segunda-feira, 2 de julho de 2012

As cartas de Mariana Alcoforado ou "Lettres Portugaises"


Na minha última passagem pelo Alentejo fui finalmente visitar o Museu Regional de Beja, cujo principal núcleo está instalado no Convento da Conceição daquela cidade.
Sabia da existência de um acervo importante de azulejaria portuguesa e hispano-árabe a revestir o interior do convento - e a esse nível o claustro e a sala do capítulo são notáveis - e contava encontrar alguma faiança portuguesa na exposição permanente, o que não se verificou, para minha grande desilusão.
Mas em compensação, tivemos um bónus logo na entrada: uma exposição temporária dedicada a Soror Mariana Alcoforado (1640-1723), a presumível autora das mundialmente famosas "Lettres Portugaises", supostamente escritas por ela neste convento, onde viveu em clausura durante 72 anos.

Gravura de Eisen aberta a buril por Massard representando a infeliz freira em traje de dama e em ambiente do século XVIII
Fiquei logo ali encantada com o conteúdo das vitrines, a primeira com edições das Cartas Portuguesas do final do século XVII e do século XVIII, do acervo do museu; da primeira edição estava patente apenas uma reprodução da página de rosto.


Editadas pela primeira vez em 1669, em Paris, por Claude Barbin, estas cinco cartas teriam sido escritas em 1667 e 1668 por uma freira portuguesa, mais tarde identificada como Soror Mariana Alcoforado, a um oficial francês, o Marquês de Chamilly, que nunca é nomeado nas cartas. 


No claustro, azulejos do tempo de Mariana, certamente testemunhas silenciosas da sua infelicidade amorosa.


Segundo reza a história, foi a partir da janela do seu convento de clarissas em Beja que ela, vendo este oficial francês passar na rua durante a sua permanência em Portugal, envolvido que estava na ajuda militar à coroa portuguesa durante a Guerra da Restauração, se apaixonou por este homem e a ele se entregou num relacionamento amoroso clandestino, dentro das paredes do convento.
A janela de Mariana, chamada janela de Mértola, tal como se apresenta hoje
Passado algum tempo, descoberto o romance, ele partiu para França, com a promessa nunca cumprida de mais tarde se lhe vir juntar,  abandonando-a num estado de paixão e de sofrimento que ela exprime, em desvario, nas cinco cartas compiladas. 

Edição de 1672

Edição de 1682

Edição de 1701

Edição de 1707


Para mim, um motivo de interesse acrescido foram as gravuras cheias de pormenores mundanos presentes nas três edições do século XVIII.
A obra, dada a conhecer em França como reproduzindo cartas de amor autênticas de uma religiosa portuguesa a um tal Cavaleiro de C., portanto testemunhos de um amor ilícito, conheceu uma popularidade tal que as edições se sucederam ainda durante o século XVII. A de 1672 é já a 3ª edição de Claude Barbin e outros editores se lhe juntaram, em França e noutros países europeus.

Edições estrangeiras, das centenas que se publicaram em vários idiomas por todo o mundo
Algumas das edições sobre as cartas, da autoria de investigadores portugueses, publicadas entre 1891 e 1966  


Para além dos exemplares bibliográficos e de fotografias antigas do convento e das últimas religiosas que o habitaram, um outro núcleo interessante da exposição são as reproduções de obras de arte de nomes como Modigliani, Matisse, Lima de Freitas, José Rodrigues, inspiradas por esta figura quase mítica de freira portuguesa apaixonada.
Desenho de Matisse
Tive pena de não ver ali representada a obra do pintor António Pimentel (1935-1998), prematuramente desaparecido e a quem já dediquei um post, que também se inspirou na triste história de Soror Mariana Alcoforado para uma série de quadros que considero magníficos, pela força das cores e da composição, pelos elementos simbólicos com uma carga erótica mais ou menos sugerida.
Aqui vou preencher essa lacuna com dois quadros desta temática que fotografei de um catálogo.

Pintura a acrílico sobre tela de António Pimentel

Mariana versus Marianne de António Pimentel

Não posso deixar ainda de referir que foram as Lettres Portugaises, supostamente escritas por Mariana Alcoforado, que serviram de mote às Novas Cartas Portuguesas das chamadas "três Marias" - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa - que tanto incomodaram as mentalidades do regime de Salazar, tornando-se um livro proibido pela censura que valeu às autoras um processo em tribunal.
Voltarei ao Convento da Conceição em Beja no próximo post.


