quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mais um livro restaurado

Enquanto não consigo acabar de restaurar o meu "Thesouro de Prudentes" de que já aqui falei - está incompleto e preciso de digitalizar páginas de outro exemplar para o completar -  tenho feito outros trabalhos nas minhas aulas de conservação e restauro de livros na oficina da Rua da Alegria em Coimbra.


Embora tecnicamente este exemplar não entre na classificação de Livro Antigo -  essa categoria apenas inclui os livros publicados até 1800, segundo uns, até 1820, segundo outros - é de facto um livro já antigo quase a perfazer 190 anos,  com data de 1823.
Trata-se de um Novo Testamento impresso numa oficina de Chelsea, em Londres, e traduzido para português pelo padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797), segundo a Vulgata, como se pode ver na folha de rosto. Para quem não saiba, entende-se por Vulgata a tradução da Bíblia para latim, levada a cabo por S. Jerónimo entre finais do século IV e o início do século V.

A folha de rosto, uma das mais afetadas por  manchas de humidade  que não consegui remover

Encontrei-o na feira de Algés com muito mau aspeto, ao preço de 1€. Tinha a lombada quebrada e toda metida para dentro, com falta de pele, e toda a capa estava em mau estado. No entanto, ao folheá-lo, vi que por dentro, exceptuando a sujidade e as dobras nas páginas, o estado era bom.

O estado em que se encontrava a capa original

Está completo com todos os livros que compõem o Novo Testamento - Evangelhos de S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João; Actos dos Apóstolos; Epístolas de S. Paulo, Apocalipse - e foi encadernado in-oitavo, tornando-o um livro pequeno mas volumoso, de 848 páginas.
 Depois da higienização, isto é, limpeza da sujidade página a página com uma trincha, foi-lhe retirada a capa original, já incompleta e muito quebradiça, e refez-se a lombada, aplicando-se um novo transfil e talagarça. Esteve na prensa uma semana para lhe corrigir a deformação da lombada e entretanto fez-se uma nova capa em pele de carneira.
Embora haja sujidade entranhada causada por humidade e outros agentes, nem sequer pus a hipótese da lavagem das folhas, dada a morosidade do processo num livro com tão elevado número de páginas.
Finalmente pela primeira vez, estive a aprender a usar os ferros para aplicar letras e ornatos sobre a pele. É um trabalho de precisão manual, que não é fácil deixar perfeito.
Embora goste muito de ver os dourados nas encadernações, após ensaios em bocados de pele,  não me agradou o efeito com ouro, demasiado brilhante, por isso resolvi aplicar os ferros só a queimar a pele e o resultado ficou mais a meu gosto.
O toque final foi a composição das palavras Novo Testamento, com tipos móveis, para serem gravadas na lombada.

6 comentários:

  1. Apesar de já ter trabalhado com livro antigo, nunca aprendi restauro e agora que tenho outra vez em mão muitas obras de livro antigo e do século XIX esses conhecimentos ser-me-iam muito úteis. infelizmente, ao longo da vida fui obrigado a fazer cursos de formação cretinos e muito pouco úteis.

    Realmente fez uma bela obra a partir de um livro teoricamente sem qualquer valor comercial. Um livro bem encadernado é uma maravilha e dura toda uma vida.

    Abraços

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    1. Sim, Luís, é extraordinário como os livros ganham uma nova vida com este tipo de intervenção.
      As artes da encadernação e da conservação e restauro de livros operam transformações muito drásticas no aspeto e na capacidade de sobrevivência de exemplares que já estariam destinados a ir parar ao lixo e assim se perderam muitos... É por isso que este trabalho dá tanto prazer.
      O Luís ainda está muito a tempo de aprender.
      Como deve saber, aí em Lisboa há cursos de curta duração da Fundação Ricardo Espírito Santo e possivelmente haverá outras possibilidades que eu desconheço, mas que o Luís não terá dificuldade em descobrir. O problema é o tempo...
      Um abraço

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  2. Os meus parabéns pela obra!
    A sua opção de materiais deu ao livro uma segunda vida ... é isso que me encanta no restauro.
    Gostei sobretudo da sua opção de não colocar dourados, sobretudo neste livro em particular, que trata de escritos que não necessitam de dourados para os complementar.
    Bem haja por ter dado outra hipótese de vida a um moribundo!
    Manel

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    1. Manel, como confio no seu gosto e saber na área dos restauros, fico muito satisfeita por ver que aprova as minhas opções na recuperação deste livro.
      O bem haja é-lhe devolvido, pois mais do que eu, tem dedicado grande parte da sua vida à arte do restauro e a obras de bastante mais fôlego...
      Um abraço

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  3. Olá esta questão dos livros antigos é discutível, como diz datam anterior a 1820, mas já por diversas vezes encontrei livros de inícios de 1900 e até de 1919 marcados como livros antigos por antiquários dos livros e alfarrabistas.

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    1. Caro Joaquim José Coelho,
      A questão é que um livro de 1900, por exemplo, é um livro antigo, já tem mais de 100 anos e por isso entra na classificação de antiguidade.
      Mas para estudiosos, bibliotecários e colecionadores, talvez pela forma mais artesanal como eram feitos, desde o papel à encadernação, só os livros anteriores a 1800 ou 1820 são classificados como "Livro Antigo".
      Mais não lhe sei dizer.
      Obrigada pela visita e pelo comentário.

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