam em maior evidência as linhas ondulantes ao gosto Arte Nova, a estética ainda dominante à data da construção desta casa.




Trata-se de um dos edifícios que fazem parte da Rota Arte Nova no Bairro Novo, um dos mais belos e melhor conservados, embora não seja o mais caraterístico daquele movimento estético.
Prometo aqui mostrar alguns outros num próximo post.



domingo, 21 de agosto de 2011

Azulejos publicitários na Figueira da Foz

Os primeiros dois painéis de azulejos que aqui apresento podem ver-se nas paredes que ladeiam a entrada sul do Mercado Engenheiro Silva na Figueira da Foz.
É a entrada que dá para o rio e era em frente que se situava o porto de pesca que hoje deu lugar à marina.



À vista nenhum dos painéis está marcado ou datado, mas são obviamente da Fábrica de Sacavém que assim publicitou a sua produção de faiança fina e ao mesmo tempo a produção de azulejos.
A avaliar pelos modelos da loiça representada e pelo próprio design do primeiro painel, muito ao estilo Arte Deco, terão ali sido colocados nos anos 30 ou 40 do século XX e isso mesmo me foi confirmado em conversas que tive com alguns vendedores mais antigos do mercado, inaugurado ainda no século XIX, como se pode ver na entrada principal do lado do jardim público.

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Um dos vendedores,  nascido em 1947, por ali criado já que herdou o negócio dos pais, disse-me que sempre ali conheceu os azulejos, por isso teriam que ser anteriores à década de 50.  Causa-lhe alguma estranheza - e a mim também - terem sido  colocados na entrada à época reservada aos abastecimentos do mercado e não utilizada pelo público em geral. 
Depois falei com uma vendedora, a Sra Leopoldina, nascida em 1934, filha e neta de vendedoras, e ela disse-me ser ainda  miúda quando ali colocaram os painéis, mas não se lembra se ainda nos anos 30 ou já na década de 40.
Também os painéis de publicidade às águas de Carvalhelhos só se conseguem datar por aproximação graças à história da casa comercial onde foram aplicados.


São três painéis iguais, por baixo de igual número de montras da Casa Encarnação, uma antiga loja de mercearias e vinhos que se situa numa esquina da rua Miguel Bombarda, no chamado Bairro Novo, próxima da avenida marginal.


No canto inferior direito pode ler-se a marca ALELUIA AVEIRO, mas quanto a datas, a única certeza que se pode ter é que serão também anteriores à década de 50. A atual proprietária daquele estabelecimento apenas me soube dizer que quando o marido para ali foi trabalhar, no início dos anos 50, já os painéis lá estavam. Disse-me ainda que durante muitos anos a empresa das Águas de Carvalhelhos oferecia contrapartidas, em determinado volume de águas, à publicidade que o estabelecimento assim lhes proporcionava, numa zona nobre do veraneio figueirense.
A Fábrica Aleluia em Aveiro, de que já falei num post recente, parece ter tido uma intensa produção de azulejos na primeira metade do século XX, alguns ao estilo Arte Nova, e felizmente tinham o hábito de marcar os seus painéis.

domingo, 3 de outubro de 2010

Azulejos Delft de figura avulsa.


Este é o único exemplar que possuo destes azulejos holandeses que acho encantadores. É do tipo cenas bíblicas, facilmente identificáveis por aparecer Jesus Cristo ou  outras figuras sagradas com auréola à volta da cabeça. Estas cenas tinham todas nome, Fuga para o Egipto, O jardim das oliveiras, A Anunciação e dezenas de outras, mas para identificar algumas menos óbvias, caso da minha, é necessário conhecer códigos que os meus escassos conhecimentos nesta área não me permitem dominar. Para além da cena central, tem um motivo decorativo em cada canto que permitia dar alguma uniformidade à composição de azulejos num revestimento com cenas muito variadas.
Comprei-o por dois ou três euros, aqui perto de casa, num armazém de venda de móveis usados que vinham do estrangeiro, de onde também traziam outros artigos de recheios de habitações. Estava ali, sozinho, sem moldura, em cima de um móvel, e eu nem sabia  se era um verdadeiro azulejo Delft mas quis logo trazê-lo para casa. Só depois de fazer alguma investigação e de ver outros exemplares, soube realmente que era autêntico.
A melhor coleção portuguesa deste tipo de azulejos encontra-se na Figueira da Foz, na Casa do Paço. Trata-se de um edifício mandado construir no final do Séc. XVII pelo bispo de Coimbra D. João de Melo, mas só terminado na primeira década do séc. XVIII.
Apresenta várias salas com silhares de azulejos, destes de figura avulsa chamados de Delft, embora houvesse outros centros de produção de azulejos na Holanda.
 No país de origem, eram usados para revestir por completo fogões de sala, mas também, nalgumas regiões, revestiam sala e cozinha do chão ao teto. Aqui, na Figueira, foram aplicados à portuguesa, isto é, a formar silhares que revestem paredes de salas até mais ou menos um terço da sua altura, com uma borda de azulejos diferentes a terminar. A solução aqui encontrada foi muito engenhosa: como havia azulejos de três tipos - cenas campestres, cenas bíblicas e cavaleiros e mouros -  e em duas cores sobre o branco - azul e vinoso de manganês -  foram alternando os motivos e cores para obter o efeito pretendido.




Curiosamente, nesta coleção de cerca de 7000 exemplares, os azulejos de cenas bíblicas são a manganês e não a azul como o meu. Foram aplicados numa sala mais pequena que se pensa ter servido de capela.
Acredita-se que todos estes azulejos terão chegado à Figueira, não por encomenda, mas graças ao aproveitamento da carga de um navio holandês, naufragado junto à foz do Mondego, à época da construção do Paço.
O local neste momento só é visitável mediante contacto com os serviços de cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz.