segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quadro de António Pimentel


Esta pintura a óleo sobre tela é a minha preferida cá em casa e vou deixá-la aqui convosco durante um período em que, não estando ausente, vou estar  impossibilitada de alimentar este blogue com regularidade. Adoro a beleza serena e triste desta mulher, e o jogo das cores, assim como o geometrismo das formas, conferem ao quadro um grande impacto visual. Mas não é só por isso que ele tem  um significado especial para mim.
Em primeiro lugar, o pintor António Pimentel, Tópi para os amigos,tem lugar assegurado entre os  pintores portugueses contemporâneos, embora esteja neste momento algo esquecido.
Foi co-fundador do Círculo de Artes Plásticas da Associação Académica de Coimbra - hoje CAPC, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, a comemorar 50 anos, que teve merecido destaque ontem, no  programa Câmara Clara -  mas a sua formação mais séria nas Belas Artes obteve-a em Paris, onde estudou e viveu nas décadas de 60 e 70. 
É natural de Condeixa-a-Nova, portanto  meu conterrâneo,  amigo de infância e juventude do meu pai, e com ele convivemos, embora esporadicamente, na última fase da vida,  porque  infelizmente já nos deixou há doze anos, quando contava apenas 63 anos. 
Comprámos este quadro à sua viúva, a também artista Colette Vilatte, a companheira que conheceu em Paris e o acompanhou no regresso a Portugal. Uma força da natureza, amiga sempre calorosa e jovial, a Colette também já se deixou morrer, prematuramente como o marido, por ter uma vida de tal  maneira assoberbada de trabalho que nem se permitiu o luxo de cuidar da saúde quando ficou mais debilitada e surgiu a doença. 
Também poderia falar da pintura da Colette, e talvez fale um dia, mas desta vez é de António Pimentel que se trata.

António Pimentel à saída do atelier no Bom Velho

Este meu, dele, quadro é de 1957, ano em que ele fez a sua primeira exposição individual na Galeria  "Primeiro de Janeiro" em Coimbra. Era ainda muito novo, 22 anos, e pintava sob a influência da corrente neo-realista, notando-se já aqui o geometrismo que caracterizaria o seu trabalho em fases posteriores. A Colette deixou-nos escolher esta tela, pela qual me encantei no atelier do Bom Velho, apesar de ser um trabalho marcante dos tempos de juventude do marido, que tinha permanecido na sua posse.
Depois do regresso a Portugal, vindo de Paris, trabalhou em Lisboa como publicitário e ilustrador. Só em 1985 resolveu dedicar-se de novo à pintura e regressou à terra natal onde montou casa e atelier, não na vila, mas nas aldeias próximas de Alcabideque - onde se localiza a mãe de água que abastecia Conímbriga - e de Bom Velho.
Realizou dezenas de exposições, individuais e colectivas, não só em Portugal, mas também no Brasil, França, Espanha, Bélgica, Inglaterra e Alemanha.
Entre os trabalhos de pintura  mais conhecidos de António Pimentel está a sua série dedicada ao rei D. Sebastião, que esteve exposta na Bélgica durante a Europália, em que surgem como elementos simbólicos elmos e guitarras - as 10.000 guitarras que, segundo a lenda, juncavam o chão por entre os despojos de Alcácer Quibir. Também muito conhecidos são a série de trabalhos dedicados a Soror Mariana Alcoforado e às "Lettres Portugaises", os meus preferidos, cheios de imaginação, sensualidade e beleza. Também tem um quadro magnífico com um cogumelo, que conheço dos catálogos, mas não sei em que afortunadas mãos ele se encontra.


A exposição "Organismos", fragmentos de peças mecânicas com azuis e vermelhos lindíssimos, foi a última que realizou, já consumido pelo cancro que o vitimou, e q visitámos com ele no Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz, em 1997, depois de ter tido destaque na Galerie Sanguine de La Rochelle, em França. 


6 comentários:

  1. Já percebi porque se perdem os comentários. No entretanto vamos fazer zoom e vai disto...desaparece!

    Parabéns. Trata-se de inegável obra a óleo, pintada no ano que nasci. Fabuloso.
    Depois da exposição do Amadeu Sousa Cardoso na Gulbenkian,este quadro foi o que mais me cativou, entretanto passei pelo CCB para ver a exposição do Artur Jorge, nada apreciei!
    No imediato ao ler o seu post sobre o pintor, de Condeixa fiz um filme. Imagine, recuei 200 anos no tempo das Invasões francesas. Desertores do Buçaco vieram por ai abaixo e em Condeixa precisamente foi onde fizeram mais estragos de roubos, incêndios de palacetes e solares, maus tratos à população e ainda se satisfizeram com as mulheres. Estas, julgo gostaram, seriam homens mais globalizados o que se juntando o útil ao agradável deu bons frutos. Seria este Pimentel um descendente dos franceses?
    A foto, não consigo distinguir a cor dos olhos, pelo porte e altivez parece.Também porque se encantou com uma francesa. Tantos artistas e outros foram à cidade das Luzes e voltaram sozinhos...
    Há um mistério a descobrir.Não é desvalorizar o cerne de origem portuguesa. De facto existem artistas de várias artes descendentes desta época.Não sei explicar. Só sinto que são mayores!
    No caso difícil é escolher um quadro.
    A minha mania de tirar "nabos da púcara" aventa que olhou para ele e nele se reviu...cabelos negros, olhar forte,pescoço esguio...
    Desculpe-me,inegavelmente é dona de uma obra que deveria estar num Museu!
    Tudo de bom para si, viva estes dias bem,desfrute da vida e das coisas boas já que vai ser avó, e depois tudo se altera, para melhor. Uma criança numa família é algo delicioso!
    Beijos
    Isabel

