sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Livrinhos de orações - As "Horas Marianas"



Não tendo a motivação religiosa a atrair-me para os livrinhos de orações, é sempre muito mais a forma do que o conteúdo o que neles me desperta interesse. Mas se considerarmos como conteúdo todas as ilustrações, as estampas e vinhetas que ilustram o texto, então essa parte do conteúdo exerce realmente sobre mim uma grande atração!
É a arte do livro, presente desde logo no tipo de encadernação, com ou sem ornatos a ouro, e todo o trabalho de ilustração, geralmente em gravuras a preto e branco, mas por vezes com magníficos desenhos a cores.
Estes dois volumes são de Horas Marianas, exemplares do século XIX destinados a um público vasto de crentes católicos, muitas vezes de modestas posses. 


 Em muitas casas humildes, mas com pais alfabetizados, era este o único livro disponível - a par da Imitação de Cristo ou da Bíblia para a Infância -  para ensinar as primeiras letras ou números aos mais pequenitos. Guardo comigo uma Bíblia para a Infância, que já veio da casa de bisavós meus, e nela encontrei muitos números de páginas repetidos a lápis e também algumas letras desenhadas com mão insegura...
Isso vi confirmado nas palavras de Mariquitas, uma  menina aldeã quase analfabeta do romance Mil e um Mistérios (1845) de Castilho: "Meu pai ensinou-me a ler um poucochinho nas Horas Marianas que temos lá em casa; mas letra de sentença nunca me calhou...." (cap. VIII, p.58)



Nestes livrinhos, se tivermos a sorte de os encontrar intactos ou quase, podem estar reunidas gravuras de maior ou menor qualidade e em maior ou menor quantidade, o que é sempre para mim um bónus muito apreciado.
Vou falar de um dos exemplares, datado de 1852, que obviamente me chamou a atenção em primeiro lugar pela encadernação. com profusão de motivos dourados resultantes da aplicação de ferros quentes. Sei, por experiência própria, como é difícil acertar as letras e motivos, sobretudo se repetidos à volta da capa, sendo um trabalho especializado a exigir perícia e mão firme. Também os cortes foram dourados, como era prática comum em livros religiosos.


As Horas Marianas, neste caso Novíssimas como se lê no título, a sugerir sucessivas edições, penso radicarem na tradição dos Livros de Horas medievais, manuscritos maravilhosamente iluminados, verdadeiras obras de arte que só podemos admirar nos acervos das grandes bibliotecas.
Aqui somos brindados logo no início, ainda antes da página de rosto, com uma estampa de página inteira representando Cristo, preso e supliciado, com o manto, a vara e a coroa de espinhos, numa das cenas que antecedem a Via Sacra.


É a imagem conhecida popularmente por Senhor da Cana Verde, muito venerado em vilas e aldeias sobretudo do Norte do país, mas também referenciada pela designação mais erudita de Ecce Homo.
Na margem inferior pode ler-se Rouargue sc, sendo Rouargue o apelido de dois irmãos artistas, Emile Rouargue (1795-1865) e Adolphe Rouargue (1810 - 187?), nascidos em Paris,  muito prolíficos na produção de gravuras, maioritariamente de paisagens.
Na página seguinte, protegida por papel de seda, vê-se um belíssimo desenho colorido à mão a emoldurar o título, lembrando-me uma iluminura, salvaguardadas as devidas diferenças, que aos meus olhos muito enriquece este pequeno livro.


Cada uma das partes intituladas Officios é introduzida por desenhos, geralmente com a cruz ao meio



e termina com pequenas vinhetas com figuras ou cenas bíblicas.





Para além destas vinhetas, o livro conta  ainda com mais duas gravuras, estampas de página inteira, também de autoria Rouargue, tendo uma como tema Maria e o Menino Jesus e a outra Maria e o anjo.

 

Não sei se terá havido outras gravuras de página inteira  na obra. A verdade é que qualquer uma destas, embora  pequena (5x7,5), faria um belo quadro se fosse emoldurada...




16 comentários:

  1. Bom dia

    Vinha perguntar-lhe se me podia ajudar com a identificação de um pequeno jarro em flow blue, com alguns dourados, bastante antigo. Penso que seja porcelana. Não tem marca de fabricante, tem apenas um número, penso que da pattern, o que me levou a pensar que fosse Spode. No entanto não encontro nada parecido nas pesquisas que tenho feito.

