segunda-feira, 9 de março de 2015

Uma herança muito especial


Antes não a tivesse recebido tão cedo...
Falo dos livros do meu pai, em particular dos que ele próprio encadernou, de que se podem ver alguns neste móvel.
Se há objetos que desde sempre associei ao meu pai e que ele desde miúda me incentivou a usar, a estimar, a valorizar, esses objetos são os livros, objetos especiais que podem contar histórias e que podem conter mundos, como ele cedo me fez perceber.


Aprendeu a encadernar ainda novo, em casa de uma familiar em Lisboa, mas nessa altura deve ter encadernado "O Mosquito" de que já aqui falei, o "Manual do Encadernador" de Maria Barjona de Freitas, uma obra imprescindível para esta arte, e pouco mais.



 Foi décadas mais tarde, quando esteve colocado em Santarém, nos anos 70, que se dedicou mesmo à encadernação de uma boa parte dos seus livros, talvez por ter uma oficina de encadernador bem perto do local de trabalho. Era ali que comprava os materiais e  ali ia finalizar os trabalhos com a aplicação de ouro nas lombadas, a ferros quentes. Depois revia-se na obra feita e partilhava comigo a satisfação de colocar na estante mais um livro assim consolidado e embelezado.

Uma da minhas capas preferidas
O requife e a fita de marcar
Encadernou sobretudo romances - os seus Eças, Aquilinos, Jorge Amados, Zolas, Dickens, Tolstois... - mas também poesia, o teatro de Gil Vicente e revistas que assinava regularmente, salientando-se a Seara Nova de 1964 a 1971.

Quatro volumes da revista Seara Nova

Foi quase uma centena de volumes que ele encadernou nas horas vagas, sobretudo nos longos serões de inverno. Rodeava-se de ferramentas, peles, papéis, pequenos utensílios, fios, fitas, requifes, etc. e lá ia fazendo o trabalho com toda a paciência e desvelo.

A prensa de madeira e alguns materiais que depois me passou para encadernação e restauro
Encadernava em meia de pele, nas cores mais variadas como se pode ver na segunda fotografia, sendo as minhas preferidas as de carneira em tom natural, que depois vai escurecendo, com aplicação de rótulos coloridos.

Alguns clássicos encadernados
De início, eliminava as capas moles originais, mas mais tarde passou a mantê-las e também as bandas laterais, como deve ser feito. Neste Léah e outras histórias de José Rodrigues Miguéis colou um retrato do autor numa das guardas.





Já passou um ano desde que vi o meu pai pela última vez e tem sido muito dolorosa a ausência, mas constato cada vez mais que os que nos são próximos e muito queridos nunca nos deixam verdadeiramente, pelo menos enquanto tivermos memória. No caso do meu pai, mantenho o contacto através de fotografias, de recordações e a manusear as coisas que ele estimava. Ao folhear os livros que me deixou, encontro não só o seu autógrafo, mas por vezes textos manuscritos numa caligrafia impecável, às vezes notas, uma ou outra fotografia...
Mas sinto sobretudo muitas saudades de lhe ouvir a voz e as gargalhadas...

O rapazinho que aprendeu a encadernar


18 comentários:

  1. Quão bom é recordar as pessoas que nos foram queridas e que permanecem vivas na nossa memória. Bem haja pelas suas palavras.
    if

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    1. Eu é que agradeço, Ivete, o seu comentário.
      É verdade que nos faz bem falar deles, recordá-los nos seus melhores tempos, senti-los ainda connosco através do que nos deixaram...
      Tudo de bom, cara amiga!

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  2. Bonita memória de um Artífice com muito bom gosto e arte.
    Uma boa semana!

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    1. Neste dia, quis recordá-lo aqui, com os seus livros.
      Obrigada e uma boa semana também para si, APS!

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  3. Gostei do "post" e, sobretudo, fixei o pormenor de ter uma oficina de encadernador por perto para finalizar os trabalhos. Os meus livros, por falta desses amigos e ensinamentos, continuam sem títulos gravados.

