sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A primeira porcelana inglesa

Ao contrário da faiança inglesa, a porcelana inglesa é muito pouco conhecida em Portugal, e quando aparece, a mais antiga, sem marca, é muitas vezes confundida com a porcelana chinesa de exportação, geralmente por encomenda, vulgo "Companhia das Índias", porque muitas fábricas começaram por copiar os motivos e as formas dessa porcelana chinesa. Era esta a porcelana que tinha servido o mercado inglês, sobretudo aristocrático, até ao séc. XVIII, e tal como na Holanda, Londres contou com oficinas de decoração de porcelana chinesa, sendo a mais conhecida a de James Giles, um pintor de porcelana que mais tarde também trabalhou para a fábrica Worcester.
Taça e pires de chá Worcester, c. 1765, a imitar porcelana chinesa azul e branca
Como aconteceu noutros países da Europa - na Alemanha, em Itália e na França - também em Inglaterra, a meados do séc. XVIII, se iniciou o fabrico de porcelana. Aqui, no entanto, ao contrário dos outros países europeus, esse fabrico não contou com o entusiasmo e apoio material dos membros da alta nobreza e da casa real. Foram industriais empreendedores que fizeram a sua aposta neste novo ramo da indústria, alguns já ligados ao fabrico de faiança, mas contando com o apoio de técnicos e artistas vindos do continente europeu. Só que a necessidade de satisfazerem  um mercado alargado que abrangesse também a classe média, para salvaguarda dos seus investimentos, não lhes permitia darem-se ao luxo de apostarem apenas no máximo requinte e qualidade como aconteceu com Sévres, em França,  Meissen, na Alemanha ou Capodimonte, na Itália.

Prato  Chelsea c. 1760
No entanto, a primeira fábrica de porcelana inglesa fundada por dois franceses, em 1743, em Chelsea, destinou os seus produtos à aristocracia, seguindo primeiro modelos de Meissen e depois de Sévres. A porcelana de Chelsea que hoje é um nome mítico da porcelana inglesa, caracterizou-se por uma pasta branda - ao contrário da porcelana chinesa de pasta dura - muito branca e leitosa, usada no fabrico de figuras muito delicadas e serviços de mesa com decorações vegetalistas,  peças que hoje atingem valores consideráveis pela sua raridade e beleza. Na primeira fase as peças eram marcadas com um triângulo gravado, mas depois passaram a utilizar uma âncora, primeiro relevada na pasta, depois impressa a vermelho, dourado ou castanho.
Como eu gostaria de ter uma peça com uma destas âncoras! Nem que fosse um pires! Só que, para além da questão do preço, que não é de somenos  importância, graças ao prestígio alcançado pela porcelana de  Chelsea, a marca da âncora foi imitada por outras fábricas, dentro e fora da Inglaterra e continuaram a produzir-se falsificações ao longo do séc. XIX. Só bons conhecedores das características da pasta e de pormenores da marca, por exemplo a posição em que era colocada, conseguem garantir a autenticidade das peças.

Figurinha Chelsea c. 1755
Apostando assim na qualidade, sem apoios de poderosos, esta fábrica não conseguiu manter-se para além do ano de 1769, talvez também devido à doença de Nicholas Sprimont, um dos franceses que a fundou, originalmente prateiro de profissão. Nessa altura  foi adquirida por William Duesbury, dono da Fábrica de Porcelana de Derby, que  tinha sido fundada em 1748. Durante algum tempo a unidade de Chelsea continuou a funcionar sob o nome Chelsea-Derby mas acabou por ser desmantelada em 1784.
Embora a fábrica de Chelsea seja a mais antiga a produzir porcelana inglesa, outras se lhe seguiram ainda antes da de Derby - Limehouse, Bow, Vauxhall -   mas nunca atingiram a notoriedade da primeira. Já nos anos 50 do séc. XVIII iniciou a sua actividade a fábrica de porcelana Worcester, a única que se manteve em produção contínua até aos dias de hoje.
                                         
 Taças e pires de chá da fábrica Lowestoft c.1780-1790, a da esquerda a imitar família rosa e a da direita a imitar imari

Derby e Worcester, para além de Chelsea, são nomes a reter quando se fala de porcelana inglesa, mas para além destas, podem-se nomear mais umas três dezenas de fábricas que produziram  porcelana durante mais ou menos tempo, incluindo Wedgwood e Davenport que são sobretudo conhecidas pela manufactura de faiança.


