segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pratos atribuídos à Fábrica da Bandeira

Os pratos que decidi mostrar hoje são atribuídos à Fábrica da Bandeira, cuja produção muito se confunde com a da Fábrica da Fervença, ou vice-versa, tal como já referi no post de 26 de Janeiro último. 
São peças que fotografei em casa de familiares porque achei interessante apresentarem uma temática diferente de outros pratos Bandeira(?)  mostrados em http://velhariasdoluis.blogspot.com/search?updated-max=2011-01-28T17%3A15%3A00Z&max-results=7  e assim permitirem alargar o conhecimento dos motivos centrais, já que as cercaduras são muito semelhantes.

O tema central aqui é um casario numa paisagem campestre, com a particularidade de terem colocado um pássaro em tamanho desproporcionado num dos telhados. Não sei se a intenção era representar um galo, mas a verdade é que saiu o que me parece ser um corvídeo. Aqui se encontram muitos tons amarelos e alaranjados como é típico das fábricas Fervença e Bandeira,  ambas unidades gaienses do séc. XIX, muito notórios nas barras concêntricas que delimitam o motivo central.

Este segundo prato apresenta a mesma gramática decorativa, como dizem os especialistas nestas coisas, mas é menos elaborado no desenho central. Os elementos maiores de qualquer das cercaduras, flores e folhas,  parecem ter sido aplicados a stencil, como acontece em muitas decorações desta época. 

Finalmente um prato do mesmo tipo com  decoração mais elaborada, mas esta é uma peça em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, por isso pertence à "crème de la crème". É interessante verificar as semelhanças, sobretudo em relação ao primeiro prato, no tipo de flores e folhas da cercadura, nas cores usadas, a forma de desenhar as árvores a enquadrar toda a cena, mas obviamente há diferenças, sobretudo um maior número de elementos, com a inclusão de animais de quinta, um lago com gansos e um caminho ou um riacho,  para além do motivo sempre presente do casario. 



14 comentários:

  1. Olá Maria Andrade

    Efectivamente são diferentes do que tem sido mostrados.
    A fazer-se a comparação pelo último prato em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga,pois não restarão dúvidas que são fabrico Bandeira.
    Pintores diferentes tal como as cores sempre a serem feitas, nem sempre seguiriam à risca as doses e as tonalidades na pincelada saiam mais ténues.

    De qualquer das formas uns bons exemplares de faiança portuguesa.

    Beijos
    Isabel

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  2. É verdade, Maria Isabel, não se encontram dois pratos iguais, até porq devia haver vários artesãos a fazer o mesmo tipo de decoração. Variam muito as tonalidades e a parte da pintura feita à mão livre e não com decalques ou stencil.
    Também há outra coisa q torna mais escuros ou mais carregados os tons do prato do MNAA - a incidência da luz. Quando tirei a foto, a luz não iluminava a parte da frente do prato e isso faz alguma diferença.
    Beijos

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  3. Cara Maria Andrade

    De facto os pratos parecem ser Bandeira e até quase que dá vontade de fazer uma sistematização dos motivos como se fez já para os ratinhos.

    As cores vibrantes e populares destes pratos são irresistíveis.

    Fui educado nas cores escuras. O meu pai só vestia de preto e cinzento. No Liceu as pessoas com gosto vestiam de azul-escuro ou castanho. Vesti-me uma vida inteira a castanho, preto e azul. A casa, decorei-a a azul, branco e vermelho. Portanto sempre tive uma relação de receio com as cores mais berrantes, com o amarelo ou cor-de-laranja, que equivaliam a uma confissão de manifesta pirosice.

    Creio que foi através da faiança popular, como a da Fábrica da Bandeira, que me reconciliei com as cores mais garridas.

    Abraços

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  4. Olá Maria
    Gostei muito dos pratos e dos motivos que representam. No entanto, conheço outras ornamentações e gostaria de lhe pedir a sua opinião.
    como o poderei fazer?