    Se me puder ajudar, posso enviar-lhe algumas fotos que tenho do jarrinho.

    O meu mail é margaridarebelo3@gmail.com

    Obrigada!!
    Margarida Rebelo

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    1. Boa noite, Margarida!
      Embora adore estes desafios, não sei se lhe poderei dar grande ajuda na identificação da peça. Só com "pattern number" é difícil, muitos fabricantes usaram esses números. Se for Spode terá o número a vermelho.
      Envie então as fotos e... quem sabe... posso já ter visto alguma coisa do género...

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  2. Olá Maria,

    Gosto por demais destas pequeninas preciosidades, recheadas de belas ilustrações. É curioso, que o Missal dentro do qual estava aquele meu canivet, também contém algumas imagens muito ao estilo dessas suas. Tenho de me munir de uma boa lupa para tentar descortinar alguma assinatura. Tinha graça que fossem "irmãs" e levadas a cabo pelos mesmos irmãos!
    Amanhã já vou tirar umas fotos e ampliá-las. Quem sabe??

    Um grande abraço

    Alexandra Roldão

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    1. Olá Alexandra, boa noite!
      Fico feliz por saber que esta minha inclinação por objetos destes, hoje cada vez mais em desuso, não é assim tão rara. É verdade que missais e livros de orações existem em muitas casas portuguesas e a maioria contém ilustrações, mas só o facto de saber que estas têm mais de 150 anos e que ainda há aqui muito trabalho artístico manual torna-os também para mim em pequenas preciosidades.
      Se encontrar algum nome nas estampas depois diga.
      Um grande abraço também para si.

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  3. Boa noite,

    Deixo-lhe só dois breves apontamentos que talvez possam adiantar alguma coisa.

    É verdade que os livros de «horas» religiosos (horas marianas, horas do cristão, horas do devoto, etc.) que, pelo menos por cá, proliferavam sobretudo no séc.XIX, vão buscar ideia e inspiração aos livros de horas medievais, manuscritos. Há toda uma profusão deles, desde edições correntes a peças que, hoje, são raríssimas. Não tanto em Portugal, mais em França e no norte da Europa (muitos na Flandres, por exemplo), eram geralmente de um grande apuro gráfico, com riquíssimas encadernações editoriais e impressão a várias cores. Tenho por aqui alguns e são de facto um regalo, mesmo para «leitores ímpios».

    Por outro lado, posso estar enganado, mas suspeito de que por trás de muitas destas edições religiosas em português impressas em Paris pelo meio de oitocentos deverá ter estado a mão, mesmo quando não indicado, do padre Roquette (que, além dos estritamente religiosos, lá publicou, muitas vezes de sua autoria, tratados de teologia, filosofia, linguística e até «naturalia»...) É cá um palpite.


    Deixo-lhe os meus cumprimentos

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    1. Boa noite, caro anónimo. Será que é mais um "leitor ímpio" deste tipo de obras? ; )
      Apreciei muito os apontamentos que aqui deixou, adiantaram com certeza alguma coisa! Foram um ótimo complemento a este poste e levaram-me a querer saber mais sobre o padre Roquete.
      Desconhecia o papel importante que ele terá tido no lançamento destas edições a partir de Paris, apenas tenho um dicionário de Português-Francês da sua autoria, de 1841. Fui ver outros livros religiosos do séc. XIX que aqui tenho, em nenhum encontrei referência ao seu nome, mas acredito que, estando ele em Paris e sendo um religioso dado à escrita, a sua influência se fizesse sentir.
      Obrigada pelo seu contributo e cumprimentos

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  4. Maria Andrade

    Como sabe eu tenho um fraquinho por estes livros e imagens piedosas e sou um colecionador de santinhos e outras beatices, embora me concentre mais no século XVIII. Mas, mesmo assim encanto-me com as estampas desta literatura devota oitocentista.

    No nosso País, há de facto muitíssimos destes livros primorosamente encadernados e editados, todos eles do século XIX e a maioria são impressos em Paris. Como toda a gente sabe, nessa época Paris era a capital da luz e um centro editorial importantíssimo, onde se produzia todo o tipo de obras. Não só livros de temas ímpios, imorais, artísticos, literários ou jacobinos, aos quais se associa sempre a França, mas também a literatura devota. Alguns destes impressores tinham um negócio tão rentável, que um deles o Turgis, abriu um branche nos Estados Unidos, para vender santinhos aos católicos americanos e canadianos. Julgo que imprimiam estes livrinhos para todos os países católicos, mas era natural, que estes editores tivessem relações privilegiadas com padres das várias nações católicas, como o padre Roquete. Seria um assunto a explorar.