16 comentários:

  1. Ola Maria Andrade, como esta?
    Cá estou eu mais uma vez deliciada com seus posts, e muito grata pelo conhecimento que partilha... a porcelana Inglesa até à pouco tempo não me chamava muito a atenção mas ultimamente têm me saltado aos olhos porcelanas e ceramicas inglesas que outrora não sei por onde andavam pois não as via (de certo nao estavam incluidas na selecao natural da minha retina hehehe). Com tudo isto quero dizer que possuo um Derby devidamente marcado o qual vou postar brevemente (é só ter um tempinho disponivel a horas decentes e com os dois olhos abertos, porque ultimamente só já tenho tempo já estou meio a dormir) de forma a que a Maria Andrade me ajude a entender do que se trata, é pintado em tons de salmão e tem uma coroa real om uma flor por baixo...depois vê...tenho tambem uma tampa...a estas peças falta um bule ou um açucareiro ou um pequeno centro de mesa, tipo terrina pequena que nunca cheguei a ver e que conforme a fonte me contou, se partiu depois de um pontapé de um colega numa feira da região...enfim, um daqueles acidentes que para a fonte não teve grande importancia pois não sabia que tinha acabado de perder uma peça do final do sec. XVIII inicio sec XIX (segundo a marca). O prato tem uma especie de base que serviria de encaixe para a peça principal e está colado numa partidela pequena na aba mas não deixa de ser uma peça interessante para mim..
    Agora só falta um pouquinho de tempo para dar uso à Maquina fotografica e aos meus poucos dotes descritivos para lhe mostrar do que falo!
    Um abraço

    Marília Marques

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  2. Cara Marília,
    Que maravilha poder partilhar estes gostos e estes conhecimentos com algueém q saiba do q se está a falar...É certo q quando adquirimos certas peças ou iniciamos uma colecção é sobretudo para nossa satisfação pessoal, mas também gostamos de falar delas e de as mostrar, por muito humildes q sejam. Quando tento mostrar a amigos as minhas peças Derby, ou Worcester, ou Minton, etc., ninguém conhece estes nomes, embora as achem bonitas, não lhes dão o valor q nós lhes damos, sabendo nós do q se trata, a história, a época ...
    Sabe q já descobri q temos várias coisas em comum, Marília: primeiro o gosto por velharias e antiguidades, sobretudo cerâmica; segundo a ligação a Londres ou ao Reino Unido e ao mundo anglófono; terceiro, já percebi q vive em Santarém, não sei se é natural de lá, e eu estive ligada a Santarém durante os dez ou onze anos em q os meus pais lá viveram e fizeram muitas amizades. Eu já estava a estudar em Coimbra, mas ia lá passar muitos fins-de-semana e também as férias. Foi lá q tirei a carta de condução, veja só... Viviamos na rua das Portas do Sol, num prédio q tinha no rés-do-chão a Rádio Ribatejo, q já não deve existir.
    Bem, cá fico à espera do seu post com as peças Derby e eu, agora q já fiz a introdução à porcelana inglesa, também vou mostrando as peças q tenho, devidamente intercaladas com outras coisas.
    Um abraço e bom domingo de descanso porq parece q tem andado muito atarefada...

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  3. Tem toda a razão, estas peças são fabulosas.
    Se eu as visse sem qualquer marca iria jurar que seriam Meissen ou talvez uma produção da sumptuária das fábricas reais francesas.
    A qualidade do traço da decoração, a sua elegância de formas e a riqueza do colorido fá-las aproximar das congéneres do continente, mais conhecidas! É impressionante.
    Conhecia já a porcelana destas proveniências, mas não possuo nenhum exemplar. Tenho uma coisa ou outra, continental, deste período, mas inglesa não.
    Eu que tenho uma paixão pela dita "Companhia das Índias" do XVIII devo confessar que em nada estas peças que apresenta ficam a dever às originais!
    Pelo contrário, parece que rompem as barreiras dos cânones instítuidos pela produção oriental e as formas parecem ganhar vida própria!
    Quanto à delicada figurinha em porcelana que apresenta, não obstante a sua popularidade, e talvez incorrendo em paradoxo, confesso que na porcelana/faiança e afins, gosto sobretudo de peças destinadas ao uso comum, e, talvez por isso mesmo, me falte alguma sensibilidade para apreciar estas peças.
    Manel