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  5. Perante a dificuldade que é a de conseguir identificar peças cerâmicas da nossa produção artesanal dos séculos XVII a XIX, pois não há duas iguais, nem elas estão marcadas, terá de ser a partir do estudo e observação de peças devidamente identificadas que se poderá conseguir encontrar traços comuns e linhas de orientação que permitam fazer um levantamento da produção portuguesa, tarefa a que se dedicaram já muitos e bons ceramógrafos, como José Queiroz e Arthur Sandão, para citar só dois.
    Muito está por fazer, é verdade, mas é igualmente verdade que vão surgindo no mercado vários estudos competentes sobre este assunto.
    Eu sou só um aprendiz, mas decidi que não valia a pena ficar extasiado ou ter certezas perante a produção desta ou daquela proveniência, porque sempre aparece alguma peça que me retira todo o "chão debaixo dos pés", se algum tinha; identifico como Fervença, e sai-me Bandeira, penso ser Miragaia e afinal é Vale da Piedade, ou Viana ... desisto de ter certezas.
    Neste caso parece-me também que é Bandeira, através da análise estilística do desenho, pois apesar de serem todos diferentes, há linhas comuns transversais a uma produção que nos dão alguma, ainda que pouca, segurança na identificação.
    Que as peças são lindas, não há qualquer dúvida, se me dissessem que seriam Fervença, eu teria algumas dúvidas, perante tudo o que já foi exposto, visto e dito, mas que ambas as fábricas partilham uma paleta cromática, lá isso é verdade.
    No entanto, o conhecimento destas peças passa também pela análise do toque, do peso, do vidrado (parece que António Capucho conseguia identificar muitas das suas peças só pelo seu manuseio), por isso é fundamental que as peças nos passem pela mão (isso é que era bom ... imagine-se ir ao Museu Soares dos Reis ou a Arte Antiga e pedir para manusear a colecção! hehehe) ... na falta do manueseio destas peças das colecções nacionais teremos de aproveitar todas as ocasiões para vê-las e pedir para lhes tocar nos antiquários e colecções privadas ao nosso alcance, que é afinal o que eu faço.
    Manel

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  6. Caro Luís,
    É verdade q faz falta uma sistematização dos temas ou motivos centrais desta produção q é atribuída à Fábrica da Bandeira. A minha intenção, ao mostrar peças de faiança q não me pertencem e sobre as quais pouco sei contar, é precisamente a de tornar conhecidos mais motivos deste fabrico q se caracteriza pelos alegres tons de amarelo e laranja.
    Agora vou dar uma novidade, a si à Maria Isabel e ao Mercador Veneziano, q me encheu de satisfação e prova como esta troca de informações nos nossos blogues pode ser extremamente útil.
    Levei ontem o meu jarro neo-clássico ao Museu Machado de Castro e mostrei-o ao responsável pela colecção de cerâmica, o Dr António Pacheco, q às vezes encontro na feira de velharias de Coimbra e já me guiou numa visita às reservas para ver a colecção de peças orientais de Camilo Pessanha. Ainda eu não tinha desembrulhado a peça toda já ele me garantia q é Vandelli. Disse-me q têm pratos e outras peças com aquele tipo de busto feminino e o mesmo tipo de decoração neo-clássica e disse-me também q a tonalidade de cor-de-rosa alaranjado q se vê nas rosas das grinaldas, só Vandelli é q fez.
    Quando o questionei sobre o formato do bojo,disse-me q têm jarras com esse formato.
    Infelizmente não será tão depressa q poderemos ver as peças Vandelli da colecção do MNMC , já q ainda não há data prevista prá reabertura do museu. Disse-me q entretanto vão estar algumas peças destas numa exposição patente ao público no Arquivo Municipal e logo q saiba da abertura não perderei essa oportunidade...
    Abraços

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  7. olá bom dia.

    os meus parabéns por ter então uma peça devidamente identificada por especialista e de fábrica tão distinta.

    sei que já tinha umas suspeitas sobre o seu provável fabrico, mas não há melhor que ser devidamente avaliada por um especialista na área.

    fico a aguardar novidades sobre a exposição de que fala, pode ser que haja um novo catálogo sobre peças de fabrico de Coimbra para adicionar à minha biblioteca.

    Mercador Veneziano

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  8. Olá Maria Andrade

    Sabe o que acho curioso?

    A casa do primeiro prato que nos mostra,não se parece nada com uma casa portuguesa!
    O desenho desta casa remete-me de imediato para as construções nas aldeias francesas!
    Não ponho em dúvida, de forma alguma a origem portuguesa do prato:), mas dou comigo a questionar qual terá sido a fonte de inspiração do artesão.
    Um abraço e obrigada pela partilha. Acho realmente importante conhecermos os variados padrões das diferentes fábricas.
    Maria Paula

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  9. Caro(a) anónimo(a)
    Terei todo o gosto em ver outras decorações e em dar-lhe a minha opinião, mas é apenas a de uma amadora. Como eu e outras pessoas já temos dito aqui, sem marca é muito difícil identificar, por isso andamos a dar palpites q até podem ser certeiros, e a comparar com peças já estudadas, q fazem parte de livros, catálogos ou colecções de museus.
    Se quiser, deixe aqui o seu e-mail para eu o(a) contactar e assim me poder enviar fotos q eu certamente mostrarei aqui no blogue.
    Cumprimentos

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  10. Fico muito contente por ter conseguido indentificar o seu jarro como Vandelli. Não há dúvida, que com estes blogs se abrem pistas para identificar as peças. E depois ter um Vandelli a sério tem outra categoria!! lol.