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  2. Maria Andrade

    Confesso que nos últimos tempos me desinteressei da arte moderna. Talvez seja uma forma de reagir a um mundo cada vez mais agressivo que me rodeia. Refugio-me cada vez mais no passado, nos Luíses XIII, nos D. Josés, nas D. Marias e no século XIX.

    Naruralmente não sou insensível à boa pintura. Claro, gosto de Amadeo, Almada, Eloy e de um ou outro Surrealista, como por exemplo o escultor Jorge Vieira, que tem uns bonecos de barro encantadores. Tenho uma paixão descarada pela Paula Rego, mas isso é porque é uma pintora figurativa e além disso pinta como se fosse um Goya de saias.

    Em todo o caso, gostei da sua descrição da obra do António Pimental, que foi muito bem feita e clara. Esse pintor pertenceu a um tempo em que os escritores, os artistas e os os estudiosos de ciências humanas procuravam refúgio em Paris, para escapar à sociedade portuguesa, que era muito opressiva. A Capital e a cultura francesa eram ainda uma referência de primeira ordem para os portugueses. Hoje, os mais novos, nem francês sabem falar. Uma das minhas sobrinhas, que agora quer estudar design de moda, nem as revistas de trapos em francês, com uma linguagem do mais básico que há, consege sequer ler.

    Hoje, estou um pouco bota-de-elástico


    Abraços

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  3. Olá Maria Isabel,
    Ainda bem q apreciou o meu quadro. Gosto desta pintura figurativa, mas imaginativa, não fotográfica ou muito cópia do real...
    Quanto à sua especulação sobre a passagem dos franceses por Condeixa e a ascendência do António Pimentel, penso q não tem nada de verdadeiro, ele tinha um tipo portuguesinho de gema e deixe-me q lhe diga, q não fica nada atrás de franceses ou de outros estrangeiros, quer física, quer intelectualmente.
    Tenho ouvido pôr-se essa hipótese em relação a parte da família do meu pai, loiros arruivados e de olhos claros, mas não sei se isso tem fundamento.
    Estou a viver um período muito bom junto do meu filhote e da sua namorada brasileira, mas não tenho tido tempo para o computador.
    O neto só chega em Janeiro, mas estamos ansiosos...
    Beijinhos

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  4. Luís, já é a segunda vez q escrevo este comentário, e agora não me dá jeito nenhum q isto aconteça porq tenho muito pouco tempo para vir aqui. Vejamos se desta vez a coisa corre melhor...
    Não admira q os seus gostos em arte estejam mais voltados para o passado, afinal se gostamos de antiguidades e velharias é porq apreciamos o legado q o passado nos deixou. Mas a arte acaba por ser intemporal e as nossas preferências têm a ver com um conjunto de coisas q nem conseguimos definir ou explicar. Podemos vibrar igualmente com os Painéis de Nuno Gonçlves ou com um quadro de Amadeo de Sousa Cardoso, o meu mais mais mais. Quanto à Paula Rego, não gosto de tudo o q ela faz, mas já fui de propósito a Cascais à Casa das Histórias e gostei muito de ver trabalhos dela em Londres, na Tate Modern e na National Gallery. Dos surrealistas, gosto de Magritte, mas nenhum se compara ao primordial Bosch em q muitos se inspiraram.
    Tem razão quando diz q os mais novos não estão nada virados para a língua e cultura francesas. Isso já se passou com os meus filhos q com 3 anos de francês iam a França e comunicavam em inglês. Percebe-se porquê, a cultura juvenil é anglófona há décadas...
    Bom resto de semana.
    Abraços

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  5. Boa tarde,
    É curioso como a obra deste pintor surge associado ao uso de cores garridas, porque o quadro que tenho do António Pimentel é a carvão. Quadro que sempre me assustou quando era miúdo. De tal forma que esteve anos escondido. Ironia do destino o meu pai ofereceu-mo quando fiz 30 anos e agora ocupa lugar de destaque na minha sala.
    Cumprimentos,
    VAG

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    1. Boa tarde
      Também acho curiosa a sua observação sobre as cores usadas por António Pimentel. Conheço várias séries de pinturas dele, todas com muita cor, mas sobretudo o tema "Organismos". Com pintura a preto ou cinzento só vi uma obra dele, já há muito tempo.
      De qualquer forma dou-lhe os parabéns por ter consigo e poder admirar diariamente esse quadro a carvão do saudoso Tópi.
      Cumprimentos

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