sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Moderna Industrial Decorativa de Coimbra

Aquário da Moderna Industrial Decorativa à venda na internet

Há tempos, uma seguidora deste blogue, a Ana Caetano, contactou-me para me perguntar se eu tinha conhecimento de uma fábrica de modelagem de figuras ou estatuetas, congénere da Estatuária Artística de Coimbra e sua contemporânea, que teve sede numa rua ao lado da Escola Feminina de Santa Cruz em frente à Manutenção Militar em Coimbra. Acrescentou que tinha sido fundada pelo avô, Francisco Caetano Ferreira, com sócios, nos anos 40, e que ela andava a tentar recuperar o máximo de informação sobre o espólio artístico da família, uma vez que já o seu bisavô, Alberto Caetano Ferreira, era canteiro e escultor, também em Coimbra.

Escola Primária Feminina de Santa Cruz no início da Rua da Manutenção Militar
O prédio novo à esquerda ocupa o lugar da antiga M.I.D.

Respondi-lhe que a única referência que tinha visto a essa fábrica tinha sido no MAFLS e dei-lhe o link.
Efetivamente nesse post, não só podemos apreciar uma figura de cegonha produzida por esta fábrica ou oficina, mas também se fica a saber que a sociedade Moderna Industrial Decorativa Limitada foi constituída em 1941, com  sede na Rua da Manutenção Militar nº 3, sendo Francisco Caetano Ferreira um dos cinco sócios, certamente o responsável pela modelação artística, dados os seus antecedentes familiares.
Entretanto a Ana Caetano fez-me chegar fotografias e mais informação de que dispunha sobre os seus familiares e que eu achei muito interessante publicar, já que por vezes é muito difícil reconstituir o percurso de famílias ligadas a empresas portuguesas nesta área - e certamente também noutras -  e estou-me a lembrar da família Frutuoso ligada à Estatuária Artística de Coimbra, à fábrica das Lages e  mais recentemente à ESTACO, mas com um percurso muito difícil de acompanhar.





Esta seguidora começou por me enviar fotos de três estatuetas em porcelana que pertenceram ao avô, certamente para nelas se inspirar com vista às suas criações em terracota. Ao contrário da convicção da família de que seriam inglesas, são todas de fabrico alemão. Têm  entre 14cm e 17cm de altura e a marca que apresentam, um O e um M coroados, é da empresa Metzler & Ortloff, de Ilmenau, Turíngia, marca usada nos anos 40, o que coincide com a época de laboração da Moderna Industrial Decorativa.
Assim ficamos com alguma ideia do tipo de influências que se faziam sentir na indústria cerâmica portuguesa da época.

Trabalhadores da M.I.D. no início dos anos 40, estando Francisco Caetano  na fila de cima, ao centro, de bata branca

A fotografia de grupo em cima parece-me um documento de grande interesse, vendo-se muitos garotos de 10-12 anos, aprendizes do ofício, certamente acabados de sair da escola primária, como era costume na altura. Alguns entre os mais novos, descalços, a mostrar à evidência as agruras por que passavam muitas famílias portuguesas, não deixavam de ir de fatinho para o trabalho, como homens em ponto pequeno, e alguns de gravata. Muitos ainda estarão vivos, agora na casa dos 80 anos.
Voltando à família Caetano e começando por falar de Alberto Caetano Ferreira (1888-1944), bisavô da nossa seguidora, ele foi canteiro de profissão e aprendeu com mestres por sua vez  discípulos de António Augusto Gonçalves, na Escola Livre das Artes e Desenho em Coimbra, tendo inclusivamente integrado a equipa de António Augusto Gonçalves na construção do Palace Hotel do Buçaco.
Há diversas esculturas da sua autoria em Coimbra, muitas delas em obras encomendadas pelo Dr Bissaya Barreto, entre elas o Portugal dos Pequenitos, e também terá feito vários trabalhos para a família Sottomayor em Condeixa.

