terça-feira, 12 de março de 2013

Telhas de faiança da Fábrica das Devezas


Já aqui falei por mais de uma vez nos beirais da Casa-Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, mas ainda não tinha partilhado as fotografias que lhes tirei na última visita. Hoje a casa e um edifício anexo albergam várias coleções que vão da escultura à cerâmica, podendo-se aqui apreciar um bom acervo de faiança portuguesa, sobretudo gaiense, capaz de deslumbrar qualquer apreciador de faiança antiga.
É bem conhecida a ligação do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942) à Companhia Cerâmica das Devezas, fundada em 1865, de que o seu pai foi co-fundador e sócio.



Tendo esta casa sido construída no final do século XIX para residência e ateliê do escultor, segundo projeto do seu irmão, o arquiteto  José Teixeira Lopes, é obrigatório deduzir que os materiais cerâmicos de construção terão vindo da Fábrica das Devezas, com sede em Vila Nova de Gaia, aliás não muito longe deste edifício, e à época já com uma importante sucursal na Pampilhosa do Botão.


E seguindo a mesma lógica, podemos com segurança atribuir o fabrico das telhas ou telhões que formam estes beirais à mesma empresa cerâmica, embora não apresentem a terminação em relevo branco que já vimos noutros com o mesmo padrão, que lhe são atribuídos.
Aqui fica a evidência de que as telhas destes beirais são exatamente iguais às de outros três que mostrei em posts anteriores, dois no Porto - em S. Roque da Lameira e na Ribeira - e um em Ovar.



O que foi para mim uma surpresa constatar foi o formato muito mais estreito das telhas que se sobrepõem às que ficam visíveis no beiral. Foi-me dito por um vendedor de velharias que essas não têm qualquer decoração, serão brancas, o que me parece lógico, mas quanto ao tamanho ou formato pensava eu que seria o mesmo, o que as fotos acima desmentem.


Aqui está uma telha decorada deste tipo que integra a coleção do Museu Nacional do Azulejo (MNA). Tem de medida 63cm de comprimento e 17cm de largura.
E agora passo a apresentar duas telhas de beiral ou telhões que encontrei à venda no Porto há pouco tempo.


Na decoração são totalmente diferentes de todas as que vi até à data, aplicadas em beirais ou não. Lembram azulejos em azul e amarelo, com um remate muito bonito nas mesmas cores.
Pareciam-me mais  curtas do que  todos os outros exemplares que conheço - 58cm x 15cm e 59cm x 17cm -  mas afinal o exemplar acima do MNA tem medidas semelhantes , ao contrário de outros telhões do museu que, com a mesma largura, chegam a ter mais de 1m de comprimento.


Tal facto levou-me a pensar que podiam ser fabrico das Devesas, tal como o exemplar que mostrei acima igual aos telhões da Casa-Museu Teixeira Lopes. Mas há no MNA um outro telhão com as mesmas medidas marcado Santo António de Vale da Piedade. E agora?
E para terminar, só mais uma curiosidade: segundo as descrições destes materiais que encontrei na base de dados  do MNA, os beirais a azul e branco foram inspirados na China antiga.
Mais uma vez, a China como fonte longínqua de inspiração...

18 comentários:

  1. Nem precisaria dizer o quanto gostei desta postagem! O curioso é que tinha visto (e salvo) hoje mesmo uma foto destes telhões naquele grupo do site Flickr do qual lhe enviei os azulejos de chinesinhos, e fiquei pensando como seria todo o resto, e aí aparece esta tua postagem para me responder a questão!!
    Gostei muito da solução dos telhões cortados em 45° no encontro das paredes. E achei bem elegante este formato mais curto para o telhão.
    b'jinhos!!

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    1. Que coincidência engraçada, amigo Fábio! Eu já tinha as fotos da casa há cerca de um mês, mas só agora resolvi publicá-las. É um conjunto de beirais magnífico!
      Esse pormenor dos cantos com as telhas cortadas é muito engenhoso e raríssimo de encontrar.
      Os meus telhões são aqueles de que eu já lhe tinha falado; vi um primeiro em Coimbra e depois encontrei quatro à venda no Porto de que só comprei estes dois, mais baratos do que o primeiro :)
      Beijos

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  2. I guess this is the museum you visited and it used to be a factory?

    I love the details of the roof decorated with blue and white porcelain inspired by China porcelain art.

    I also think about the muslim influence when I see the frame of the windows.

    Thanks for taking us there for a visit.