24 comentários:

  1. Tenho uma paixão muito grande pelas Cartas portuguesas e admiro quem as escreveu, seja lá quem tenha sido, se a a infeliz Mariana, que teve uma existência documentada, se o editor que as fez primeiro publicar em França. De facto, não se conhece o manuscrito original em português, só a edição impressa em francês. Em França, os alunos de literatura, estudam as lettres portugaises como outra qualquer obra francesa, tal como leem as cartas da madame de Sévigné. Acredita-se que terá sido alguém em França, que tenho conhecimento dos infortúnios da relgiosa portuguesa, tenha publicado aquelas cartas, fantasiando a seu belo prazer.

    Sentimentalmente, inclino-me para que as cartas sejam portuguesas e imagino que tenham sido escritas nos cenários que a Maria Andrade fotografou. Talvez até acredite, que Mariana de Alcoforado, ao invés de costurar fatiotas complicadas para os Meninos Jesus, escrevesse estas cartas, entregando-se a um sentimento tal, em que a paixão é mais importante que o objecto amado.

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    1. Luís, é apaixonante a leitura destas cartas, mas ainda o é mais o enigma da sua autoria.
      Eu penso sinceramente que há alta probabilidade de serem autênticas cartas de amor da freira Mariana Alcoforado ao seu amado francês. Dificilmente aquela escrita podia ter sido forjada, teriam que ter sido cartas de uma mulher apaixonada, seduzida e abandonada, portuguesa ou francesa. O discurso é cheio de contradições, de incoerências, parece resultar de um turbilhão de sentimentos que a dominam e comandam a escrita: ora o acusa ora lhe pede perdão; ora se diz desgraçada, injustiçada, e se mostra arrependida de ter caído em tentação, ora se declara feliz por poder amar daquela maneira; diz que vai terminar a carta e nunca mais lhe escreve para logo a seguir desatar em mais queixas e acusações. Teria que ser uma mulher meio enlouquecida pela paixão e pelo abandono e depois há referências a pessoas e a locais que fazem parte da vida real de Soror Mariana Alcoforado; até a referência às suas funções como porteira do convento tornam a situação verídica.
      Nunca li nenhum dos estudos sobre as cartas mas sei que a principal tendência tem sido considerá-las de autor francês e agora estou cheia de curiosidade em conhecer os argumentos a favor ou contra a sua autenticidade.
      Bjs.

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  2. Fiquei besta com os azulejos de tapete. Que coisa mais INCRÍVEL! Mãe de todos os deuses, o que deve ser estar lá e ver estas paredes assim!!!
    Obrigado por nos mostrar.
    beijos

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    1. Tem razão, Fábio, aqueles painéis de azulejos do século XVII a cobrir paredes até ao teto são de tirar o fôlego! Eu não mostrei mais fotos do interior do convento porque tenho intenção de lhe dedicar um outro post.
      Bjs.

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  3. Olá Maria Andrade. Belo post.Na minha última visita por Beja o Museu estava de portas fechadas, para grande pena minha.Gostei imenso de a ler, sobretudo da história das Cartas de Sonor Mariana Alcoforado, e dos azulejos nem se fala!
    Muito enriquecedor. Aliás no seguimento a que há muito habituou o leitor.

    Beijos
    Isabel

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    1. Olá Maria Isabel,
      O museu vale bem a pena ser visitado, faça-o logo que tenha oportunidade, embora para nosso desgosto, a faiança antiga portuguesa esteja toda nas reservas.
      Esta história da Mariana Alcoforado é verdadeiramente empolgante e mulher apaixonada como é, apreciará certamente a leitura das cartas, que encontra em qualquer biblioteca.
      Bjs.

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  4. Seja quem foi que as escreveu estaria marcado com o "mal de amor" (como o chamava a minha avó, e ela sabia do que falava), e, como tal, são fascinantes.
    Li estas supostas cartas da religiosa há vários anos e, mais tarde, vi um filme com a Anna Magnani, em que ela representa o célebre monólogo da "Voz Humana" de Cocteau (deixo-lhe um excerto neste endereço
    http://www.wat.tv/video/anna-magnani-voix-humaine-4brw1_2eyrb_.html).