Fonte em frente à Fundação Bissaya Barreto com estatuetas saídas das mãos e do escopro de Alberto Caetano

Quanto a Francisco Caetano Ferreira (1908-1986), iniciou-se na arte de canteiro numa oficina que o pai abriu na Rua do Arnado e com ele colaborou em muitos trabalhos de estatuária que ainda hoje se podem ver na cidade.
Em 1941 figura como sócio fundador da Moderna Industrial Decorativa, mas por desentendimentos dentro da sociedade, abandonou a empresa a meados dos anos 40, indo exercer funções de "Encarregado de Trabalho" na cerâmica LUFAPO/Lusitânia em Coimbra. 
Já em 1959/60 foi enviado para a Lusitânia do Porto para "ajudar a transmitir conhecimentos" mas três anos depois regressou à unidade de Coimbra onde trabalhou até se reformar.
Após a saída de Francisco Caetano, desconheço por quanto tempo a  Moderna Industrial Decorativa se manteve em laboração.

13 comentários:

  1. Querida María
    Me encanta aprender contigo sobre porcelanas y cerámicas
    Un Abrazo

    ResponderEliminar
  2. Prezada Maria Andrade:
    Valioso contributo para a historiografia da MID!
    Esperemos que a Ana Caetano possa disponibilizar mais informação sobre a actividade dos seus antepassados.
    Estruturas para aquários, semelhantes a esta, foram também comercializadas pela Estatuária Artística de Coimbra, conhecendo-se uma que evoca um bloco de gelo encimado por um urso polar.
    Saudações!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro MAFLS
      Se tiver conhecimento de peças da MID agradecia que me mostrasse, uma vez que tem mais conhecimentos do que eu sobre estes assuntos.
      Sobre os meus antepassados, eu ando em busca do espólio do meu bisavô Alberto Caetano e já tenho várias fotos e informações sobre a localização de peças e estatuetas, mas não sei se é do vosso interesse ou apenas das peças de cerâmica.
      Tenho em meu poder alguns pratos e peças da LUFAPO/LUSITÂNIA mas não quis inundar o blogue da Maria Andrade com tudo isto. Vou criar um blogue onde poderei mostrar essas peças, se alguém estiver interessado em vê-las.
      Muito obrigada a todos, AMCaetano

      Eliminar
    2. Prezada Ana Margarida:

      Tudo o que possa estar relacionado com os intervenientes na produção da MID - fotos, dados biográficos, imagens de peças nos mais diversos materiais, etc., me (nos) interessa.
      Nos próximos dias enviar-lhe-ei uma outra imagem das aves produzidas pela MID, caso me queira indicar o seu mail para: now.here@sapo.pt.
      Saudações!

      Eliminar
  3. Caro MAFLS,
    Obrigada pelo comentário, mas o seu contributo foi bem mais importante porque foi no seu blogue que vi a primeira referência a esta empresa.
    Acredito que a M.I.D. e a Estatuária tivessem pontos de contacto na sua produção, basta o facto de terem tido início na mesma época, seguindo provavelmente as mesmas modas, mas a Estatuária ficou mais conhecida, também pelo facto de ter sido mais duradoura.
    Penso que a Ana Caetano me enviou toda a informação que tinha disponível e eu fiz uma súmula, mas ela poderá dizer se há mais factos relevantes a mencionar.
    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  4. Sim, senhor, um trabalho muito bem feiro de reconstituição de história recente, que é mais difícil de fazer, porque não há manuais publicados que nos faciltem a investigação.

    Deixou aqui traçadas meia duzia de linhas que trazem de novo à luz do dia presente aspectos da arte e da indústria recentes em Coimbra.

    Abraços

    ResponderEliminar
  5. Luís, ainda bem que gostou desta minha incursão por uma rota menos batida aqui no blogue.
    Também acho que vale a pena fixar os poucos dados disponíveis em relação a alguma produção nacional e foi uma circunstância feliz ter surgido o contacto da Ana Caetano, disposta a fornecer-me a informação sobre os seus familiares.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  6. Minha cara Maria Andrade, só tenho de agradecer-lhe, mais uma vez, pelo carinho com que tratou deste assunto.
    Esta publicação sobre o meu avô Francisco e bisavô Alberto Caetano deixa-me muito orgulhosa e feliz! Vou transmitir esta reconstituição da história aos meus familiares mais novos.
    Adorei partilhar consigo as informações que tenho, para poder partilhar com todos os seus amigos e interessados neste blogue.
    Gostaria de acrescentar, que todas as contribuições que surjam sobre estes 2 artistas de Coimbra, serão muito bem vindas.
    Um grande abraço, AMCaetano