    Bjos e já me deu uma ideia para mais um post

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    1. Luís, efetivamente a maioria dos livros que tenho deste género, com ilustrações, são do séc. XIX, mas um ou outro logo do início, com gravuras ainda setecentistas. Tenho até dois do mesmo título, “Horas da Semana Santa”, com datas diferentes, mas com as mesmas gravuras de Jacques Le Roy. Não me tinha lembrado disso, mas um deles fica já destinado... ; )
      É natural que a edição destes livrinhos fosse um negócio rentável, com um vasto mercado assegurado em todos os países católicos, a partir de Paris.
      Foram mais umas achegas muito pertinentes que aqui deixou, sobre um assunto cheio de fios interessantes a explorar, e tenho a certeza que o Luís o fará muito bem, nesse post que já fica aí a fermentar...; )
      Beijos e boa semana

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  5. Maria,
    Gostei muito deste registo pois adoro estes livros religiosos. Deliciam-me a vista e o desejo de os ter.
    Interessa-me avaliar quem eram os seus possuidores e seu arquétipo religioso.
    Parabéns.
    Nunca tiraria estas imagens para emoldurar. Elas são perfeitas para o destino que lhes foi dado.
    Aproveito para agradecer a sua visita. :))
    Boa noite.

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    1. Olá Ana,
      Penso que o encanto que encontramos nestes livrinhos, para além da beleza e graça de ilustrações e encadernações, tem também a ver com a história milenar que transportam e que faz parte da nossa matriz cultural, mesmo quando não somos dados à religiosidade e à devoção.
      Quanto à minha visita, gosto às vezes de deambular pelo PROSIMETRON, mesmo sem comentar, mas desta vez encantei-me por aquela sua foto da Figueira da Foz...
      Um abraço e volte sempre.

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  6. Nestas obras pias a encadernação e as gravuras são fantásticas (hum, creio que com esta frase me declaro completamente ímpio!).
    As gravuras que acompanham esta sua obra são lindíssimas.
    Claro que é uma pena separá-las, pois a obra é um encanto quando vista pela sua encadernação, mas, se esta última estiver destruída, entendo perfeitamente que alguém não resista à tentação de cortar as belíssimas imagens que estão junto, no entanto, só espero que quando alguém o fizer tenha o cuidado em manter os dados técnicos referentes ao trabalho (escreve alguém que já penou pela faltas destes elementos :-)).
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Pois é, Manel, encontra-se de tudo. É verdade que por vezes o estado dos livros já atingiu uma tal degradação que, havendo gravuras, há que salvá-las e reaproveitá-las. Mas também há casos em que, tendo eles pouco valor comercial, como muitos destes livrinhos religiosos, são pura e simplesmente estropiados, retirando--se-lhes as gravuras originais. Depois efetivamente perdem-se os dados técnicos, porque muitas vezes, em relação ao gravador, aparecem só na primeira gravura da série colocada no livro e outras vezes a página é cortada rente à moldura da imagem e lá se vai toda a informação...
      Sei que tem boas gravuras emolduradas e ainda bem que são apreciadas e estimadas.
      Um abraço

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    2. Boa tarde á algum tempo deparei-me com um pequeno livro bastante antigo com o titulo de HORAS DA SEMANA SANTA impresso em 1828 tendo sido a decima sétima impressão seu autor FR. FRANCISCO DE JESUS MARIA SARMENTO eu gostaria de saber mais alguma coisa sobre este livro se por acaso tem algum valor se por acaso alguém me quiser contactar o meu mail é filiperodrigues56@gmail.com desde já muito obrigado Filipe

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  7. Prezada Maria Andrade,
    Parabéns pelo seu trabalho. Sou estudioso de testamentos oriundos do século XIX que contém forte discurso religioso católico. Gostaria de saber se há alguma referência bibliográfica, do século XIX, que traga o ato de contrição. Se a resposta for positiva, poderia me enviar tal oração e sua referência? Muito obrigado.

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