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  4. Caro Manel,
    Foi mais uma vez com muito prazer q li aqui o seu comentário.
    Qualquer pessoa com sensibilidade para a arte e para as antiguidades, não pode senão adorar estas peças da primitiva porcelana inglesa. E produziram uma variedade de formas e de padrões tal, talvez pelo vasto mercado q tinham assegurado no Império Britânico e não só, q permite ainda hoje o aparecimento de peças mais modestas em feiras de velharias, a preços módicos. Curiosamente, ou talvez não, as boas peças de porcelana inglesa q copiaram a porcelana chinesa e japonesa, atingem preços muito mais elevados do q os originais orientais. Em Londres, tenho encontrado porcelana "companhia das índias", séc. XVIII e XIX, mais barata do q cá.
    Tal como o Manel, não tenho muita tendência para as figurinhas, embora tenha algumas, também prefiro peças de serviços, mais utilitárias, acho q contam mais da história social, enquanto as outras se destinavam a aparato, em casas ricas, burguesas ou aristocráticas, e acabam por ser semelhantes em todos os países q as fabricaram, se exceptuarmos a excepcional qualidade artística de Meissen, séc. XVIII. Já as de faiança de Staffordshire têm muito interesse histórico, reproduziam tipos populares ou figuras conhecidas q tiveram impacto social na Inglaterra vitoriana e têm um ar mais autêntico, mais local. O único defeito q têm é q são geralmente muito caras, mesmo cá...
    Um abraço

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  5. Cara Maria Andrade

    Eu vou lendo o que escreve, registando tudo, para quando precisar, saber que encontrarei aqui a informação pretendida. A Maria Andrade elabora aqui umas boas fichas sobre cerâmica, muito claras e simples..

    Claro, nunca terei umas dessas pecinhas marcada com a âncora. Essas são para ver nos museus e em exposições e embaciar as vitrinas de tanto colar o nariz para a admirar melhor. Fico fascinado com a porcelana europeia do Século XVIII. Há uns tempos vi por exemplo, as porcelanas espanholas da Fábrica do Bom Retiro numa exposição na Gulbenkian sobre artes decorativas francesas e suas influencia (N me recordo qual, talvez o "gosto à grega") e fiquei fascinado. Claro, isto para não falar das de Sévres...

    Também na exposição dos tesouros do Hermitage apresentaram porcelanas russas duma qualidade fantástica da mesma época.

    Faz bem discorrer acerca de porcelanas do Século XVIII, pois muito embora nunca venhamos a ter um exemplar desse período, ficamos a conhecer os arquetipos, os modelos, que a produção corrente do século XIX copiou e esses sim, temos acesso a eles e podemo-los comprar

    Abraços

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  6. Caro Luís,
    Muito me agrada q ache estes meus textos úteis e q aprecie a forma simples como escrevo.Entendo q o texto não-literário, q pretende ser sobretudo informativo, tem que ser o mais claro e simples possível, de fácil leitura, sem grandes floreados q só complicam a passagem da informação. Devo a si e ao seu blogue o grande impulso para me iniciar nestas lides, só me falta um pouco de humor pelo meio, como o Luís muitas vezes consegue, mas isso não é para todos...
    Não imagina a pena com q fiquei por não ter sabido dessa exposição na Gulbenkian com porcelanas de Bon Retiro, mas vivo aqui para "as berças", é uma das desvantagens...Esse é mais um dos meus nomes míticos e já passei uma vez com o meu marido de propósito no Palácio de Aranjuez para ver essas porcelanas, mas fiquei muito frustrada com um palácio quase vazio, com muito poucas peças. Tenho há anos um pequeno pires com a marca azul da flor de lis q penso ser Buen Retiro,com a pintura à mão miniatural, azul e branco, muito simples mas um dos meus pequenos tesouros.
    Vi a exposição do Hermitage no Palácio da Ajuda, mas acho aquelas porcelanas tão sumptuosas, tão acima da nossa escala, como muitas de Sévres, que não sei se me fascinam ou se me esmagam... Agora quero ir ver a exposição dos nossos primitivos no MNAA, mas só poderei lá para Janeiro ou Fevereiro.
    Abraços