    A Maria Paula poderá ter razão e essa é uma pista a seguir. Muitas vezes estas faianças são reinterpretações populares de motivos mais eruditos da louça inglesa ou francesa.Embora nesta época a faiança inglesa seja a grande moda

    Abraços a todos

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  11. Manel, estou inteiramente de acordo consigo quanto aos cuidados q temos de ter ao tentar determinar qual o fabrico de peças não marcadas.
    E penso q é o sonho de qualquer um de nós q nos apaixonamos por estas coisas, ter a possibilidade de lhes tocar, de as analisar "ao vivo e a cores". Dou por mim às vezes a invejar o trabalho de museólogos, de historiadores de arte ou de outros técnicos q trabalham em museus ou de simples funcionários de leiloeiras. Gosto de entrar em bons antiquários, a maior parte das vezes só para ver peças. Apetecia-me fazer voluntariado cultural num museu de artes decorativas para, entre outras coisas, poder ver de perto e manusear muitas peças q às vezes enchem as reservas.
    Por falar nisso, acho q valia a pena lutarmos pela criação de um grande Museu de Artes Decorativas em Portugal. Temos muitas colecções dispersas por vários museus, o q em si não é mau, mas o pior é a quantidade de peças belíssimas q não encontram lugar nos museus existentes e estão a encher espaços esconsos, sem nunca serem apreciadas pelo público (estou-me a lembrar, por exemplo da colecção Camilo Pessanha q jaz há décadas em duas ou três pequenas salas escondidas do público no MNMC). Este é um desejo meu já antigo e já tenho falado nele até a directores de museus, mas parece q não tem havido no Ministério da Cultura vontade ou condições para avançar.
    Bem, chega por hoje, q já me alonguei demasiado.

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  12. Caro Mercador Veneziano,
    Os parabéns também lhe são extensivos porq foi a primeira pessoa q falou naquele jarro ou caneca pintado por Domingos Brandão da escola Vandelli q acabou por ser a chave da questão pois colocou-nos na pista certa. Depois o Luís enviou-me um link q me permitiu ver a peça a toda a volta e a partir daí fiquei mesmo convencida de q o fabrico era aquele. Só faltava mesmo a confirmação de um especialista, q consegui agora.
    Quanto à exposição no Arquivo Municipal, não é de cerâmica, é de documentos, mas resolveram também expor peças de cerâmica de Coimbra, certamente porq estarão de alguma forma relacionadas com alguns dos documentos. Ainda não sei mas vou procurar saber e irei lá de certeza.Depois lhe direi alguma coisa.

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  13. Olá Maria Paula,
    Realmente aquele conjunto de edifícios não se pode dizer q seja tipicamente português, é verdade q aqueles torreões se encontram mais em países como a França ou a Itália, mas acredito q sejam apenas pastiches saídos da imaginação dos artesãos, certamente com base em algo q tenham visto. Lembram-me desenhos infantis em q as crianças às vezes juntam elementos de variadas proveniências, só para compor mais o desenho, mas aí estou a entrar na sua área...
    De qualquer forma, como diz o Luís, é sempre uma hipótese a considerar q a inspiração tenha vindo de algo feito lá fora, não nos podemos esquecer q houve italianos, como Jerónimo Rossi(Sto António de Vale da Piedade) e Domingos Vandelli (Cavaquinho), à frente de fábricas do Porto e de Gaia.
    Um abraço

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  14. Pois é, Luís, isto é q dá gozo, comprar-se uma peça de q gostamos e q nos parece especial, mas de q não sabemos nada, por 30€ (até digo o preço para fazer mais inveja!!! LOL) e depois sai-nos um jarro Vandelli, embora a precisar de restauro. Bem, o q eu acho é q isto não é meramente um golpe de sorte ou um acaso porq graças a muita "rodagem", visitas a museus,a feiras, consulta de livros, etc. já vamos tendo os olhinhos bem treinados e parece q já nos vamos apercebendo do q é bom. Nem sempre, mas lá calha...
    Um abraço

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