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    1. Realmente as circunstâncias que nos rodeiam condicionam muitas vezes o que fazemos e como o fazemos. Oxalá a HMJ arranje forma de dar o acabamento aos seus livros que as encadernações certamente merecem.
      Um abraço

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  4. Que belíssima forma de recordar o seu pai.
    É assim que os que nos são, e foram, queridos perduram não só na nossa memória, mas continuam igualmente pelo futuro, para benefício das gerações que virão.
    E o seu pai foi um encadernador fantástico, pois o que aqui mostra é de grande beleza e qualidade.
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Sim, Manel, gosto imenso destes trabalhos e será sempre algo que eu, os netos e espero que também os bisnetos vamos estimar e preservar como tesouros de família.
      Obrigada pelas suas palavras e uma ótima semana também para si.
      Um abraço

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  5. Encadernar os livros é um processo que lhes assegura uma vida muito mais longa e os torna muito mais bonitos nas estantes. Uma biblioteca com obras bem encadernadas é um regalo para a vista.

    Antigamente às bibliotecas tinham dinheiro e mandavam encadernar por sistema as suas obras e davam trabalho a muitos encadernadores. Hoje não há dinheiro para nada e os livros modernos desfazem-se em três tempos á custa de tanto serem fotocopiados. É por essa razão que muitas bibliotecas por esse mundo fora já permitem aos leitores tirarem fotografias das páginas, porque sempre poupa mais os livros do que as fotocópias.

    Também no passado existia um hábito muito curioso e enraizado nos amantes dos livros, que era mandar encadernar várias obras diferentes no mesmo volume, normalmente as separatas ou obras com poucas páginas. Por vezes, encontra-se no mesmo volume 10, 15 ou 20 obras diferentes. São as célebres miscelâneas, o pesadelo dos bibliotecários, que pensam que tem que catalogar uma obra e afinal passam um dia inteiro a tratar um único volume. Também é certo que nas miscelâneas se encontram por vezes verdadeiros tesouros, que ficam esquecidos no meio de toda aquela confusão, como folhas volantes do século XVII, literatura de cordel, que se tornou rara, e até mesmo incunábulos.

    Também existia um hábito, que a Maria Andrade aqui referiu, que era retirar as capas e com elas perdia-se ás vezes a data de publicação do livro.

    Enfim, a poética evocação que aqui fez do seu pai através dos livros, recordou-me os pequenos e silenciosos episódios da minha vida profissional com livros e encadernações.

    Bjos

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    1. O Luís sabe bem do que fala! É com estes materiais que lida diariamente e apercebe-se bem das fragilidades das atuais encadernações que os livros trazem de origem. É uma pena não haver dinheiro para encadernações e para conservação e restauro de livros, percebe-se que tudo o que é cultura está à míngua, vamos lá ver até quando...
      Quanto a esse hábito antigo de encadernar vários livros no mesmo volume, também já me aconteceu comprar um livro do século XVIII e chegar a casa com quatro... :)) Neste caso eram todos livros religiosos da mesma época , não encontrei nenhum incunábulo :( mas é realmente assim que às vezes aparecem preciosidades perdidas.
      Pelo menos vista de fora, a sua vida profissional é bem invejável...
      Bom fim de semana!
      Beijos

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  6. Lindas encadernações, perfeitas. Era um artista o seu pai. Imagino o prazer que ele tinha ao realizar este trabalho tão delicado e minucioso e ver o resultado depois. Uma encadernação bonita e bem feita é uma coisa linda. Às vezes, compro em sebos livros só pela encadernação.
    Parabéns!

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    1. Muito obrigada, caro Jorge Santori. Partilhamos, então o gosto por belas encadernações, um trabalho que vale por si, independentemente do livro a que foi aplicado.
      Sim, o meu pai tinha esse prazer de que você fala, não só por embelezar as estantes, mas também pelo manuseamento dos livros, já que os tornava muito mais sólidos e resistentes.
      Desejo-lhe um bom domingo!