    Felicity

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    1. Well, Felicity, this museum was the former residence of a Portuguese sculptor whose family was connected with an important ceramic factory nearby, but it wasn't the factory itself.
      I only focused on the roof tiles but you're right about the moorish window frames and the museum collections are really worth a visit!
      These roof tiles, mainly blue and white, used to be made in the Porto area and used both in the North of Portugal and in Brazil.
      Although very beautiful, in the Chinese tradition, they are already scarce in Portugal, that's why some of us are very attentive to the remaining examples.
      Hugs and thanks for visiting

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  3. Olá Maria
    Que elegantes e bonitos são os seus telhões.Pena é que, pelo sul, não se encontrem desses exemplares nos beirais das nossas caasa. Talvez agora, com as mudanças de clima e a chuva a visitar-nos todos os dias, possamos aplicar alguns ...
    if

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    1. Sim, If, os telhões são bonitos, mas eu preferia tê-los visto num beiral...
      De qualquer forma, penso que a decoração só a azul causa mais impacto, como se vê na Casa-Museu Teixeira Lopes. Não sei se conhece, mas vale bem a pena a visita, só que tem que ser marcada.
      Um abraço

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  4. Maria Andrade

    Talvez algumas das perguntas que aqui fazemos só possam ser respondidas com consultas aos arquivos ou a antigos catálogos de fábricas. Se os últimos ainda se poderam comprar em alfarrabistas onde andarão os arquivos de Santo António do Vale da Piedade ou das Devesas?

    Talvez existam na Torre do Tombo ou na Câmara Municipal de Gaia documentos de despesas, mapas contabilísticos, listas de bens que as fábricas eram obrigadas a fornecer ao Estado. A Maria Andrade que está reformada, bem que se poderia lançar numa aventura dessas. Espírito sistemático não lhe falta.

    Bjos

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    1. Sabe, Luís, gostaria imenso de fazer esse tipo de trabalho, mas para já não tenho condições: vivo fora dos grandes centros e não tenho a liberdade de movimentos que esse trabalho exigiria.
      Os catálogos de fábrica seriam uma boa fonte de informação, porque por outros documentos não conseguimos identificar padrões, o problema é saber se existem e por onde andarão...
      De qualquer forma, obrigada pela ideia, quem sabe um dia?
      Beijos

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    2. Já encontrei à venda na net o "Catálogo da Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devezas", de 1910, só que achei-o caro, tenho que o procurar numa biblioteca. Pelo menos agora já sei que existe e é um bom ponto de partida para uma pesquisa nesta área. ;) Mas também encontrei uma tese de doutoramento que se debruça sobre todos estes materiais cerâmicos para arquitetura produzidos nas fábricas do Porto, o que significa que já há algum trabalho sério desenvolvido sobre este assunto...

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    3. Ótimas notícias, Maria Andrade!
      Talvez antes de comprar um tal catálogo, não seria interessante buscá-lo nos catálogos online de bibliotecas?
      Você teria o título da tese? Talvez seja possível baixá-la em PDF, se for um trabalho recente.
      b'jinhos

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    4. Sim, Fábio, o título da tese é "A ornamentação cerâmica na arquitectura do Romantismo em Portugal" e pelo resumo que li e títulos dos capítulos deve ter muita coisa que nos interessa, mas não me parece que se encontre on line. Veja este link:
      http://www.queirozportela.com/ceramica.htm
      Beijos

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    5. É uma pena. A tese é de 2009, pelo o que pude ver aqui:
      http://sigarra.up.pt/flup/pt/teses.tese?P_ALUNO_ID=102704&p_processo=17408
      Deveria estar online, à disposição do público em geral, ainda mais se tratando de uma tese defendida em uma universidade pública (se entendi corretamente).
      b'jinhos

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    6. Indo um pouco mais além, encontrei este artigo, que talvez seja de seu interesse e de seus seguidores:

      A Fábrica de Cerâmica das Devesas - Percurso biográfico de seus principais artistas - Universidade do Porto.

      http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6111.pdf

      b'jinhos

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    7. Muito obrigada, Fábio, já li e guardei o artigo porque para além da informação relevante, tem as fotos dos três sócios, que eu não conhecia.
      Já agora também deixo aqui o nome da autora da tal tese de doutoramento, Ana Margarida Portela Domingues, já que lhe ficamos a dever um trabalho de grande fôlego sobre a cerâmica de arquitetura. Pode ser que venha a ser publicado.
      Bjos.

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  5. Una preciosidad y una auténtica obra de arte.Eres una verdadera experta en este tema de la cerámica
    Gracias por enseñarnos tus conocimientos
    Un Abrazo

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    1. Obrigada pela simpatia, Princesa Nadie.
      "Experta" não sou muito mas interessada por cerâmica isso sou com certeza!
      Ainda bem que apreciaste o post.
      Beijos

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  6. Olá Maria Andrade
    Estranhei a sua ausência na terça-feira! Habituou-nos mal:)

    Nunca tinha visto telhões decorados a azul e amarelo e tem toda a razão quando diz que fazem lembrar azulejos.São muito bonitos. Este tom de azul também é muito diferente daquele a que nos habituamos a ver nestes telhões.
    Espero que esteja tudo bem consigo.
    Beijinhos

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    1. Olá Maria Paula,
      Muito obrigada pelo seu cuidado. Tenho andado com menos disponibilidade, atrasei-me para o post de terça-feira e achei que não valia a pena fazer as coisas à pressa.
      Também é verdade que tenho vários posts começados, mas falta o clique para desenvolver qualquer deles ;) Há períodos assim... e o inverno que não nos larga...
      Beijinhos e um bom fim de semana

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