    Fiquei ensimesmado com esta representação durante anos e anos, e continuo à procura do DVD ... debalde, não o encontro! Esta peça é absolutamente fantástica!
    Ambas estas obras se interligaram na minha mente, e assim ficaram, apesar de distantes no tempo.
    Mesmo com séculos de separação os sentimentos são os mesmos, o sofrimento, a contradição, o que parece que é, mas não é, as juras, que logo se quebram, as resoluções que se tomam e ... duram uma respiração, as acusações mútuas, que logo se transformam em súplica ou perdão. Creio que parte de nós palmilhou sítios semelhantes!
    Questiono-me sempre se realmente a religiosa terá sido afortunada, ou, pelo contrário, azarada, por lhe ter sido dada a hipótese de "percorrer" estes sentimentos.
    Se por um lado estou em crer que terá tido sorte, pois viveu e experimentou o que não é dado a muitas das pessoas que com ela partilhavam o cativeiro, por outro é verdade que estes caminhos se pagam caro.
    No entanto, a vida ensinou-me que as coisas realmente importantes não são gratuitas!
    Não conheço Beja, a única cidade portuguesa continental onde nunca coloquei os pés ... (shame on me! eu sei!)
    Se servir para redimir, tenho ida prevista
    Manel

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    1. "Seja lá quem for que ... (correção)

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  5. Olá Manel,
    Beja é uma cidade que geralmente nos fica ao lado nas viagens para o Algarve, mas pelo menos os vários núcleos do Museu Regional , de que faz parte o riquíssimo Convento da Conceição, merecem a paragem. E também se come boa comida mesmo em frente ao convento, como em quase todo o Alentejo...
    Só a apaixonante história de Mariana Alcoforado, sendo uma figura conhecida da literatura europeia, tem potencialidades para trazer a Beja muitos estudiosos ou simples curiosos interessados na sua vida, portugueses e estrangeiros, mas sobretudo franceses, que gostariam certamente de vir visitar a terra que assistiu aos amores de Mariana e Chamilly.
    Uma geminação com uma cidade francesa, por exemplo Chamilly, na Borgonha, seria uma ideia interessante e viria dar outra visibilidade a Beja e uma dinamização de que ela bem precisa.
    Será que nunca ninguém a nível local pensou nisto?
    Afinal há tantas geminações com cidades francesas... esta seria mais uma e bem justificada!
    Um abraço

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  6. Esqueci-me de lhe dizer, Manel, que vi o vídeo com a Anna Magnani, mas sem legendas e sem conseguir aumentar o som o suficiente, não entendi a maior parte do monólogo.
    De qualquer forma obrigada por ter deixado aqui o endereço.

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  7. Maria Andrade
    A feliz coincidência da sua visita a Beja e a exposição dedicada a Soror Mariana Alcoforado,deu origem a um fantástico post! A parede forrada a azulejos que nos mostra aqui, faz-nos adivinhar um interior riquíssimo e fiquei feliz quando li, que irá fazer um post dedicado somente aos azulejos deste museu.Fico a aguardar:)
    Quanto a Mariana Alcoforado e às suas cartas de amor ( eu acredito que sejam dela), que dizer! Os amores impossíveis exacerbam a dor, exaltam a imaginação, e... as suas histórias atravessam os séculos. São eternas.

    Conhecia este desenho estilizado da Soror Mariana, mas não sabia que era de Matisse.
    Um abraço e parabéns por este post.

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    1. Olá Maria Paula,
      Foi realmente uma feliz coincidência!
      É um espaço muito interessante a pedir visita, mas ainda o é mais pela evocação desta freira portuguesa, com uma história tão cheia da nossa humanidade, tão forte de sentimentos e paixões que a tornam intemporal... ou eterna, como diz.
      O Matisse tem vários desenhos ou litografias sobre Mariana e só isso já nos dá uma pequena ideia da projeção que teve esta figura.
      Estou realmente a preparar um post sobre o convento, espero que também vá gostar, mas o tempo é que é o eterno inimigo...
      Obrigada e um abraço.

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  8. Boa tarde....Blog maravilhoso!
    Gostaria de um esclarecimento: a técnica de pintura delfti blue é a mesma dos azulejos portugueses?
    Qual a diferença entre essas duas pinturas?
    Obrigada

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    1. Cara Dorinha,
      Eu é que agradeço a visita.
      Não tenho conhecimento especializado em azulejaria que me permita responder à sua pergunta. O que lhe posso dizer - porque ouvi de uma historiadora de arte numa visita recente que fiz a uma exposição no Museu do Azulejo em Lisboa - é que os azulejos figurativos do séc. XVII portugueses não apresentam a mestria artística e técnica, a perfeição no desenho, que já tinham os holandeses, Delft ou outros, na mesma altura. Também não admira se pensarmos na qualidade da escola flamenga de pintura...