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  7. Quanto a colar o nariz nas vitrinas, eu faço mais do q isso: quando as prateleiras são de vidro, eu quase faço o pino para conseguir ver as marcas no fundo das peças, sempre a ver se não sou surpreendida naquela figura... LOL

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  8. Obrigada por ensinarnos tanta coisainteressante sobre a porcelana.Gostaria de saber se pode informar-me sobre um prato que tenho azul borrao , com a escrita atras canton . Tem mais nomes , porem nao da para ler a escrita esta meio embasada . o Prato e faianca aul e branca , flores. O azul dele e borrao, tanto no trabalho, como no escrito no verso. Grata pela sua atencao.

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  9. Cara anónima,
    Para mim é um prazer escrever sobre estas coisas e fico muito satisfeita por saber que há pessoas que gostam e acham útil o que escrevo.
    Quanto a esse prato azul borrão com o padrão "Canton", tenho ideia que já vi algum com esse nome escrito, mas não me lembro bem... Deve ser inglês, mas sem ler o resto não dá para ter certezas porque houve também fabricantes franceses, holandeses, americanos e outros a fazer azul borrão. Se puder mande fotos para o meu endereço: andrade.maria82@gmail.com
    Obrigada pela visita e até breve.

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  10. Tenho, pratos de louça, travessas, do Padrão tipo azul II, modelo oriental de 1833 Davenport. Caso esteja interessada, pode enviar mail para d8888777@sapo.pt, todos eles tem a âncora e o número em relevo.
    Cumprimentos
    Dília

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  11. Cara Dília,
    Muito obrigada, mas já tenho várias peças Davenport com a âncora, que se encontram com relativa facilidade.
    Aqui trata-se da âncora de Chelsea e essa é bem mais difícil de encontar...
    Cumprimentos

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    1. Obrigada pela sua atenção, foi-me dada muita louça toda do mesmo serviço e estava a pensar vender pelo pelo menos algumas das peças, embora não faça idéia de quanto pedir.
      Cumprimentos
      Dília

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  12. Tenho um galo em porcelana, está na família desde o início do século XX, mas não consigo localizar a procedência... Há uma marca em relevo no fundo, mas difícil de identificar (parecem iniciais do que um desenho)
    É um jarro d´'agua de = ou - 30 cm de altura, o galo está com movimento, como se estivesse cantando, muito detalhado, amarelo, verde, azul, vermelho.
    Onde buscar referências para localizar sua origem?
    Obrigado,
    Musso Greco

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    1. Caro Musso Greco,
      A internet é sempre um bom recurso para estas pesquisas porque se pode pesquisar por imagens e ter a sorte de encontrar uma peça semelhante.
      Sem ver a peça ou a marca é muito difícil dar palpites. Há galos assim coloridos em porcelana chinesa, como também os há em faiança, particularmente em majólica, mas não lhe sei dizer mais nada.
      Cumprimentos

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  13. Estive muito tempo vendo lendo e sobretudo admirando o seu blogue.
    Confesso que adoro loiça e quanto mais antiga melhor,tenho recolhido loiça antiga e comprado em feiras de velharias que fazem o meu encanto.
    Acho especialmente engraçado o facto de recolher peças ou pedacinhos de loiça na praia eu sempre fiz isso desde muito pequena recolhia esses pedacinhos de loiça nos campos lavrados aqui de Braga,infelizmente quando tive de partir não os levei comigo porque eram muitos e o peso era considerável,e assim se perderam.Actualmente tenho algumas peças interessantes.Muito obrigada pela partilha importante dos conhecimentos que tem nesta área.Maria Luísa

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    1. Cara Maria Luísa
      Muito obrigada pelo seu comentário.
      Tal como acontece consigo,a minha paixão por caquinhos já vem da infância, mas a coisa foi refinando ao longo dos anos... É um prazer falar sobre estas coisas, sobretudo quando encontro com quem partilhar este gosto.
      Seja muito bem-vinda e apareça sempre.

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