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  7. Que belo trabalho o seu pai fazia, se vê muito bem pela qualidade do trabalho, o capricho e o zelo que ele tinha com sua arte.
    Uma pena que nos dias de hoje não exista mais quem faça esse trabalho. Acho que muitos dos livros de hoje as capas acabaram por se tornar tão comuns e muitas delas feias que não fazem jus a seu interior.
    Abraços

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    1. Obrigada pela sua visita, Ricardo Ferreira, e pela apreciação que faz das encadernações do meu pai.
      Sabe que por cá ainda há quem faça este trabalho, há até oficinas de muito prestígio! O problema é que, é uma arte de minúcia, que exige aptidão e gosto, mas também muita paciência, tornando-se muito morosa. Logo, resulta bastante cara para bolsos pouco abonados... Um abraço

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  8. Maria Andrade
    Que texto tão lindo de homenagem ao seu pai. Fiquei muito emocionada ao lê-lo. Só se escreve assim quando se sente uma grande ternura. E a ternura é um sentimento raro. Amamos os filhos até ao limite, apaixonámo-nos loucamente, defendemos ideias com exaltação, mas ternura, ternura, esse sentimento precioso de um misto de suave tristeza e afeição que nos eleva, que nos dá força para fazermos coisas até aí impensáveis, raramente o sentimos. Senti-me assim enquanto vi o meu pai a desaparecer devagarinho. E não me lembro de alguma outra vez ter sentido isto.
    As encadernações do seu pai são lindas. Tinha que ser um homem de muito bom gosto e paciência. Gosto muito do marmoreado do último livro.
    Tenho andado arredada. Tem sido difícil conciliar o trabalho e o apoio à minha mãe, que finalmente, parece estar agora a recuperar da situação de desânimo em que caiu.Tenho algumas peças interessantes para mostrar e ouvir a vossa opinião :)
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Maria Paula, pela sua calorosa visita.
      Pois é, querida amiga, embora nos custe a aceitar, as coisas são mesmo assim. Por mais fortes que sejam os laços familiares com os nossos pais, a vida partilhada e a ternura envolvida, sabemos que mais tarde ou mais cedo vão deixar de nos fazer companhia. E depois temos que viver a falta como podemos, recorrendo às memórias, aos objetos... e dando apoio a quem fica.
      Espero que a sua mãe continue a reagir da melhor forma possível.
      Já faz falta a sua presença por aqui nos blogues.
      Beijinhos

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  9. Maria Andrade
    Sempre que posso, rondo o seu blog com bastante atenção e acabo sempre por aprender.
    Particularmente a invocação do seu pai, não me deixou insensível ao ponto de deixar estas breves palavras.
    Creio que a Maria toca nos livros de seu pai com grande amor, cuida deles como se ele estivesse observando de longe esse seu carinho. Esses trabalhos revelam um grande amor pelo trabalho que ele executava, só assim cada encadernação é uma obra de arte. Conheci um encadernador que está neste momento num lar de idosos, da última vez que conversámos, queixava-se da falta de material, das peles, a que a carneira deveria ser suave, macia e agora só havia materiais sintéticos, ensinou-me que para fazer o aspecto marmoreado no papel utilizava fel de boi que ia pedir ao matadouro...tantos segredos numa profissão que se perde...felizmente não se perdem as boas memórias. Desejo tudo de bom
    Vitor Pires

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    1. Muito obrigada, Vitor Pires, pela visita e pelas palavras tocantes.
      É verdade que quando nos falta a presença física recorremos aos objetos que nos trazem mais memórias para manter as pessoas connosco e isso acontece-me com os livros do meu pai, mas também com os materiais de encadernação, os albuns de fotos, os textos dele, enfim...
      É pena que a arte de encadernador vá sendo abandonada, mas continua a haver formação nessa área e aqui por Coimbra há pelo menos uma boa oficina de encadernação e restauro - Chrono's Paper. É realmente um problema encontrar alguns materiais e mesmo as peles, com o tempo, ficam ressequidas e muito difíceis de trabalhar. Quanto ao fel de boi, hoje é impensável...
      Tudo de bom para si também!

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