    ResponderEliminar
  7. Olá Ana Margarida,
    Fico muito satisfeita por lhe ter dado este prazer ao mesmo tempo que partilhámos aqui informação sobre uma unidade coimbrã pouco conhecida produtora de cerâmica e sobre dois artistas daquela cidade que foram os seus avô e bisavô.
    Também eu lhe estou agradecida por isso.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  8. Mais um pouco de arqueologia industrial que aqui se fez e ainda bem, pois, se esta geração não a fizer, posteriormente, tornar-se-á muito mais difícil, como se dá conta quando tentamos hoje perceber a grande "baralhada" do que é faiança saída nos centros do Porto, Lisboa, Coimbra ou Aveiro, sobretudo se do século XIX!
    É destas memórias que as coisas vão ficando mais esclarecidas e arrumadas para a posteridade, assim haja a vontade dos vindouros em sabê-lo.
    Desta Gostei sobretudo da obra de escultura monumental de Alberto Caetano, que aqui apresenta, dentro da tradição da cantaria portuguesa.
    Algumas das pequenas esculturas aqui mostradas fizeram-me lembrar aquelas peças provenientes de Lladró.
    Apesar de serem peças que não me estimulam a imaginação, sei que existe um grande mercado para elas, especialmente pela velocidade com que se vendem e pelo apreço que as pessoas lhes conferem, ao colocá-las em lugar de destaque na decoração do lar.
    Os meus parabéns pelo seu trabalho rigoroso e científico de detetive que vai aqui fazendo, com o qual, aliás, sempre nos tem brindado.
    Porque há pessoas muito válidas, e conheço algumas, que também têm estudado e pesquisado, mas esse tipo de trabalho fica estéril, quando não comunicado; são pessoas pelas quais não consigo nutrir qualquer sentimento de gratidão, apesar de lhes reconhecer o valor.
    Reconheço que o conhecimento não é gratuito, por isso, tanto maior o seu valor quando é comunicado de forma desinteressada e generosa.
    Outras pessoas existem que, de tal forma generosas e entusiastas, comunicam nestes meios de difusão generalista o que sabem mas, e infelizmente, também o que não sabem, sobretudo a partir de conclusões precipitadas e sem qualquer fundamento; neste caso o problema torna-se mais grave, pois, pessoas menos avisadas, não saberão deslindar e reconhecer o que é rigoroso e cientificamente provado do que o não é. Pessoas igualmente a evitar.
    A Maria Andrade tem vindo, neste seu espaço, a observar, ler, pesquisar e concluir, quando isso é possível, com bases factuais de fontes o mais seguras possível, e, finalmente, mas não menos valioso, a oferecer-nos de bom grado todo esse seu trabalho, agora validado com certificado de autenticidade!
    Um bem haja muito particular, por isso.
    Manel

    ResponderEliminar
  9. Caro Manel,
    Quem tem que lhe agradecer sou eu, pela consideração e a amizade que teve a generosidade de aqui deixar expressas.
    É sempre um incentivo para continuar porque do lado de cá nem sempre estamos muito seguros de que este trabalho é apreciado, mas ao fim e ao cabo resulta de um gosto pessoal e a partilha faz parte desse gosto.
    Uma coisa é certa e já o afirmei aqui: embora estes textos sejam totalmente despretensiosos, tenho sempre a maior preocupação em não lançar pistas erradas, em não fazer afirmações não fundamentadas porque isso só vem baralhar e causar ruído, sobretudo em áreas da cerâmica em que há poucas certezas.
    Quanto às figurinhas de porcelana alemã, tem graça que também associei, particularmente a da menina com o gato, à produção de Lladró, talvez pelo brilho intenso, pela paleta cromática...
    Um abraço

    ResponderEliminar
  10. Olá Maria,
    parabéns pela interessante publicação.
    Espero que a Ana Caetano não desista da criação do novo blogue para que possamos ter acesso a toda esta valiosa informação.
    Saudações,
    CMP*

    ResponderEliminar
  11. Olá CMP,
    muito obrigada pela visita e pelo comentário.
    A Ana Caetano já criou o seu blogue e aqui tem o link:
    http://rdqntnadaquefazer.blogspot.pt/
    Um abraço

    ResponderEliminar