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  9. De uma revista de um jornal,acerca de Maria Teresa Horta, vim aqui parar.
    Sintõ que os meus conhecimentos não encaixam, a minha cultura as minhas habilitações não são suficientes para conversar sobre Mariana Alcoforado, mas uma coisa é certa, este blog despertou interesse por esta magia em torno destas cartas, e de coração aberto que sou, certamente vou adorar lê-las.

    Obrigada!

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    1. Eu é que agradeço a visita e o comentário.
      Estou certa que se vai deliciar com a leitura das cartas.
      Já agora, fiquei curiosa em relação à revista que refere, nem sequer sei se é recente.
      Poderia dizer-me o nome e de quando é?
      Cumprimentos

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  10. A revista é a Tabu, do Jornal SOL, de 28 de Setembro de 2012.

    Li as cartas e desde então não parei de pesquisar acerca de Mariana e o melhor resumo que consegui encontrar na net acerca da vida dela foi através deste link http://www.storm-magazine.com/arquivo/Artigos_Fev_Mar/Artes/a_mar2002_1e.htm

    Ou seja, ao ler sobre Maria Teresa Horta e as Novas Cartas Portuguesas, e o porquê de darem este nome ás mesmas é que pesquisa após pesquisa encontrei Mariana Alcoforado.

    Sabe indicar-me o melhor livro para conhecer a vida de Mariana? Nesta pesquisa encontrei os autores Alice D'Oliveira e Manuel Ribeiro.

    Obrigada!

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    1. Muito obrigada pela informação relativa à revista.
      O melhor livro que eu conheço sobre a vida de Mariana e as cartas é o de Luciano Cordeiro: "Soror Mariana a Freira Portugueza". Tenho a 2ª edição, de 1891, mas não sei se a obra foi reeditada.
      Boas leituras!

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    2. Só agora vi este blog sobre as Lettres Portugaises e o convento onde viveu Mariana, em Beja - é muito interessante. Gostaria que consultasse http://lettres-portugaises.blogspot.com Cumprimentos de Leonel Borrela

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    3. Muito obrigada pelo comentário e pelo endereço que aqui deixou. Já por lá andei e vou voltar com todo o interesse.
      É realmente uma pena que um património destes, tangível e intangível, seja tão pouco conhecido pelos portugueses...
      Cumprimentos

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  11. Não desistiu de soror Mariana, pois não? Espero uma visita sua ao museu onde trabalho, instalado no convento da Conceição de Beja. Hoje acabei de colocar no facebook, em Leonel Borrela, as páginas duma obra que gosto muito sobre a religiosa bejense, publicada em 1925 pela Livraria J. Rodrigues & Cª, de Lisboa. Abraço, LB https://www.facebook.com/leonel.borrela/media_set?set=a.10200658559418547.1073741827.1597421843&type=1

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    1. Não, não desisti de soror Mariana, caro Leonel Borrela, aproveito todas as oportunidades para falar dela e do convento.
      Gostaria muito de aí voltar, invejo-lhe o local de trabalho, só que vivo na Bairrada, a muitos quilómetros de distância e não estamos em tempo de grandes passeios...
      O que ainda penso fazer é dedicar um poste ao livro de Luciano Cordeiro que tenho comigo, mas têm-se metido outras coisas...
      Obrigada pela chamada de atenção e pelo link que aqui deixou.
      Cumprimentos

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  12. 5 Lettres admirables dans un français exceptionnel: il m'est difficile d'admettre que ce serait une traduction à partir d'originales en portugais! Mariana Alcoforado les écrivit-elle directement dans un français si pur et caractéristique du Grand Siècle, rivalisant ainsi avec les plus grands auteurs, Racine, Mme De Sévigné, Mme De Lafayette et autres gloires des Salons littéraires? Ou alors le traducteur (Guilleragues) fit merveille et mérite d'en être l'auteur ! Comme j'aurais aimé visiter cette exposition!

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    1. Je ne sais pas répondre à ces questions mais j'aimerais le savoir.
      Je pense que ça sera toujours un mystère.
      Mais vous pouvez visiter le couvent à Beja. C'est merveilleux!

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